Ainda teria muito tempo antes do encontro escolar acontecer, então eu só tentava entender o que fazer agora, tudo enquanto eu ainda tentava manter minha rotina no lugar, apesar do quanto ela tinha mudado com o passar do tempo.
Olhando dentro de um caderno que eu criei quando eu ainda tava na escola, olhei quais lugares eu ainda não visitei pensando o quanto eu acabei sendo pegou muito tempo pela doideira de outros lugares, eu sabia que o mundo era grande, mas em pensar que eu tinha mais de 30 anos agora e nem tinha saído do meu continente era doido, eu sentia que teria que aumentar meu tempo de vida pro tempo de vampiro (4 vezes mais devagar) apenas pra conseguir visitar todo o mundo, mas esse era o tipo de sacrifício que eu estava disposto a fazer.
Fiquei olhando aos lugares que eu não visitei, a grande ruins ancestral dos elfos, XXXXXXXXX, e a XXXXXXXXX. Não eram muitos lugares que faltavam, mas era interessante notar quanto ainda faltava tanta coisa para olhar, e o quanto seria interessante visitar os lugares que faltavam.
Mas no meio de todas as minhas indagações, um desejo bem antigo se apossou de mim, era algo primitivo, mas não era bruto, na verdade, era o contrário, era um desejo de carinho, um carinho que eu sabia bem que a ruiva não conseguiria me dar, não, esse tipo de desejo só podia ser atendido por uma pessoa, a minha mãe.
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Tentando manter ao máximo a minha cabeça no lugar, apesar do quanto aquele instinto primitivo ficava cada vez mais forte em mim andei pelo castelo da família da forma mais tranquila que aquele instinto permitia, o que acabou fazendo com que eu apenas arrastasse os pés ao invés de fazer algo diferente.
Quando cheguei na porta da minha mãe, eu bati devagar nela e não recebi resposta, eu tinha uma ideia do porque ela não respondeu, mas mesmo assim gritei o nome dela só pra garantir, e ela ainda não respondeu.
Então, eu abri a porta bem devagar, vendo como a minha mãe estava sentada na cama e de olhos fechados, enquanto uma música dedicada a Criadora tocava bem alto (uma música que eu não ouvi por todos os quartos do castelo serem à prova de som).
A música falava principalmente sobre propósito, consequências de “anomalias” na criação, e como cada criação, seja comum ou única, tinha um propósito, era apenas necessário o conhecimento para encontrá-lo direito, era uma musica muito, mas muito bonita mesmo.
Quando a minha mãe deixou de cuidar da propriedade e não ficou com muita coisa pra fazer além de conversar com as amigas dela, e de trocarem informações uma com a outra. (Algo que eu continuava pensando que era uma máfia pelo quão boas elas eram nisso, e o quanto elas pareciam saber de mais coisas do que elas deveriam saber).
Então pra impedir que ela pegasse a maldição do vazio, eu apresentei a ela a Criadora, e todo o conceito dos gigantes por trás da fé e sua existência. Por mais que os gigantes não gostassem de chamá-la de deusa ou de fé.
Mas mesmo com os conceitos rejeitados e com as ideias estranhas, minha mãe ficou tão fascinada que ela virou uma devota completa da Criadora, ou como os crentes da Criadora gostavam de se referir, ela se tornou uma exploradora.
Eu esperei a meditação da minha mãe acabar, porque ela não estava orando, ela estava pensando, pensando sobre todas as coisas que ela já passou, o que ela fez de errado, o que foi culpa dela e o que foi culpa de outra pessoa. Por que era isso que a criadora queria, pensamentos em si mesmos, e não nela, pelo menos isso era o que os gigates acreditavam. Processos como esse podiam durar horas, mas pra minha sorte, ela saiu do transe alguns minutos depois de eu entrar no quarto.
Mãe: filho?
Antônio: oi mãe
Mãe: o que foi?
Antônio: eu só queria te falar que eu fui para o reino dos vampiros em uma das minhas viagens, e encontrei uma comida que mesmo sendo nova, não machucou minha língua
Mãe: sério filho?
Antônio: muito sério
Mãe: nossa, que legal, onde mais você foi?
Antônio: eu não sei se eu já te contei, mas eu consegui levar todo mundo para o mar branco e conseguirmos surfar no meio das grandes ondas brancas do lugar
Mãe: jura? Não me lembro de você falar isso
Antônio: ah, eu tô apenas começando.
Eu tava preparado pra contar tudo para a Minha mãe, mas no fim, eu apenas fiquei falando por bastante tempo do mar branco e dos grandes maremotos que eu já enfrentei, e da grande recompensa que era conseguir nadar direito em um maremoto pode proporcionar, deixando minha mãe maravilhada, mas de formas simples e seca, ela falou.
Mãe: nossa, uma verdadeira beleza, pena que nunca vou fazer isso
Antônio: tem certeza mãe?
Mãe: sim filho, já passei por minha cota de aventuras, agora só quero descansar.
Eu não acreditei nela, nem um pouquinho. Ela já estava melhor, bem melhor, mas eu sabia muito bem porque ela não tinha energia, e não era por que ela teve uma juventude agitada ou coisa do tipo, mas eu reprimi a raiva, não pra sempre, só o bastante para senti-la depois, eu não queria sentir isso com ela, então apenas perguntei a ela pra me distrair.
