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A passagem de uma vida🌻3
😡😶‍🌫️👿eu entendo agora👿😶‍🌫️😡
2068 palavras • 11096 caracteres • ⏱ 8 min 16 s

😡😶‍🌫️👿eu entendo agora👿😶‍🌫️😡

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E novamente, eu estava ali, conversando com a Kauane, como sempre, eu tinha me esquecido de boa parte das coisas que nós já conversamos, eu nem sabia se nós chegamos a ter esse tipo de papo ou não, mas tendo ou não essa conversa antes, eu iria falar pra ela o que eu tava sentindo.


Antonio: você acharia estranho se…eu dissesse que eu nao quero mais chegar perto do meu pai?


Kauane: pensei que você tivesse perdoado ele


Antônio: não foi isso que eu perguntei, eu perguntei se voce, minha Psicomaga, a pessoa que me entende às vezes melhor do que mim mesmo, acharia estranho que depois de tudo que eu falei antes do meu pai, não quero mais chegar perto dele de nenhuma forma


Kauane: bom, eu admito, realmente me a uma sensação de estranheza, mas é mais por que eu não entendo totalmente o motivo de você estar fazendo isso, pode me explicar?


Antonio: é por causa da minha mãe, ta bom, é por tudo que ele fez com ela, que eu não consigo ter uma elano normal com ele


Kauane: mas Antônio, você…


Antonio: “eu não tenho nada a ver com o que o meu pai e a minha mãe passaram, e que eu deveria ver ele apenas como meu pai, e não como o marido da minha mãe”, eu sei, mas não é fácil assim “deixar pra lá”


Kauane: e por que não?


Antonio: porque a minha mãe é a pessoa mais importante da minha vida, ela gritava e era dura comigo, mas era porque ela não sabia falar baixo, ela era uma das poucas pessoas que conseguia lidar comigo antes de eu me acalmar nas aulas de cavalgada. Além de que ela sempre soube que tinha algo a mais em mim, ela apenas não tinha um nome pra isso…


Então, com meu coração se apertando com as próximas palavras, eu falei.


Antonio: e ela me convenceu que eu tinha os Super Sentidos, quando nos descobrimos minha maldição, eu levei muito tempo pra aceitar isso, e ainda mais tempo pra finalmente conseguir colocar o colar de girassóis, por que colocar o colar, seria como afirmar pra sempre de que “sim, eu sou um Singular, eu sou diferente dos outros” sendo que eu passei mais da metade da minha vida me esforçando pra ser igual a todo mundo, foi difícil eu perder esse medo, o medo e deixar minhas manias e minhas peculiaridades saírem depois delas terem sido contidas por tanto tempo…


Eu respirei fundo, um sentimento de amor puro, que apenas um filho poderia ter por uma mãe, se apossou de meu peito, me dando forças pra continuar falando.


Antônio: mas a minha mãe nunca desistiu, com a paciência que ela conseguiu quando eu era criança, de pouco a pouco ela me convenceu de que tava tudo bem eu apenas fazer as coisas que as pessoas acham estranhas e diziam pra eu parar de fazer quando era criança…muitos diriam que ela só tava “fazendo o dever dela de mãe”, mas tanto pro meu eu criança, quanto pro meu eu de agora, foi muito mais que o dever de uma mãe, ela me libertou, ela me libertou do medo de ser eu mesmo, o medo que todo mundo que não entendia o que eu tinha implantou em mim, e eu serei eternamente grato a ela por isso.


O meu rosto deveria estar fazendo o rosto mais bobo na história, porque parecia que a Kauane estava triste, sabendo muito bem aonde eu queria chegar.


Antonio: e tem o meu pai, o cara que nunca acreditou no que eu tinha, uma coisa que seria simples de resolver, se fosse só isso, e minha mãe e minha família estavam certos numa coisa, ele é um ótimo pai, mas um péssimo marido…e talvez seja por isso que, mesmo eu tendo o perdoado, eu não consigo ficar perto dele, não mais…


O meu rosto ficou cabisbaixo com isso, era ruim pra mim mesmo fica longe dele porque no fundo, eu ainda amava o meu pai, mas a raiva e desgosto muito aprimorados depois de saber perfeitamente bem por que eu tinha raiva dele agora, diminuíu qualquer chance do meu amor ganhar da minha raiva dele agora.


