Eu estava nas estrelas hoje, cavalgando com o Zorro, eu estava em meio a uma estrada bem no meio da floresta, em um campo cheio de árvores, pois eu estava viajando pras fronteiras mais longínquas da muralha, um lugar onde meu irmão Pedro ia constantemente, quando uma ameaça grande aparecia na terceira muralha do reino, mas hoje eu iria visitar um amigo que ganhou o direito de estar naquela muralha.
Tive que passar por vários vilarejos, fiz um pequeno show de magia algumas vezes em troca de algumas moedinhas, também competi com uns mercenários por joguinhos bobos de apostas. E eu sempre parava para comer uma maçã no meio do caminho.
Quando cheguei na muralha, uma comoção aconteceu na parte de cima, bom, não era algo tão surreal, por que um tecnomago carregando carruagens inteiras de Golens cozinheiros não era algo tão comum de se ver.
O capitão e o vice capitão daquele esquadrão vieram me cumprimentar, o capitão eu não conhecia, apesar dele ser um idoso, de cabelo preto e com a boca cortada nos lábios até chegar no nariz, mostrando uma grande sabedoria junto de experiência apenas em seu olhar.
Já o vice capitão eu conhecia perfeitamente, seu rosto alongado, dentes imensos, olhos enormes e pelo cinza por corpo todo. Brutus, meu lobão favorito estava feliz demais em me ver, mas ele se conteve na frente do capitão, e depois dele apertar minha mão ele falou.
Capitão: é um prazer recebê-lo aqui pessoalmente senhor Antônio, não sabia que você fazia pessoalmente as visitas de suas entregas
Antônio: e não faço, é que sabe, o seu vice capitão é um velho amigo meu, e eu vim aqui visitá-lo, então teria algum problema eu passar um tempo com ele?
Capitão: as muralhas estão tranquilas ultimamente, então não vejo problema.
O Capitão então olhou pro Brutus, sem mudar sua voz, sua atitude ou seus modos.
Capitão: mas esteja pronto caso algo aconteça
Brutus: sim capitão, irei estar a postos.
Depois daquelas simple frase, fui levado para dentro das muralhas, até chegar a cozinha e expliquei pro Capitão como ativar os Golens, e depois de um discurso bem longo, o explicando até detalhes de como programar o Golem pra fazer comidas mais temperadas e menos temperadas, eu fiquei livre pra ficar com meu melhor amigo, meu amigo mais do que o Davi.
Depois de algum tempo, eu e ele estávamos andando pela muralha, nenhum de nós falou nada por algum tempo, só tentamos aproveitar aquele clima diferente, onde estávamos caminhando pela grande muralha enquanto iluminados pelas tochas e pela lua.
O Brutus já devia ter visto aquele cenário várias vezes, do lado de dentro da muralha, existia verde, casas e até animais que não conseguiam sentir o perigo de tão bem protegida que aquela muralha tinha sido até agora, enquanto do lado de fora, existia cinzas, marcas de batalhas perdidas de seus agressores, enquanto existia ainda verde em alguns lugares aliz verde de plantas que apesar das adversidades, tentavam se recuperar em um ambiente hostil.
E no meio de tudo aquilo, estava a muralha, inteira, bem cuidada, e com nenhum detalhe além da bandeira do reino que era de um grande corvo dentro de um ninho, em uma bandeira azul, e do lado pra fora da muralha, um grupo bem grande de patrulhadores olhava a muralha, preparados pra atacar qualquer coisa que tentasse entrar lá à força.
Antônio: wow, você esteve ocupado
Brutus: o título de vice capitão entregou né?
Antônio: bom, pois é. (Olha tudo de novo, depois assovia) Se um artista viesse pra cá ele conseguiria fazer uma pintura incrível
Brutus: muitos pintores vem aqui depois de conhecerem o lugar por seus irmãos ou amigos cavaleiros
Antônio: então, como tem sido a vida de ser um guardião?
