Aquela simples pergunta me fez voltar pra terra de forma quase instantânea, Pandora, a filha do meu mestre, e talvez a garota mais bem protegida de todo o reino.
Antonio: o que tem ela?
Saytus: sei que você me explicou que ela não nasceu desse jeito, mas que ela ficou assim por que um médico a derrubou no nascimento, mas, é apenas isso?
Antonio: eu não sei os detalhes, mas é algo bem triste pra falar a verdade
Saytus: triste como?
Antonio: eu não sei se você notou, mas apesar do corpo dela não a obedecer direito, ela tem a capacidade completa de raciocinar, se comunicar e de tomar decisões, uma forma excelente de mostrar isso é que ela aprendeu língua de sinais, mesmo com o corpo dela não á obedecendo…e quando eu penso nisso, eu sinto um pouco de vergonha
Saytus: vergonha de que?
Antonio: a Pandora é uma garota presa no próprio corpo, em um corpo que, apesar dela conseguir pensar de uma forma normal, não consegue obedecê-la de nenhum jeito, deixando impossível que ela viva sozinha…e nem apenas ela, tipo, pessoas com a maldição do gigante feliz, ou pessoas com a maldição do ciclo indestrutível. E até pessoas com a minha própria maldição, os super sentidos, em graus diferentes. Cada uma delas tem efeitos que vão acompanhá-los por toda a vida, muitos deles talvez nunca cheguem a morar sozinhos, e talvez nunca consigam cuidar de si mesmos. E…isso me faz pensar que…eu estou abusando das coisas sabe, eu estou me aproveitando de coisas que deveriam apenas ser usadas com pessoas com maldições sérias de verdade
Saytus: ué? nao foi voce que me falou varias vezes que “maldições são diferentes, até as ditas iguais” e “cada amaldiçoado é único”? E também, idai que você é alguém com uma maldição leve? você merece ser tratado como todo mundo
Antônio: mesmo que tenha gente que mereça isso muito mais que eu?
Saytus: exactamente porque existe muita gente que precisa disso muito mais que você, o que voce acha que aconteceria no mundo se apenas às pessoas com os casos super graves fossem levados em conta enquanto os mais leves são ignorados? O pequeno surto que você sempre gosta de nos lembrar que passou iria acontecer em muitos outros lugares, talvez até chegando a destruir o continente inteiro se fosse negligenciado o suficiente
Antonio: humpf, nunca pensei nesse lado
Saytus: e também, exatamente por sua maldição ser leve que ela precisa ser mais estudada e levada mais a sério, porque ela é uma difícil de identificar, não levou mais de 15 anos pra descobrirem o que você tinha? tipo, imagina se eles tivessem pesquisado um pouco mais e te encontrado mais cedo? o quanto de coisas que você poderia ter evitado se as pessoas tivessem levado sua maldição “leve” a sério
Antonio: eu gosto de quem eu me tornei, não posso negar isso, mas eu também iria amar pensar num passado onde as pessoas já sabiam o que eu tinha, eu fico pensando no quanto de coisas seriam diferentes se isso tivesse acontecido.
Eu fechei os olhos um pouco, e pensei nos gritos e repreensões que eu teria evitado, os momentos de stress que eu teria evitado, os confortos que eu teria dos outros sabendo que os meus surtos eram uma sobrecarga de estímulos ao invés de uma birra de criança, e talvez, apenas talvez...não, ele nunca admitiria o que eu tinha, porque ele era um covarde.
Voltando aos pensamentos bons, pensei em todos os bailes que eu conseguiria evitar e quantos eu teria a carta branca pra sair cedo, apenas explicando a minha condição, eu realmente tinha muitas coisas boas sobre isso, mas quando eu pensava nas minhas amizades, eu via como todos os amigos que eu vi estavam com os rostos nublados, porque aqueles meus amigos não eram meus.
Antônio: mas então eu lembro que se isso acontecesse, eu provavelmente nunca teria conhecido vocês
Saytus: só nos conhecer faz valer a pena o sofrimento que voce passou?
