Depois de falar um pouco com minha mãe, decidi ir pra outro canto da casa, se eu estivesse certo alguém estaria em uma varandinha não muito longe dali, tomando chá e com um copo de achocolatado pronto praaaaaaaa…e ali estava ela, a Clíne estava ali, sentada, tomando seu chá, e me esperando.
Agente não combinou nada, mas em um horário específico, eu comecei a chamar a Clíne para termos aquelas conversas, e em algum momento ela começou a preparar tudo pra nós conseguirmos conversar sem problemas, então nós dois apenas ficávamos calados e aceitávamos esse horário como nossa hora de conversar.
Antônio: então, você leu aquele livro de romance que eu te emprestei?
Clíne: li sim, me impressionei que ele era de romance no início, tinha tanta batalha nele que eu pensei que era um livro de ação
Antônio: um erro comum, por isso que tem muita gente que acha que o livro é ruim, principalmente porque não gostaram do final, apesar do protagonista ter vencido
Cline: como não? Eu amei o final
Antônio: é que tem muita gente por aí não acostumada com a personagem escolhida ser rejeitada.
A Clíne então olhou pro horizonte, provavelmente se lembrando de muitas histórias que ela já leu antes, histórias onde aquela personagem irritante, que grita, que não gosta de mostrar o que tá sentindo, e que só maltrata o protagonista o tempo todo acaba ganhando o coração dele no final.
Tantas histórias que a garota boazinha, tranquila, calminha e carinhosa era rejeitada. Pra pessoas como nós, não dava pra se entender como alguém trocaria alguém fofinho e tranquilo por uma vida de stress e empolgação.
E com um ódio profundo em seu coração, mas com a classe pra não acabar quebrando a xícara de chá que estava em sua mão, Clíne começou a recitar uma das falas do livro, mais precisamente, um dos melhores diálogos do protagonista, se não o melhor da série. Uma em que ele está indignado de 15 formas diferentes depois de receber uma carta da garota horrível, abrir e ler tudo na frente dela, com a garota horrível tremendo de empolgação, achando que ainda tinha alguma chance com ele.
Clíne: “deixa eu ver se eu entendi, você me desprezou desde que nós conhecemos por eu ser um plebeu, fez brincadeira com minha inteligência e minha fraqueza, me bateu o tempo todo sem motivo nenhum, nunca foi verdadeira comigo sobre os próprios sentimentos nenhuma vez, nunca levou nada do que eu falei a sério e você pensa que eu vou esquecer tudo apenas por que você diz que me ama?”
Naquela hora, quase como uma brincadeira, eu comecei a recitar o que a garota horrível falou pra ele.
Antônio: “bom, sim”.
Nós dois rimos como babacas quando lembramos da cena, a garota havia dado uma carta mostrando todo o amor dela para o garoto, e ele pegou a carta, a rasgou em pedacinhos e jogou na cara dela. A descrição que o livro deu a garota quando aquilo aconteceu foi uma das, se não A coisa mais engraçada que eu já tinha lido em muito tempo, apesar de ser claro pra mim que aquela deveria ser uma cena tristeza eu apenas conseguia rir pensando que aquela pirralha tava finalmente recebendo as consequências das próprias ações, e ainda no personagem, apesar dela estar claramente ainda abafando muitas risadas internas, a Clíne continuou.
Clíne: “não dessa vez, você me machucou muito Gisele, de uma forma que eu não quero que você chegue perto de mim nunca mais”
Antônio: “O QUE….MAMAMAMAMAMAMAMAS, EU PENSEI QUE FOSSEMOS AMIGOS”
Clíne: “também achava isso(funga) nós dois nos enganamos”.
E então, nós dois nos lembramos que assim que o protagonista fechou a porta, a garota começou a chorar muito, fazendo agente rir horrores de que a garota finalmente entendeu que ela não podia tratar pessoas que ela gostava daquela forma, mas agora era tarde demais.
Antônio: HAHAHAHA, AQUILO FOI INCRIVEL, LIVROS COMO AQUELES DEVIAM SER ENSINADOS EM ESCOLAS
Clíne: CONCORDO!
Agente riu por bastante tempo, até que agente ficou mais calminho, principalmente pensando mais sobre o que aconteceu algumas páginas depois dessa cena.
A cena mais fofinha do livro inteiro, onde a garota fofinha finalmente era abraçada de volta pelo protagonista, a cena, toda a construção para aquele momento, a insegurança da garota, pensando que o Protagonista nunca escolheria ela, apenas pra ela estar tão errada que ela não acreditou quando o protagonista a segurou nos braços, a ponto da gente começar a recitar as páginas do livro com uma voz tão apaixonada que pra quem olhasse de fora, iria parecer até que nós estávamos flertando.
Clíne: “João? O que você está fazendo aqui?”
Antonio: “me declarar, pra você, me chame de louco, me chame de desesperado, mas eu te amo Bia, e espero que possa aceitar meu amor”.
Agente apenas suspirou apaixonados, enquanto nós lembravam os tintim por tintim como a garota ficou tão feliz que chegou até a chorar, mas ela ainda carregava tantas inseguranças, que nem estava acreditando no que acabou de ouvir com seus dois ouvidos bons.
Clíne: “mas tem certeza? Mesmo eu não sendo tão forte e intensa quanto a Gisele”?
