Esse era um dos momentos que eu tinha a certeza quase absoluta que eu mudei. Já tinha se passado muito tempo desde que eu saí do reino Sapien, provavelmente toda a reputação que eu estava construindo na Árvore de Halloween estava desfeita, mas naquele ponto eu nem ligava pra isso, tudo o que realmente importava pra mim era como eu poderia ficar perto da Dandara, mas por mais feliz que eu pudesse estar, existia um desejo dentro de mim, um desejo que não vinha de algo inteligente, nem de sentimentos complexos, era instinto, assim como eu desejava comer as vezes só por desejo e não por fome, ou como eu queria dormir com minha esposa por instinto ao invés de amor. Eu desejava batalhar, era meu instinto, minha natureza, e eu iria saciar esse instinto hoje, ou pelo menos enfraquecê-lo o suficiente para eu voltar a ser o exemplar marido que a minha mente ironicamente queria que eu fosse, enquanto ainda tentava fazer com que eu soltasse esses impulsos violentos em alguma coisa.
E no meio de tudo isso, encontrei um lugar onde meus impulsos violentos não seriam apenas aceitos, mas vangloriamos por uma imensa multidão de pessoas, e eu tava muito ansioso por isso. Pra começar, eu peguei o meu manto caseiro. Tinha se passado dias desde que eu voltei de uma grande expedição e consegui o material certo para criar um manto que iria me impedir de quebrar os ossos, pelo menos isso eu esperava.
E pra completar, agora o meu querido Zorro estava tão poderoso que ele exalava um grande poder digno de um animal místico ele ganhou um poer pra sua crina e seus cacos brilharem em amarelo enquanto o marrom da pele dele ficou brilhante em sua grande cor de cobre. Tudo junto com a grande armadura que eu comprei pra ele no meio de uma das minhas viagens, ele parecia o animal mais perfeito do mundo, mas ele ainda se transformou no meu lindo e bondoso cavalinho feliz quando aproximei minha mão dele, e todo felizinho, o Zorro fez carinho na minha mão, e agora, com o chapéu cheio de feitiços no lugar, eu subi em cima dele, e andei pra frente, já me sentindo meio nervoso e ansioso pro que iria me esperar pra quando eu saísse pelo imenso portão.
Então, eu passei por ele, primeiro foi um clarão, e depois eu vi, gritos, confetes, explosões de fogos de artifício, sentido que não tinha nada a ser comemorado, o evento estava apenas começando, pelo amor de deus. E ao meu redor estavam um monte de outros filhos e filhas de grandes famílias, haviam muitos ali que assim como eu, apenas queriam soltar seus sentimentos e impulsos mais primitivos sem “machucar” ninguém de forma permanente, pelo menos era nisso que eu queria acreditar.
Também tinham muitos que realmente estavam ali pra participarem de forma profissional, e eu conseguia respeitar bastante aquilo também, porque aquela arena, cheia de neve, com grandes obstáculos mortes pra cada um que não era um especialista, e tudo junto com os magos ao redor de nós, cada um carregando um feitiço poderoso bastante pra matar qualquer mago novato na ponta de sua língua.
Aquele lugar com certeza não era pra amadores, e eu amava essa sensação, eu estava entrando numa batalha até a morte, onde apenas se eu ficasse inconsciente ou fraco demais pra me mover, os médicos iriam me tirar ali. Algo que o meu instinto primitivo totalmente doido amava de várias formas, o que me fazia questionar se eu realmente melhorei e fiquei mais calmo, ou era apenas um engano, porque comparado com as minhas expedições, aquilo parecia intenso demais até pra mim, mas tentei não pensar muito nisso, eu já estava ali, e tentar recuar agora só iria acabar de forma pior pra todo mundo, agora, era hora de se adaptar, e no meio desses meus pensamentos, eu ouvi um grande som que reverberação em cada parte do meu corpo, até conseguir transformar meu próprio corpo em um grande timbre de ouvido. E olhando pra cima, vi o apresentador, e ele parecia tão alegre que ele próprio parecia querer participar disso.
