Depois de sairmos da confusão da festa, nós dois andamos algum tempo por aí, pelo jeito ela tinha ficado tão animada que decidiu ir flutuando pra a própria formatura também.
António: agente pensa igualzinho mesmo
Dandara: pois é, o Zorro deve estar bem triste por voce nao ter saido com ele
Antonio: TRISTE! sem chance, ele deve estar é feliz até a alma por não estar lidando com as minhas loucuras habituais, eu tenho arrastado o coitado pra tantos lugares diferentes que ele deve estar até feliz que eu não chamei ele
Dandara: hehehe, me faz ficar ainda mais curiosa para ouvir todos os lugares doidos que você passou
Antonio: e eu ficarei mais feliz que nunca em te mostrar cada lugar doido que visitei
Dandara: ue, pensei que você iria me mostrar os lugares pra casais
Antônio: e vou, mas nada me impede de te mostrar os lugares normais também
Em uma risadinha, continuamos caminhando, na maior tranquilidade do mundo, tava bem escuro, mas nenhum de nós estava com medo, nós conseguimos nos cuidar, e com os cavaleiros fazendo as patrulhas de costume, não tinha nada para ser temido ali.
Dandara: que doidera, a alguns anos atrás, eu sequer podia imaginar que o escuro podia ser tão…bonito
Antonio: o escuro pode ser perigoso, se você não sabe como andar nele, mas no momento que você conhece, a beleza oculta nele se revela para ti.
Dandara refletiu com as palavras enquanto andamos pela rua, e naquele momento, tudo parecia estar mais bonito, o céu parecia ter mais estrelas, a lua parecia mais brilhante, toda a rua parecia mais limpa e azul, e até os pequenos grilinhos pareciam estar bem mais gentis do que o que de costume, nos demoramos para falar, nenhum de nós queria estragar o momento com palavras, até que eu fiquei curioso demais pra segurar.
Antônio: então, onde você vai trabalhar?
Dandara: vou tentar ser uma carpinteira de vassouras, é o meu sonho…sei que é um sonho recente, um incomparável a um sonho de criança igual ao seu, mas eu estou disposta a jogar minha vida inteira em tentar esse sonho maluco
Antonio: o tempo que uma pessoa tem um sonho não é importante, tudo que importa é a determinação de realizar tal sonho
Dandara: pra voce é fácil dizer, você tem um sonho de criança
Antonio: e ele não valeria nada se ele fosse apenas isso, um sonho, mas eu coloquei ele na realidade com as minhas próprias mãos, ninguém aprendeu essa magia por mim, assim como ninguém aprendeu carpintaria por você, se de um pouco de crédito uma vez na vida
Dandara: não vai se a primeira vez que me dou crédito em algo, mas agradeço, isso ja ta me fazendo me sentir melhor
Antônio: se só isso já te fez ficar melhor, então espera até eu falar o resto, (tosse) você ficou muito tempo dormindo, tendo pesadelos constantes e acordando em gritos apenas pra dormir de novo e fazer tudo outra vez, e pela primeira vez em muito tempo, você está sonhando, você teve muitos sonhos, e teve muitos sonhos tranquilos, até você finalmente decidi que esse sonho de carpintaria é aquele que você apostaria sua vida nele, e isso torna o sonho certo a se seguir, por mais recente que seja, não pra mim, e não pro mundo inteiro, mas ele vale pra você, e é isso que importa.
A Dandara parecia estar bem feliz com a minha conclusão, ao mesmo tempo que ela parecia estar formulando uma pergunta de um milhão de dólares.
Dandara: e tem alguma pergunta que você pode pensar agora que me faça entender o quão disposta eu estou pra ir atrás desse sonho?
Antônio: é claro: quanto vale o seu tempo? e quanto vale sua vida adulta?
Dandara: o que?
