Legal, um trabalho diferente pra variar, e pra uma terra que eu não tinha visitado ainda, bom, pra ser mais preciso, mais um trabalho de guia para viajantes foi pro meu colo, e depois de todos os boatos de nosso trabalho circulando por aí, os trabalhos variaram muito, a ponto de agora eu estar ajudando um cozinheiro a conseguir uma arraia bem complicada de conseguir.
Pra começar, nós ajudamos o viajante a chegar ao continente, o protegendo de bandidos e o escondendo de Cavernosos. Lutar contra Cavernosos era suicidio, não pela força deles assim, mas porque eles eram muitos, além de que eles eram mais rancorosos do que qualquer animal ou praga do mundo. Pessoas que já tiveram o azar de provocar a ira de um Cavernoso sempre diziam “não importa o que você fez a um Cavernoso, a vingança deles será 1000 vezes pior” por mais que quisesse lutar com eles, queria fazer isso sem um cliente por perto.
Aquele viajante era um dos mais quietos que eu já trabalhei, enquanto ficamos em terra, ele não falou nenhuma palavra, mesmo que agente tivesse viajado por quase 3 dias inteiros, e quando ele começou a falar, eu meio que entendi o porque, o viajante ele tinha medo e falar, era óbvio que ele tinha medo que eu gritasse com ele, ou coisa do tipo, e no nosso último ponto antes de entrarmos no mar azul, e depois de eu abrir um oco em um minotauro sem nem olhar pra ele, conseguiu convencer o Viajante a falar.
Nossa, eu sabia que havia alguma coisa, mas enquanto eu ganhava velocidade através do mar azul e chegava no ponto onde o viajante queria, eu estava preparando uma conversa bem séria sobre relacionamentos, uma conversa que desenvolvi depois de falar com todo o tipo de pessoas com relacionamentos problemáticos.
Antônio: pera ai, deixa eu ver se eu entendi, tem uma garota que diz gostar de você, mas fica te xingando toda a hora, grita com você o tempo todo, e sempre que você é gentil com ela, ou tenta ser legal ela bate em você sem motivo nenhum?
Viajante: é
Antônio: e por que você gosta dela?
Viajante: booooom, porque ela gosta de mim?
Antônio: sem ofensas cara, mas não tem nenhuma opção melhor não?
Viajante: mas não é assim que relacionamentos são? Agente briga e briga, mas tudo se resolve no final?
Antônio: rapaz, isso que você descreveu não é briga, é abuso, essa garota sequer gosta de você
Viajante: ah, ela gosta
Antônio: e como você tem tanta certeza?
Viajante: porque ela fica irritada quando eu falo com outras garotas.
Eu não falei nada quando o viajante falou isso, mas pela cara que a Dandara fez, era claro que ela pensou a mesma coisa que eu.
Antônio: cara, ainda bem que você veio falar com agente
Viajante: por que?
Antônio: fica atento, que eu vou te explicar uma coisas sobre relacionamentos.
Então, nós chegamos no lugar certo, um ponto do mar onde na teoria, não deveria ter nada, mas mesmo assim, eu consegui criar uma bolha de ar normal pro Zorro, pra mim e pro Viajante, enquanto a Dandara criou uma bolha de ar só dela, o que agente tava procurando estava beeeeeeeeem fundo no lago, então agente precisou de um bom tempo apenas para chegar na parte profunda do mar, e nesse meio tempo, eu iluminei tudo e explodi pra longe qualquer monstro ou assassino que tivesse tentado nos pegar no meio da nossa descida.
Antonio: relacionamentos não são sobre brigas garoto, relacionamentos são…conseguir se colocar no lugar do outro, entender o outro lado, e não importa o quanto as coisas fiquem complicadas, sempre tentar conversar pra resolver a briga. Mas o que você falou dessa garota me fez ver ela apenas como “eu to sempre certa e você tá sempre errado, então eu vou gritar e bater em você até você acreditar no que eu falo”...ou eu to errado?
