Dentro do templo, além das armadilhas, nós tivemos que lidar com outros grupos que queriam o artefato, alguns eram grupos de mercenários sem escrúpulos que eu gentilmente prendi ao invés de matar, posso ser um frouxo por isso, mas vendo como eles não conseguiam escapar de jeito nenhum, me sentia feliz fazendo isso.
Lance: você é muito frouxo
Antônio: não gosto de matar pessoas, até agora isso não me afetou
Lance: um dia essa sua gentileza vai te matar.
Eu estava um pouco afetado pelo que ele falou, então eu falei.
Antônio: Lance, você já matou alguém?
Lance: já matei vários animais pra comer
Antônio: não é a mesma coisa
Lance: como não?
Antônio: sabe o que matar alguém faz com você? Ela não destrói uma parte de você, ela cria uma parte nova, uma parte que quanto mais ela cresce, mais ela esmaga as outras, esmagando sua empatia, sua compaixão, e até seu senso de si, até que apenas esse seu lado exista, e depois de certo tempo, seus outros lados deixam de existir, até que essa parte sua movida por ódio, dor e vingança a todo custo seja a única coisa restante te deixando vivo.
O Lance não falou nada, ele apenas olhou pra mim, se sentindo atacado, mas não encontrando as palavras certas pra me contrariar, ele entendeu rápido que se ele apenas me xingasse, ele apenas iria confirmar como, no fim, eu tava certo, então, o que ele iria dizer pra mim?
Lance: você não tinha dito que eu posso ter uma vida boa depois de eu ter me vingado?
Hmhmhmhmhm, garoto esperto, mas a minha resposta pra isso iria impressioná-lo também.
Antônio: isso só se você tiver uma vida depois da vingança, como eu falei, não importa se você tiver planos pra depois de se vingar ou não, se você apenas viver pela vingança, não vai sobrar nada de você quando a vingança acabar, por isso que muitos vingadores acabam morrendo segundos ou até dias depois de completarem suas vinganças.
O garoto estava ficando cada vez mais irritado, mas ele não recuou, ele continuava testando sua fé em mim, e eu continuei a moldando, não a minha imagem, mas ajudando o Lance a achar o próprio caminho.
Lance: e como exatamente eu deveria me vingar então?
Antônio: não atacando inocentes
Lance: o que? eu nunca pensei em meter inocentes em minha vingança
Antônio: não ainda, mas se você não ligar muito pro que você mesmo está sentindo, você vai chegar em um ponto onde você não vai se importar em matar uma garotinha da forma mais brutal possivel, apens porque ela tava ficando entre você e o pai dela, que era um dos caras que você queria se vingar
Lance: pfff, duvido que qualquer um daqueles monstros conseguem sentir qualquer amor por qualquer um
Antonio: quer pagar pra ver?
Perguntas simples, mas que nitidamente mexiam e abalam o psicológico do Lance de forma que me confirmava cada vez mais que ele era apenas uma criança tentando sobreviver, eu não pensava que podia ensiná-lo muita coisa no pouco tempo que nós tínhamos naquela excursão, mesmo que ainda tivéssemos um grande tempo extra com ele lidando com as armadilhas e eu lidando com os mercenários que iam até nós. E quando chegamos na metade do templo, decidi falar.
Antônio: muita gente irá entrar em seu caminho, muitos serão seres desprezíveis, mas muitos serão inocentes que apenas tiveram o azar de serem envolvidos naquilo, você está disposto a sacrificar essas vidas em prol da sua vingança?
O Lance não respondeu, enquanto nós passávamos por mais armadilhas, e nós lidamos com mais mercenários, e depois dele lutar com muitos mercenários, e sentir na pele o que era ferir pessoas com as próprias mãos, ele falou.
Lance: não
Antonio: por que não?
Lance: por que eu sou um frouxo, um que não consegue nem aguentar os gritos de pessoas que tentaram me matar primeiro…apesar de eu ja ter visto a guerra de frente
Antonio: voce cortou alguém na guerra?
