Eu tava novamente no território dos Sapiens, e acompanhando o Brutus até a casa dos pais dele, parecia algo muito comum, mas eu mesmo ficava impressionado que fazia tanto tempo sem visitar a casa dos pais do Lobinho e do Sapien.
Antonio: voce ta pensando em sair de casa?
Brutus: não, não vou, e por que eu faria isso? aquela casa pode não ser a mais extravagante, mas tem quartos o suficiente pra eu ficar, e você?
Antonio: eu tenho pensado nisso bastante, mas não importa como eu pense, eu não consigo me ver saindo de casa, e não no sentido ruim, é que, quando eu olho em volta, eu não vejo motivo pra querer ir pra outro lugar, eu não incomodo ninguém, ninguém diz pra eu sair, então, acho que não importa, não e?
Brutos: é…as pessoas levam esse lance de sair de casa muito a sério
Antonio: todo mundo quer se virar sozinho, mas poucos aguentam as consequências dessa liberdade
Brutus: não poderia falar de forma melhor.
Quando chegamos na casa do Brutus, nós abrimos a porta, e o lobinho foi recebido com um abraço da Aline e da Melida, e diferente do Davi, o Brutus abraçou as irmãs com muito amor. Não precisamos nos esconder no quarto do lobinho, porque o Brutus gostava muito de passar tempo com suas irmãs.
Eu dei um tempo a mim mesmo para admirar como aquelas duas tinham crescido, na última vez que as vi, elas eram adolescentes desengonçadinhas, no meio da transição pra vida adulta, mas agora as duas eram boas moças, lindas e inteligentes. E diferente dos tempos antigos, elas convidaram agente pra tomar chá, (eu odiava chá, então elas me deram achocolatado, algo que eu apreciei muito).
Antônio: então, como é ser uma matriarca?
Aline: difícil, tem várias contas de transação que eu preciso ver, pra ter certeza que não tem alguem roubando o dinheiro de nós, preciso ver as solicitações e vários mordomos, que tem vários direitos diferentes, e tem todos os detalhes de trabalhar com Singulares, o que sim, eles podem ser bons, mas os problemas que eles me dão são uma real dor de cabeça as vezes, além de que eu tenho que parecer durona pra nenhuma família pensar que pode nos ameaçar
Antonio: enquanto vocês tiverem esses dois com você, acho que não vai dar problema.
Falei isso enquanto batia no nas costas do Brutus.
Brutus: você me dá crédito demais Tony, eu não sou invencível, e eu não vou estar aqui o tempo todo
Antonio: isso vale pros seus inimigos também
Brutus: touche Tony, touche
Aline: alem de que, eu tenho que manter o negócio da família funcionando, e todo o trabalho que aquelas lojas me dão me fazem considerar bastante fugir no meio da noite e nunca mais voltar.
A familia do Brutus era a famosa dona de uma galeria de lojas muito famosa entre Singulares, porque elas tinham exatamente o que a maioria dos Singulares procuravam: conforto, beleza e um tecido que não pinicava.
Prós Asingulares, eram coisas sem problema nenhum, mas para um Singular, são coisas como essa que decidem se ele vai usar a roupa ou não. E por mais engraçado que fosse ver ela surtando, eu sabia bem que manter esse tipo de loja não era brincadeira.
Antônio: mas você só considera, ne?
Aline: e nada além disso, tipo, o que eu poderia fazer? Deixar as lojas no controle da Melida?
Melida: pior que eu nem posso contra-argumentar isso.
Então eu olhei pra direita, notando de novo que a outra gêmea também estava lá.
Antônio: ah, Melida, haha, o que tem feito?
Melida: sabe como é, só me divertindo, lendo bastante, vendo bastantes espelhos e sempre andando na grande moda.
