Nossa, já tinha passado muito tempo desde que eu entrei naquele lugar, mas no momento que eu entrei lá, me senti em casa novamente, a sensação de estar ali, mesmo sendo apenas algo que minha querida esposa fez pra mim pra eu ficar mais confortável em minha nova casa, eu estava na biblioteca improvisada da casa da Dandara, até agora, eu era aquele que mais usava aquela sala, mas eu não me importava com isso, aquele momento, eu estava andando no meio dos vários livro, até encontrar um livro que eu mantive perto e mim desde que o li pela primeira vez, apesar de eu realmente gostar muito dele, eu deixava a trilogia dele sempre próxima de mim.
Eu não podia esquecer nunca poderia esquecer aquele ensinamento, eu não era mais uma criança, nem quase ninguém que eu conhecia, mas eu pensava ser saudável lembrar a mim mesmo o que acontecia quando uma criança não tinha permissão de ser uma criança, e aquela trilogia transmitia aquilo de forma perfeita.
Quando peguei o primeiro livro, eu li que na superfície parecia uma história bem tradicional, onde um grande herói escolhido por uma espada lendária estava destinado a destruir o maior mal daquele mundo, e realmente parecia ser uma história normal, com o protagonista lutando contra monstros, fazendo um pequeno time cheio de pessoas que estavam prontas pra ajudar ele a todo o momento, tudo parecia absurdamente bem, bom, tudo ate ele começa a matar pessoas de verdade.
Era naquele momento onde o livro se destacava, ele deixava naquele momento de ser um livro de fantasia normal, pra apenas mostrar que, guerreiros não matavam com um golpe ou morriam de forma pacífica, se você atacasse alguém pra matar, você iria provavelmente precisar de mais e um golpe pra matar com sucesso aquela pessoa, e ela iria gritar, muito, antes de morrer de vez, e eu amava como o livro explicava tintim por tintim o terror que a criança sentia a cada pessoa que ele cortava.
O garotinho e pequeno herói tentou se iludir, pensando que as coisas iriam ficar mais fáceis, ou que seus amigos iriam ajudá-lo, mas no fim, seus amigos, os "adultos" que jogaram aquela profecia pra ele, e até sua própria família que o abandonou naquela profecia pra própria sorte, ninguém ligou pra ele em suas emoções, para aquelas pessoas, enquanto ele ainda conseguisse brandir a espada, ele estaria bem.
Os detalhes da história depois desse ponto era algo que poucas pessoas conseguiriam aguentar, porque elas detalham tintim por tintim toda a jornada do herói criando um ideal que, no final, as emoções dele não importam, então ele trancou cada uma delas numa jaula enquanto ele matava mais pessoas do grande mal supremo.
Em vários pontos do livro, ele chegava até a chorar no meio da noite escondido, onde ninguém podia vê-lo, mas depois de algum tempo, ele havia parado de fazer isso, de tão ruim da cabeça que ele tinha ficado.
Então, depois de matar todos os generais, e depois de limpar o mundo do grande mal e de ganhar uma medalha, um beijo da Princesa, e um simples "obrigado" depois de tudo que ele sacrificou pra salvar aquele mundo, todo mundo seguiu em frente, os amigos que ele ajudou a superar os próprios problemas pessoais no meio do caminho seguiram suas vidas, o reino que clamou tanto pela sua ajuda, virou as costas pra ele no momento em que ele não tinha mais utilidade, e a família dele, que sempre o forçou a ser um grande herói, agora o deixou em paz, dizendo pra fazer o que ele quisesse agora que ele não precisava mais ser o herói...
O único problema, era que o protagonista, que agora era um adolescente, que estava recheado de traumas, não sabia o que ele era, ele apenas sabia ser o herói, e se ele não era o herói, ele não era nada.
O primeiro livro da trilogia se encerrou com o grande herói debaixo de uma ponte suja e imunda com muitos moradores de rua, porque ali, ele sabia que ninguém iria achar estranho se ele chorasse, e nesse rio de melancolia, onde o herói era jogado cada vez no abismo de desespero das dores que nunca foram dele pra começar, o primeiro livro acabou.