Com um rosto cheio de vergonha, ele falou.
Lance: não
Antonio: ta ai sua resposta, ver algo morrer e matar essa coisa você mesmo são duas coisas completamente diferentes, quase não podem ser comparáveis direito.
E depois, o Lance ficou silencioso de novo, mas não por medo, mas por pura contemplação, o ideal que ele estava seguindo de forma cega e emocionada a ponto de chegar andando onde eu estava parecia estar se tornando algo mais lógico, e um pouco mais maduro, mesmo com uma simples conversa comigo, ele falou.
Lance: é, você tá certo, é diferente machucar um ser humano com suas próprias mãos, o medo, a ansiedade de machucar outra pessoa, a culpa…coisas que ninguém da minha família tem, nem mesmo pelo seu próprio sangue…
Ele falou aquilo enquanto apertou com força o cabo da própria espada, e mesmo com medo, ele cortou e depois imobilizou outro cavaleiro, tendo a total noção do que estava fazendo, e com um olhar que parecia estar lentamente dissipando as proprias duvidas, ele falou.
Lance: mas sabe, isso só me deixou mais determinado, determinado a parar minha família, pois essa tal “empatia” e “humanidade” que você tanto falou, uma parte minha que, pelo menos eu mesmo não perdi, eles já perderam a muito tempo, e agora eu sei que ter pessoas assim vivas é algo muito perigoso
Antônio: agora estamos chegando a algum lugar, vamos, ainda temos muito a se fazer
Lance: e a propósito da sua pergunta de antes, não, eu não irei matar inocentes, é isso eu te prometo
Antônio: está ciente do peso que essa promessa carrega?
Lance: provavelmente não, mas eu vou fazê-la mesmo assim
Antônio: nesse caso, melhor estar preparado para as consequências dessa promessa.
E novamente, o Lance ficou quieto enquanto pensava e lidava com a maioria das armadilhas, apenas tendo que ser salvo por minha magia algumas vezes.
Eu também vi o garoto lutando, ele era habilidoso com a espada, mas com certeza não tava acostumado com a morte, pelo menos não uma causada por ele, e se estava eu desacostumei ele, eu vi o garoto cortando várias pessoas, e sentindo um pânico absurdo quando elas gritavam de dor, ele tentou mata-las várias vezes, mas ele não conseguia, o medo nos olhos daqueles mercenários, mesmo eles sendo um lixo, eles eram algo que ele não conseguia fazer, ele até vomitou algumas vezes, e depois de lidarmos com uma boa parte de mercenários, agente se sentiu de frente a porta do último desafio do labirinto.
O garoto estava fraco e choroso, pensei em tocar nele, mas esperei ele me dar permissão pra isso primeiro.
Lance: eu sou um frouxo, eu realmente sou uma vergonha
Antônio: não tem nada de errado em ter piedade de humanos, mesmo aqueles que não merecem ter
Lance: pra você é fácil dizer, você tem força pra não precisar matá-los
Antônio: é, isso é verdade.
O Lance estava com o rosto todo abalado e confuzo também.
Lance: por que eu não consigo fazer isso? eu já vi a morte, e eu já vi tanta gente morrer, pessoas tentaram me matar…então…por que?
Antônio: matar não é tão fácil quanto pessoas pensam, a menos que você tenha uma arma muito boa, você vai precisar de muito mais do que um golpe pra matar alguém, e a pessoa vai provavelmente gritar e implorar pela vida no meio disso, e a menos que você esteja insensível por raiva ou outro sentimento super forte, você vai sentir culpa, por que é assim que nos fomos criados. “Não mate outros humanos”. Não foi algo que nos ensinaram, é algo que foi impregnado bem fundo no nosso DNA…“não machuque outros humanos”…não é uma coisa que dá pra perder da noite pro dia, e as pessoas que perdem, sempre se perguntam no final se realmente valeu a pena
Lance: hmhm, eu consigo ver que você nunca perdeu o seu né?
