Como se fosse mais um dia, eu cavalguei com a Dandara em um ponto bem distante do reino das fadas, e também estava no meio do mar azul, então não, não estávamos no reino dos gigantes. Nós viajamos por terra e mar. (Isso considerando que o mar azul era bem mais fácil de cavalgar que o branco). E quando chegamos a um ponto onde não conseguíamos mais ver o reino dos Sapiens nem a floresta das fadas, nós chegamos a visitar os reinos vizinhos, reinos de outros Sapiens que eram afiliados e ajudados pelo meu reino, e outras florestas das fadas mais isoladas da colmeia que era a floresta da rainha.
Enquanto olhava os lugares, fiquei feliz em ver como cada reino parecia tão passifico, com certeza em algum lugar lá dentro, deveria ter um Sapien ou Fada que tivesse o mesmo problema que eu, mas tava tudo bem, não importa o quanto tempo demorasse, ele iria descobrir o que tinha, e as pessoas que o amavam iriam garantir isso, e bom, se isso não acontecesse, o Reino só seria remodelado pelos Psicomantes viajantes, esses que eu podia ver saindo de um reino, junto com um Sapien que definitivamente era o rei daquele pequeno reino, e pela barriga gorda e jóias por todo o corpo, nem precisava pensar muito por que ele estava sendo levado.
Dandara: nooooooooossa, não sabia que tinha tantos reinos por aqui
Antônio: bom, é, o primeiro rei Psicomante meio que entendeu que não podia controlar os reinos do continente inteiro, pelo menos não sem causar uma grande guerra, então, ao invés disso, ele decidiu fazer uma trégua, onde todos os reinos fizeram um pequeno conselho, onde todos têm o direito de falar. Claro, tem alguns problemas com esse conselho as vezes, mas como a Psicomancia tá bem espalhada pelo continente inteiro, a maioria dos problemas é resolvida antes que ele se torne algo grande
Dandara: grande como aquilo?
Ela então apontou para um ponto específico no meio dos reinos, que era um buraco imenso, chamuscado e ainda soltando fumaça. Ali já devia ter sido o lugar de um reino bem “próspero e feliz” mas agora, ele não passava de uma pilha de entulhos quente, enquanto os “Singulares Perdidos". Singulares que foram tão consumidos pela própria maldição a ponto de quase não serem mais humanos, mas a palavra chave era “quase”, seria difícil, mas o Rei tinha muita fé que, se cuidados da forma certa, esses Singulares podiam ser pessoas de novo.
Então, vamos ver, pelo que parecia, o Sapien líder dessa vez era um amaldiçoado do corpo invernal, que era condenado a sentir tudo como a coisa mais fria do mundo, banhos, comidas, tudo era frio pra ele, e só pela cara dele, era claro que tinha muito mais maldições do que aquela.
Dandara: meu deus
Antônio: não se preocupe, a escala de acontecimentos assim é de 600 pra 1, o que significa é que, segundo a matemática, a cada 600 reinos, tem a chance de 1 reino acabar como aquele, a maioria consegue ser ajudada a tempo
Dandara: e quantos reinos existem?
Antônio: bom, contando os reinos pequenos, deve ter uns 300
Dandara: e como isso sequer faz sentido?
Antônio: essa é a magia da probabilidade querida.
Mas a Dandara não riu da minha piada, ela estava olhando constantemente pro amaldiçoado sendo levado, vendo como ele tinha, pelo que parece, ter tido a sua maldição “quebrada”.
Dandara: o que é aquilo?
Antônio: eu já tinha pesquisado sobre isso, mas ainda é difícil de acreditar, os estudos dizem que é uma armadura de magia que é feita de sentimentos sólidos.
A Dandara, com a cara mais incrédula do mundo, olhou beeeeeem devagar pra mim, com a maior cara de espanto que eu já vi ela fazer.
Dandara: isso é possível?
Antônio: é, mas apenas sentimentos acumulados por algo equivalente a 5 décadas é forte o bastante pra fazer uma armadura de corpo todo
Dandara: equivalente?
Antônio: é, pelo jeito, tem um número exato de sentimento que a magia precisa pra ser ativada, uma pessoa normal e sem nenhum problema na vida consegue acumular esses sentimentos em 50 anos, mas alguém com problemas na vida, leva uns 25 anos, e amaldiçoados, principalmente os ignorados, mal tratados e desacreditados, levam 5 anos, pra conseguirem esse nível de poder…e às vezes até menos.
A Dandara ainda estava em choque, não deixando de olhar para o amaldiçoado.
Antônio: no meu surto, eu criei uma dessas, se os instrutores não tivessem ali, eu nem saberia o que teria acontecido
Dandara: vo-vo-vo-voce criou aquilo?
Antônio: pois é, eu teria causado um estrago se fosse uma cidade pequena, mas dificilmente seria um líder
Dandara: líder?
Antônio: líder da rebelião, sabe, nessas cidades de probabilidade baixa, de devastar todo o lugar, a maioria das vezes, não é apenas um amaldiçoado que desperta assim, normalmente é um que é o maior, o pior e com mais coisas guardada, e a liberação dele é quase uma reação em cadeia, que faz cada um dos amaldiçoados oprimidos despertarem
Dandara: a força?