Brutus: até agora, tá sendo um tédio sem fim, a maior parte do meu dia é treinar, afiar as espadas e conferir os estoques. Bom, pelo menos eu não tô com o pior trabalho, que é o de guarda do perímetro, claro que o lugar é ótimo pra provar seu valor em uma batalha, mas enquanto algo assim não acontecesse, tudo não passa de horas, horas e mais horas apenas olhando pro horizonte até a vista do lugar cansar seus olhos
Antônio: ainda bem que você não passa por isso
Brutus: às vezes eu fico impressionado que ainda dê tempo de eu voltar pra casa, com o tanto de tempo que eu fico aqui
Antônio: bom, é normal você ter tempo, você trabalhou bastante exatamente pra não ser um escravo do dinheiro que nunca volta pra casa
Brutus: haha pior que é mesmo.
Eu parei um tempinho na nossa caminhada pra olhar pro Brutus, ele estava usando uma armadura sob medida, com um capacete especial só pra ele, e mesmo assim, conseguia ver o pêlo bem cuidado dele, um rosto com algumas cicatrizes antigas, mas cheio de tranquilidade e poder.
Mas o que mais se destacava era a técnica dele, não faço ideia o que o rapaz passou quando eu não estava por perto, mas ele tava com uma técnica tão desenvolvida que até seu andar parecia performar uma técnica, fazendo parecer que não existia um único ponto vulnerável nele. Isso me fez imaginar se eu também tinha mudado muito os olhos dele, como será que ele estava me enxergando? Mas no fim perguntei outra coisa.
Antônio: algum idiota tentou passar pela muralha desde que você chegou?
Brutus: uns 10 ataques, esses foram os dias mais agitados que eu tive nesse lugar, essa muralha é defendida por mãos antigas, e cavaleiros veteranos, eu tenho certeza que meus pais me levaram pra cá só pra ver se eu iria aguentar a carnificina de realmente ser um cavaleiro
Antônio: e você aguenta?
Brutus: (risadinha) com toda certeza.
E depois de conversar mais algum tempo com o Brutus, nós fomos pra dentro da muralha, onde uma grande festa estava acontecendo.
Antônio: ué? Pra que tudo isso?
Brutus: um teste hardcore para os mais novos Golens cozinheiros, uma comemoração de nós passarmos por mais de 6 meses sem nenhum acidente, e o mais importante, uma pequena comemoração pelo melhor amigo do vice comandante estar aqui, aprovado pelo próprio comandante.
Eu não sabia se ia gostar tanto daquela festa, mas vendo como tava tendo pouca música, a maioria dos meus Golens estavam fazendo um churrasco bem gostosinho e que todos os cavaleiros pareciam estar se controlando pra falar comigo, decidi aproveitar a festa.
E provando a comida que eu programei os Golens pra fazer, fiquei orgulhoso de mim mesmo da comida estar tão boa. Nesse meio tempo, eu fui chamado por muitos cavaleiros, pelo jeito eles ouviram muitas histórias minhas através do Brutus.
Guarda1: é verdade que você consegue ter uma luta corpo a corpo mesmo sendo um mago?
Antônio: claro que consigo, muita gente acha que magos são apenas palitos com poderzinho, por isso tem muitos palitos com poderzinho, (mostra muque) mas eu não sou esse tipo de mago
Todos: uuuuuuuuh
Guarda2: é verdade que além de tecnomago, você é um Psicomago também?
Antônio: não é pra tanto também, eu só leio bastante e sei uma coisinha ou outra sobre a magia e as emoções humanas
Guarda2: por exemplo?
Antônio: bom, por exemplo, como as pessoas entendem meio errado como a lógica e a emoção funcionam.
Não apenas o guarda que me perguntou isso, mas todos os guardas, incluindo o Brutus e o Capitão me olhavam de forma contemplativa.
Guarda2: como assim?
Antônio: ok, então me diga senhor guarda, o que você acha que nos guia por toda a nossa vida? A lógica ou a emoção?
Guarda2: a lógica.
Ele não tinha dúvidas nisso, e depois de pensar bastante, e depois de refletir por mais tempo ainda, muitos guardas, incluindo o próprio Brutus e o Capitão chegaram naquela conclusão, bom, eu não culpava eles, eu mesmo só descobri recentemente a resposta certa. E da forma mais gentil que eu conseguia, eu balancei minha cabeça bem devagar, mostrando que “não, não era a lógica”.