Antônio: nunca precisei, porque eu sou forte.
Tinha algo muito legal em falar isso, de forma que eu sorri de forma bobinha pra ele.
Lance: e como poupar oponentes é ser forte?
Antônio: porque apenas alguém realmente forte consegue derrotar um oponente sem matar, por que um fraco não pode fazer nada além de matar o oponente pra vencer, porque isso é tudo que ele consegue fazer.
O Lance, novamente, ficou impressionado com o que eu falei, mas ele não parecia convencido.
Lance: mas é se matar ele for a única escolha que nós temos?
Antônio: então agente mata ele, mas apenas se for verdadeiramente a única escolha, quase sempre tem outra saída
Lance: hehe, você abusa de ser ingênuo
Antônio: isso porque eu nasci num lugar passifico.
O Lance não tinha muito o que falar depois disso, ele conseguiu se recuperar e perguntar.
Lance: eeeeee, eu não devia me vingar então?
Antônio: pelo que você me falou deles, com certeza deve, como eu falei, só estou te dando ajuda pra você não se perder na própria vingança. E pelo que parece, acho que estou fazendo um ótimo trabalho, você não acha?
O Lance me olhou, parecendo mais tranquilo, apesar dos traumas que aquele teste todo estava fazendo nele.
Lance: eu não consigo entender, porque está me ajudando?
Antônio: se eu recusasse de te ajudar você ia só fazer de qualquer jeito, comigo te ajudando, posso te impedir de fazer uma besteira que você mesmo possa se arrepender no futuro, e pelo que eu vejo, tô indo bem
Lance: voce vai ficar chateado se eu não seguir seus conselhos?
António: não, eu só to tentando te ajudar, você é livre pra recusar minha ajuda, claro que vou ficar triste com isso, mas não irei te forçar a seguir o que eu digo…mas eu sinto que você é esperto o bastante pra seguir meus conselhos.
O Lance então olhou pra mim, como se não pudesse acreditar que eu realmente poderia existir, coitado, ele devia ter passado por poucas e boas pra não acreditar que eu existiria.
Lance: você me superestima guia
Antônio: é, quem sabe,
Sem uma resposta boa para aquela resposta, o Lance decidiu focar no último teste, o Lance teve que enfrentar o último teste sozinho, e com uma ajudinha minha, ele conseguiu o artefato sem problemas. E sorrindo, ele me mostrou o grande colar, que exalava uma grande quantidade de magia nele, com o formato de uma grande lua preta com um sorriso bonitinho.
Antônio: nossa, é realmente um colar muito bonito
Lance: eu agradeço pela ajuda, aqui o resto.
Ele então me entregou o resto do dinheiro e seguiu o caminho, com uma mentalidade que eu esperava que o faria ter as decisões certas, mas então, ele parou no meio do caminho, e me perguntou uma última coisa.
Lance: Antônio, quando eu vou saber que eu estou me perdendo?
Antônio: quando você sentir que está se vingando ao invés de fazer justiça
Lance: pfff, e qual é a diferença?
Antônio: uma diferença total, uma vingança total faria você matar aqueles mercenários sem nem pensar duas vezes, mas você não é assim, no fim de tudo, você não quer se vingar, você quer justiça, justiça por toda a dor que você passou. Por que a vingança é instável, ruim e destrói tudo que ela toca, até o próprio vingador, mas justiça é cega, impessoal… voltada apenas em punir por ser o certo e não por prazer pessoal, você não vai atrás de seus pais para se vingar ou pra fazê-los sofrer por puro prazer, você irá para-los pra impedi-los de fazer isso com qualquer pessoa igual a você, e eu acredito que na hora certa, você irá fazer a escolha certa.
O Lance não falou mais nada, mas eu vi o olhar dele mudando várias vezes, se tornando mais maduro, claro que ele não se tornou um adulto logo de cara, mas eu sentia que a bússola moral dele havia melhorado, muito.
