Desde que eu criei aquele mega Golem a alguns meses atrás, fui pego numa quantidade imensa de pedidos. Eu já tinha esses pedidos antes, mas os pedidos ficarão cada vez mais específicos. Antes eu apenas recebia pedidos simples, como golens de defesa, ou golens de ataque. Os pedidos mais avançados que eu fazia eram golens de caça, que precisavam raciocinar pra dar um jeito em suas próprias presas.
Mas agora os pedidos que eu recebia eram em sua maioria bem complexos, por exemplo, partes de corpos para pessoas, as vezes, um braço, e às vezes uma perna, e conseguir fazer nervos artificiais era absurdamente difícil, mexer na borracha dos fios, dar um jeito de conectar os feitiços pros nervos se ligarem, e ainda conseguir fazer a máquina usar a magia, apenas pensar isso já me deixava arrepiado, no mal sentido.
Em casos bem únicos, eu precisava substituir um órgão inteiro, mas esse era mais raro, porque eu era pior nisso do que os outros tecnomantes no ramo.
Além disso, também fui chamado várias vezes para consertar golens e aprimorar golens já comprados. Eu sempre consertei golens, mas eu comecei a fazer isso em golens bem mais avançados do que antes.
Eu consertei constantemente golens usados pra treinamentos de magos de elite, também aprimorava o poder de golens que já não acompanhavam seus cavaleiros de treino, e eu também melhorava a carapaça dos golens sacos de pancada, que eram úteis apenas para dar um soquinho ou outro às vezes prós alunos saberem quando esquivar.
Com todo esse trabalho, eu fiz viagens pra todos os lugares, até para o mar vermelho, o mar de magma pura que eu ainda tinha muito medo de ir sem cuidado, mas que ainda era ótimo pra minha fama, e depois de algum tempo, aprendi algumas armaduras, feitiços e ferros mágicos fortes o suficiente para conseguir submergir no magma.
Os vampiros, elfos e trolls que vivem abaixo da terra eram raças bem mais simpáticas do que eu pensei que raças que viviam tão perto de um grande mar de magma fervente deveria ser, e era bem interessante fazer conexões novas com raças diversas, mas apesar do quanto eu andava por aí, eu ainda me focava bem mais nos elfos, por terem bem mais meu estilo de luta.
Um dos serviços mais comuns que eu fazia prós elfos era criar membros que eram capazes de usar magia para um dos pacientes nas clínicas deles, um braço mecânico capaz de disparar magias como o de carne, era um trabalho bem difícil, mais difícil ainda criar um que era capaz de aguentar a magia de um mago realmente poderoso que era mais frequente do que parece.
Eu já perdi a conta de quantas vezes eu ajudei um elfo médico a instalar um membro mecânico em um mago ou um guerreiro de aura, ou um caminhante de chi. E todos eles sempre tinham a mesma reação, o ferro era forte, bem forte, mas a carne do que foi feito pela Criadora não era algo que podia ser substituído fácil, substituir algo capaz de evoluir com algo finito, que não era capaz de ser melhorado com treinos e apenas sendo substituido era sempre difícil para aqueles que sempre buscavam a melhoria, o próximo nível.
E nesse tipo de coisa, eu sempre saia pra respirar um pouco do lado de fora, e olha só, além de fazer bons amigos com os tecnomantes, eu comecei a ser bem amigo dos curandeiros também. Um dos elfos foi até lá fora pra conversar comigo.
Elfo: é estranho né? Você fez o melhor que podia, mas ainda se pergunta se foi o suficiente
Antônio: eu estudei tanto pra conseguir chegar nesse ponto, mas mesmo assim não consegui dar ao mago que ele queria
Elfo: mas você deu ele algo muito bom mesmo assim, claro, pode não ser o melhor do melhor, mas tenho certeza que ele não pensa desse jeito, relaxa, esse sentimento vai passar depois de um tempo, quando a culpa de não fazer o melhor ser substituída pelo sentimento que você salvou a vida de alguém, claro, isso se você escutar as coisas certas em sua cabeça
Antônio: experiência própria?
Elfo: experiência própria.
Conversas como essa com as pessoas me fazia lembrar que eu não era um sábio, e eu nem ligava pra isso, aprender em algum momento foi algo que comecei a buscar, antes era uma necessidade, para entender quem eu era, mas agora era um desejo, um desejo que nunca seria saciado, porque eu sempre iria atrás do melhor, de um eu futuro que seria melhor que meu eu passado, e isso que era ser um humano.
