Meu reconciliamento com meu pai foi algo bem lento, pra começar, eu levei ele pra um lugar que eu sempre quis ir, mas eu ficava adiando pelo quão ocupado eu estava com...tudo, entre eu estar me descobrindo, eu estar passeando com meus amigos, eu não tive tempo pra fazer aquilo.
Eu podia ter chamado os outros, mas eu queria compensar o tempo que perdi com meu pai, então, com uma bola nos dedos, eu a arremessei até os pinos, conseguindo um bom jogo de 5 pinos derrubados, e com mais uma jogada, consegui derrubar os outros 5, enquanto meu pai só olhava, ficando feliz com o que via.
Pai: não achei que você gostasse dessas coisas
Antônio: é que sempre foi algo que eu tive bastante interesse.
Vi meu pai pegando a bola, mas não parei de falar.
Antônio: então, o que tem feito?
Pai: bom, você deveria ficar feliz, pois você vai ter um irmão.
Enquanto ele largava a bola, fiquei com um misto de sentimentos dentro de mim, mas a raiva parecia estar liderando todas elas, pensei que iria explodir, e iria gritar com meu pai de novo. Tudo enquanto a bola parecia ter passado reto pelos pinos.
A minha raiva parecia estar prestes a sair, mas então, o amor, alegria e carinho que eu recebi por anos dele, me acalmou, e no fim, os sentimentos se anularam, e eu apenas fiquei neutro, nem feliz nem irritado com a notícia.
E olhando os pinos, vi que um tinha caído enquanto meu pai virava pra mim.
Pai: quer conhecer sua enteada?
Antônio: não obrigado, prefiro só ver meu irmão quando ele nascer
Pai: tem certeza?
Antônio: absoluta.
Eu estava tão calmo que eu achava estranho, mas na minha vez, eu joguei a bola de novo, e agora peguei 3 pinos, mas recuperei acertando 4 depois, hum.
Pai: não precisa da sua música não?
Antônio: não, eu tô tranquilo.
O campo de boliche, principalmente naquela hora, era um lugar desértico, bem vazio e com poucos lugares pra ter um barulho muito alto, então, um lugar perfeito pra eu conseguir curtir um pouco de tempo livre com meu pai.
Antônio: não sei como você consegue casar de novo, depois do vexame que você passou
Pai: vexame?
Antônio: sabe, o julgamento e coisa e talz, você perdeu seu nome e eu fiquei com ele.
O meu pai então ficou envergonhado, mas não era pelo que eu achei que era, porque logo depois ele começou a ficar estranho, e quando ele pegava a bola, ele falou.
Pai: sobre isso filho, aquele julgamento, ele...meio que não era oficial.
Enquanto ele jogava a bola, e derrubava 4 pinos, eu falei.
Antônio: como assim ela não era oficial?
Pai: não sei o que sua mãe te falou, mas nós dois não gostávamos um do outro, não mais, e só ficamos juntos pra tentar cuidar de você.
Meu pai me revelou aquilo de forma casual, mas pra mim era como se o mundo que eu vivi até agora fosse uma mentira, minha raiva aumentou, mas logo desapareceu de novo, mas não porque eu me acalmei, mas por que ela foi substituída por medo e curiosidade, ao mesmo tempo.
Antônio: por quanto tempo vocês mantiveram essa farsa?
Pai: mais de 20 anos
Antônio: era um relacionamento aberto?
Pai: não
Antônio: a mamãe já te traiu alguma vez?
Pai: não
Antônio: então você é um péssimo namorado e um péssimo marido
Pai: é, eu sei.
E lá estava ela, a prova mais clara que, apesar de tudo, meu pai não era um adulto, pelo menos não completo, ele sabia que tinha um problema, mas não conseguia resolvê-lo, e depois de ver ele errar os outros 6 pinos, peguei minha bola, por que era minha vez.
Antônio: como vocês fizeram um julgamento falso? A corte, o juiz, tudo parecia bem real
Pai: por que eles eram reais, o juiz era meu amigo, e eu pedi que ele me fizesse esse favor, sua mãe me convenceu que isso iria deixar mais fácil pra você aceitar do que apenas ouvir que seus pais se separaram por que só ficaram juntos por sua causa, e agora que você cresceu, não precisávamos mais fingir.
