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A passagem de uma vida🌻3
🤔🙂‍↕️😊qual o seu centro?😊🙂‍↕️🤔
2853 palavras • 15776 caracteres • ⏱ 11 min 25 s

🤔🙂‍↕️😊qual o seu centro?😊🙂‍↕️🤔

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Já tínhamos feito muito aquilo, mas eu sabia que dessa vez seria diferente, e o motivo de eu ter tanta certeza disso era por que o Davi estava bem mais calmo pra subir na grande escada quase transparente para o reino dos gigantes. 


Achei que eu não ia conseguir subir lá depois de ter ficado sem subir por tanto tempo, mas quando eu subi as escadas, até fiquei um pouco sonolento pelo quão tranquilo estava lá, talvez pelo fato que a forma que eu tava subindo pro mar branco através daqueles anos tivessem me deixado imune ao medo de altura.


Quando subimos para o grande reino dos Gigantes, ainda ficava um pouco impressionado como, de alguma forma, aquele lugar possuía um charme que fazia com que eu não sentisse que tinha ficado pequeno, mais chato, ou qualquer outra variação do “eu mudei tanto que esse lugar não me aguenta mais”. Parecia que, não importa o quanto eu mudasse, de alguma forma, aquele lugar sempre teria algum pouco de espaço pra mim. 


E entendendo muito bem o motivo, eu me sentei em um canto do grande pátio e apenas fiquei ali, parado, apenas esperando um pouco, pra colocar todo o meu discurso em ordem, e quando abri os olhos, vi que tinha já muita gente ao redor de nós, bom, era o normal, o local que nos sentamos era conhecido como o “banco dos discursos” uma das poucas peculiaridades únicas do lugar, então, comecei.


Antônio: alguém de vocês pode me dizer o que seria o centro de cada um de vocês?


Aluno1: seria a forma mais simples de nós? Aquela que está abaixo de tudo que nós forma por inteiro


Aluno2: seria a maior pureza da nossa personalidade, aquela parte que existe antes de nós sermos mudados ou influenciados por qualquer tipo de pessoa


Aluno3: é aquela parte de nós que briga com nossas partes indesejáveis, aquela parte que sabe melhor do que qualquer um o que é melhor manter perto de nós, e qual parte é melhor agente sequer se manter perto


Antônio: todos vocês estão certos, bom, pelo menos parcialmente…sim, o centro é tudo isso, mas vocês estão meio certos cada um.


Os alunos começaram a discutir um pouco um com o outro, fiquei imaginando as histórias que eles teriam para apenas ficar ali e me escutar, tudo enquanto eu via como alguns outros alunos apareciam mais tarde, depois da minha pergunta, mas tava tudo bem, não ia ser algo muito difícil repetir depois.


Antônio: cada um de vocês tem um pedaço de vocês mesmos que é quase a bússola de vocês, esse pedaço é o que faz vocês gostarem mais de doces do que salgados, ou vice versa, um outro que faz vocês odiarem livros, ou que faz vocês amarem animais. Cada um desses momentos é um pedaço importante de si mesmo, mas existe um pedaço especial, um pedaço imutável, por ser a parte mais essencial de você e uma que liga todas as partes de seu corpo, sejam elas importantes ou não. Um pedaço de você que também rejeita todas as partes de você que não combinam com sua personalidade. Por exemplo, uma pessoa que odeia ser cruel nunca conseguiria ser uma torturadora, pois o centro dela não permite. Isso é o centro.


Eu fiquei sem falar por algum tempo, apenas esperando que elas entendessem tintim por tintim o que eu falei, cada um deles pareciam estar com a sua visão de mundo alterada com cada palavra que eu falei, até que um aluno levantou a mão e perguntou.


Aluno1: e como nós descobrimos o nosso núcleo?