Com esse tipo de pensamento, eu acabei indo para o grande porão da escola de novo. E não importa quantas vezes eu fosse lá, ainda era doido pra mim como aquele lugar parecia mais ameaçador pra mim quanto mais forte eu ficava, sempre que eu voltava pra escola, eu sentia melhor como aquelas paredes, tanto as físicas quanto as mágicas eram poderosas, e agora eu conseguia perceber que existiam vários monstros invocados pintados nas paredes físicas, monstros preparados para destruir qualquer coisa que chegasse perto demais deles, junto de…muitos olhos, olhos invisíveis que agora eu sentia que vigiavam tudo em volta da escola.
Quanto mais forte eu ficava, mais eu entendia como o Midas foi sortudo de sobreviver aquele bandido. Um bandido que era tão forte, ou tão burro para conseguir passar por essas defesas e entrar na escola não era algo para ser subestimado…esse poder, esse poder que os adultos colocavam pra proteger os novos alunos, o que os alunos antigos deixaram aqui, e seja lá o que mais estivesse no porão da escola era algo realmente lindo de se ver.
Enquanto estava devaneando e ficando um pouco mais calmo sabendo que toda a brutalidade e segurança daquela escola não era pra mim, vi o Golem da Diretora, com sua aparência de velhinha, indo até mim.
Diretora: senhor Antônio, é um prazer revê-lo, então, vamos?
O caminho entre os túneis também mudou muito, porque diferente dos túneis simples que eu via antes, agora eu sentia uma grande nebulosa de mana ali, uma nebulosa que iria destruir meu senso de direção de eu te tentasse sentir a magia com mais força(tipo, pra saber qual caminho eu deveria pegar), e iria me fazer ficar perdido lá dentro e quase cego.
E o mais absurdo era como aquilo não era nem uma das escolas mais doidas ou bem protegidas do reino. Me fazendo imaginar que tipo de coisa cada escola dessa guardava.
Em meio a meus devaneios, quando menos esperei, chegamos à entrada do “museu dos alunos”. E agora que eu olhava o lugar com mais calma, via como não tinha uma porta ou guardas, apenas um portão. O que eu achei que era meio estranho, considerando toda a defesa que passamos até agora, mas assim que nós passamos pela porta “vazia” me senti como se passasse pelas fronteiras do reino dos elfos de novo, mas sentia que aquele feitiço era muito mais bruto do que os que eu já vi, ha, muito forte, pra teer chegado tao longe, eu agora tinha certesa que o bandido tinha que ser muito forte e muito burro pra ter chegado tao longe.
Nossa, não importa quanto tempo passasse, quando eu via tudo ali, em um ambiente escuro, frio e com algumas luzezinhas apenas para ver os “feitos” dos meus veteranos, eu tinha uma lembrança bem sólida que “sim, usado da forma certa, o escuro é o meu amigo”
Naquela galeria que parecia nunca ter fim, meu lugar ali foi conquistado quando eu criei um Golem “comum” com o mesmo cuidado que eu fiz milhares de outros golens, com meu único feito sendo que eu criei aquele Golem com uma “eficiência” muito maior do que os outros, porque eu tinha feito algo “especial”...mas na época, enquanto eu via todos os troféus do lugar e todos os grandes feitos dos veteranos que vieram antes de mim, o quão absurdos, grandiosos e incalculáveis eles eram, eu não pude aceitar ser conhecido apenas por isso, entre feitiços novos, máquinas absurdamente únicas ou ataques tão poderosos que a carcaça do que eles mataram foram conservadas para serem estudadas, meu fraco e nada especial Golem parecia uma formiga no meio daquilo, e o meu sentimento de inferioridade, me motivei a criar algo realmente especial.
Eu tive que ser levado pela Diretora pra um ponto mais fundo do lugar, um ponto onde uma segunda camada de barreiras, junto de uma nova camada de armadilhas.
Antônio: não é muita coisa só pra cuidar de alguns projetos de antigos alunos?
Diretora: isso por que você não tem noção do estrago que esses “projetos” como você diz, podem causar quando usados pelas pessoas erradas
Antônio: talvez não a noção toda, mas eu tenho uma pequena ideia do que quer dizer.