Apresentador: SENHORAS E SENHORES, HOJE NÓS ESTAMOS AQUI PARA VER O GRANDE SHOW ONDE 100 CAVALEIROS IRÃO CORRER E DEGLADIAR NO MEIO DESSA ARENA CIRCULAR E APENAS O MAIS PODEROSO, ASTUTO E INTELIGENTE SOBREVIVERÁ ATÉ O FINAL, ENTÃO SEM MAIS DELONGAS, QUE A CHACINA CONHECE.
Eu corri pra frente, mas não me dei o trabalho de atacar ninguém ainda tava muito cedo. E assim que a partida começou, as explosões começaram, da esquerda, pra direita, pra cima, pra baixo, apenas tinha fumaça, feitiços, colisões, feitiços invisíveis, flechas, espadas e lanças verdadeiras. Junto de todas as armadilhas do lugar, eu deslizei no meio de gelo, escapei de um buraco, e desviei três vezes um raio mágico estilo armadilha presa no chão.
Achei que aquilo iria durar pouco tempo, mas foi bem o contrário, o caos completou uma volta inteira, e logo, parecia que toda aquela destruição, golpes e armadilhas estavam se concentrando em mim, e quase que sem escolha, eu comecei a atacar também, mas mesmo não conseguindo ver nada direito, além de muito sangue, gritos e explosões, consegui criar várias armadilhas de golens agarradores no chão, e consegui criar muitos golens lançadores, que conseguiam ser disparados nos meus inimigos, fazendo muitos cavaleiros caírem e baterem na neve muito tempo até eles se equilibrarem de novo com a própria magia, além de conseguir defender com uma grande armadura, fazendo uma acrobacia com a cavalgada que eu fazia no Zorro, fazendo com que parecesse que eu estava em cima de uma vassoura ou uma prancha do que um ser vivo.
Depois de algum tempo, a neve começou a subir, e afundar acima de nós, como uma onda, e rindo, eu subi aquelas ondas, e mesmo usando um cavalo, consegui escapar de todas as ondas que tentaram nos engolir, muitos não tiveram essa capacidade, mas conseguiram se manter no jogo usando ainda mais magia, enquanto eu tive tempo de criar minha armadura mágica.
Em algum momento, eles conseguiram passar pela minha armadura, mas o meu manto me protegeu o bastante para eu conseguir convertê-la, pelo menos até a confusão começar a diminuir, e eu vi que muita gente foi eliminada.
Tinha tanto sangue no chão que a neve estava virando lama, e eu tinha certeza que eu havia pisoteado em alguns participantes, pela forma como alguns magos já estavam tirando alguns participantes derrotados dali. E com o pessoal que ficou ali, senti que já era hora de pegar meus feitios nomeados, e criando um grande olho no ar, eu falei.
Antonio: grimório dos golens, primeira página, olho lazer.
E com quase 10 olhos ao redor de mim, eu comecei a disparar por todas as direções, e logo, cada um dos 20 magos sobreviventes começaram a disparar seus feitiços nomeados, feitiços esses que conseguiam destruir minha armadura, mas não passar do meu manto, e com meu material novo do manto, e os novos treinamentos que eu fiz, eu consegui manter meus ossos inteirinhos. E com mais disparos, junto com outros feitiços nomeados, a terceira página do punho imparável, a segunda página da grande debandada e elefantes mecânicos, e a grande sétima página, que era o braço imenso que dispara foguetes, eu dei um jeitinho neles.
Mas eu não estava muito à frente de todos, um mago geográfico conseguia manipular o ambiente, deixando o ar tão denso quanto água, outras vezes ele conseguia criar raios perto de mim do completo nada, ele também conseguia criar as ondas que me deram tanto trabalho, e ainda conseguia arremessar pedregulhos na minha cara.
O mago aspirante a espadachim era um especialista em golpes corpo a corpo, colidindo comigo e disputando a força dos nossos cajados, haha, eu fiquei feliz em ver que eu não era o único que usava o cajado como uma arma, e depois de muitas colisões de cajados, ele começou a se arremessar nas paredes, conseguindo até criar grandes tremores nos ataques.
