Dandara: bom, eu penso que, essa alegoria está na metade de uma alegoria maior ainda. Primeiro eu baseei que antes de caírem no poço, as pessoas sobem em cordas desde o nascimento, e quando elas não são permitidas a subir a corda, seja pela própria família, ou por doideiras da própria cabeça, ou os dois, elas afundam em um poço…um poço que fica cada vez mais fundo quanto mais elas se recusam a subir, até que elas finalmente são permitidas de subir na corda…
E ela deixou aquela alegoria no ar, o Cavaleiro tentou descobrir tudo na alegoria, mas como o labirinto de espelhos, aquela teoria não precisava ser levada completamente a sério, e pelo visto, o Cavaleiro entendeu isso muito bem.
Cavaleiro: o poço do moço é bem fundo…ele vai demorar pra sair do poço…mas me fala, aonde todos vão quando estão no caminho para a corda?
Dandara: pro céu.
Então o Cavaleiro ficou ainda mais interessado, querendo entender por completo o que ela quis dizer com isso
Cavaleiro: como assim, céu?
Dandara: ninguém nasceu no céu, ninguém nasceu bom, ninguém nasceu legal, ser bom é uma criação de mentes inteligentes. E ninguém pode ser legal por você…quando você sobe uma corda, você sobe, mas você, na maioria das vezes, não cai, as nuvens te mantém no alto, pra você respirar e conseguir subir mais depois, mas se você demorar muito, você vai acabar afundando devagar, até chegar no chão de novo, e depois voltar a ser enterrado no poço.
Cavaleiro: interessante, mas o que subir a corda deveria significar exatamente?
Dandara: enquanto você está tentando alcançar o céu, você precisa entender a si mesmo, então você está bem alto na corda, alto o bastante pra você ver uma bela vista, digna de ver vastas colinas verdes, florestas lindas e até cidades muito coloridas, tudo com grandes montanhas, mas quando você descobre o bastante sobre você…você consegue entender melhor quais pessoas são o seu grupo, quais pessoas são confortáveis de ficar e quais pessoas são complicadas demais pra você ficar perto…e que não querem a sua ajuda…então você chega nas estrelas, bem no espaço, onde apenas tem o escuro de que…tudo que é desnecessário sumiu e apenas o simples e grande brilho estrelado das grandes amizades e partes de você mesmo e lugares que você descobriu no seu caminho até aquele ponto, restam
Cavaleiro: unhun, continua
Dandara: então, existe o céu, o inalcançável paraíso, que é quando você entende tanto a si mesmo quanto as pessoas ao seu redor, a ponto de tudo, literalmente tudo a sua volta não ter mais sentido, na metáfora de, “não preciso sentir estresse ou raiva por isso” ou “não vou sentir estresse por isso, afinal, o que mais eu posso fazer?”...mas alcançar o céu é impossível por um simples motivo, as pessoas mudam, tanto você quanto seus amigos, e o mundo muda, tudo muda, então…a corda, no fim, ela sempre fica maior…
A tristeza na voz de Dandara ao falar a última parte me deixou um pouco preocupado que o abismo do moço estivesse olhando ela de volta, mas se ele estava, a Dandara olhou nos olhos o abismo, não sentindo medo e o compreendendo totalmente.
Dandara: mas a corda ser infinita não é um motivo para você parar de subir, afinal, o que significa parar de subir? É você ficar em um poço tão profundo, mas tão profundo…que você não consegue sequer ver a luz da saída…a vida é cheia de dor, provações e desespero, mas se você se esforçar…vale a pena viver essa vida…
Então, a Dandara fechou os olhos, respirando bem fundo e absorvendo com tudo aquele lugar acolhedor onde ela estava agora. O Brutus estava absorvendo tudo aquilo, como se estivesse integrando aquela fala com uma teoria que ele mesmo tinha, enquanto a Saytus chorava, sem esconder nada. Mexi nos meus próprios olhos, e talvez por ter coração de pedra, eu não estava chorando.
Cavaleiro: é uma alegoria muito boa senhorita Dandara, mas eu acrescentaria que é sim, possível alcançar o céu
Dandara: e como você sabe disso?
Cavaleiro: por que eu sei que o Rei está lá, assim como a Rainha, a Princesa, o Abade gigante, e a rainha fada…eu já conheci esses seis, e posso lhe garantir, esses 6 estão no céu.
A Dandara aparecia atordoada, como se fosse incapaz de acreditar nas palavras do Cavaleiro.
Dandara: obrigada por me dar motivação pra continuar me aprimorando
Cavaleiro: de nada.
