No dia seguinte, um dia que parecia passifico demais pra mim por alguma razão, o reino inteiro foi convocado para algo super especial, e pelo convite, eu sabia que seria algo incrível de se ver.
Como a Dandara agora morava junto comigo, agente flutuou até o castelo do rei juntos, aquele era um tipo de evento que era melhor ir andando (ou flutuando no meu caso) pra sentir por completo o caminho que aquele possível evento iria se tratar.
No caminho, nós vimos nobres, nobres ainda maiores, burgueses, camponeses e até andarilhos(camponeses que moravam na rua, e às vezes tinha apenas uma barraquinha improvisada pra chamar de casa).
Mas para o que iria acontecer hoje era apenas o mais normal, muitos iriam se lembrar de seu próprio jeito do dia de hoje.
Enquanto nós flutuavamos, o Davi apareceu do nosso lado, caminhando nas nuvens de forma simples. E a Saytus apareceu voando um tempinho depois.
Davi: oi sumido, e aí, como é a vida de casado?
Antônio: uma maravilha, me sinto num sonho
Davi: jura?
Antônio: é, parece que tudo mudou, ao mesmo tempo que tudo parece igual
Davi: mesmo não sendo casado, entendo o que você quer dizer, mas me fala, você vai aparecer no dia do boliche nessa semana? Foi você que reuniu agente lá, ainda é legal, mas parece estranho sem você. Você nem tem aparecido no templo, e nem pescado, se eu não tivesse te visitado, eu acharia que você foi morto, sequestrado ou coisa pior
Antônio: é, eu também não entendi o que aconteceu comigo esse mês, foi uma luta pra finalmente me adaptar nesse fato de eu estar, casado agora…tipo, mano, EU ME CASEI, isso não é incrível?
Eu me arrependi na hora de falar isso, porque o Davi estava com raiva, ah é, eu esqueci que ele era o único de todo mundo que não tinha ninguém, bom, ele tinha ficantes, mas era óbvio que não era isso que ele tava atrás.
Antônio: desculpa
Davi: tranquilo, contando que não se repita.
O clima estava pesando, mas as minhas próximas palavras deveriam diminuir a tensão do lugar.
Antônio: os primeiros meses foram difíceis
Davi: nossa, até vocês, o casal perfeito, passam por dificuldades?
António: agente se ama muito, mas agente tá longe de ser um casal perfeito, eu apenas escuto ela e ela me escuta, então mesmo que agente brigue, no final tudo vai dar certo, não é amor?
Dandara: é, mas você quase me fez explodir a cabeça nos primeiros dias.
Eu tinha meio vergonha disso, mas eu briguei muito com a Dandara quando nós começamos a dividir o quarto, eu e ela tínhamos rotinas bem diferentes do que fazer, e depois de muitos gritos, muita respiração e muita conversa, agente chegou em um acordo.
E eu esperava que agente pudesse continuar desse jeito, porque brigas, assim como qualquer coisa negativa na vida, eram inevitáveis, mas algo mutável era como nós lidamos com essas coisas negativas, e depois de toda a Psicomancia que nós estudamos, gostava de pensar que nós estávamos prontos pra passar por essa nova fase em nossa vida. E quando eu pensei aquilo, eu senti como as coisas estavam mudando.
Antônio: hahaha, acho que as coisas estão mudando mesmo, eu só tenho que entender um pouco melhor o que exatamente está mudando
Davi: cachinhos, acredite em mim, se tem alguém que eu sei que vai conseguir entender isso será você
Antônio: obrigado pelo voto de confiança Davi
Davi: mas você vai vir no dia do boliche, não é?
Antônio: ah, claro, tenho certeza que essa semana vai ficar mais tranquila
Davi: se você tá dizendo.
E quando chegamos no lugar, ficamos muito alegres, era uma igreja absurdamente grande, o Davi e a Saytus entraram, mas eu e a Dandara começamos a flutuar e fomos ver tudo através do teto transparente.
E lá estava ela, com uma maquiagem ironicamente humilde, carregando luvas finas e curtas, e um vestido sem mangas para mostrar seu corpo transparente, ela estava esperando o último dos convidados em um canto não muito longe dali mesmo sem poder ver o rosto total dela, era nítido pra mim como a princesa Isabely estava feliz naquele momento. Perto dela estava o Rei, a Rainha e o Príncipe, seu irmão mais novo, agora um mago de respeito, assim como o resto da família.
Quando os últimos convidados chegaram, a cerimônia começou.
Para muitos desavisados, parecia que a princesa estava se casando, mas quem a levou para o altar era sua empregada, Bruna, depois de tudo que ela passou, a garota finalmente iria realizar seu sonho.
Chegando na frente do altar, eu senti a antecipação junto dela, sentindo todo o meu stress e ansiedade voltando apenas naquele momento, então, começou.