Antonio: não apenas isso, mas minha personalidade, minha resistência a certas coisas, minha determinação pra aprender, cada resquício de mim, tanto bom quanto ruim foi algo que eu desenvolvi até aqui graças ao meu passado, e apesar da minha vida não ter sido perfeita, eu gosto de quem eu me tornei nesse caminho, mas nem pagando que eu passaria por tudo isso de novo
Saytus: entendo o que você quer dizer, tem certas pessoas que não conseguem aguentar a ideia de reviver uma vida de dor, desespero e autorealização duas vezes, muitas já estão felizes com o que elas já conseguiram
Antonio: e você consegue?
Não sabia se estava sendo pessoal demais, mas no ponto onde eu estava, eu nem ligava mais, eu só queria tentar entender a garota melhor. Então eu vi, a Saytus se remoendo um pouco e olhando pra várias direções diferentes, e eu só podia imaginar o tipo de lembranças que ela poderia estar tendo agora.
Saytus: eu conseguiria, porque eu sou uma filha de guerreiros, guerreiros que tem a coragem de dizer quando algo está errado ou quando algo não tá funcionando, então eu não tenho muito que reclamar da minha infância além é claro do treino que eu tive que fazer pra chegar ao reino Sapien
Antônio: você nunca me deu detalhes desse treino
Saytus: bom, pra começar, nós éramos introduzidos a dor arrancando e cortando nossos próprios braços, pra conseguimos regenerá-los de forma instantânea, depois nós aprendemos o raciocínio pra conseguirmos usar duas varinhas, uma defensiva e uma atacante o tempo todo, depois nós éramos deixados na floresta com nada além de nossas varinhas para nós sobrevivermos por conta própria por um tempo, e depois de uma grande quantidade de testes, nos entregam um mapa pra encontrarmos o reino Sapien
Antônio: nossa, e por que você aceitou esse treinamento?
Saytus: por que a floresta das fadas é muito perigosa pra crianças e até pra adultos, você já deve ter sentido, mas aquele lugar é sinistro, com dinossauros por toda a parte, armadilhas de animais capazes de usar feitiços, bandidos de tocaia apenas esperando um alvo, mesmo sendo escoltada pela minha nova família, eu precisei ser forte eu mesma para conseguir chegar na minha nova casa
Antônio: nossa, e você diz que não pensa que passar por tudo isso de novo seria horrível
Saytus: até que não, porque eu meio que gostei daquilo.
Eu olhei bem analítico pra Saytus, ela não tava mentindo, nem com medo de falar o que ela realmente sentia, ela realmente tinha gostado de sentir dor, e ficar a beira da morte várias vezes, e pelo sorriso de inseto dela, eu conseguia ver que ela não apenas aguentou, ela realmente gostou de todas as batalhas doidas que enfrentou.
Antônio: é, as fadas realmente são uma raça guerreira
Saytus: você diz como se todas as raças do mundo não fossem guerreiros de alguma forma
Antônio: ué? Mas as fadas são as especialistas em combates, ciclopes são especialistas em engenharia, elfos são especialistas em medicina, vampiros são especialistas em culinária…
Saytus: e os Sapiens são especialistas em que?
Antônio: em se adaptar, não podemos evoluir fisicamente como certas raças, mas quanto mais evoluímos aqui (aponta pra própria cabeça) conseguimos nos adaptar e ficar absurdamente mais fortes, não importa a situação
Saytus: humpf, não é atoa que vocês não conseguem exterminar os Cavernosos, já que eles são seus parentes mais próximos.
Ah, os Cavernosos, uma espécie homo primitiva que na teoria deveria ter sido extinta a muito tempo atrás, mas com o desejo de se recusar a evoluir, muitos daquela espécie decidiram continuar como animais selvagens, e hoje, eles eram uma praga que era o maior motivo de animais entrarem em extinção e a verdadeira razão para aquela muralha existir em primeiro lugar.
Antônio: ainda é doido pra mim pensar que aqueles caras são tão parecidos conosco, mas não são humanos, mas não foi por falta de tentativa que eles não são considerados humanos, nós tentamos ensiná-los a falar e não funcionou, nós tentamos deixar eles viverem entre nós, e eles nos caçaram como se fossemos animais, tentamos até ignorá-los e deixar eles no canto deles e eles no nosso, e no fim, quando eles se reproduziram o suficiente, eles criaram um exército e tentaram destruir o reino, chegando até a canibalizar alguns Sapiens, eeeeee, foi nesse ponto que o Rei entendeu que eles não eram humanos, e tentar continuar negando isso só ia causar mais problemas no futuro.
