Hummm, não sabia até aonde aquilo era uma coisa boa, mas eu estava novamente na árvore de halloween, totalmente tranquilo, eu já tinha me tornado parte daquele lugar, e apesar de todo o barulho e todo o stress que eu conseguia naquele lugar, de alguma forma eu conseguia me manter tranquilo, eu já tinha me acostumado completamente ao barulho dali, e com os serviços extras que eu tenho conseguido ali, eu já tava me acostumando a ficar mais ali do que no meu trabalho oficial.
Olha só, pelo jeito um “cliente” acabou de entrar na loja, mas talvez eu estivesse me precipitando, ele então conversou um pouco com o barista, e pra variar, ele indicou o visitante para vir falar comigo.
Viajante: você é o Antônio?
Antônio: primeiro e único, como posso ajudá-lo?
Viajante: eu preciso que você me ajude a encontrar um artefato em um templo que fica nas profundezas da floresta das fadas
Antônio: você e mais quem?
Viajante: só eu…só eu…
Vi como ele abaixou a cabeça, como se tentasse não ficar desesperado ou triste com as próprias palavras.
Antônio: e o que eu deveria esperar? Iremos entrar em um templo antigo, não é?
Viajante: sim, e é provável que tenha outras pessoas procurando o artefato, então se for possível, podemos ir agora?
Antônio: bom, até podemos, mas sobre o pagamento…
Antes de eu terminar de falar, ele arremessou uma sacola de ouro em mim, e depois de contar as moedas, vi que, para onde ele queria que eu o levasse, era um preço justo.
Viajante: isso é só metade, o resto eu te dou quando terminar o serviço
Antônio: nesse caso, então vamos.
Quando levantei, vi como o carinha era bem pequeno, deveria ser um adolescente, mas tentei não jogar isso na cara dele.
Do lado de fora do bar, vi que o Viajante não tinha um cavalo, e olhando ele de novo, vi que ele tinha andado tanto que os sapatos dele estavam quase se desfazendo, aquele artefato deveria ser algo bem mais importante do que simplesmente uma antiguidade pro povo dele, mas decidi não falar aquilo, não ainda.
Depois de colocá-lo em cima do Zorro, eu cavalguei com ele nas minhas costas, e ele ficou quieto por bastante tempo.
O interior do território das fadas era um território dividido entre três seres bem perigosos, os bandidos perigosos o bastante pra ficarem lá, os dinossauros tão ferozes que faziam até as fadas recuarem, e as fadas mais primitivas, fadas que apesar de serem antropomórficas não possuíam inteligência, compaixão ou qualquer coisa que fazia as fadas Humanas, elas eram chamadas de saumitif, e digamos que era bem fácil diferenciar uma fada de uma saumitif, e isso não era nem metade do motivo para o Viajante me levar pra lá.
Também, no meio do caminho, tinham os mosquitos que sugam sua mana, aura ou chi permanentemente se você não tomasse cuidado. Plantas que soltam um gás alucinógeno no ar, outras que soltavam venenos e outros tipos de plantas perigosas. E ainda tinham os animais que podiam comê-lo em uma mordida só, os animais tentando proteger o próprio território e os animais tentando proteger as próprias crias.
Ah, e no meio de tudo aquilo, ainda tinha o estranho ambiente do interior do reino das fadas, que se você andasse sem muito cuidado iria ser facilmente destruído sem nem que um animal conseguisse te pegar.
E no meio dessa viagem doida, onde eu era quase uma grande luz que deixava as coisas perigosas longe dele, eu decidi conversar com o viajante.
Antônio: então, você vai me dizer seu nome?
Ele estava com medo, um medo que parecia ser um “ele vai me matar se eu contar?” mas ele desfez esse pensamento, vendo como eu estava fazendo tanto esforço apenas para mantê-lo seguro e decidiu falar mesmo assim.
Viajante: Lance
Antônio: bom, Lance, por que esse artefato é tão importante pra você?
Lance: fui desertado da minha família, sempre comparado com minhas irmãs, eles diziam como eu nunca devia ter nascido…e numa missão, onde eu fui mandado, eu vi que aquela batalha era uma batalha condenada, eles me mandaram pra lá pra morrer, eu fugi no meio da guerra, mas eu ainda quero voltar, e destruir todos mundo que já decidiu me machucar
Antônio: e o que houve com a batalha?
Lance: nos perdemos, foi uma derrota surreal, não tinha chance da gente ganhar aquilo…eles pensam que eu morri, a guerra ainda está rolando, e com esse artefato, eu posso me tornar a salvação do reino, minha família pode queimar no inferno que eu não ligo…mas o lugar que eu cresci não merece ter o mesmo destino.
Hmhmhm, o olhar que ele deu naquela hora foi bem interessante, era nítido que ele possuía lembranças muito boas do lugar de onde ele veio, apesar da família dele ser um lixo.
Antônio: e você já pensou no que vai acontecer com sua família quando você conseguir isso?
Lance: eu quero que eles queimem no inferno depois de eu matar eles da forma mais brutal possível.
Então ele me olhou, com um rosto que pensou já saber o que eu iria dizer.