Antônio: não, eu, você, e todos os animais possíveis, são movidos por nossas emoções, a lógica só nos ajuda com isso
Guarda2: mas isso não faz sentido, eu consegui trabalhar aqui com os cavaleiros por que deixei minhas emoções de lado, e me esforcei mais que todo mundo, eu sou casado e feliz, por que fui contra minhas emoçoes e me impedi de ter filhos antes da hora, e eu só consigo viver bem por que eu consigo controlar minhas emoções o bastante pra não gastar todo o ouro que eu consigo em meu trabalho com bobagens, então como as emoções poderiam estar me guiando?
Antônio: foi uma boa resposta senhor cavaleiro, mas você está errado, não foi a lógica que te guiou em nenhum desses casos, ela te ajudou e te guiou sim, mas no fim, você só estava substituindo sensações rápidas e curtas por sentimentos mais longos e duradouros.
O senhor cavaleiro estava ficando boquiaberto, seus olhos se arregalaram, e…ele mostrava um olhar difícil de descrever em detalhes, mas era basicamente um olhar que dizia “minha mente está se expandindo de forma quase ilimitada, e eu tô assustado e muito animado ao mesmo tempo”. E com essa contemplação, não pude me segurar, e continuei falando.
Antônio: seu foco no cavalheirismo, é por que no fundo de seu ser, você colocou todas as profissões que você pensou que iria gostar numa balança, e no fim, os sentimentos positivos que você tinha quando pensava em ser um cavaleiro, era muito maior do que qualquer sentimento negativo que você ganhava se esforçando no meio do caminho. Acredite em mim senhor cavaleiro, nenhuma pessoa aguenta se esforçar no mundo da cavalaria sem um sentimento muito forte a motivando, claro, com a lógica ajudando, mas com o sentimento de “eu gosto desse trabalho, então vai ser mais fácil pra mim” te guiando o tempo todo.
O Cavaleiro estava sem palavras, ele queria falar, mas era como se ele se sentisse indigno pra falar qualquer coisa pra mim, eu deixei ele respirar, deixei minha garganta relaxar tambem, depois continuei.
Antônio: o dinheiro que você falou ter controle de não gastar tudo em bobagens, é outro exemplo, pois afinal, você deve guardar esse dinheiro pra, sei lá, levar seus filhos em viagens, comprar algo ainda melhor depois, ou o mais comum, economizar pra conseguir subir mais de vida e facilitar mais algo que já está bem fácil pra você, estou certo?
Silêncio de novo, mas agora, com um rosto mais calmo e muito mais contemplativo que no começo da festa, ele falou.
Cavaleiro2: certo até demais, e pelo que eu já passei com minha mulher, espero que você me dê uma explicação muito boa do que meus sentimentos são pra ela.
Ok, agora tudo ficaria bem, por que agora, eu iria falar algo que eu tinha preparado, pensado e raciocinado por muito tempo, principalmente analisando jovens que pegavam várias pessoas ao mesmo tempo, enquanto eu ainda estava com minha primeira namorada, e talvez minha noiva no futuro, mas eu estava me adiantando.
Antônio: algumas pessoas não valorizam a conexão humana, sabe? Pra muitos, a união é apenas prazer, ou uma forma de conseguir dinheiro ou uma casa mais fácil. Mas para aqueles que esperam, e que não tem influência forte da família pra casar, acabam guardando algo bem especial neles, uma cabeça fresca, uma que não foi contaminada com a “sensação do novo e imprevisível” que muitos jovens pegam por estarem mal guiados e nunca realmente se apegando com ninguém, nem com as pessoas que merecem, uma que está disposta a relaxar, ao invés de sempre se arriscar no novo o tempo todo.
O cavaleiro então ficou confuso por alguns segundos, antes de falar de novo.