Antônio: “É EXATAMENTE POR VOCÊ NÃO SER COMO A GISELE QUE EU TE AMO, por favor, apenas me diga, você me ama ou não?”
E aí agente se lembrou, da alegria dela apenas falando em meio a mais lágrimas de tristeza e insegurança cada vez maiores.
Clíne: “eu te amo, eu te amo tanto que dói…mas eu te amo a ponto de aceitar se sua felicidade não for comigo”.
E mesmo depois do amor ser admitido, o protagonista ainda passou por um último teste, mostrar para uma garota que não tinha um pingo de confiança o que era ter alguém ao lado dela o tempo todo, e o Protagonista não decepcionou, comigo falando com a maior paixãO do mundo pra ela.
Antônio: “nesse caso, entenda que o meu amor e meu coração pertence a você, eu estou lhe entregando através desse beijo, então aceite por favor.”
Atravéz do beijo, aquele foi o momento onde o pessimismo da Bia foi momentaneamente superado para ela poder aceitar o amor do protagonista, depois de tudo que eles tiveram que fazer e sacrificar apenas para se manterem vivos, foi algo tão lindo que apenas lembrando da cena, fez nós dois suspiramos com uma imensa paixão.
Clíne: ah, quando o protagonista a encontrou e a segurou nos braços, a garota ainda achou que era um sonho, e por algum tempo, eu pensei nisso também, mas por mais mágico que fosse, aquilo era real
Antônio: o livro conseguiu dar um jeito muito bom no romance, tanto que depois que a grande guerra acabou, e que os reinos conseguiram criar uma trégua graças aos protagonistas, eu ainda estava bem focado na história, mesmo que eu ainda tivesse lendo apenas pra saber com quem o protagonista iria acabar
Clíne: algo que parecia bem mais interessante que as batalhas
Antônio: ah, não precisa ir tão longe, a batalha era bem legal também, mas depois que eu li o livro mais algumas vezes, eu meio que percebi que a escolha era óbvia com quem o protagonista iria ficar
Clíne: sério?
Antônio: sim, o autor deu várias dicas de quem ele iria escolher, ele ficando confortável com a Bia, e dele ficando desconfortável perto da Gisele, dele se abrir mais com a Bia enquanto ele era quase mudo perto da Gisele, e o mais importante, era a raiva que ele sempre reprimia toda a vez que a Gisele fazia uma daquelas coisas doidas com ele, era óbvio demais o que iria acabar acontecendo
Clíne: falando desse jeito, até que faz sentido
Antonio: porque faz, enquanto outros autores apenas não deram desenvolvimento no romance por não ter tempo e acabarem colocando o protagonista com alguém que não fazia sentido lógico, esse deu o trabalho de fazer um malabarismo entre lutas, políticas e romance…e o mais doido é que ele conseguiu.
E então, depois de terminar seu chá, a Clíne colocou a mão no queixo, um sinal de que ela estava pensando profundamente.
Clíne: é incrível as estratégias políticas que dá pra aprender nesses livros, e você termina um desses antes do café da manhã, com esse tipo de provas eu meio que entendo porque o Pedro fala que você seria ótimo na política
Antônio: na teoria talvez, mas eu sinto que iria reprovar no teste de campo.
E a Clíne nem respondeu essa minha hipótese, porque nós dois sabíamos que quando chegasse a hora de eu entrar em uma daquelas festas absurdamente cheias de que eu tinha que sorrir de forma falsa, fazer jogos de palavras, usar pessoas como peões, dançar no tabuleiro de outra pessoa até conseguir fugir dele e conseguir pegar a pessoa em um lugar diferente…apenas imaginar tudo isso já tava me deixando nervoso.
Antônio: olha, eu sei que vocês querem que eu ajude vocês, mas eu sei que se eu tentar essas coisas eu vou acabar causando um desastre, afinal, isso aqui não é de enfeite.
E então eu mostrei de novo o meu colar de girassóis pra Clíne, que assim como o tamanho do Davi, muitas pessoas que eu conhecia apenas pareciam notar o colar quando eu mostrava eles em destaque.
Clíne: não é apenas a maldição, né?
Antônio: é, eu não sou bom nesse jogos políticos, e eu não iria aguentar fazer isso por muito tempo, sou bonzinho demais e ingênuo demais para ver pessoas apenas como gente má tentando fazer o pior tipo de coisas comigo, sei que esse tipo de coisa pode ser perdido com o tempo…mas esse é um tipo de coisa que eu não quero perder, e desde muito novo o meu irmão sempre quis ser Patriarca, era o sonho dele desde que ele se entendia por gente, então não tentei ficar no caminho dele.
A Clíne me olhou com olhos analíticos, daqueles que pareciam ser detectores de mentiras ambulantes, e pelo sorriso dela, senti que eu passei no teste.
Cline: vocês se merecem mesmo
Antônio: isso tudo é graças a minha mãe
Clíne: ah, a antiga matriarca, sim, apenas olhando ela, dá pra entender de onde vocês vieram
Antônio: eu devo tudo que eu tenho a ela, tipo, tudo mesmo.
E com um sorriso calmo no rosto, a Cline entendeu direitinho do que eu tava falando, e apenas deixou eu terminar meu achocolatado, pra eu me preparar pra próxima doideira que eu iria passar.
Antônio: a propósito, tentem não ter um filho até eu voltar
Clíne: não podemos prometer isso.