O olhar do aventureiro ficou distante, beeeeeeem distante.
Viajante: não
Dandara: além de, pessoas que realmente se amam não tem ciúmes, pelo menos na teoria, porque se você fica desconfiado, é por que você não confia em seu parceiro o suficiente, e se seu parceiro deu motivos o suficiente pra você desconfiar, é porque algo que vocês podiam ter resolvido com uma conversa já saiu do controle
Viajante: voces superestimam muito uma conversa
Dandara: não, acho que as pessoas que subestimam muito as conversas
Viajante: ah, então é verdade, vocês são mesmo um casal
Antonio: o que nos sermos um casal tem a ver com isso?
Viajante: vocês são o relacionamento perfeito, vocês estão sempre juntos, e vocês querem que eu tenha algo parecido
Antono: nada disso, agente só tá tendo uma conversa super saudável e super normal com um cliente nosso, se não gostar, você pode nos pedir pra parar quando quiser.
Mas ele nao pediu que nós parássemos, ele queria conversar mais conosco, e eu expliquei detalhe por detalhe o que a garota que dizia “gostar” do viajante, estava fazendo com ele. E ele ficou muito assustado quanto mais eu descrevia, mais assustado pelo fato de que ele não tinha nada pra me refutar, e sempre que ele tentava se impor ou defendê-la, eu falava algo simples, e na simplicidade eu conseguia quebrar toda a visão de mundo dele.
Viajante: mas…ela é minha amiga
Antônio: e ela ser sua amiga dá ela direito de machucar você?
Eram diálogos simples como esses que fazia vários viajantes pararem de falar qualquer coisa pra defender suas amadas.
E então, nós chegamos no lugar, o ponto mais profundo do mar azul, uma cidade incrustada dentro dos corais, e com um brilho possível apenas pelas grandes anêmonas e outras esponjas marinhas brilhantes que rodeavam o lugar, mostravam uma grande cidade de sereias, era a primeira vez que eu via sereias, na verdade, era a primeira vez que eu ficava tão fundo assim no mar, era fascinante pra falar a verdade, e nossa, elas eram bem mais lindas do que eu pensei.
Elas eram bem mais parecidas com monstros marinhos, com características humanóides. Por exemplo, elas tinham a parte normal de sereia, mas a parte humana era totalmente escamosa, e tinham grandes garras, além de muitas barbatanas em vários lugares, bom, pelo menos o rosto delas era um pouco mais parecido com as lendas, pelo menos sem contar as escamas. Elas não conseguiam falar, mas elas conseguiam se comunicar através da magia, da aura e do chi com telepatia.
Uma sereia, que deveria ser uma porteira ou guardiã da cidade, foi até nós e começou uma conversa telepática comigo.
Sereia: {saudações viajantes, o que deseja?}
Antônio: {eu sou o guia desse jovem rapaz atrás de mim, estamos aqui apenas para coletar um animal, não vão nem perceber que estamos aqui}
Sereia: {poderia descrever o animal, por favor?}
Antônio: {ah, é uma arraia simples com o desenho de um rosto nela.}
A sereia me olhou, pra ver se eu estava mentindo, por que o que eu descrevi era um peixe comum, pelo menos um comum para a profundidade grande que as sereias vivem.
Sereia: {a arraia não vai ser simples de transportar}
Antonio: {agradeço a preocupação, mas meu contratante já cuidou disso, não precisa pensar muito nisso.}
Depois de me olhar mais alguns segundos, a sereia me deixou passar, sem falar mais nada, enquanto nós vagamos pelo lugar, haviam várias sereias e sereios que queriam nos vender vários itens, com uma concha pra respirar em baixo a água ou uma presilha de nariz que fazia um encantamento e criação de oxigênio nos pulmões; pílulas e feitiços que podiam anular o efeito da pressão do mar em nós e muitas, mas muitas poções que davam uma visão noturna para ser possível ver a grande vastidão escura do mar naquela profundidade, mas eu fiquei tranquilo com isso, apenas mantendo minha bolinha, eu podia criar uma máscara de ar, mas eu achava a bolha mais legal.
