Agora, depois de toda a doideira que eu fiz ontem, parecia quase uma piada que eu estava tomando cha de forma tão calma com a minha cunhada, mas é, eu tomava meu achocolatado e ela tomava seu chá, depois de conversar um pouco com minha cunhada, descobri que nós tínhamos uma coisa em comum que me deixou bem feliz.
Antônio: então, o que você já terminou aquele livro que eu te emprestei?
Cline: sim, eu não entendo onde você encontra essas coisas cunhado
Antônio: eu só sei procurar, mas me fala, o que você achou da história?
Cline: é simples, mas em sua simplicidade, ela se torna incrível, quem poderia imaginar, um garoto que nasceu com a maldiçao do braço de boneco, incapaz de usar um dos braços queria ser um espadachim, tanta gente duvidou da história dele, tanta gente não acreditou nele, mas no final, mesmo sendo espancado e machucado, ele continuou lutando até conseguir ficar forte o bastante pra conseguir calar a boca de todo o idiota que negou o que ele iria conseguir fazer
Antônio: o Plot Twist da história é que ele não tava sozinho.
Quando falei aquilo, pareceu que eu despertei um gatilho na Clíne, onde ela começou a chorar, mas eu fiquei tranquilo, eu sabia que não era por algo ruim que ela tava chorando.
Cline: eu chorei tanto quando eu cheguei na parte onde o pai do garotinho chegou até ele e o entregou um pequeno livro que era uma arte marcial, baseada no topo de maldição que ele tinha, criado…
Antônio e Cline: …Por um Singular igual a ele, que desafiou o destino que ele não conseguia lutar e forjou seu próprio caminho na marra.
Agente deu um gritinho de empolgação quando agente completou a frase um do outro, e eu quase derramei meu achocolatado.
Antônio: você lembra o que ele falou depois. “Oi filho, você não sabe o que eu tive que passar pra conseguir isso, mas tudo bem, eu posso te contar depois”. Haha…haaaa…país assim são mais comuns hoje em dia, agente realmente cresceu bastante daqui pra cá
Cline: com chão pra crescermos ainda mais
Antônio: é assim que se fala, mas eu me impressionei mais no livro pelo fato de que os valentões serem tão fortes assim
Cline: mas mesmo assim, foi melhor mesmo, porque afinal, qual seria a verdadeira alegria de derrotar um coitado que nem consegue vencer de alguém realmente forte?
Antonio: uma alegria boa, mas a alegria de ver pessoas com motivos pra serem arrogantes serem realmente super fortes e problemáticas, verem que elas podem ser fortes, mas não as mais fortes do mundo, e algo ainda mais incrível de ver
Cline: eles treinaram e se fortaleceram, mas ironicamente, o bullying deles foi o combustível pro protagonista treinar mais, eles foram uma vítima de seus próprios atos horríveis
Antonio: mesmo sendo ditas como crianças, eu fiquei extasiado vendo como cada um deles teve os ossos quebrados em cada luta, como um lembrete que eles não deveriam fazer isso de novo
Cline: pra mim, aquilo não foi o suficiente
Antônio: no nível que o protagonista tava, era normal ele ter realmente problemas naquele ponto, afinal, mesmo derrotando de forma absurda os valentões, ele ainda teve que dar mais de 200% pra cada golpe, ele quase “morreu” de exaustão varias vezes, parou de ligar pra dor que sentia só pra machucá-los mais e sacrificou tanta coisa que ele parecia quase um bicho papão para o valentão final, mas era o normal, a motivação dele o transformou em alguém que o grande Acima de Todos, como os grandes guerreiros de aura se referem, o notou e lhe deu a chance de marcar pra sempre os valentões dele
Cline: ah, foi tão lindo que eu tinha desejos e ver aquilo em um teatro
Antônio: um dia garota, um dia.
Então a Clíne olhou pra mim, com um olhar contemplativo enquanto olhava pra cima, apenas pensando sobre outra parte do livro.
Cline: apesar de todas as dores que os valentões passaram, ainda é doido pra mim que apenas depois de perder uma vez, principalmente o último valentão, o “chefão final” da história, ele mudou a ponto de entregar o troféu nas mãos do protagonista, parecia algo mais especial do que só admitir a derrota, o que você acha?
Antônio: pra mim, a pancada é a parte da mudança de personalidade dele, tem gente que não entende o que te faz até sentir na pele o que é, tipo “wow, é isso que eu faço com as pessoas? Eu preciso parar” ou elas sentirem na pele o que acontece quando alguém que ele machucava revida, elas ficam com medo, pensando no que poderia acontecer com eles se alguém ainda menos gentil fosse até eles…
Eu estava apenas pensando alto com a Clíne perto de mim, e ela continuou meu raciocínio.