Antônio: então, tava meditando sobre o que?
Mãe: sabe como é, sobre a vida
Antônio: o sentido da vida?
Mãe: quase, eu tava pensando como eu conseguiria seguir a vida sem ter inveja das outras mulheres, aquelas que tiveram mais sorte com os parceiros do que eu
Antônio: você não pode
Mãe: é, eu sei, mas não descobri o que fazer sobre isso
Antônio: lide com a inveja, apenas entenda que ela está lá e encontre uma forma de usá-la sem machucar ninguém
Mãe: você tem algum exemplo filho?
E então, olhando pra mim como se eu fosse o bote salva vidas dela, minha mãe tava esperando que eu lhe desse a solução milagrosa prós problemas dela, e então, eu apenas falei.
Antônio: bom, eu já tive inveja do Davi
Mãe: jura?
Antônio: claro, o pai dele pode não ser perfeito, mas ele ama tanto o Davi quanto o Brutus, não importa o quão estranhos eles sejam, algo que eu não posso dizer sobre meu pai
Mãe: filho
Antônio: eu sei, mas só deixa eu terminar meu raciocínio…eu tive, e talvez eu ainda tenha muita inveja dele…mas isso nunca me atrapalhou, por que depois de muito tempo, eu só aprendi a usar a inveja como empatia, pensando em coisas como “nossa, ainda bem que ele não vai precisar passar pelo que eu passei”.
Quando eu falei aquilo, minha mãe ficou feliz, e me abraçou bastante enquanto eu continuei.
Antônio: use sua própria dor, não como fogo, mas como água, sentindo como se essa dor não deveria ser sentida por ninguém, lhe dando um conforto em ver quando alguém não sofreu o que você sofreu, não jogando tudo para a inveja, mas o alívio
Mãe: hum, e se alguem desprezar o que nós sentimos?
Antônio: então defenda sua dor…
Naquela conversa, eu senti meu peito apertando, eu com certeza havia cometido vários erros e já desprezei as dores de muitas pessoas, mas mesmo assim eu estava disposto a me desculpar com todos eles.
Antônio: ninguém irá entender sua dor como você mesmo, se alguém desrespeita-la, você precisa se manter firme, e defender o seu direito de dizer que… “sim, isso doeu”...não importa o quão difícil seja, faça as pessoas que nunca sofrerem entenderem sua dor atravéz de suas palavras
Mãe: ué? Mas não foi você que me falou que “só tem pessoas que apenas entendem o que os outros passam quando sentem na pele?
Antônio: eita tá ai uma coisa interessante de se pensar, pra esses tipos de pessoas, é melhor apenas ignorar, porque se alguém é ignorante o bastante pra não entender o que você passa a menos que ela sinta isso na pele, por palavras próprias desse que vos fala, então manter uma relação com essa pessoa nunca valeu a pena pra início de conversa, que nem meu pai.
E mais uma vez, a minha mãe me olhou, até que ela falou.
Mãe: é, você tem razão, lidar com seu pai é complicado
Antônio: é, se for possivel, eu espero nunca mais olhar pra ele de novo
Mãe: jura? Mas ele tem tentado falar com você
Antônio: e eu espero continuar evitando ele, olha.
E então, eu tirei a letra da música de perdão que eu fiz pra ele, de alguma forma, eu mantive aquela música perto de mim até aquele ponto, eu não tinha destruído ela até agora por motivos que eu não conseguia entender, bom, não até aquele momento, eu levantei o papel na minha frente, apenas para a minha mãe ver o que era, bom, pelo menos antes de eu cuspir fogo pela boca e queimar aquela música até ela virar cinzas.
Minha mãe não falou nada, ela apenas olhou as cinzas da música dançarem no ar, até que ela falou de novo.
Mãe: ok, entendo que você não quer falar com seu pai, mas você sabe que não pode evitá-lo pra sempre
Antonio: quer apostar?
Normalmente, pra esse tipo de conversa, eu iria falar coisas como “eu sei, pra sempre é muito tempo”, mas a minha paciência com pessoas dizendo que eu precisava “perdoar” meu pai, por todas as coisas que ele fez comigo e com a minha mãe já estava no limite, e eu tinha certeza que se mais alguém falasse isso pra mim, eu iria GRITAR…ALTO…POR MUITO TEMPO.
E a minha mãe pareceu ter entendido isso, porque ela apenas me puxou pra perto e falou.
Mãe: não, sou péssima em apostas, só me promete que não vai fazer nada idiota
Antônio: desculpa, mas não posso prometer isso.
E sorrindo um pouco mais, minha mãe me abraçou mais forte, e com um conforto, e um calor que eu sabia bem que nunca poderia sentir por outra pessoa além daquela que me criou, ouvi ela falando.
Mãe: se cuide meu pequeno príncipe.
Aquilo me atingiu como uma bala, me enchendo de um conforto absurdo, a ponto de eu quase dormi no colo da minha mãe, mas eu não podia fazer isso, pelo menos não ainda.