Também tinha um animago, que fez um grande exército de animais ajudá-lo na batalha, e quando uma grande batalha com um exército parecia estar prestes a acontecer, um grande mago espiritualista criou um exército de espíritos, e logo, os 5 magos capazes de criar exércitos criaram uma guerra separada entre eles.
E depois daquilo tudo, um mago carpinteiro, com uma grande armadura, começou a arremessar facas de madeira recheadas de poder de fogo em mim, facas essas que me machucaram muito, mas não conseguiram passar pela minha armadura, mas conseguiram passar a armadura do Zorro, o grito que o Zorro fez quando ele foi atingido, machucou mais que qualquer coisa que eu já senti, mas ouvindo aquilo, eu sabia que não podia parar, nao agora.
Mas no fim, cada um daqueles magos caiu, porque um mago totalmente não ortodoxo estava dando um Show ali, um mago dançarino, o estilo dele me lembrou muito da Dandara, movimentos irregulares, feitios que circulavam por todo seu corpo como uma segunda pele no lugar de ser uma armadura de qualquer tipo, ele até chegou a saltar do seu cavalo pra espancar os magos em seus próprios cavalos.
E não importa o quão preparados pra tudo eles estavam, quando eles encaravam a imprevisibilidade daquele estilo, eles caiam, talvez eu tivesse caído também se não tivesse visto aquilo junto da Dandara, mas já vendo aquilo, quando o mago saltou pra me atacar, eu consegui desviar, algo que deixou o mago impressionado, mas ele estava longe e desistir.
Eu olhei com muito detalhe para ele, deixando que ele me atacasse de toda a forma, não tentando evitar, cada dançarino era único, mas por mais imprevisível que um dançarino fosse, ele ainda tinha os próprios costumes que não podiam quebrar, e sorrindo, eu vi o padrão dele.
O dançarino saltou de novo, e então, quando tentei acerta-lo com o meu cajado, sem nenhum feitiço, o dançarino desviou pra esquerda, bem onde achei que ele iria, e de forma totalmente deslocada, eu o olhei nos olhos e falei.
Antonio: grimório dos golens, terceira página punho imparável.
E com essas palavras, um grande punho feito de estilhaços vermelhos, o dançarino foi acertado com tudo com aquele punho, mas é claro que, mesmo machucado e quebrado, o dançarino não seria parado apenas com isso, então ainda bem que eu deixei um golem preparado pra bater nele quando ele caísse na neve.
O dançarino, apesar de todo o dano, ainda conseguiu se recompor, o que me impressionou de verdade, mas eu não diminuí o ritmo, continuei o acertando no meio das próprias manias dele, e ele continuou caindo, caindo, e caindo cada vez mais.
Apesar dos meus esforços, o dançarino me derrubou 10 vezes também, a minha armadura foi destruída, e eu estava sem mana o bastante para criá-la ou convertê-la de novo, mas o dançarino logo ficou sem magia, diferente dos outros, ele não lutou até o fim, assim que ele percebeu que a magia dele acabou, ele parou de cavalgar totalmente e me deixou ali, sozinho.
Já estava pronto pra que ele me atacasse enquanto eu completasse a volta, mas não, eu dei duas voltas inteiras e o dançarino não fez nada, e depois de tudo aquilo, coberto de neve, lama e sangue, eu parei e correr também, sentindo como eu havia sim, vencido, a plateia gritou por meu nome, o apresentador gritou meu nome, dizendo um grande discurso me parabenizando pela vitória, enquanto algumas pessoas me levavam pra outro lugar, mas eu fiquei tão cansado depois daquilo que eu apenas deixei eles me levarem pra onde queriam, eu não estava com força nenhuma para brigar com nenhum deles.