Antônio: ele traiu, enganou, maltratou e ignorou a pessoa mais importante da minha vida, a ponto dela ficar doente, desenvolver a maldição do vazio e ficar mal a ponto de ser levada pra casa de reabilitação…a pessoa que eu tenho gratidão e amor eterno. Eu o amo, mas eu não consigo mais ficar perto dele, não consigo ficar perto de alguém que tratou tão mal alguém tão importante pra mim, é diferente da raiva que eu senti com as coisas que ele fez comigo, essa raiva não vai embora com o amor que eu sinto por ele, não, essa aqui expulsa todo o amor que ele cultivou em mim, e essa raiva fica e não parece que ela vai ir embora algum dia…e eu não quero que ela vá.


A Kauane me observou por bastante tempo, provavelmente pensando qual seria a melhor coisa que ela poderia falar nesse tipo de situação, ela ficou ali, pensando por um bom tempo, e depois ele falou.


Kauane: pelo jeito você tem certeza sobre esse sentimento, mas você tem certeza que esse sentimento não está misturado com outro ódio? como o ódio que você pensava ser só e seu pai, mas no fim era um ódio que englobava todas, todas as pessoas que ignoraram sua Singularidade


Antonio: absoluta, sempre que eu via meu pai, quando eu tinha raiva dele mais por minha causa do que por causa de outra coisa em específico, eu ficava confuso, minha mente entrava em branco, porque o meu amor por ele, no fim de tudo, não conseguia combater todo o ódio que eu tinha de todo o mundo, o que já mostrava como no fim, o ódio que eu sentia não era muito grande


Kauane: e o que impede que esse ódio que você sente não seja igual ao outro?


Antonio: porque esse ódio não tem dúvidas, quando eu vejo ele, pode até ter uma pequena briga entre meu amor por ele e o ódio que eu sinto pelo que ele fez com a minha mãe, mas no fim, o ódio sempre vence, por que agora, sempre que meu amor tenta dissipar a raiva, uma única pergunta sempre chega na minha mente “quem estava do meu lado quando a minha maior crise aconteceu?” e leva pra outras perguntas, como “quem mais machucou a pessoa que mais me ajudou?” e a mais insistente, “quem foi o covarde da relação, que quebrou o juramento o amor eterno traindo a pessoa que ele dividia a cama, não uma, não duas, mas vezes o suficiente pra deixá-la doente de tão ruim da cabeça que ela ficou”...


Parei um pouco pra inspirar, a Kauane entendeu que eu não tinha terminado, então deixou eu continuar.


Antonio: se você não ama mais alguém você termina as coisas cara a cara, você não apenas trai ela e espera que a traição acabe com o relacionamento, isso é covarde, é doentio e infantil, porque se você não aguenta falar na lata que voce nao ama mais alguém, então você é covarde, covarde demais para aceitar a reação da pessoa…e nisso o meu pai é o maior covarde do mundo…VOCÊ ACREDITA QUE ELE AINDA TA LEGALMENTE CASADO COM A MINHA MÃE…(respira fundo) ele sequer cancelou o noivado…por isso eu não quero falar com ele, não é mais por sentimentos confusos, agora é apenas para impedir que sentimentos muito compilados e negativos venham a tona


Kauane: entendo, mas você sabia que eles apenas ficaram juntos tanto tempo por sua causa, não é?


Antônio: é, eu sei, e olha pra mim agora, eu levei mais de 15 anos pra descobrir minha condição, eu odeio meu pai, minha mãe ficou doente, e o Pedro, meu irmão mais velho parece a única pessoa completamente sá da família, nossa, olha como esse “sacrifício” que eles fizeram de ficar juntos deu certo. E se não deu pra perceber, eu fui irônico


Kauane: eu percebi


Antonio: nunca irei saber o que podia ter acontecido se meus pais tivessem se separado naquela época, mas talvez, apenas talvez, minha mãe não tivesse ficado tão doente, e talvez tivessem encontrado sobre minha maldição mais cedo, mas isso é apenas especulação, mas algo que eu tenho certeza foi o que aconteceu, (suspiro) e como você pode ver, apesar de algumas coisas terem dado certo, muitas delas também deram errado, por causa da covardia e infantilidade do meu pai


Kauane: como você sabe que a sua mãe não foi a infantil na relação também?