Quando achei que já estava tudo bem eu olhei a janela de novo, e vi que o moço tinha virado o rosto para olhar pra nós, uuuuuuuuh, o olhar dele não estava mais branco, ele estava bastante embaçado, mas dava pra ver a cor dele bem lá no fundo.
Antônio: olha isso, parece que você ganhou um fã
Dandara: desculpa querido, mas eu já tenho dono.
Agente tinha falado aquilo de brincadeira, por que o moço era claramente bem mais velho do que nós, mas então, o moço deu um…soluço? Mas enquanto eu pensava nisso, o Cavaleiro ficou todo feliz, pegou uma carta e depois criou um pássaro e sussurrou.
Cavaleiro: (sussurro) envie isso pro João.
E o passarinho partiu, agente tentou perguntar o que o Cavaleiro fez, mas não precisamos, por que em menos de 10 segundos, o Psicomante João apareceu, e entrou ali.
Dandara: o que aconteceu?
Cavaleiro: ele não ria desde que ele entrou aqui, isso é basicamente um milagre.
O Cavaleiro pareceu ficar extasiado, e muito feliz e absorvido pelo trabalho antes de parecer notar de novo que nós estávamos lá, então, se colocando em uma forma tranquila novamente, ele falou.
Cavaleiro: desculpa por isso, mas podemos ver outro paciente?
Dandara: eu não ligo…
A Dandara parou de falar do nada, e começou a olhar a porta, Quando o Psicomante entrou, a porta se fechou, mas ela continuou olhando pra porta fechada, como se estivesse usando a própria experiência para imaginar o que o moço estava passando lá dentro.
Dandara: …será melhor nós o deixarmos sozinho mesmo
Cavaleiro: agradeço a compreensão
Saytus: eu tenho certeza que se tivéssemos insistido, você veria que nós trapaceamos no teste e nos expulsaria
Cavaleiro: ah, eu não acharia isso, os testes são supervisionados pela própria Rainha, não tem como vocês trapacearem sem que ela perceba
Saytus: se você tá dizendo né.
A Saytus ficou calada pelo resto da caminhada, encontrar o moço com a maldição do vazio tão avançada, junto com a fala da Dandara, havia mexido com a garota de formas que talvez nem ela mesma consiga entender ainda.
Dandara: já começamos bem…já fazia um tempo que eu queria falar minha teoria pra alguém
Antônio: eu amo suas teorias
Dandara: às vezes eu penso em falar elas no reino dos Gigantes, pra eu conseguir ver se tem alguém que tem um contra argumento
Antônio: ah, isso seria bem interessante de ver
Brutus: lembra daquela palestra que agente fez que até alguns gigantes adultos foram lá nos ver?
Antônio: eu tenho certeza que eles tinham uma ideia do que agente já sabia, mas talvez nosso jeito de explicar mostrou algo que eles próprios não viram sozinhos
Dandara: ah, para com essa autodepreciação, você tem orgulho de alguma coisa na vida Tony?
Antônio: eu me formei como um mago
Dandara: além disso?
Antônio: eu também tenho uma coleção de livros de deixar muitos barões com inveja…
Então, a Dandara ficou com um rosto…um rosto que eu não queria ter entendido o que era, então ela falou, ficando bem pertinho de mim.
Dandara: eeeeeee, você pode me mostrar o lugar?
Antônio: não, eu não vou mostrar, não se você quiser que agente brinque lá dentro, a biblioteca é sagrada pra mim, não quero que agente faça isso lá.
Por mais frustrada que a Dandara estivesse, ela pareceu entender o que eu quis falar e não insistiu.
Dandara: ah, beleza então.
Então ela pareceu planejar outra coisa, não uma vingança, mas sim um plano que ela parecia não ter certeza no início, mas agora ela tinha certeza quase absoluta. O Brutus e a Saytus pareciam estar conspirando com alguma coisa contra mim, o que? Sério? Até o Brutus.
Antônio: (suspiro) o que ela te contou?
Brutus: se eu contar o plano dela, vou ter que contar o seu, você quer isso?
Então, a Dandara ficou com o rosto vermelho, olhando pra mim, com bastante credibilidade do que acabou de ver, mas de certa forma, aquilo a deixou bem envergonhada e quietinha. Eu devia ter falado algo, devia mesmo, mas no lugar disso, só fiquei calado, não querendo estender muito aquilo.
Então, nós chegamos numa sala que eu estava bem interessado em olhar.
A ferocidade daquela sala parecia bem mais intensa do que da última vez que eu a vi, mas ironicamente, quando a porta abriu, todo mundo entendeu de cara o que tinha ali.
Brutus: hummmmm, um irmão, mais do que eu poderia admitir.

