Tinha passado muito tempo desde que eu tinha ido pra lá, tava mais barulhento, tinha mais pessoas nos outros lugares, mas eu também estava com mais pessoas, então não reclamava dos outros, na verdade, mesmo naquele ponto onde eu estava rodeado de todo o tipo de barulho, eu não estava incomodado, não vi a necessidade de acionar meus feitiços nos ouvidos.
Era só uma teoria minha, mas talvez, e apenas talvez, eu de alguma forma já tivesse aceitado que aquele lugar era barulhento por natureza e essa aceitação me deixou mais tranquilo, mas por enquanto não tinha provas que aquilo era certo.
Mas o que eu podia dizer com certeza era que o som do pinos caindo era muito relaxante, e era muito bom ver meus melhores amigos comemorando quando conseguiam derrubar todos os pinos, eu ainda estava a duas partidas de ser chamado pra jogar, e depois da minha segunda ida ali, eu estava realmente considerando comprar uma bola de boliche apenas para mim, tudo enquanto degustava umas batatas com tudo que tinha direito em cima, que agente rachou pra pagar.
Ali estava o Pedro, o Jay, o João(irmão da Dandara), e o Brutus. Vendo a maneira como tudo ali estava se desenrolando, tanto eu quanto os garotos estávamos considerando chamar aquilo de “noite da rapaziada”.
Brutus: eu não pensava que jogar boliche conseguia ser tão divertido assim…
Brutus falou aquilo enquanto ele jogava uma bola e boliche com muita força, fazendo ela deixar dois pinos separados, de novo.
Brutus: AAAHHH, DROOOOOOGAAAAAAAAAAAA
Antonio: poe menos força Bro
Brutus: (bufa) ta bom.
E seguindo meu conselho, ele conseguiu derrubar um dos pinos, mas não conseguiu derrubar o outro, era inumano conseguir acertar os dois. E enquanto o Brutus estava frustrado, o Pedro se sentou do meu lado numa casualidade absurda que só um irmão mais velho conseguiria fazer.
Pedro: o Brutus eu já conhecia, mas quem são os outros dois?
Antonio: o João e o irmão da Dandara, toooo, tentando me aproximar dele, e o Jay e apenas um antigo amigo meu da escola, e como dá pra ver, ele e um cara de poucas palavras
Brutus: é, acho que ele não falou nada desde que agente chegou
João: dêem espaço ao garoto, são vocês que falam muito.
E falando aquilo, o João fez uma jogada “perfeita”, conseguindo derrubar 5 pinos em um canto, mas eles pelo menos pareciam juntos.
Antonio: e aí João, o que você faz?
João: eu? nada demais, eu apenas tento manter o negócio da família de pescaria profissional
Antonio: pescaria? sem ofensas cara mas como voce conseguiu músculos desse jeito pescando?
João: eu pesco no mar vermelho
Antonio: compreensível.
Enquanto o João derrubava os últimos 5 pinos, e ganhava um spare, eu pensei que agora os músculos faziam sentido, o fato de ele não ter queimaduras no corpo todo, só deixava mais impressionante o quão “sério” ele estava no negócio.
Antonio: e você só vê espelhos pra passar o tempo?
João: não, eu também gosto de jogar pedras em arvores.
Dei um olhar de interrogação pro João, porque eu não sabia mesmo o que aquilo deveria significar.
João: isso me acalma, de alguma forma.
Não julguei, ele não tava machucando ninguém e nem derrubando árvores, então tava tudo bem. Tudo enquanto o Jay jogou a bola, e conseguiu um strike, nossa, aquilo teria deixado os outros com medo se essa não fosse a primeira vez que ele fez algum ponto desde que começou a jogar. Das 3 rodadas até agora, foram os primeiros pinos que ele derrubou a noite toda.