Cline: e tem gente que não é educada em casa, e no fim é educada na rua
Antônio: é como dizem, tem muita pessoa perturbada no mundo, mas muitos são apenas crianças que precisam de uns cascudos, aprender a aceitar um não, é doido pensar que tem tanta gente que nunca recebeu um “não” na vida…você consegue imaginar alguém desse jeito?
Clíne: eu não consigo imaginar alguém assim…ainda bem que o valentão da história não é assim
Antônio: ainda bem mesmo, mas sabe, isso foi uma forma de mostrar como no fim, ele era apenas uma criança ainda, ele mereceu os cascudos, sim, mas ele não precisou do reformatório, ele só precisava de uns cascudos, e ele entregando o troféu no final mostrava que no fim foi o melhor mesmo a se fazer, você não acha
Clíne: pode até ser, mas acho que ele ainda não foi punido insuficiente
Antônio: é, essa é uma das partes ruins da história, já que não mostraram o valentão se machucando muito, mas é uma história sem muita violência pesada, então é o normal
Clíne: eles mostraram o protagonista sendo espancado várias vezes, e eles não podiam fazer a mesma coisa com o valentão
Antônio: hum(da de ombros), é um livro feito diretamente da Criadora, vai saber o que ela pensa pra essas coisas, não é?
Clíne: a Criadora, um ser tão misterioso, e ainda tão belo para muitos, mas eu entendo o apelo pra essas pessoas…hmhmhm, espero poder conseguir ter esses papos ainda com você quando me casar
Antônio: contanto que você tenha achocolatado, eu sempre poderei conversar com você.
Eu tava falando sério, eu não gostava de chá, e eu nunca beberia, mas ela ainda riu de brincadeira. É, meu irmão tem bom gosto mesmo, ela era alguém muito divertida de conversar.
Antônio: então, o que a sua família faz?
Clíne: um negócio simples de criar corujas, nem é algo grande
Antônio: sempre soube que as corujas são como gatos com asas, deve ser muito difícil cuidar delas
Clíne: as vezes sim, principalmente na época de acasalamento, e o meu nojo por insetos foi distinto, já que por algum motivo, as corujas da minha família gostavam de comer os insetos vivos, mas tirando isso, não, as corujas ficavam no canto delas, e eu ficava nos meus, o verdadeiro problema era quando nós tentávamos dar outros donos pra elas, elas são muito apegadas a nós, é por isso que nossa família não é tão famosa assim
Antônio: ah, tenho certeza que as coisas vão se concertar com o tempo, mas e a sua família? Tem algum problema com a sua família?
Clíne: com exceção da implicância normal de dois irmãos mais velhos sapecas e a zoeira constante de uma mãe que muitas vezes parece uma adolescente, não, não tem nada de mais pra eu dizer sobre minha família
Antônio: e o seu pai?
Então, ela começou a tremer, ah, nossa, tava com medo de ter tocado em algo sensível, mas então ela só falou.
Cline: ele é barulhento demais, ele fala alto, ele pisa alto, ele até existe alto, eu amo meu pai, mas ficando tão perto dele, eu fico em dúvida de como eu não perdi minha audição completamente…
Antônio: nossa
Cline: quando eu conheci a família de vocês, eu meio que comecei a entender melhor como o Pedro era tão calmo, tem algo bem diferente nesse lugar.
Eu já tava entendendo o que ela tava falando, mas eu ainda sempre amava ouvir as pessoas dizendo isso, e com um sorriso infantil, perguntei.
Antônio: diferente como?
Clíne: é que tudo aqui parece um muno paralelo, tudo no lado de fora parece tão rápido, tão barulhento, tão agitado, muito…
Antônio: muito tudo?
Clíne: sim, “muito tudo” não podia falar melhor…e a sua casa parece quase uma dimensão paralela, aqui é fresquinho, quentinho e tranquilo. Parece quase uma casa de reabilitação, no bom sentido claro…eu acho, é difícil achar as palavras certas, sabe
Antônio: acho que as palavras que você tá procurando é “a sua casa é tranquila e quietinha”
Clíne: é…de novo, não podia falar…
E então, a Clíne parou de falar, como se tivesse entendido alguma coisa.
Clíne: não sou a primeira que fala isso sobre a sua casa, não é?
Antônio: e nem a última, sei o efeito que minha casa tem nas pessoas, mas não é apenas um lance meu, minha mãe também gosta de manter a casa assim, o Pedro ama isso também, e mesmo sendo nova aqui, a Dandara ainda gosta de ficar aqui além da sua própria casa…e apesar de não ser uma das coisas mais sofisticadas da minha família, eu me orgulho desse “clima” da minha casa.
E sorrindo de forma tranquila como se tivesse olhando pra um garotinho, a Clíne falou.
Clíne: eu nunca vou me cansar disso
Antônio: te entendo garota.
E com um dos papos mais tranquilos que eu tive a muito tempo, eu relaxei enquanto degustava meu achocolatado.