Antônio: não, o despertar do líder é bem mais uma desculpa do que os forçando. Porque todo o Singular oprimindo os sentimentos quer se libertar, ele apenas tem vergonha disso, e às vezes, precisa só de um empurrão pra fazer eles se libertarem.
A cara da Dandara ficava mais sombria, cada vez que ela pensava mais nisso.
Antônio: relaxa, a maioria dos escombros não tem quase nenhum morto, na verdade, essas cidades são raras por que, quando um Singular líder perde o controle, a reação em cadeia normalmente pega quase 95% da cidade.
E de novo, a Dandara ficou surpresa, mas de muito mais curiosidade do que de medo.
Dandara: jura?
Antônio: juro, é difícil de acreditar nisso, mas a maioria das pessoas que oprimem os sentimentos dos outros, é porque os sentimentos delas foram oprimidos primeiro e elas continuam aquilo num ciclo vicioso. E seja uma maldição desenvolvida enquanto crescia, ou seja uma maldição de nascença, ou até alguém não amaldiçoado em si, a maioria dessas cidades de 1 em 600 tem pessoas com sentimentos acumulados o bastante para serem transformados em monstros, mesmo não tendo nenhuma maldição nelas.
E novamente, a Dandara estava com um olhar chocado e desacreditado no rosto, mas que não carregava medo.
Dandara: que doidera, e os outros 5%?
Antônio: os poderosos, os líderes e os caras que começaram a opressão pra início de conversa, eles são os únicos que podem escapar de serem monstrificados, mas no final, isso não adianta de nada, por que, como deve estar bem óbvio, é bem difícil você escapar de uma cidade que ficou 95% monstrificada, não importa o quão inteligente, poderoso ou safado você seja.
O olhar de Dandara ficou bem estranho depois daquilo, então, ela olhou novamente para o lado, vendo que o garoto azul não estava mais lá, mas ela estava se sentindo muito mal por ele.
Dandara: o que vai acontecer com eles?
Antônio: eles vão ser levados pra várias casas de reabilitação diferentes, e os casos sérios como o do líder, serão enviados diretamente pro Rei, e depois de passar por algo um pouquinho mais complicado, longo e demorado do que você mesma passou, eles vão ser realocados para reconstruir em a própria casa.
Agora a Dandara estava confusa, ela não conseguia entender como o Rei podia permitir isso.
Dandara: mas não é perigoso deixar pessoas que destruíram a própria cidade reconstruí-la?
Antônio: ao contrário garota, sei que pode ser meio perigoso falar assim, mas a maioria das pessoas que começaram o “Carnaval de Monstros” como vários Psicomantes gostam de se referir, são mortas no meio do processo, pouquíssimas sobrevivem para serem um problema a longo prazo, e quem sobra são apenas as pessoas que entendem muito bem que “ninguém, nunca deveria passar pelo que eu passei”, e graças a isso, eles conseguem criar um reino 1000 vezes melhor do que aqueles que eles destruíram, não perfeito claro, e com o ciclo da maldade e negligência destruído, o reino pode ficar melhor, claro, ele não vai ser perfeito, e podem ter alguns amaldiçoados aqui e ali, mas nada próximo de um surto em cadeia que destruiu o lugar pra começar
Dandara: a maioria dos casos são parecidos com o seu surto, não é?
Quando ela falou aquilo, me lembrei do dia em que eu surtei, mas apenas das coisas boas, de eu me acalmando no escuro, o meu irmão me encontrando, e de todas as pessoas que estavam querendo me ajudar, dos magos que fizeram uma nova investigação comigo, descobrindo o que eu tinha, tentando me entender. Algo que eu tinha certeza que o pobre Singular azul nunca passou, mas eu não precisava me preocupar com ele, o garoto iria pra um lugar melhor, e sorrindo com um rosto passifico, que a Dandara reconheceu na hora, eu falei.
Antônio: é, igualzinho ao meu caso, talvez até ainda melhor do que o meu
Dandara: uuuuuh, ainda melhor que o seu? Agora eu fiquei curiosa.
Mas no fim, a Dandara parou de falar novamente, por que agora estávamos prestes a entrar em uma floresta afastada dos reinos, mas era uma floresta bem mais peculiar do que as outras, por que era uma floresta feita inteirinha de cogumelos gigantes, que eram tão enormes que pareciam árvores brancas com topos vermelhos.
Dandara: WOW, Antônio, o que tem lá dentro?
Antônio: você vai ver, apenas confie em mim e não saia do meu lado.
Eu sabia que a Dandara aguentaria entrar naquele lugar, mas eu estava sendo o mais cauteloso possível, já que era minha primeira vez ali também, mesmo não sendo um lugar pra casais, eu queria ter o prazer de conhecer a espécie no interior da floresta de cogumelos, junto da mulher que eu amo.
Antônio: confia em mim ruiva?
Estendi minha mão pra ela, mas quando ela ouviu eu falar aquilo, uma espécie de gatilho se ativou nela, e ela conseguiu uma coragem que talvez nem ela mesma sabia que existia, ela segurou minha mão com força, e depois falou.
Dandara: até o ponto mais profundo do meu coração.
E com aquela confirmação, entramos, desvencilhando as mãos, mas ainda nos mantendo juntinhos.