Não importa quantas vezes eu visse as duas, eu sempre achava doido como as duas eram gêmeas idênticas, mas que ainda conseguiam ser tão diferentes. A Aline, era uma moça bem tradicional, que usava uma rouba bem fechada(mas de um modelo confortável da própria loja, não um que machucasse como o as antigas roupas da Dandara), junto de luvas pretas, o cabelo loiro ela era preso em um rabo de cavalo bem grande na parte de trás da cabeça dela, os olhos dela eram azuis iguais de seu irmão, mas eles já mostravam um grande cansaço, junto com determinação pra aguentar muito mais cansaço. Ela tinha um corpo bem cheio, um cheio saudável, diferente de muitas moças na idade dela que passavam fome pra terem apenas uma coluna como cintura.
Enquanto a Melida era bem contrária a ela, o cabelo dela era todo solto, as roupas dela eram bem mais abertas, a postura dela era bem mais desleixada e o seu rosto não parecia ter nenhuma preocupação no mundo, bom, nenhuma além e ainda se manter bonita, se manter dentro das fofocas e tentar não ficar gorda.
Ninguém que conhecesse as garotas de primeira pensavam que eram gêmeas, de tão diferentes que elas eram, e mesmo assim, cada um deles estava disposto a morrer pra salvar o outro, e eu achava isso muito lindo.
Antônio: tem feito mais alguma coisa?
Melida: bom, eu tenho deixado meu ouvido aberto, sabe, pro caso de alguém acabar falando algo interessante perto de mim
Antônio: por exemplo?
E com um sorriso, a Melida se inclinou, e começou a me contar todas as doideiras que já escutou de pessoas, que segundo ela própria “não ligavam que ela estava ali” e nesse momento breve, onde o olhar dela mudou, de inocente e descontraído para sinistro e venenoso, que eu me lembrei que aquelas duas eram bem mais parecidas do que deixavam aparentar.
E quanto mais a Melida falava, mais meu queixo caia, a ponto dele ser afetado pela magia e cair pra fora da minha boca de forma literal e eu tive que pegá-lo do chão, as pessoas que o Rei puniu nesta semana (a maioria fora do reino), as novas teorias mágicas que as pessoas estavam desenvolvendo, e as fofocas normais, quem estava com quem, quem traiu quem, quem estava prestes a ter um filho, quem estava tentando ter um filho, quem estava prestes a perder a própria criança.
As vezes eu me perguntava se eu que era muito desinformado ou se as mulheres com quem eu convivia eram tão bem informadas assim, porque, sim, muitas dessas informações pareciam normais, mas tinham muitas fofocas que eu tinha certeza que uma pessoa normal não deveria saber, mas eu tentei me convencer que isso era a minha paranoia falando, bom, o papo estava bom, até que chegou a vez da Aline ficar um pouco parecida com a irmã.
Aline: então, como você e a Dandara estão indo?
Pela cara cheia de expectativa da Aline, eu sabia onde ela queria chegar com essa pergunta, então eu falei.
Antonio: eu te conto, mas apenas se você prometer que o que eu falar não vai sair dessa mesa (toca a mesa com o indicador)
Aline: (desenha um x no peito) palavra de matriarca
Antonio: (respira fundo) então, eu e a Dara vamos visitar um monte de lugares românticos, lugares que eu esperei muito pra leva-la, e agora, eu estou mais ansioso do que nunca para levá-la
Melida e Aline: uuuuuuuuuuuuuuh
Melida: que mais?
Antonio: e eu pretendo terminar tudo com um grande festival carnívoro dos gigantes
Aline: haaaaaaaa, o festival carnívoro, às vezes eu ainda sinto algumas cenas da última festa se remoendo dentro de mim, ainda e doido pra mim que uma raça tão pacífica como a dos gigantes é tão boa em cuidar de carne, parece quase uma contradição
Antonio: e quando voltarmos no festival, ou talvez até durante ele…EU VOU PEDIR ELA EM CASAMENTO.
A Aline, a Melida, o Brutus, o Davi, que estava dormindo até agora. Os pais dos irmãos que estavam observando nossa conversa em um cantinho, todo mundo ficou boquiaberto com o que eu falei.
Aline: que lindo Tony, mas tem certeza disso? O casamento é um grande passo, por que acha que ainda estou solteira?