Depois de tudo que eu passei, eles me curaram e me limparam, sem tirar as minhas roupas, mas com magias básicas, aquele tipo de limpeza era bem simples pra eles, permitindo que eu apenas fechasse meus olhos, e tirasse um pequeno cochilo, e quando abri os olhos de novo, vi que tinha um troféu em minha mão, um buquê de flores na outra e tinha uma coroa de flores na cabeça do Zorro, apesar de toda a dor que o cavalinho passou, tava claro que ele tava feliz, feliz demais, e também com o grande prêmio que a gente ganhou, uma muda de um pé de maças roxas, as melhores maçãs que animais equinos podiam comer sem terem chance de morrer, era nítido qual era o motivo dele estar tão feliz assim, e eu sabia muito bem para aonde aquela muda iria, mas por enquanto, eu só iria aproveitar cada vez mais aquela ovação de tantas pessoas ao redor de mim.
Eu vi a grande plateia aplaudindo por mim, ficando feliz que eu fui o vencedor, eu não sabia se aquele sentimento no meu peito tinha um nome, mas pela primeira vez em muito tempo, pensei que poderia pensar o que aquele sentimento significava depois.
Porque o que eu tava mais sentindo agora era satisfação, meus músculos estavam doloridos pelo esforço, e minhas mãos ainda estavam quentes por sentirem o sangue dos meus oponentes, mas minha mente estava calma, porque todos os impulsos violentos que eu fiz tanta questão de controlar até aquele momento, se soltaram, mas não de forma ruim, eles saíram no lugar certo, porque eu permiti que eles saíssem, ao invés de apenas permitir que eles explodissem sem meu controle, e agora, eu estava satisfeito.
Quando eu saí da arena, fui recebido com uma salva de aplausos um pouco mais especial, o Davi, a Dandara, o Pedro, Minha mãe, a Nala, a Saytus. Tava todo mundo ali, eu sorri enquanto via eles aplaudindo o que eu fiz, haha, e aquele tipo de aplauso parecia bem mais agradável do que os milhares de aplausos de estranhos, tudo enquanto eu ainda não entendia direito o que era aquele sentimento.
Saytus: INCRÍVEL, VOCÊ É MAIS FORTE QUE O SEU PAI
Antônio: a quanto tempo vocês estavam vendo o combate?
Dandara: agente tava vendo você desde o início
Antônio: sério? Como não vi vocês?
Davi: se você tivesse visto agente você teria se desconcentrado e perdido, acho que mesmo inconscientemente, você mesmo sabia disso
Antônio: é, é verdade
Mãe: não entendo, por que você quis entrar nisso?
Era engraçado que a minha mãe falou aquilo, enquanto ela ainda batia palmas.
Antônio: por que eu sou um animal, posso ser inteligente o bastante pra ser considerado humano, mas ainda sou um animal
Mãe: como assim?
Antônio: ah mãe, você sabe do que eu tô falando, você, mais do que ninguém deveria entender muito bem que as pessoas por natureza, são bem violentas, algumas pessoas guardam aquilo, e descontam de forma descontrolada, eu apenas tive a consciência de escolher aonde eu iria descarregar minha violência.
A naturalidade que eu falei aquilo deixou minha mãe de olhos arregalados, e apesar de toda a surpresa nos olhos dos meus amigos, depois que eles entenderam o que eu falei, eles começaram a concordar.
Davi: depois que eu parei de jogar tudo no Brutus, eu comecei a fazer bem mais partidas com meus parceiros cavaleiros
Dandara: por mais que não goste de admitir, acho que eu nunca teria sido completa se eu não tivesse lutado pela primeira vez por insistência das minhas amigas
Saytus: eita, vocês demoraram tanto tempo para descobrirem isso? E eu achei que os Sapiens haviam evoluído de alguma forma
Antônio: alguns são mais atrasados em alguns lugares, mas é por causa dos nossos erros que evoluímos, vamos, já tô satisfeito, alguém quer sair pra comer alguma coisa?
Davi: nem precisava pedir, vei, eu conheço um lugar perfeito.
E seguindo o Davi para fora da arena, depois de eu fazer uma questão tão grande de aliviar todo o meu desejo de batalhas acumulado, sentia que podia voltar ao normal.