A Diretora, mesmo em sua forma de Golem, ainda sorria, algo que eu tinha certeza que o corpo original dela estava fazendo agora.
Diretora: eu acredito nisso.
E com aquele sorriso mantido no lugar o tempo todo, nós chegamos no ponto onde a réplica do meu próprio projeto estava.
Foi necessário eles desmontarem e analisarem o meu Golem para conseguiram criar algo parecido, e mesmo assim, ainda precisam de três meses usando sete fábricas inteiras para criá-lo, e quando eu olhei ele superficialmente, consegui sentir que aquele não era o meu Golem, ele era uma réplica, e uma mal feita ainda.
Mas mesmo sendo uma cópia ruinzinha, eu ainda conseguia sentir o que o original conseguia me causar
A carapaça dourada, com uma grossura digna de uma parede, coberta por tantos feitiços de defesa dentro das rochas e fora delas, a tornando mais resistente do que muitas fortalezas; 4 braços, 2 especializados em armas mágicas de corpo a corpo e 2 especializados em feitiços de longa distância; Pernas cheias de parafusos, feitiços de peso e dispositivos de equilíbrio para conseguir se manter no chão não importa o ataque que enfrentasse; Tudo conectado com um torso que o fazia parecer lento de tão grande, mas ele era rápido como uma cheetah; E até mesmo o núcleo não exposto, mesmo sendo bem mais fraco conseguia ser absurdamente lindo, sendo quase a cereja do bolo no grande show que era aquela réplica, uma cereja escondida, mas ainda uma cereja.
E mesmo não sendo como o original, o Golem ainda exalava ouro e glória sempre que eu olhava pra ele.
Diretora: nos fizemos um grande trabalho com a réplica, não é?
Antônio: é, tá bom, mas tá na cara que não é como o original
Diretora: bom, isso é óbvio, você não fez algo simples, jovem
Antônio: quando eu olho esse Golem, fico me perguntando se um dia eu conseguirei fazer algo assim de novo
Diretora: tenho certeza que você vai conseguir meu jovem, então por enquanto, por que você apenas não aproveita o orgulho que criar esse Golem te dá?
Antônio: é, você tem um bom ponto.
Eu tinha certeza que a Diretora devia ter lidado com muitos jovens iguais a mim, que estavam bem confusos e tinham inseguranças fortes em seu interior, mas eu não ligava, o fato que ela conseguiu acalmar o meu coração agitado com palavras tão simples e tranquilas me fez entender melhor porque ela ainda conseguia ser diretora depois de tanto tempo.
Diretora: a propósito, a jovem Saytus também conseguiu o lugar dela nesse museu, quer ver o trabalho dela?
Antônio: sim, por favor.
Não me impressionava que a fada conseguisse o lugar dela ali, na verdade, tava mais impressionado que demorou tanto pra ela conseguir um lugar ali.
Andando um pouco pelo lugar, chegamos no ponto de exibição de uma grande lança com a parte pontuda sendo de pura magia, algo digno de uma espada de lazer, com foguetes embutidos na parte sem ponta da lança para ela conseguir voar, ou caso o lanceiro quisesse, jogar ela com mais velocidade no inimigo e um mecanismo permitindo que ela conseguisse ser partida em dois no meio de uma luta, como elemento surpresa.
Mas o que mais chamava a minha atenção não era nada disso, era o fato que o poder exalando daquela arma era algo digno do poder da própria fada, era nítido que ela criou aquela arma pensando em mim, ou pelo menos em alguém que ela possui um ódio tão grande a ponto de criar uma arma que era tão pontuda que era capaz de tentar perfurar qualquer um que tentasse a olhar por muito tempo, assim como ela estava fazendo agora. Se não estivesse com meu manto ali eu estaria com alguns furinhos no meu corpo aqui e ali, mas com meu manto eu apenas sentia que alguém tava me cutucando sempre que eu olhava muito tempo pra lança.
Antônio: ela esteve ocupada
Diretora: todos estão, é por isso que nós vamos ter o evento de reencontro, você vai estar lá?
Antônio: não perderia por nada.
Sim, minha escola iria ter um evento de reencontro, a diretora amava fazer antigos colegas e alunos queridos para se reencontrarem, eu estava curioso pra ver como os outros estavam, mas eu também tava ansioso pra saber como eles iriam reagir a Dandara, com certeza seria algo muito maneiro.