Lance: eu espero que você não me diga que “eu não devia me vingar” e que “a vingança é ruim e que não dá pra fazer isso” e que “eu vou me perder no meio do caminho” não é?
Antônio: hum, claro que não.
Lance ficou surpreso, ele realmente não tava esperando ouvir essa resposta.
Antônio: eu não vou te dizer que a vingança é ruim ou coisa do tipo, na verdade eu acho que você pode até ter uma vida ótima depois de ter se vingado. Mas o que você deveria pensar mesmo é “o que eu vou fazer depois de me vingar?” “O quão igual eu quero ficar com meus monstros para me vingar?” E o meu favorito “eu vou realmente conseguir viver depois de terminar minha vingança?”
Lance: espera, espera, espera aí, fala mais devagar, como assim ficar igual a eles?
Antônio: alguns dizem que “vingança gera mais vingança”. Você pode ter seus motivos pra se vingar de seus pais, mas se você não tomar cuidado, você pode acabar fazendo pessoas quererem se vingar de você, e mesmo que você mate elas, outras pessoas irão querer se vingar de você, e isso iria continuar até você morrer ou desistir
Lance: estou preparado por isso
Antonio: até se você tiver que sacrificar as pessoas que te ajudaram no meio do caminho?
Lance: sim.
O Lance falou aquilo, mas pelo rosto dele, um rosto que deixava nítido que ele estava mentindo, eu vi que ele não falou sério, então ele disfarçou dizendo.
Lance: e o que você quis dizer com “aguentar a sujeira”?
Antônio: o seu ódio vai conseguir ser usado como uma bengala, até certo ponto, mas quando você completar a sua vingança, mesmo se você tiver algum plano pra depois de se vingar, você não vai conseguir realizá-lo
Lance: jura? Por que não?
Antônio: simples, por que quanto mais maldades você faz, mais os seus sentimentos ficam nebulosos, você perdeu a sua empatia, o seu nojo por mortes, e todas as coisas que te deixam vivo sem que você perceba, é muito difícil alguém que se intitula um vingador conseguir sujar todo o mundo de sangue e ainda se manter são depois disso.
O Lance parecia não entender por completo o que eu tava falando, mas estava tentando me acompanhar.
Lance: desculpa, o que?
Antônio: quando você terminar de se vingar de sua família, você vai ficar vazio, e criar a maldiçao do vazio, isso se você se vingar errado, se vingar sem se importar com quem você machuca no caminho e justificar tudo com a desculpa de “apenas a vingança importa” e isso até vai funcionar, pelo menos até a vingança ser completa, e pra não sentir o vazio, você só tem dois caminhos, ou você vai se matar, por não aguentar o vazio, ou você vai jogar seu ódio em outra pessoa para sentir qualquer coisa, e você vai continuar fazendo esse ciclo até que você seja morto por um de seus alvos.
O Lance estava assustado, era nítido que ele nunca havia pensado tão longe nesse tipo de questão.
Antônio: e você está disposto a carregar todo esse peso da sua vingança?
E irritado, muito irritado, algo bem comum para um adolescente da idade dele, ele gritou.
Lance: TA BOM SABIDÃO, E QUAL É A SUA IDEIA, QUE EU DEIXE A MINHA VINGANÇA DE LADO!?
Antônio: não não, muito pelo contrário, eu vou te ensinar a se vingar de forma certa, de um jeito que você não vai acabar se matando no futuro
Lance: você vai me cobrar mais por isso?
Antônio: talvez
Lance: então não precisa falar
Antônio: calma, era brincadeira, eu não tô fazendo nenhum serviço, só tô conversando com meu cliente, não precisa ficar de guarda tão alta.
O Lance parecia bem desconfiado de mim, e se a história dele era verdadeira então ele tinha mais de um motivo pra ter.
Mas então, nós chegamos no templo que ele falou quase sem problemas, e bem empolgado, ele começou a procurar as coisas do lugar, hummm, era em momentos assim que eu percebia que eu tava errado, mesmo depois de mais de 3000 anos, e depois de exploradores grandes como a Mahara terem andado pela terra, ainda tinha coisas como aquela pra descobrir. Por que pelo musgo, as teias de aranha e as caveiras que pareciam estar a décadas ali, era nítido que o lugar não foi encontrado, oficialmente, ainda.
O lugar era um templo diferente, que ao invés de pedras, era feito totalmente de madeira, vidro e um tipo estranho de pedra, que…não acredito, era borracha vulcanizada, esses caras que construíram o templo sabiam o que estavam fazendo, não era atoa que um artefato tão poderoso estaria ali.
E vasculhando um pouco a entrada do lugar, Lance encontrou uma entrada que era puxando a língua de uma das estátuas, e puxando a língua, uma porta secreta se abriu.
ah, templos, porque estátuas sempre tavam envolvidas nos enigmas?
Antônio: e aí? Tá pronto pra ver o que tem lá dentro?
Lance: pronto até demais, vamos.
E antes de entrarmos, eu puxei ele pra perto de mim, impedindo que uma armadilha de machado pegasse a cabeça dele.
Antônio: cuidado onde pisa
Lance: é, valeu.

