Alguns dias depois, eu não sabia por que eu fiz isso, eu realmente não tinha ideia, mas por alguma razão, eu tive a ideia de chamar a Saytus, a Dandara, e o Brutus pra fazer algo estranho, eu ainda me lembro das palavras que eu falei, e ainda mais o quão estranhas elas pareciam saindo da mina boa.
Antonio: ei gente, eu to um pouco entediado, o que vocês acham da gente sair a noite pra ficar numa colina meio afastada da cidade e apenas ficar olhando as estrelas em um piqueniquezinho?
Eu realmente não sei por que eu falei aquilo, mas a parte mais doida era que os 3 concordaram, sem nem pensar duas vezes, e nesse ponto, eu tava começando a pensar quem do grupo era mais doido, não conseguindo resultados muito bons.
Em um momento diferente, onde nós estávamos cavalgando por um ponto um pouco menos urbano do Reino, eu estava em cima do Zorro, com a Saytus do meu lado, trazendo uma pequena lona, a minha esquerda, o Brutus estava em cima de seu pônei enquanto carregava uma cestinha cheia de sanduíches nela, e acima de nós estava a Dandara, voando em cima vassoura modelo speed, trazendo alguns suquinhos caseiros. E eu, carregava frutas fresquinhas, haha, todo mundo combinou de trazer alguma coisa, então ficou tudo bem.
Agente andou por aquele campo não urbanizado por bastante tempo, no meio disso, eu olhei para meus amigos, pensando que, para um viajante desavisado, nós deveríamos estar bem assustadores. Eu estava com roupas um pouco mais leves e soltas, uma bermuda com um tecido bem mole, e uma blusa de mangas longas com feitiços de frio embaixo dela. O Brutus estava com apenas alguns mantos aqui e ali, como sempre. E a Dandara esta com um vestido bem solto.
Mas o que mais chamava minha atenção era o brilho de cada um, a carapaça de Saytus brilhava em azul naquele escuro, Brutus criava um pequeno brilho vermelho em seus pêlos, fazendo ele parecer um fantasma sinistro, a Dandara tinha seu lindo cabelinho vermelho brilhando enquanto esvoaçava no ar com um vento que sequer existia. E eu, com exceção dos meus olhos brilhando em amarelo, todo o meu corpo era absurdamente sombreado, deveria ser realmente como ver os cavaleiros da morte na visão normal pra qualquer um.
Mas nenhum de nós ligou pra isso e apenas encontramos um lugar bom, colocamos a lona no chão e eu preparei um pequeno telescópio pra conseguir ver as estrelas melhor, naquele lugar(eu encontrei aquele telescópio no quarto de tralhas da minha família). Eu nunca tinha feito isso antes, nem sabia o que fazer, mas pensei que seria legal tentar isso com eles ali.
Isso até eu notar uma outra pessoa ali, mas precisamente alguém que o Brutus trouxe, eu fiquei na dúvida de quem era, mas vendo como o Brutus a tirava de cima de seu pônei e como a maga invocou com uma absurda naturalidade uma cadeira de rodas, já soube bem quem era.
Antônio: nossa, não achei que você viria Nala
Nala: tá brincando? Estrelas são meio que o meu lance, quer que eu te ensine a usar essa belezinha?
Antônio: é, pode ser.
E enquanto o pessoal aprontava tudo, e o Brutus e a Saytus começaram a olhar as estrelas primeiro e a Dandara fazia o papel de comilona, comendo o primeiro sanduíche da festa com uma dedicação a cada mastigada que parecia até que o sanduíche era a maior obra de arte do mundo. Eu aprendia a usar o telescópio com a Nala.
Eu aprendi a usar cada um dos discos, aprendi a identificar estrelas, e muito mais, além de eu aprender bastante de muitas constelações, constelações de segundo a Nala, “Humanos que entraram na história”. E vendo uma constelação que depois de eu analisar com bastante cuidado uma dessas constelações, que depois que eu vi parecia muito a imagem de um elfo água viva segurando uma inchada.
Nala: tá vendo? Aquele ali é o Otto o agricultor, o único elfo que conseguiu plantar um campo inteiro de vegetais em terras mortas.
Depois de olhar um pouco mais, eu vi uma outra constelação, aquela era um ogro que parecia estar costurando um vestido. Eu precisei de muito tempo pra enxergar as coisas como a Nala estava falando, mas depois de ouvir detalhe por detalhe o que a Nala dizia, e depois de apertar os olhos um pouquinho, eu consegui ver, e olha, a constelação até que tava muito bem feita.
Nala: ah, aquela ali é de Sergey, o guardião, um ogro famoso por salvar a vida de uma rainha, criando o vestido de casamento dela com um tecido tão forte que ela sobreviveu uma tentativa de assassinato no altar
Antônio: sério? Como eu nunca vi um livro desse cara?