Depois de algum tempo, agente chegou aos campos e coral, onde vários peixes ficavam, e seguindo as orientações do guia, agente conseguiu encontrar a arraia, uuuuuuh, ela era bonita mesmo, o desenho do rosto nas costas dela era realmente lindo, e o viajante era realmente um profissional, ele capturou a arraia com um dispositivo interessante, que conseguia manter a pressão da água mesmo com ela entrando na bolha.
Os pratos desse tipo de animais e plantas me lembrou daquele programa doido de culinária, “cozinhando sob pressão”, o tipo de coisa que cozinhavam naqueles programas eram algo impressionante mesmo, mas assim que agente pegou a arraia, continuei conversando com o viajante.
Antônio: então, me fala, você sabe se tem alguma garota perto de você que realmente te ama, te trata com carinho e que quer escutar você e não te culpa por nenhum motivo doido?
Viajante: tem sim
Antônio: então, você pode tentar falar com ela?
Viajante: eeeeeu até posso, mas não sei se ela sente a mesma coisa, e ela…é tão gentil comigo, eu tenho medo de estragar tudo se eu falar assim com ela
Antonio: cara, pelo que você descreveu da garota que você gosta, eu garanto que você tem muito mais chance com a garota que é gentil com você, acredita em mim, se você usar 1% do que você faz com a garota estranha com essa garota, tenho certeza que ela vai te aceitar
Viajante: mas tipo, o que eu deveria falar pra ela?
Antonio: você não tem nenhuma idéia?
Viajante: não
Antônio: que tal um simples, “oi, olha, eu sei que agente não se fala muito, mas eu queria saber se agente podia sair pra comer alguma coisa”
Viajante: eeeeeu não deveria falar primeiro que gosto dela?
Antônio: não, você tem que convidar ela primeiro, nunca diga que ama alguém no primeiro encontro, é assustador.
Essa dica foi algo que uma amiga da minha mãe me deu, mas eu não conseguia lembrar quando, então eu levantei meu cajado e joguei um punho de ferro imenso em um outro kraken que tentou pegar agente, e eu continuei ajudando o viajante enquanto mais tubarões e krakens tentaram nos atacar, mas não conseguiam passar por mim nem pela Dandara, e depois de conversar por bastante tempo com o Viajante, nós chegamos a superfície de novo, comigo achando fofo como o Viajante ainda ficava impressionado com o poder “ilimitado” que ele com certeza pensava que eu tinha.
Antonio: algo a acrescentar querida?/
Dandara: eu diria que você também tem que se afastar da garota, não importa o quanto você gosta dela, se ela te machuca de forma gratuita, não importa o quanto você ama ou que tipo de história vocês tem, ela vai te destruir antes de aceitar seus sentimentos, isso se ela aceitar, então faça um favor pra vocês dois, e esqueça ela, ta bom?
Palavras secas, certeiras e verdadeiras, de alguem que passou por esse tipo de amor, e quase foi destruída por isso, e com seu olhar implacável, o Viajante se intimidou. A ponto ele não falar mais nada em todo o caminho que nós fizemos.
O Viajante nos pagou assim que nós chegamos na árvore de halloween, e nos sentamos lá para esperar um novo cliente, eu não tinha nada a acrescentar a Dandara, apesar do quão dura ela foi, as vezes as pessoas apenas entendiam as coisas quando era dito com todas as palavras direto na cara delas.
Antonio: espero que ele faça a escolha certa
Dandara: eu também
Antonio: ai, você quer visitar alguma das ilhas remotas que eu ajudei?
Deidara: e ia adorar.
Eu tinha muitas cartas pra responder pessoalmente, e muitos “presentes” pra gastar, e fazer isso com a Ruiva apenas parecia o certo pra mim.