Eita, era a minha vez, então depois de encher minha boca de batatas (e ainda ouvir meu irmão pedindo outra porção), me preparei pra jogar a minha bola, mas antes de jogar, eu pensei como aquela bola parecia tão errada, o peso tava errado, os buracos estavam no lado errado, e ela parecia áspera demais pra uma bola de boliche, e mesmo assim, eu joguei a bola, conseguindo quase um strike, mas eu pelo menos deixei dois pinos juntos, e enquanto eu esperava a minha bola voltar, eu me virei para meu irmão e perguntei.
Antônio: tem certeza de que não quer jogar?
Pedro: ai Tonynho, eu já jogava bolas nessa pista enquanto você ainda usava fraldas, se eu entrasse, eu venceria
Antônio: tem certeza que não tá enferrujado?
O Pedro então pareceu provocado pelo que eu disse, mas não falou nada, ele apenas ficou lá, vendo o Brutus e o João jogarem, mas quando chegou na vez do Jay, ele se levantou, pedindo pro Jay ficar sentado.
Meu irmão andou calmamente até a bola do Jay, e a segurou apenas com o dedo mindinho, parecendo que ele nem se esforçava, então, com a pose mais tranquila, despreocupada e calma que eu já vi ele fazendo, ele jogou a bola de boliche de forma desleixada, o movimento da bola foi lento, provocador, até que ela finalmente chegou nos pinos, e de forma também lenta, cada um dos pinos foi derrubado, nenhum deles ficou em pé.
Eu não tinha nada a dizer além de.
Antônio: é, nao ta enferrujado, desculpa duvidar de você
Pedo: tudo bem, desde que não se repita.
Na minha cabeça, eu pensei como o boliche parecia ser o “lance” do Pedro, assim como música era o lance da Dandara e peças eram um lance meu, porque, por mais incrível que o meu irmão fosse, eu não queria aceitar que algo poderoso como aquilo podia ser feito apenas porque alguém tava afim de fazer.
Pedroo: isso mesmo, eu gosto de boliche
Antônio: AH, FALA SÉRIO!? É TÃO FÁCIL ASSIM ENTENDER O QUE EU TO SENTINDO!?
Pedro: é, mas é mais por que sou seu irmão, então não liga muito pra isso não
João: nossa, eu espero ter uma ligação assim com a minha irmã um dia.
O João falou, enquanto o Brutus pegava a bola, e respirando fundo, tentou seguir meu conselho de novo.
Pedro: é bem provável que você já tenha parceiro
João: eu não sei
Pedro: por que não?
João: minha maninha tem a medida do vazio, eu a amo mas, tem horas que eu não tenho certeza se ela realmente tá feliz ou se só tá fingindo por minha causa
Antonio: ela não está, eu garanto.
O João olhou pra mim, enquanto o Brutus quase conseguiu um strike, mas pelo menos os pinos dele estavam juntos dessa vez.
João: como você tem tanta certeza?
Antonio: eu aturo aquela garota uma boa parte do dia, eu conheci ela o bastante pra saber que ela não finge, não mais.
E enquanto o Brutus derrubava mais pinos, ficando feliz e aliviado quando ele conseguiu derrubar todos os pinos pela primeira vez do jogo. E enquanto o Brutus voltava, ele ainda completou o que eu disse.
Brutus: o Davi me falou bastante dela, e é verdade, aquela garota não finge, ele até chegou a falar que ela não consegue mais mentir
João: jura? Não sei até que ponto isso é bom
Antonio: relaxa, vamos descobrir juntos.
E enquanto o João estava prestes a jogar a bola, o Jay finalmente decidiu falar.
Jay: e ai, vocês tem cavalos ou vassouras?
O João ficou tão impressionado com a fala do Jay que ele errou a bola e não acertou um único pino, foi o primeiro jogo zero do João naquela noite.
Brutus: HA, finalmente, já tava começando a pensar que você era mudo
Jay: eu não sou bom com pessoas
Brutus: considerando o quão próximo você é do Tony, não é pra menos também, e a propósito, eu tenho um pônei, como você pode…presumir.