Antonio: ahn, por que você ainda não achou a pessoa certa, e nem uma que seus pais ou irmãos aprovam
Aline: acertou, mas não foi isso que eu quis dizer, me diz por favor que você não decidiu isso do nada
Antônio: que isso Aline, faz até parecer que voce nao me conhece, eu fiquei muito tempo pensando e meio as minhas viagens, e quando você aprende a escutar as vozes boas na sua cabeça, muitas coisas começam a fazer mais sentido, e uma dessas coisas pra mim e quanto eu realmente amo a Dandara, ela e a mulher que eu estou disposto a compartilhar minha vida inteira com ela, não importa o quão longa ou o quão breve ela seja, e eu sei que ninguém em todo esse mundo pode me causar esses mesmos sentimentos como ela
Brutus: tirando eu, é claro
Antonio: você é o meu melhor amigo, você não conta.
Aquilo era pra ser uma piada, mas pela cara das irmãs, tava claro que elas não acharam ser uma piada, e por algum motivo, eu não achei que precisava explicar as coisas pra elas
Antonio: (tosse) enfim, eu quero me casar com a Dandara, eu sinto que…ninguém nesse mundo me entende como ela, ninguém nesse mundo consegue me mostrar como ver as coisas da forma que ela faz, o jeito que a minha vida e os meus olhos parecem mudar quando estou com ela e como se eu estivesse com a minha alma gêmea, o pedaço que faltava de mim mesmo, e depois de conversar tanto com ela, sei que ela pensa a mesma coisa, não, ela deve sentir ainda mais, por que ela tava com a maldição do vazio dela no máximo, e depois de viajarmos pelo continente juntos, depois de eu mostrar meu próprio mundo pra ela, sinto que poderei pedir a mão dela em casamento.
O Brutus deixou cair algumas lágrimas emocionadas, a Melida também chorou, mas não esperneou, apenas as deixou cair, apenas a Aline que limpou as lágrimas com um paninho pra impedir que a maquiagem dela saísse.
Aline: hmhmhm, pode ser estranho, mas a garota já tinha vindo aqui com o Davi
Antonio: sério?
Aline: é, mas eu não entendia por que? Ela gostava mais de fica com agente do que com ele, e posso te garantir garoto, ela realmente te ama, talvez de forma mais intensa do que você pensa
Antonio: eu tenho uma boa ideia do que você está falando, mas obrigado.
A Aline não falou mais nada, ela apenas olhou pra mim com o olhar de alguém que sabia que algo incrível ia acontecer.
Antonio: Pode me falar o que esse sorrisinho deveria significar?
Aline: desculpe, mas eu jurei pelo meu cargo, não posso quebrar a promessa.
Apesar do que ela falou, eu olhei com cuidado pra ela, e senti que tava tudo bem, pelo menos por enquanto.
O Brutus me seguiu pra saída, pois ele queria falar um pouco comigo, mas antes dele falar qualquer coisa, eu suspirei de alívio.
Antonio: hehe, e sempre mais fácil vir aqui com você do que com o Davi
Brutus: voce fala isso por que agora eu to calmo
Antônio: não ironicamente, eu gostava das vezes que você metia o louco e tinha raiva de todo mundo, menos as suas irmãs
Brutus: depois do que elas fizeram comigo quando eu me libertei não fazia sentido ter raiva delas, ou da minha familia..mas era bem fácil sentir raiva de todo o resto
Antonio: hmhmhmhm hahahahaha, serio, com todas as coisas que você fala, eu fico pensando como agente chegou a ser amigo
Brutus: acho que é literalmente por sermos tão diferentes que somos amigos, você não acha?
Antonio: ior que faz sentido, nós somos tão diferentes que sempre temos algo a dizer
Brutus: e o fato de você ser tão bom de papo ajuda tambem
Antonio: obrigado Brutus.
E dando um toquinho de punhos no Brutus, me afastei, pensando como amanhã seria um dia muito doido.