Antonio: por que ela me contou a parte dela da história, que ela me usou pra chamar ele de volta pra casa…hum, e o meu pai contou a mesma coisa, mas, por algum motivo, não consigo sentir raiva da minha mãe por isso, hummm.


A raiva que tava em cada palavra do meu coração se dissipou devagar, enquanto eu começava a indagar por que eu conseguia perdoar tão fácil os erros da minha mãe, mas não os do meu pai. 


Minha mãe cometeu um erro sim, um erro que virou uma bola de neve pra meu pai faze milhares de outros erros, além de que, muitas vezes, ela gritava comigo, mas por que ela não conseguia falar baixo…Hummmm, continuei pensando e pensando, mas não importa  que eu pensasse, não conseguia comparar os dois.


Antônio: é, eu admito, minha mãe tá longe de ser uma santa, ela cometeu muitos erros também, mas não tantos quanto meu pai, é uma coisa que chegava a ser absurda, a cada erro da minha mãe, meu pai parecia cometer mais 10 erros diferentes, e cada erro que machucava alguém que ele amava, ou pelo menos dizia que amava…


Kauane: não foi isso que eu perguntei


Antonio: eu sei, mas relaxa, não esqueci a pergunta, e apesar da minha mãe ter sido infantil também, ela admitiu os erros, mas o meu pai nunca admitiu os erros dele, ele só continua falando coisas como “a sua mãe que fez eu voltar” ou “eu não amava mais sua mãe”, “eu fiz isso por você”, “eu apenas fiquei com ela, a mulher que eu me casei e que eu nao amava mais por sua causa e nada mais”. EU, EU, EU EU…(respira fundo). Ele ama falar esse tipo de coisa, ele nunca admitiu a culpa, pelo menos não de um jeito que eu lembrava, ele apenas glorifica as próprias conquistas ou culpa outras pessoas pelos erros dele, e isso tudo enquanto ainda machucava a minha mãe…


Minha garganta começou a doer, mas apenas deixei isso pra lá só respirando bastante pra me acalmar, respirar era bem importante.


Antônio: no fim, eu estava certo, ele não é um adulto, mas não pelo que ele fez comigo, mas sim pelo que ele fez com a mamãe, e isso é algo que nenhuma consulta poderá mudar na minha mente


Kauane: e você não quer mais falar com ele? Nunca mais?


Antonio: vou ser um pouco hipócrita aqui, eu tenho tentado falar com ele às vezes, uma vez por mês, mas agente não consegue mais manter uma conversa, no fim, isso só confirmou algo que eu percebi depois de muito tempo, muito antes de descobrirem sobre a minha maldição. Que apesar dele dizer que me amar, e de eu dizer que amava ele, no fim, nós dois éramos estranhos que nem conseguiam manter uma conversa por muito tempo, e como você deve ter percebido, eu sou calado perto de estranhos, mas sou uma maquina de palavras com pessoas que confio…é, eu acho que isso é outro motivo de eu não gostar de falar com meu pai, eu não tenho nada pra falar pra ele.


A Kauane pareceu bem interessaa nisso que eu falei, e anotou tudo em um bloquinho, mas antes de eu continuar falando, eu ouvi aquele maldito som do relogo na parede.


Kauane: eita, parece que nosso tempo acabou, até semana que vem, Antonio


Antônio: que saco, logo quando tava ficando bom


Kauane: não se preocupe, vamos ter muito tempo pra aproveitar isso na semana que vem


Antonio: ta bom.


Apesar de não ter terminado a conversa, eu já estava ficando bem feliz pelas coisas que eu consegui falar e sabia que na semana que vem, as coisas poderiam melhorar ainda mais.


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