Aquele plano era tão complicado que eu nem conseguia entender se eu devia ficar com raiva disso, mas de novo, antes da minha raiva se manifestar, ela se desfez, como se um calor se formasse no meu peito e uma espécie de calmaria apagava o fogo antes dele saltar pra fora, e eu estava curioso pra entender por que isso acontecia.
E com quase um strike, eu ganhei uma jogada difícil, com dois pinos separados no lado oposto, não ia conseguir acertar os dois, então só escolhi um e falei.
Antônio: você não precisava fazer isso
Pai: eu achei que precisava, na época eu não entendia por que você estava com raiva de mim, mas estava claro que você precisava de um tempo longe de mim, e vendo você agora, eu vejo que estava certo
Antônio: é, estava sim.
Tentei conversar mais, mas nada que eu via ou gostava era algo que eu podia discutir com meu pai, por que ele não gostava de nada, então eu apenas falei o mais básico.
Antônio: sabe pai, eu tô gostando bastante do meu trabalho
Pai: é mesmo?
Antônio: é, foi difícil no começo, mas acho que tô gostando dali
Pai: por que era difícil?
Antônio: bom, é que no começo eu tentei seguir todas as regras do lugar a risca, mesmo que isso me fizesse ter explosões de raiva
Pai: você teve explosões de raiva no seu trabalho?
Antônio: fica tranquilo, não foi nada tão intenso quanto quando eu era criança.
Eu falei aquilo enquanto lembrava de forma quase dolorosa aquele momento, sendo que, apesar de tudo, eu tinha uma lembrança boa daquilo, por que, apesar do quão ruim da cabeça eu estava naquele momento, eu apenas assustei alguns clientes, eu não machuquei ninguém, eu não destruí nada, eu só dei um surto tão forte que muitos pessoas acharam que um animal perigoso estava por perto.
Antônio: pelo jeito tinham regras que não eram tão levadas a sério quanto pensei que levavam, e por eu ser um Singular, eu tenho certos privilégios para conseguir me acalmar melhor
Pai: que tipo de privilégios?
Antônio: eu posso dar um tempo quando eu tô em crise, claro que todos os funcionários devem ter isso, mas eles entendem que certas situações são mais complicadas pra eu resolver, e por causa disso me deixam relaxar por alguns segundos e voltar pro trabalho
Pai: legal
Antônio: mas sabe, eu tenho gostado do trabalho mais por outra coisa
Pai: o que?
Antônio: reconhecimento
Pai: como assim?
Antônio: por toda a minha vida, eu sempre sentia qué eu era diferente, que até às pessoas que eu mais confiava no mundo não confiavam em mim, mesmo agora, eu ainda sinto as vezes como, parece que eu não sou confiável, que eu sou estranho, e que eu sou "diferente" de todo mundo, sabe.
Meu pai não respondeu, eu não tava me referindo literalmente a ele quando falei aquilo, era todo mundo agora, se ele ficasse incomodado eu tentaria explicar pra ele, mas não agora, não enquanto tava explicando algo feliz.
E pela primeira vez, eu cheguei perto de um strike, mas eu apenas acertei 6, bom, pelo menos eu deixei 4 juntos, vai ser fácil acertar os 4.
Antônio: mas no meu trabalho não é assim, claro, todo mundo entende meus limites e coisa e tal, mas apesar disso, minha Singularidade não é o que me define quando nós conversamos, eles me veem como um colega de trabalho, um igual, eles me dão um trabalho confiando que vou conseguir cumpri-lo, me tratam como alguém que, apesar de todos os meus problemas, não precisa ser tratado como alguém de vidro ou super sensível, apenas precisam entender que eu preciso de um tempo quando eu tô mal e que podem confiar em mim quando precisarem
Pai: mas as pessoas te dão isso em vários lugares que você vai
Antônio: eu sei, não é estranho? Não sei por que, mas eu só sinto isso no meu trabalho, nem com você ou com a minha mãe eu consigo sentir isso. Será que é algo do trabalho?
Eu acertei os últimos 4 pinos sem problema, e eu e meu pai passamos um bom tempo sem falar nada, só pensando no que eu falei, e não conseguimos nenhum bom resultado, estávamos num branco total.
E vendo como o silêncio tava bom, nós só jogamos mais, até a nossa hora marcada terminar e outro time chegar, mas antes de sairmos, vimos o placar, e olha só, não fiz um jogo perfeito, bem longe disso, mas eu ganhei do meu pai por mais de 100 pontos, e ele de certa forma, tava bem orgulhoso de mim.