Antônio: ah, é um processo de vida, eu estou a anos nesse caminho, e me levou a sentir cada parte de mim, não apenas meus gostos e meus ódios pessoais, mas as minhas máscaras também. Além de pensar em todas as coisas que eu gosto e odeio, também tive que pensar em todas as máscaras que eu uso, a máscara do aluno, a do professor, a do filho, a do irmão, o cozinheiro, o leitor, o explorador, e todas as outras. Por que a luz que bateu na máscara e cria a sombra é o centro, e quanto mais você entende suas próprias máscaras, e quanto mais você entende cada parte sua que você esconde através de sua sombra, mais você ficará perto de entender o seu centro. Ironicamente, removendo essas duas partes, e apenas deixando a pureza, o que você é especificamente quando você não tem máscaras, nem gostos e nem ódios. Apenas a sensação mais profunda e simples que fez você usar cada máscara e ter cada um dos gostos que você tem, sejam eles seus próprios gostos ou os gostos que os outros decidiram que você deveria ter.


Os alunos pensaram um pouco mais de tempo, pra absorver o que eu falei, e então um dos alunos falou.


Aluno2: como saber nosso próprio centro pode ajudar nossa vida?


Eu estava prestes a responder, mas eu vi uma garotinha vampira levantando a mão lá atrás, e levantando minha mãe, eu falei.


Antônio: qual seu nome filha?


Vampira: Mirian


Antonio: bom, senhorita Mirian, se quiser, pode explicar ao senhor aqui sua opinião


Mirian: o “centro” como o senhor diz, é aquilo que nós faz entender o que realmente é melhor pra nós e o que não é, por que no fim, o centro é o que decide o que é melhor pra ficar com você, como uma máscara ou um traço de personalidade, porque o quão bem ela vai se adaptar a você depende apenas do quão bem ele irá se grudar ao centro no final, porque não importa o quanto alguém tente te fazer ter um traço de personalidade, ao menos que a pessoa destrua completamente o centro, é impossível grudar algo no centro que ele não aceita


Antônio: infelizmente, isso é verdade, existem muitas pessoas que ainda conseguem a façanha de destruir o centro das pessoas, mas com a ajuda adequada, elas sempre podem ter ajuda. E como a Senhorita Mirian falou, conhecer seu centro é a forma perfeita de saber que caminho seguir, onde você deveria colocar suas energias e o quanto de sofrimento você está realmente disposto a aguentar. Aqueles que sabem pelo menos parcialmente que seu centro é movido por emoção, aventura e frio na barriga irão criar uma vida inteira pensando em empolgação, um emprego imprevisível, onde você é cheio de emoções, ou uma pessoa calma que entende que ela vai querer morar num lugar tranquilo e com ninguém perto dela, e o meu favorito, quando uma pessoa solitária entende que ela gosta de ficar sozinha, e que não quer que ninguém fique perto dela, as variações de centro que existem são mais infinitas do que as estrelas no céu, por isso, não precisam copiar o centro dos outros, apenas fiquem tranquilos e pensem no que faz vocês serem vocês, e o que está bem embaixo, conectando tudo isso.


Todos ficaram bem pensativos quando terminei de falar e no meio da reflexão, um aluno levantou a mão e perguntou.


Aluno3: centros podem mudar?


Antônio: não, não mudam, porque no fim, quando uma pessoa ganha uma personalidade nova depois de se recuperar de um trauma absurdamente pesado, ou depois de finalmente dar voz a seus próprios pensamentos, elas apenas tentam encontrar o centro que eles ignoraram a existência depois de tanto tempo. Pessoas com a maldição do Vazio falam bastante sobre “perder completamente quem eram” e “criar alguém novo” mas na maioria das vezes, eles apenas perdem a personalidade falsa ou infantil que eles não conseguiam lidar direito, e a “nova” personalidade deles na maioria das vezes é algo que sempre esteve com eles, mas não conseguiam enxergar pelos traumas, e com o centro um pouco melhor destacado, eles conseguem ser eles mesmos, parece que é algo “novo”, mas na verdade eles na maioria das vezes eles só trocaram algo falso pelo que é verdadeiro. E isso vale pra qualquer outra maldição que não seja a maldição do Vazio, pessoas com múltiplas personalidades que perdem a original, pessoas com seu verdadeiro “eu” presos ou incapazes de se manifestar, pessoas com maldições que não são capazes de controlar, criando algum fogo, ou com um grito, ou com uma fala específicas de vez em quando, cada um dos métodos de se encontrar, de se entender, ou de se controlar melhor. Seja Singular ou Asingular, tudo acaba virando para a mesma coisa, tentar encontrar o próprio centro, e entender melhor o que é mais fácil de “grudar” nele, e o que é mais fácil dele “empurrar” pra longe…por isso que alguém que busca o próprio centro conscientemente, muitas vezes é a pessoa mais bem cuidada e completa do mundo.