Nala: ah, Antônio, nem todas as histórias interessantes estão nos livros, hummmmm.
Ela me fez uma expressão estranha com as mãos, que eu não entendi, e eu agradeci aos céus que ela entendeu rápido isso.
Nala: eu descobri essas histórias enquanto eu estudava as estrelas, tenho certeza que se você procurar direitinho, você vai encontrar umas histórias muito mais doidas do que as que você lê nos livro
Antônio: ah, eu tenho escutado muitas histórias boas Nala
Nala: por exemplo?
Antônio: bom, por exemplo, tem o conto do Saci Pererê, uma criatura humanoide com apenas uma perna, que tem o único propósito causar o caos onde passa, mas ela nunca sai do território dos ogros, muitos dizem que ele é um goblin escuro, ele tem uma cabeça que pega fogo e que se você de alguma forma conseguir pegar o fogo da cabeça dele, ele é obrigado a seguir suas ordens
Nala: uuuuuh, já ouviu alguma outra coisa?
Antônio: bom, eu também ouvi dizer da flor da samambaia, uma flor lendária que está no centro da floresta das fadas, e que a única coisa que é maior do que sua beleza, é seu poder mágico, dizem que toda a floresta das fadas é energizada por aquela única flor
Nala: wow, que doidera
Antônio: e eu também ouvi a história de um grande artefato que pode transformar de forma permanentemente um homem em uma mulher, ou vice-versa. Ele até consegue apagar totalmente o gênero de alguém, o transformando em…bom, não sei se tem um nome pra isso, mas você entendeu. O criador dessa relíquia criou ela pra que os dois gêneros conseguissem se entender melhor, claro, ele não esperava que as pessoas usassem ele pra trocarem pro gênero que elas pensavam em estar mais confortáveis, mas tenho certeza que ele não se importaria em descobrir que sua relíquia foi usada pra esse tipo de coisa
Nala: wow, onde você aprendeu essas coisas?
Antônio: na Árvore de Halloween, é um lugar que é muito famoso, seguro e protegido entre os aventureiros, muitos exploradores de fora do continente, mais de ilhas isoladas vão até lá pra conseguir um lugar pra descansar as pernas, pra contratar um mercenário, ou pra encontrar um guia como moa.
Falei isso com o maior orgulho do mundo, e a Nala entendeu na hora o que eu tava tentando fazer.
Nala: nossa, você deve estar famoso lá ainda
Antônio: nem tanto, não tive clientes o suficiente pra ter fama, mas já tive o bastante pra não precisar trabalhar por algum tempo
Nala: vida boa né?
Antônio: a única vida que eu aceitaria, afinal, eu lutei muito pra conseguir ela
Nala: é, eu também
Antônio: e aí, o que tem feito?
Nala: eu me arrisquei na cartografia, e eu me tornei uma navegadora de navios
Antônio: nossa, cada dia deve ser uma aventura pra você
Nala: nem me fala, eu já perdi a conta de quantas vezes eu quase rolei pra fora do navio, a ponto que um dos marinheiros que eu trabalhei criou uma cadeira modelo aranha pra eu parar de ficar caindo
Antônio: hahaha, deve ter sido muito engraçado
Nala: um dos marinheiros falou pra mim “um dia você vai se lembrar e rir disso”.
Então ela fez a cara emburrada mais fofa que eu já vi.
Nala: mas esse momento não chegou ainda, eu ainda tô irritada sempre que eu lembro das vezes em que eu quase cai no mar
Antonio: te entendo garota, eu mesmo ainda tenho problemas pra ver os momentos em que as pessoas dizem que eu vou ficar feliz no futuro, porque isso ainda não aconteceu comigo.
E com mais um rosto super fofo, ela falou.
Nala: isso aí, não tem nada engraçado naquilo, agente apenas sofre, o que tem de engraçado nisso?
E assim agente continuou conversando, e eu percebi cada vez mais esses momentos onde ela apenas faz uma cara fofa assim do nada, eu não tinha chão pra perguntar, falar ou afirmar se ela já foi assim em algum momento, porque eu não a conhecia o suficiente pra realmente saber, e ainda tinha o telescópio que agente dividia junto.
Até que eu senti uma intenção assassina nas minhas costas, era a Dandara, ela estava sorrindo, mas eu sentia a raiva e o ciúme exalando da magia dela…tentei não ficar com medo, e a forma mais natural do mundo, perguntei.
Antonio:oi amor, quer ver as estrelas também
Dandara: quero, você pode me mostrar?
Antônio: ah, melhor você perguntar pra Nala, ela é a especialista aqui.