Pai: vejo que você conhece bem o jogo
Antônio: que nada, foi sorte de principiante.
E era mesmo, aquela era a minha primeira vez jogando, nem eu podia acreditar no quão bem eu joguei.
Pai: podemos fazer isso de novo?
Antônio: é claro, podemos até chamar o Brutus, o Pedro e fazermos um dia do boliche
Pai: tem certeza? Eu sempre achei que o seu amigo não gostava muito de mim
Antônio: boooom, isso e mais a minha culpa, só tenta ir, eu vou falar com ele logo, então deixa que eu resolvo isso
Pai: tá bom, tô contando com você.
Haha, eu estava bem curioso pra entender por que a minha raiva aparecia muitas vezes quando eu falava com meu pai, mas ela nunca parecia se manifestar.
Hehe, parece que eu não tinha mesmo força pra sentir raiva dele sem uma muleta, se bobear, eu teria perdoado o que o meu pai falou pra mim naquela época se não fosse minha raiva acumulada.
Pensei nisso enquanto ia pra casa com o Zorro, enquanto meu pai subiu na carruagem dele e ia embora também, enquanto eu pensava como as coisas ainda iam mudar muito antes de se ajeitarem, e sentindo meu coração se agitando com as mudanças, tentei convencer a mim mesmo que ia ficar tudo bem, foi um processo lento e demorado o suficiente para eu chegar em casa e ver minha mãe.
Mãe: e aí, como é que foi?
Antônio: foi tranquilo, foi tranquilo, mas me fala mãe, é verdade que você e o meu pai só ficaram juntos por minha causa?
Mãe: sim, é verdade, tá chateado comigo?
Antônio: bom, apesar dos problemas, acho que eu virei uma boa pessoa por causa de vocês dois, então, apesar de tudo, eu posso pensar que valeu a pena pra mim no final, mas valeu a pena pra vocês dois?
Mãe: sei que deve ser difícil pra você aceitar isso filho, mas apesar do seu pai ser um péssimo marido, ele é um ótimo pai, pra você e pro Pedro
Antônio: é...eu sei.
Minha mãe tava realmente impressionada, talvez não esperando que eu aceitasse tão fácil que ele era um bom pai.
Antônio: tudo que ele me ensinou, eu levei pra minha vida, como estudar, como treinar, como tratar uma mulher, você me ajudou muito mãe, mas uma boa parte de mim foi ele que me ensinou.
Eu falei isso enquanto apertava o meu peito, pensando em tudo que eu reprimi por causa dele, e toda a raiva que eu passei e reprimi até chegar a explosão que eu criei naquele campo de guerra.
Antônio: com ele também aprendi a não chorar, nunca, também aprendi a esconder o que eu sentia, e também aprendi que eu não podia contar pra ele tudo que eu passava, e também aprendi que se eu quiser alguma coisa, eu deveria ouvir ele primeiro e depois talvez pensar no que eu quero de verdade...então...tudo que eu odeio sobre mim, eu também aprendi com ele
Mãe: você não tá sendo dramático demais filho?
Antônio: tem razão, muitas coisas que eu odeio sobre mim eu também aprendi na escola, mas é mais difícil de ter ódio de uma organização escolar inteira, né?
E novamente, a calmaria se apossou de mim, minha voz não se alterou, eu não estava nem queimando em raiva, e nem acumulando ou prendendo raiva, nada disso, o meu corpo estava completamente tranquilo e calmo como um mar sem ondas. Pode até parecer uma comparação estranha, mas era assim que eu me sentia por dentro e a minha mãe podia apenas me olhar preocupada, pensando que eu estava guardando alguma coisa de novo.
Mãe: você tá bem filho?
Antônio: sim, eu estou bem, eu estou ótimo na verdade.
E com essa calmaria nova, que eu estava lutando pra manter, eu fui pro meu quarto.
Sempre tinha algo engraçado nessa calmaria extrema que sempre que ela chegava, eu acabava ficando nervoso por que eu estava "ironicamente" calmo demais, e não estar familiarizado com essa calmaria me deixava nervoso, e depois o meu nervosismo voltava, aí eu me acalmava até ficar naquele estado de novo e o ciclo continuava.
Tentando me acalmar e ficar mais tranquilo, só fui pro meu quarto, e novamente, a minha cabeça estava tão calma que eu decidi só deitar na cama e descansar.