A Saytus apenas fechou os olhos, e absorveu aquela história, me fazendo sentir que ela entendia aquilo tudo bem mais do que estava deixando transparecer, e quando abriu eles de novo, ela falou.
Saytus: a mudança de reis já tinha acontecido nessa época?
Antônio: sim, na verdade, foi nesse período que os Cavernosos apareceram pra nós, pelo jeito eles observaram o reino de longe, eles esperaram nos abaixamos a guarda pra aceitá-los e depois nos atacar, como predadores prontos pra abater a presa, eles se aproximaram de nós e tentaram nos destruir, mas como os parentes deles próprios, não é tão fácil de exterminar os Sapiens
Saytus: nem ninguém da família Homo
Antônio: é…às vezes fico pensando se eu vou chegar a enfrentar um Cavernoso um dia
Saytus: enquanto nossos queridos cavaleiros ainda estiverem dando suas vidas para manter esses animais assustadores longe de nós, acho que não.
Sim, por que o assustador nos Cavernosos, além deles serem parecidos com Sapiens, e não parecidos o suficiente ao mesmo tempo, eles eram capazes de usar o poder dos deuses, a Aura, a Magia e o Chi, o que fazia a proteção da muralha apenas ser capaz de ser feita por magos e cavaleiros de elite mais essencial do que nunca. Mas eu respirei fundo, pensando que enquanto o meu irmãozão ainda defendesse as muralhas externas, não teria que me preocupar com isso.
Antônio: você já encontrou um Cavernoso?
Saytus: não, eles não entram na floresta das fadas, tem muitos dinossauros lá
Antônio: justo…pera ai, onde eles ficam então?
Saytus: nas terras de ninguém, em cantos distópicos, apenas as vezes que eles aparecem nos limites das fronteiras, tentando dominar o lugar.
Depois dessa, meio que o papo morreu, mais por que agente precisava respirar um pouco antes de conversarmos mais, mas eu ainda tava bem feliz com o que agente falou, eu sempre soltava minha língua quando tava com meus amigos.
Então, eu finalmente levantei, vendo como eu tinha ficado deitado tanto tempo que meus ossos estalaram, mas não ligando muito pra isso, eu fui pegar um sanduíche, vendo como a Nala estava lá agora, enquanto a Dandara agora explicava o Brutus como o telescópio funciona. E quando olhei a Nala de novo, ela tava fazendo uma cara de raiva bem sinistra.
Nala: humpf, eles são amigos a um bom tempo, né?
Antônio: é, eles passaram por bastante coisa juntos, é normal
Nala: bom, pelo menos sei que a ruiva não vai fazer nada com ele, ela não é esse tipo de pessoa
Antônio: tem certeza em afirmar isso? Ela pode não ter te contado muita coisa nesse encontro de vocês
Nala: vou falar de novo Antônio, eu sou boa em ler pessoas, e a ruiva é alguém legal, não se preocupa com isso não, mas isso não me impede de sentir raiva quando meu namorado tá perto demais de alguém que eu conheci hoje
Antônio: entendo sua apreensão
Nala: tipo, ele nunca mencionou ela pra mim uma única vez, e agora ele tá ali, falando com ela como se eles fossem melhores amigos, sem nem explicar direito as coisas pra mim, me fala, eu sou errada por estar receosa?
Antônio: nem um pouco, não vou mentir, acho que eu ficaria assim também se a Dandara aparecesse do nada com um amigo que ela nunca mencionou uma única vez numa reunião assim.
Então, a Nala levantou seu copo de suco, quase como se fosse uma taça de vinho, e brindando os copos, ela falou.
Nala: um brinde a isso.
Não fazia ideia se ia chegar a fazer uma observação de estrelas assim com o pessoal outra vez, mas eu gostei muito do que eu fiz. E pelo jeito, todo mundo gostou também, mas sentia que eu iria ficar mais tempo no boliche do que aqui, apesar de isso ficar bem melhor do que o outro lugar.