Eu queria ler o segundo logo de início, mas me segurei o máximo que pude, eu fechei os olhos, respirei fundo e absorvi aquela história, sim, o horror das mutilações, do que realmente acontece quando uma cidade é pilhada, e o horror de ver feitiços sendo usados para métodos de torturas tão cruéis que até alguns membros da equipe o protagonista vomitarem várias vezes.
Tudo isso pelos olhos de uma criança que nem tinha entrado na puberdade ainda, e de uma cidade, de um povo, e de uma sociedade em si, que nunca ligou pra ele, mas sim pro que ele podia fazer, e no segundo livro, eles iriam pagar por isso.
Mal, sem esperança e com dores inexplicáveis, no segundo livro o Herói começou a vagar por aí, quase como um fantasma, nesse ponto ele nem sabia se ele estava realmente vivo ou não, e não ligava, mas ao mesmo tempo, quanto mais ele andava, mais ele sentia a gigantesca hipocrisia que o seu próprio reino criou.
De alguma forma, ele sempre era atraído para cidades onde os mesmos atos que eles abominavam no exército que ele exterminou eram realizados por eles próprios, e junto com a ignorância que eles tiveram com seus próprios sentimentos, o Herói sentiu uma fúria incalculavel, uma quase inexplicável, mas ele se segurou, ele segurou a si mesmo da melhor forma que conseguia, mas era difícil, porque depois de tudo que ele segurou, era difícil sequer manter qualquer coisa inteira.
E naquele breve momento, o grande Herói, se tornou o maior vilão de todos, por que no fim, depois de ignorar todos os seus sentimentos, e tentando apenas ser a pessoa mais racional do mundo, ele foi engolido em um ódio tão profundo e violento que ele apenas caçou e matou seus antigos companheiros, um, por um, nem o grande amor da sua vida foi poupado, na verdade, os registros até chegam a falar que ele foi bem mais agressivo com ela que com os outros, o que levando em conta a forma como ela o tratava, não era pra menos também.
O reino tentou de tudo pra entender o que ouve, mas não conseguiram encontrar o culpado, apesar de louco, o herói ainda era esperto de alguma forma, conseguindo desviar e sair de perto de qualquer suspeita, todos apenas entenderam o que estava acontecendo quando já era tarde demais.
Depois de tudo que o Herói aguentou, ele usou cada resquício de fé e humanidade pra se manter são depois de toda a dor que ele teve que suportar, e quando isso acabou, só restou o animal, e ele estava faminto por carne e sedento por sangue, o grande reino que ele ajudou tanto a proteger perdeu 80% de todo o poder, com a maioria dos soldados sendo destruída apenas pelo ex Herói, e ele não parou por aí, não não, ele estava apenas começando. Depois disso, o Herói estava eufórico, porque ele não conseguia mais segurar nada, mas ele estava feliz por soltar todas as coisas que ele guardou depois de tanto tempo, ele era livre agora, não tinha amarras nele, e todo o reino que o rotulou como salvador, e depois o descartou, ficou fragilizado.
Então, ele caminhou para os resquícios do que tinha do grande império que ele dizimou, que agora não passavam de uma vilazinha pequena, com os sobreviventes do exército, que também haviam muitos soldados que tinham uma absurda furia jogada para o herói.
No meio daqueles soldados, um deles, o único general vivo, e o mais fraco general, enquanto todos ainda estavam vivos, se aproximou do Herói. Ele usava a própria espada como uma muleta, porque ele não tinha a perna e nem o braço esquerdo, mas quando ela ficou frente a frente com o Heroi, uma das finalizações mais maneiras que eu já vi numa história aconteceu.
General: você tem muita coragem pra mostrar a cara aqui heroizinho, o que é que você quer?
Herói: uma chance de me redimir...e de fazer o reino que fez isso com nós dois queimar.