Nossa, eu realmente peguei bem pesado dessa vez, o pessoal ficou um bom tempo sem falar, um tempo tão grande que eu mesmo fiquei pensativo se eu pensei que deveria dar algo a mais pra eles pensarem, mas acabei nem falando nada, eu apenas absorvi o que eu mesmo falei. 


Pensei como eu nunca tinha chegado a pensar essa última parte, hummmm, é, eu encontrei algo interessante pra pensar quando saísse dali, isso me fez pensar se os outros gigantes chegaram a passar por isso em algum momento também, até que a voz de um aluno chamou minha atenção, mas eu não ouvi direito o que ele perguntou.


Antônio: desculpa, o que?


Aluno4: e você descobriu seu centro?


Antônio: bom, depois da meditação constante, e do raciocínio que fiz no meu dia a dia, eu descobri que meu centro é a calmaria, porque, por mais contraditório que seja minha vida, tudo nela é ligado a ser a mais calma possível. Eu tenho amigos que eu apenas me aproximei naturalmente, minha noiva é alguém que eu dei todas as chances do mundo pra ela ir embora, ao invés de ficar correndo atrás dela o tempo todo, eu me esforcei bastante pra ter um trabalho que eu ia fazer algo que eu gostasse mas eu não discuto com ninguém. E até os lugares que eu viajo para conseguir ter altas aventuras é algo pra diminuir meu próprio stress por acabar ficando em casa sem fazer nada por tempo demais. O meu centro é a calmaria, porque no fim, ela é aquilo que eu busco, e o que eu sempre buscarei, não importa o quão árduo aquilo seja. 


Todos: uuuuuuuuuh


Antônio: claro, eu posso estar errado, mas mesmo se eu estiver, esse pensamento está perto do meu centro, e graças a isso as decisões que eu tomei até hoje, baseadas no que eu penso que meu centro é, me levaram a lugares muito legais, amigos que estou disposto a morrer pra ajudar…


E eu terminei a frase mostrando meu anel para todos os alunos, fazendo eles exclamaram de espanto de novo.


Antônio: e um casamento com a mulher que sei que eu passarei o resto da minha vida com ela 


Aluno5: então quer dizer que ter pelo menos a ideia parcial do que o seu centro é já é algo bom?


Antônio: sim, mas o truque é nunca ficar satisfeito, mesmo que você saiba apenas 1% do que o seu centro é de fato, por que mesmo esse 1% pode te guiar de alguma forma em sua vida, mas não fique satisfeito, mesmo se você pensar que achou 100% de seu centro, porque se você acha que entende tudo sobre si próprio, é apenas mais uma afirmação de que você tem muito o que aprender ainda


Aluno5: se a busca pro conhecimento do centro é quase infinita, então qual é o sentido de nós buscarmos ele?


Antônio: porque é melhor ter parte do cconhecimento infinito do que nenhum, é a mesma comparação com a sujeira em seu quarto “por que eu deveria limpar meu quarto? Ele vai ficar todo sujo de novo” bom, pra todos os porquinhos aqui, a resposta é bem óbvia, por que a sujeira não vai desaparecer, ela vai continuar acumulando, acumulando e acumulando, até você sequer ser capaz de colocar seus pés no chão, ou sequer sair do próprio quarto…a busca pelo conhecimento é infinita e árdua, mas ainda é melhor que o sofrimento eterno de viver sem ele.


E novamente, os alunos ficaram sem falar nada por algum tempo, mas agora, eles não tinham mais nada pra falar, eles estavam totalmente quietos, sem conseguir falar nada pra ninguém, eles não tiveram mais perguntas, e não tiveram nenhum sussurro, eles apenas estavam tão pegos pelo que eu falei que eu tive algum tempo pra respirar e beber minha água, a ponto que eu quase esqueci que o Davi estava ali, então ele falou.


Davi: aí, o que acha de eu tentar agora?


Antônio: isso é tranquilo pra mim.