O Brutus falou aquilo enquanto apontava pro seu corpo todo, era engraçado as pessoas normalmente só perceberem o quão pequeno o Brutus (e ainda mais o Davi) eram pequenos quando eles apontavam isso, eles não eram anões, mas eles eram bem pequenos.
E com o Jay pegando mais uma bola, de novo, os outros falaram.
Pedo: cavalo
Antonio: cavalo
João: vassoura.
Então eu olhei pro João, parecia óbvio, mas ele era claramente um cavaleiro de aura, então…como ele poderia ter uma vassoura? Entendendo muito bem o significado do meu rosto, ele falou de forma casual.
Joao: sim, existem vassouras pra cavaleiros, você só precisa encontrar o lugar certo.
A causalidade que ele me falou isso já me mostrou que ele deveria responder essa pergunta muitas vezes por dia. Nossa, um cavaleiro de armadura imensa, voando nos céus com uma vassoura especial e acertando inimigos com milhares de flechas ou dando espadas poderosas com seu punho preparado pra aguentar o grande peso e seu próprio poder e força.
Antonio: noooooooooossa, eu tenho que ver isso pessoalmente.
E enquanto o Jay saia depois de mais uma derrota e deixava eu entrar, o Jay falava.
Jay: e, esse simples pensamento me deixou muito interessado no que um cavaleiro como você é capaz de fazer, poderia me mostrar essa alegria outro dia?
João: eu irei adorar, hmhmhmhm, irei mostrar a todos vocês a grande glória da vassoura de aura.
Enquanto eu ia jogar mais uma bola, eu pensava em como aura e mana eram energias muito diferentes, com certeza a vassoura do João era um modelo ultra especial que eu precisava ver com muito cuidado, mas por enquanto, só ficava feliz e um pouco frustrado vendo como eu quase consegui um strike e falhei de novo.
A partida foi acirrada, o Jay conseguiu se manter no jogo com os strikes, mas perdeu bem rápido o ritmo e ficou pra trás, eu consegui me manter um bom tempo, e o João também, com o Brutus perdendo a calma e ficando atrás logo depois, até que na final, eu consegui dois strikes, foi na mais completa sorte, no ponto onde nem eu acreditei no que eu fiz, mas foi o suficiente pra vencer.
Quando nosso tempo na pista acabou, agente ficou feliz, com todo mundo animado e totalmente doidos para se divertirem a noite, mas apesar de eu não pensar que eu não precisava do meu feitiço de som, eu já estava me sentindo bem cansado de mais de uma forma.
João: HAHA, ISSO FOI INCRÍVEL TONINHO, MESMA HORA SEMANA QUE VEM?
Não sabia o por quê, mas aquilo me pegou totalmente de surpresa.
Antonio: e, acho que pode ser
João: HAHA, MANEIRO, AGORA SIM VAI DA PRA RELAXAR DE VERDADE POR AQUI.
Então, quanto menos eu esperava, eu e os rapazes criamos uma rotina e sempre nos encontramos no domingo à noite pra jogar boliche. Era engraçado como o Jay não parecia melhorar nunca, enquanto o Brutus parecia estar ficando mais irritado a cada jogo, apesar de estar melhorando, enquanto o papel e espectador do Pedro evoluiu para treinador, com ele falando parte por parte o que cada um precisava fazer para ficar tudo bem no final.
Eu até esperava que convida-los para ela seria bacana, mas eu não esperava aquilo.
Pedro: e ai maninho, o que você acha de convidar o papai?
Antônio: não.
Sem raiva, sem ódio, apenas simples exclusão…eu…não queria ele lá, e se meu irmão entende minimamente o que minha expressão queria dizer com aquilo, ele não iria me perguntar o por que.
Pedo: ta bom maninho
Antônio: não vai me perguntar o por que?
Pedro: ta na cara que você não quer falar, não irei te forçar
Antonio: voce que sabe...obrigado