Todos ouviram um grito, que parecia o som de uma única nota bem grossa de um violino, um som vindo de uma das janelas.
Aonde estávamos, eu e Dandara víamos algo parecido com um pequeno sol voando pelos céus até entrar por uma das janelas, e enquanto o som da coisa parecia aumentar cada vez mais, a luz da criatura diminuiu pouco por pouco, revelando com o tempo a linda aparência de um belo corvo dourado de olhos verdes esmeraldas. Um animal tão raro, lindo e único, que ele era caçado por todos os cantos do mundo, mas todo caçador que já tentou pegar esse pássaro “desapareceu”.
O corvo da cerimônia era dito por ter se conectado e dado um voto de confiança ao primeiro Rei Psicomante, um voto de confiança que todo candidato a Rei ou Rainha fez o possível pra não quebrar em nenhuma circunstância.
Nossa, o animal era tão antigo quanto o reino, mas ele era lindo de forma inimaginável, o animal não era diferente de uma lenda viva pra qualquer um que sabia pelo menos um pouco dos dados do primeiro Rei Psicomante, e com muito cuidado, o corvo desceu até a princesa Isabely, e sendo avisada pela sua empregada, a princesa levantou seu braço para deixar o corvo pousar em seu braço desprotegido, e fincar suas garras fundo o bastante pra fazê-lo sangrar, mas ela não fez um único barulho enquanto seu sangue escorria no chão, poucas pessoas aguentariam uma dor assim, mas a Isabely treinou a sua vida toda para aquilo, aquele era o momento dela.
Logo depois, uma caixa emanando uma magia de contenção altamente poderosa foi levada até o altar, e com cuidado, os carregadores destrancar o baú, liberando uma mana tão intensa que dava a sensação de que toda a sala foi inundada por uma grande quantidade de água, que fez muitos dos convidados caírem no chão.
Mesmo naquela distância, eu senti como se uma onda do mar branco tivesse me acertado e me jogado com uma grande força pra trás, algo que eu me recuperei com bastante esforço. Sim, ele continuava poderoso como nas páginas da grande história.
Dentro do baú, existia um cajado absurdamente poderoso, com a aparência de um pequeno poste que brandia a grande bandeira do reino, aquele cajado era tão forte que se não houvesse encantamentos de proteção na catedral para conte-lo, o cajado teria matado todos os convidados de uma vez apenas por seu poder liberado.
O fato do Rei, a Rainha e a Princesa aguentarem aquele poder sem nenhum incômodo, enquanto que o Príncipe já tinha desmaiado por receber aquele poder diretamente na parte desprotegida da igreja, eu apenas conseguia pensar novamente como, a Princesa não era muito diferente de seus pais, era óbvio que ela foi mais uma que “viveu pela magia e os estudos” assim como seus pais, seus avós, seus bisavós, e todos que criaram esse reino incrível que agente pisava agora. Então segurar aquele cajado, que facilmente mataria magos do meu nível apenas por se aproximarem dele sem nenhuma proteção não era nada demais pra ela.
Aguentando o aperto do corvo dourado e a força pura contida no cajado, Isabely ficou de frente pra o grande Filo-arcano atual segurando uma coroa de ouro com muitas jóias nela.
Filo-arcano: estamos aqui reunidos para a grande coroação da princesa Isabely. Entendendo a dor, o poder e a responsabilidade de manter os segredos que permitiram o povo entender seus piores lados, sem descontar eles em ninguém, sem permitir que eles caiam em mãos erradas, por mais difícil que seja mantê-los em nossas mãos. E entender o peso de todo o poder que veio junto de cada uma dessas descobertas, poder que muitos matariam para ter, mas que firmemente é bem cuidado em suas mãos.
O Filo-arcano sorriu, enquanto olhava a princesa Isabely, e tirando o sorriso calminho de felicidade, ela estava totalmente tranquila, hahaha. Como professor, ele devia estar se explodindo de orgulho, mas deveria estar contando tudo, pra fazer seu trabalho de coroador direito.
E se inclinando levemente, Isabely permitiu que o Filo-arcano colocasse a coroa em sua cabeça, então, ela deixou o grande corvo dourado voar aos céus, ele brilhou com o sol batendo em suas penas reluzentes. E depois de entregar de volta o cajado, ela deixou que o poder acumulado em sua mão pela força do cajado de seu ancestral, criando grandes estrelas infantis azuis de 5 pontas com o poder que criaram. Todo mundo adorou isso, e com o show, o Filo-arcano terminou falando.
Filo-arcano: e pelo poder investido a mim, eu lhe declaro, Rainha Isabely de Uiruuetê.