Cavaleiro2: desculpa, eu não entendi
Antônio: ter muitos parceiros de uma vez destrói seu psicológico, faz seu corpo entender que no fim, uma pessoa não basta pra você, o que faz você trair, machucar e fazer várias coisas horríveis com aquele que deveria ser seu companheiro a vida toda…(tosse) mas estou me perdendo aqui, o que quero dizer é: uma pessoa que entrega seus sentimentos muito cedo em relação a romance, perde algo muito maior do que um emprego ruim ou dinheiro que ela muitas vezes nem tem direito. Pessoas que se entregam muito logo no início perdem partes de si mesmas, as partes que confiam, prezam e protegem aqueles que eles escolheram como parceiro, e vice versa, e ganham partes novas também, partes que fazem elas parecerem monstros, partes que os fazem se tornar camaleões, pessoas que fingem, mentem, e enganam apenas para conseguir atender mais seu vício de novidade, ao mesmo tempo do vício de romance distorcido, uma visão de romance criada depois de estar com muitas pessoas diferentes, e muitas vezes, sem compromisso o bastante para a mente da pessoa conseguir ficar normal de novo.
Cara, eu odiava usar a palavra “normal” mas naquela posição, não tinha nenhum jeito melhor de explicar o que aconteceu, e o Cavaleiro, mesmo não entendendo completamente o que eu falei, vi como ele estava pelo menos sabendo que a vida amorosa dele não era nem um pouco assim.
Guarda2: desculpa, mas acho que agente se perdeu do assunto
Antônio: é, nos perdemos mesmo, ok, vou falar de forma simples agora: você escolheu conservar seus sentimentos e emoções, esperando para um momento onde você estaria mais maduro, e as garotas que você encontrasse no meio do caminho, na teoria, estariam mais maduras tambem e em meio a grande corrida de crescer, se encontrar, e se descobrir. Você encontrou sua esposa, e todos os sentimentos que você decidiu guardar pra pessoa certa, você entregou eles a ela um por um, pra descobrir se valia se envolver com ela, e depois que você descobriu que valia, você entregou todos pra ela, e sua esposa entregou os dela a você, bem devagar, até chegar o ponto em que suas emoções ficaram boas o bastante para vocês confiarem um no outro o bastante para se casarem, me diga senhor cavaleiro, a minha teoria está certa?
Eu tirei toda essa teoria da felicidade que ele falou da esposa, e o fato de que, mesmo naquele campo de batalha, ele ainda usava o anel de casamento dele, e pela risada relaxada do Cavaleiro, sentia que eu estava certo.
Guarda2: bom, você está certo, pelo menos parcialmente, antes eu entreguei meus sentimentos pra 3 outras garotas antes de encontrar minha esposa, mas pelo que você acabou de me falar, acho que eu entreguei pouco a elas, só o bastante pra eu saber que não valia a pena, e depois pulei fora
Antônio: é assim mesmo, ninguém é perfeito
Guarda2: apesar das brigas que agente tem de vez em quando, (poe mão no peito) eu agradeço ao Criador todos os dias por colocar minha esposa em minha vida
Antônio: tenho certeza que ela pensa a mesma coisa de voce todos os dias, né?
Cavaleiro2: com toda certeza.
E depois de ouvir uma risada calminha, eu olhei em volta, ficando impressionado em como ninguém ali estava entediado, na verdade, todo mundo lá ouvia eu explicar detalhe por detalhe toda aquela teoria, tinha certeza que se tivesse papel e caneta ali muitos cavaleiros até iriam anotar o que eu falei.
Guarda3: AI, O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO? ISSO DEVIA SER UMA FESTA NÃO É? CADE A MUSICA?
E como se fosse um estalo pra voltarem a si, os Cavaleiros voltaram a se agitar, a conversar, festejar, beber, e tudo mais, mas antes do grande caos começar de novo, tive uma conversinha final com o Cavaleiro.
Guarda2: agora entendo porque a magia é a guia do reino, não a aura
Antônio: tenho certeza que em um reino comandado pela aura, ela deve ter tanta sabedoria quanto a magia
Guarda2: é, vale a pena sonhar.
O cavaleiro não parecia muito seguro do que eu falei era verdade, mas não parecia triste, ele parecia até bem feliz com o que descobriu hoje, ao invés de estar com uma inveja poderosa da mana, hmhm.
Então, ficando perto do Brutus de novo, tentei ir pra um lugar mais calmo, mas era claro que as coisas não iam ficar calmas, ainda mais agora depois de tudo o que eu falei, todos os cavaleiros estavam bem curiosos pra saber muito mais sobre mim.