E quando eu olhei pra ela melhor, vi que ela não estava com raiva e mim, mas sim receosa da Nala, é, agora que eu lembrei, sem contar a festa do churrasco, aquela seria a primeira vez que as duas se viam de forma direta, mas eu sabia que tudo iria acabar bem, conhecendo a Nala, ela com certeza iria acalmar a Dandara antes de algo muito ruim acontecer.
Me convencendo de que as coisas acabariam bem, eu me afastei um pouco, tentando ir a lona onde a Status continuou deitada desde que nos chegamos, enquanto eu via que agora era o Brutus que tava comendo o sanduíche, e eu apenas deitei lá, com a maior inocência do mundo, preparado pra todo o tipo de papo que a fada quisesse falar comigo, sem recuar em nenhum momento.
Saytus: ah, esse céu preto, com mais estrelas do que da pra contar com 4 braços, isso me faz lembrar de quando eu era uma pirralha e eu ainda morava no reino das fadas com os meus pais, eu percorri um longo caminho até chegar aqui
Antonio: sene falta da sua antiga casa?
Saytus: todos os dias, mas sei que fiz a escolha certa, apesar de não ser o reino das fadas, o reino Sapien tem várias coisas que só fadas com gostos como o meu podem aproveitar, gostos que não da pra se satisfazer na minha terra natal
Antonio: entendo o que quer dizer, as vezes eu fico pensando se eu me daria melhor em algum outro território
Saytus: se você saísse daqui e fosse pra outro lugar, aposto que você iria para as terras dos gigantes, mesmo os mais barulhentos gigantes não conseguem ser tão barulhentos como o mais calmo Sapien
Antônio: é, eu senti isso em primeira mão.
Aquilo sequer era um eufemismo, era verdade, além do templo dos gigantes, eu visitei vários lugares diferentes, com gigantes diferentes dos monges, e apesar de cada lugar tem sua cultura e costumes diferentes, cada um deles tinha uma coisa específica ainda muito forte e ainda muito bem incrustada nos gigantes, como se fosse parte do dna deles, que era a calmaria, até os cantos mais doidos e barulhentos do reino gigante, como as ilhas controladas por piratas, tinham uma espécie de calmaria que era difícil explicar, mas que não existia muito no reino Sapien.
Antônio: mas apesar de todas as complicações, eu ainda não desisti de morrer aqui
Saytus: é assim que se fala, lute pelo que você chama de lar, não importa se é uma terra sem lei ou uma terra estrangeira, se te faz sentir seguro e acolhido, então vale a pena defender o lugar.
Não sabia se a Saytus estava tentando bancar a inteligente, mas aquelas palavras me afetaram de uma forma que eu nem conseguia imaginar, e apenas refletindo no que eu acabei de ouvir, refletindo sobre como, apesar de todos os problemas e dificuldades que eu tinha nesse reino, todas as coisas que eu guardei, toda a raiva que eu passei, toda a negligência que eu sofri, eu ainda tenho orgulho de chamar esse lugar de minha casa, eu falei, com uma voz tranquila que parecia que eu estava me preparando pra dormir, falei.
Antônio: é, vale a pena defender meu lar.
Então, eu apenas fiquei deitado ali, com a fadinha, só levantando a cabeça uma vez pra ter certeza que a Nala acalmou a Dandara, e pra surpresa de 0 pessoas, ela conseguiu, o que pareceu ser a última peça o meu estresse para eu conseguir me acalmar completamente.
Depois o papinho básico que tive com a Saytus, dediquei todo o tempo que ainda tinha para olhar as estrelas, sentindo um tipo de felicidade que ficava no meu peito de forma calminha e relaxante, ao invés ela apenas explodir pra milhares e direções diferentes como normalmente era.
E no meio de um processo que eu quase dormia várias vezes, entrei em um estado de devaneio onde quanto mais calmo eu ficava, e quanto mais fundo eu respirava, podia sentir o meu stress e minhas manias sendo deixadas de fora desse momento especial que eu passava com meus amigos, até chegar um ponto onde as estrelas pareciam me chamar, então eu levantei metaforicamente a minha mão para pegá-las, e senti como se eu fosse levado para cima, eu estava me unindo as estrelas, flutuando no meio delas, dançando junto com a Saytus.
Em meio a escuridão da noite e o simples brilho das estrelas, senti que eu tava dançando no meio da água, eu amava aquele momento, e depois de muito tempo, enquanto eu me perguntei se eu devia comer alguma coisa antes de que todo mundo comesse as coisas boas, a Saytus me perguntou algo interessante.
Saytus: sei que isso é do nada, mas, me fala a verdade, o que você sabe sobre a Pandora:
Nooooooossa, aquilo ia ser bem interessante.