Então, enquanto recuperava meu fôlego, vi o Davi falando a explicação dele do centro, do jeitinho dele, eu gostei muito da forma como ele explicou, e olha só, pensei que os alunos iriam se dispersar depois de ouvir aquilo uma vez, mas foi o contrário, eles ouviram mais de uma vez, pensando cada vez mais o que eles poderiam fazer para entender melhor o que eu estava explicando. Tudo o que aconteceu foi que a multidão começou na verdade a ficar cada vez maior, maior, e maior, e logo, a mesma multidão que eu já fiz parte uma vez, se formou ao redor de mim, comigo no centro dessa vez. E depois do Davi acabar de falar, eu fiz o discurso de novo.


E a cada vez que eu falava o mesmo discurso que eu pensei tanto tempo para a pessoas, eu ficava cada vez melhor em falar aquilo, minha história e meu conto tava cada vez maior, até que já estava de noite, e logo o templo ficou com a aparência do paraíso na noite, escuro, tranquilo, e parecendo que nenhum único predador ou monstro conseguisse se esconder em nenhuma daquelas sombras. Até que eu vi que já tava muito tarde eu precisava ir pra casa, então ainda sorrindo, eu me levantei e vi como o grande mar de pessoas se abriu para eu e o Davi descermos.


Eu estava cansado, a ponto de não pensar que eu conseguiria sentir qualquer outra coisa além da dor de falar tanto, a dor que foi ver tantas pessoas ao meu redor, e o cansaço de aguentar tanto stress de estar tão perto de tantas pessoas. 


Meu corpo inteiro tava com a sensação de que eu fiz uma maratona de exercícios por 10 horas seguidas, não, nem uma maratona de exercícios de 10 horas seguidas iria me deixar tão cansado e tão dolorido quanto naquele momentos mas nada doía mais que a minha garganta, ela doia demais, mesmo depois de beber 10 litros de água, eu sentia uma grande dor junto de uma grande secura na garganta.


Antônio: aí, eu quero arrancar minha garganta


Davi: eu sinto que eu falei hoje pelo resto do mês inteiro


Antônio: e aí, valeu a pena?


Davi: do que você tá falando? É CLARO QUE VALEU.


Hahaha, eu amava aquele Sapien doido, nada deixava de ser divertido quando ele estava por perto, e mesmo assim, sentia que tinham muitos lugares para ser explorados ainda, lugares esses que eu sentia que podia esperar um pouco mais antes de ir buscá-los, por enquanto, eu estava tranquilo com o que eu tinha, mas eu conseguia sentir também, essa tranquilidade estava se desfazendo, o meu desejo por aventuras estava voltando.


Davi: o que você tá aprontando?


Antônio: ah, só tô pensando que eu estou bem perto de voltar a ser o aventureiro maluco que viaja por cada canto desse mundo


Davi: sozinho?


Antônio: não, não mais, pelo menos eu acho.


Eu falei aquilo pro Davi naquele dia, mas eu demorei pra falar com a Dandara o que tinha em meu coração, por várias semanas eu participei de bailes, eu vi coisas no espelho com ela, escutei as musicas dela, eu fui a shows com ela e todo o tipo de coisa. Não importa quanto tempo se passasse, sempre que eu olhava pra ela, meu coração se acalmava por completo, mas meu espírito aventureiro não podia ser parado dessa forma, então, depois de um tempo absurdo apenas presumindo, eu falei com a Dandara sobre o que eu estava pensando.


Antonio: aí querida


Dandara: que foi?


Antônio: você iria gostar de sair em explorações comigo?


Dandara: nada me deixaria mais feliz


Antônio: não tem problema de sair de casa por tanto tempo?


Dandara: tenho certeza que tudo vai ficar bem, agente economizou o bastante pra ficarmos fora por um tempo


Antônio: é, diferente de certas pessoas.


Todo mundo tava tão ocupado ultimamente, os garotos que se diziam inteligentes e não estudaram o suficiente, ou os moleques de decidiram tomar vantagem como um bandido e foram destruídos pelos cavaleiros, e todas as pessoas que não tinham paciência pra passarem o que nós dois passamos, todos estavam ocupados demais hoje em dia, e agora, era a hora da recompensa máxima.


Antônio: eu tô ansioso pra poder passear com você de novo


Dandara: e eu tô ansiosa pra saber os lugares doidos que você vai me levar.


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