O general sobrevivente sentiu o peso verdadeiro nas palavras do Herói, e não tendo nada para perder pra ele dessa vez, o general "do mal" sobrevivente, aceitou a ajuda do Herói. E no fim, o Herói pediu apenas pro general o esperar pra atacar todo o lugar quando ele desse o sinal. O General não sabia o que ele quis dizer com "sinal" mas o Herói apenas falou que ele saberia o que era quando chegasse a hora.
O general estava cético, mas ainda aceitou a proposta, e no grande dia onde o plano do Herói iria acontecer, o Herói foi pra um canto diferente da cidade e se transformou em um monstro. E agora como o segundo livro descreveu, a mudança do herói foi algo assustador.
Antonio: "apesar de estar livre, eu só fiquei livre nas sombras, foi apenas no escuro que eu testei e pude entender por completo quem eu sou, mas depois de se acolhido pelas sombras e me permitir descansar, era hora da luz finalmente ver esse meu verdadeiro eu, e nesse momento, os desgraçados vão morrer".
E depois daquilo, o herói se transformou em um grande aglomerado de sentimentos solidificados pela própria magia, o transformando em um grande monstro de 120 metros de altura. O terror que o monstro causou foi tão intenso que muitas pessoas morreram apenas dele aparecer. E depois de ver aquilo, o general sobrevivente soube que aquele era o sinal, e logo entendeu o que era que o Herói queria, ele queria o general pra impedir que qualquer um dos desgraçados que fizeram isso com eles escapassem e o general ficou bem feliz em fazer a parte dele do acordo.
Um banho de sangue e morte generalizada foi descrito no livro, e ao invés de culpa, o Herói sentiu alegria, finalmente ele estava se sentindo bem, ao menos realmente bem, por que agora, os seus sentimentos estavam sendo ouvidos.
E quando o banho de sangue acabou, e o reino grandioso que ele mesmo protegeu por tanto tempo foi reduzido a nada, não havia sequer escombros, apenas poeira e pedrinhas pequenas demais para serem considerados escombros e a armadura de sentimentos sólidos que ele mesmo criou continuava inteira, sem nenhum arranhão, o general sobrevivente ficou frente a frente dele, e essa era a minha parte favorita do livro 2.
Herói: então, o que acontece agora?
General: acho que essa é a parte onde eu decido se eu te perdoo ou te mato...mas é difícil, eu ainda escuto os gritos dos meus soldados, do meu povo que foram mortos por você
Herói: eu também.
Então, o general descobriu a culpa no herói, uma culpa que parecia mais intensa do que o general que mandou seus próprios soldados à morte, e com um sorriso sádico, ele falou.
General: não, te matar seria uma saída fácil demais pra você, você vira conosco, será nossa arma de destruição, sera o nosso cachorrinho, tudo enquanto você se afunda em culpa por todos os soldados que você matou enquanto nos serve
Herói: isso tá bom pra mim.
Então, o antigo herói foi levado para os cantos mais profundos daquele reino destruído. O antigo império que ele ajudou a destruir tinha um novo líder, o general com um novo braço e uma perna prostética, e logo, o general adotou o título de Imperador, e jurou que sempre protegeria aqueles que sobraram de seu povo.
E novamente, fechei devagar o livro, fechei os olhos e absorvi tintim por tintim aquela história, aquilo não era uma simples história de um Herói se corrompendo, era a história de alguém que manteve sua máscara no lugar o maximo que conseguiu, até que a mascara quebrou, a sombra catou os pedaços, e ele se tornou aquilo. O herói não tinha virado aquilo por ser fraco, mas sim por ser muito forte por tempo demais.
Um animal que apenas conseguia viver através da culpa, da dor e do ódio que ele tinha de tudo e todos, era triste como muita gente vivia assim, e muitos sequer entendia porque eles enlouqueceram pra começar, mas isso era pra mostrar também como muitos lugares estavam simplesmente perdidos em sua própria ignorância.