Antônio: ei, espera, aonde você vai? Você não quer ajuda pra sair daqui?
Eu quase esqueci que agente ainda estava nas profundezas da floresta.
Lance: eu não preciso dela, eu tenho isso.
Ele então balançou o artefato, como se ele fosse a solução de todos os seus problemas, mas eu segurei ele e falei.
Antônio: ei, acredita em mim garoto, eu tenho certeza que muitos daqueles esqueletos ali ficaram daquele jeito porque pensaram como você, deixa eu te levar para a saída.
O Lance queria pensar em uma resposta para isso, mas ele não conseguiu, mesmo nervoso de ficar mais tempo perto de mim, no fundo ele sabia que eu estava certo.
Então, subindo de novo em meu cavalo, eu comecei a levá-lo pra saída, não trocamos nenhuma palavra, não precisávamos mais, e depois que o deixei novamente na porta da árvore de Halloween, ele me deu um aperto de mão, agradecendo pelo que eu fiz, então, eu logo voltei no meu lugar, aquele trabalho todo, durou no fim 2 horas.
Nesse ponto, eu pensei se um dia eu iria me cansar de fazer aquilo, mas até agora, isso não tinha acontecido, porque eu amava levar pessoas assim pra um lugar que eu já fui. Além de eu amar encontrar esses viajantes “perdidos” e guiá-los com cuidado para o caminho certo.
Sempre me dava uma tristesa quando via as notícias e descobria que um dos viajantes que eu ajudei pegou o caminho errado, mas não dava pra controlar isso, tudo que eu podia fazer era tentar ajudar o máximo de pessoas que chegavam até mim.
Por mais presunçoso que fosse, sentia que o mundo ficava um pouquinho melhor toda vez que uma daquelas crianças problemáticas e cheias de ódio me escutavam, bom, isso pelo menos eu esperava.
Depois disso, voltei a minha rotina, uma rotina que eu rapidamente notei o quão parada estava, tirando minhas idas a árvore de halloween, sentia que eu tinha ficado bem mais calmo, mal me lembrava da ultima vez que fiz uma viagem de estilo grande, mas não via necessidade disso, junto das pessoas que eu amo, tudo parecia perfeitamente em seu lugar, então não tinha muito para reclamar.
E no meio dessa minha nova rotina que muitos podiam achar bem chata, duas semanas se passaram desde que eu conheci o jovem Lance, e depois de tanto tempo, eu recebi uma carta de uma ilha bem remota, e vendo um símbolo de outra família, eu fiquei animado em ver de quem era.
Para, Antônio.
Olá senhor Antônio, eu só queria agradecer ao senhor, por além de me ajudar a encontrar o artefato, também me ajudar a entender como fazer as coisas certo.
Muitas vezes, no meio da minha jornada, eu me encontrei em situações que tive que me perguntar “o que o Antônio faria?” E com isso consegui evitar que muitas pessoas inocentes fossem pegas no processo.
E você tava certo, a morte para aqueles que me maltrataram era algo que apenas um fraco faria, os prender, os fazer sentir parte, por parte, por parte dos erros deles, os visitando e os fazendo senti na pele o peso dos próprios erros algo bem mais divertido, então, eu agradeço por isso
E pra demonstrar minha gratidão da forma certa, eu te dou essa moeda com desenho de elefante, ele é um item de troca bem valioso que dá pra trocar por várias coisas na minha ilha, mas apenas na minha, então se quiser usar, venha pra cá quando puder.
De, Lance
Depois de terminar a carta, eu abri uma gaveta do meu quarto, e guardei aquela carta com muito carinho junto das outras, de outros Viajantes que eu tive tanta a alegria de guiar.
E olhando a moeda, eu fiquei indagando algumas coisas, enquanto brincava com a moeda nas minhas mãos.
Antônio: pelo jeito eu realmente tô deixando esse mundo um pouco melhor.
E pensando nisso, eu também pensava como amanhã seria um dia muito interessante também.