Todos: RAINHA ISABELY DE UIRUUETÊ
Então, eu agradeci a mim mesmo por ter saído dali a tempo, por que a grande multidão ali começou uma grande comemoração, uma comemoração digna de tiros de magia no ar, gritos que deram pra ser sentidos ali onde eu tava, e mesmo estando tão feliz com a Isabely virando Rainha, eu me afastei ainda mais da igreja, pelo visto eu não me afastei o suficiente, a única coisa que conseguia me manter calmo era o fato de que eu não era o único que tava flutuando no ar.
Na verdade, muitos Singulares que tinham ouvidos sensíveis ou tinham problemas com multidões, ou qualquer outro problema que os impediam de ficar lá junto com os outros, voavam nos céus. (Alguns pais até carregavam suas crianças que não conseguiam voar direito lá pra cima).
Talvez seja por isso que aquela igreja tinha um teto transparente, aquilo deveria ser uma situação bem comum, e vendo o quão antiga a igreja era, fiquei bem feliz com o que eu vi. Até que eu ouvi um suspiro do meu lado.
Dandara: como eles conseguem ficar no meio daquela multidão?
Antônio: cada um tem um limite diferente, mas também tem muita gente que não aguenta aquilo, olha.
Apontei para a saída, mostrando como algumas pessoas Asingulares(não singulares) estavam saindo, pra “respirar um pouco” como eu explicava prós outros nos meus momentos de crise, antes de voltarem pra dentro.
Eu achei que a comemoração ainda iria demorar muito pra acabar, mas então, com apenas um gesto de mão, a Isabely calou a todos ali, então usou um feitiço bem interessante, que eu senti como se ela estivesse falando na minha frente, não era um feitiço de aumento de voz, era como se ela tivesse dividido a voz dela pra milhares de pessoas diferentes, como um feitiço de transmissão instantânea, e com a voz dela sendo transmitida, ela falou.
Isabely: eu agradeço a presença de todos aqui em minha coraoação, e para aqueles que não puderam vir, tenho certeza que tiveram seus motivos.
E como era comum, um desejo era dado ao Rei ou Rainha coroado, na tava pensando no que ela iria pedir.
Isabely: e eu desejo que um tipo de chocolate ainda mais amargo que o 100% cacau exista.
Alguns convidados riam, outros ficaram com medo, enquanto eu apenas balancei a cabeça enquanto falei.
Antônio: as vezes penso que essa garota só quer se matar, da pra imaginar? Algo mais forte que 100% cacau?
Dandara: duvido, principalmente agora
Antônio: você viu aquele feitiço que ela fez agora? Aquele feitiço, ele só é possível por que ela é da família real
Dandara: por que? tipo, por causa da linhagem dela?
Antônio: não, por causa do esforço, pessoas da família real, e candidatos a maridos e esposas da família real aprendem sobre magia antes de aprender a falar, eles não aceitam pessoas “fracas” para liderarem o reino
Dandara: fracas?
Antônio: a família real tem uma ditado simples “em uma corrente, o que importa não é a parte mais forte, mas sim a parte mais fraca, por que no fim ela que destrói o ciclo”.
A Dandara estava com sentimentos misturados, porque já tendo lido histórias o bastante de líderes incompetentes, ela entendia esse lema.
Antônio: cada membro da família real passa todo o dia pensando como eles devem sempre dar 110% de si próprios pelo reino, porque no momento em que eles tiverem um único Rei idiota, o povo irá se revoltar
Dandara: você tem certeza disso?
Antônio: o que o Alaric fez nas massas criou um grande exército, o povo apenas se acalmou por causa do plano dele de colocar alguém competente na família real, mas o povo está sempre pronto para começar uma revolta, caso o pior aconteça…
Minha cara ficou bem fechada enquanto eu dizia isso, eu não queria que isso acontecesse, mas se isso chegasse a rolar, eu estava pronto pra ajudar na revolta, e pela cara que a Dandara estava fazendo, o rosto de alguém que sabe muito bem como é ser liderada por alguém incompetente, burro, vingativo, pagando de poderoso, covarde pra pessoas fortes de verdade…alguém “fraco”, eu sabia que no fim, ela iria me ajudar na revolução também. Mas ainda assim, ela suspirou de alívio e deu um sorriso largo enquanto falou.
Dandara: bom, ainda bem que a Isabely não é um elo fraco
Antônio: com toda a certeza.
E de mãos dadas, agente observou a Isabely, eu conhecia ela a quase 8 anos, e a Dandara conhecia ela apenas em 5, 3 anos de diferença, mas nós dois concordavamos que a Isabely estava muito longe de ser um “elo fraco” desse jeito que eu acabei de explicar, o que era um alívio pra todos em geral.
Antônio: todos saúdam a rainha
Dandara: todos saúdam a rainha.
Provavelmente iria ficar mais difícil de se encontrar com ela agora, mas tava tudo bem, algo em mim dizia que tudo ficaria certo no final, e pra variar, eu queria confiar na minha intuição.