Antonio: seu tempo e sua vida adulta tem um certo valor Dandara, me diz, você está disposta a ficar mais de 80% de sua vida se dedicando em raspar madeiras, vender mais madeiras para clientes, modificar vassouras especiais, consertar várias peças com defeito e qualquer outro serviço que os carpinteiros de vassouras fazem?
Quando eu perguntei aquilo, os olhos da garota brilharam, eu já sabia a resposta, mas ainda esperei ela responder.
Dandara: SIM
Antônio: então temos aí sua resposta, eu poderia usar sua varinha de exemplo, mas acho que já sabemos que uma varinha transformada em cajado não é muita coisa né?
Dandara: (olhar tristinho) pois é.
Droga, o clima ia pesar rapidinho, pelo menos foi isso que eu pensei, mas como se tentasse impedir que o clima pesasse, Dandara se aproximou mais de mim, ficando encostada, quase como se estivesse dormindo ainda agarrada em mim e fechou os olhos. O perfume dela…tinha o cheiro de morangos, ela se aproximou tanto que o clima ruim que parecia estar se formando se dissipou quase totalmente, e no meio daquilo agradeci a mim mesmo por ter posto um perfume também, se floresta.
Dandara: eu achei que iria ser estranho, sabe, ir pra escola depois da minha saída da casa de reabilitação
Antônio: e por que seria?
Dandara: ninguém ali tinha a minha idade, todo mundo ali era tão novo, me fazia sentir que eu tava atrás.
Antônio: ha, falando assim faz parecer que você era uma velhinha ali
Dandara: tem razão, eu não era uma velhinha, eu apenas era ANOS mais velha que todo mundo ali, eu fiquei ANOS me tratando, apenas para entender e melhorar, enquanto elas tavam se divertindo por aí.
Antônio: tenho que dizer que esses 4 anos foram anos bem gastos, nós dois sabíamos que você não tava pronta pra decidir o que você queria de verdade, ainda mais depois do que você passou com os seus pais biológicos.
Dandara concordou com o que eu disse, mas ela não parecia triste e nem com raiva com o que eu dizia, tipo, o que ela podia sentir agora? Era apenas a verdade.
Antonio: e pelo grupinho de amigas, a nova varinha, e todas as coisas que você conseguiu nesses 4 anos eu diria que foi um excelente investimento, você não acha
Dandara: eu tenho certeza, hihihi…mas ainda dá raiva, raiva pensar que, esses 4 anos em que eu estive melhorando, as garotas da minha idade estavam se formando e se divertindo adoidado por aí.
Ah, entendi melhor o que era, não era apenas insegurança, era inveja.
Antônio: ah, nesse caso a solução é bem simples, você só tem que viver um pouco mais, pra compensar os anos que você perdeu, tenho certeza que isso será moleza pra você agora.
Então, se desvencilhando de mim, a Dandara deu um suspiro, bateu na própria cabeça de brincadeira, e depois falou.
Dandara: AH, MAS É CLARO, É TÃO SIMPLES…e como eu faço isso?
Não sabia se ela realmente não sabia ou se ela só tava brincando comigo, conhecendo a garota, podia muito bem ser os dois.
Antônio: é fácil, só tem que comer bem, dormir bem e tentar não ficar estressada e irritada atoa
Dandara: espera, é só isso?
Antônio: bom, isso tem funcionado muito bem pra mim até agora, você não acha?
Me olhando com um sorrisinho brincalhão, a Dandara me analisou dos pés a cabeça, e entendendo o que eu queria dizer, ela disse.
Dandara: é, você não tem cara mesmo de alguém de 27 anos, e não é genética, eu consigo sentir isso
Antônio: e você parece mais velha que alguém de 30 anos.
Ela ficou irritada, mas não um irritado de verdade, era um irritado de brincadeira, que comecei a entender nela.
Antônio: relaxa, você tá linda do mesmo jeito
Dandara: se eu começar a usar e abusar da maquiagem vai ser sua culpa
Antônio: tá bom, desculpa, você tá linda
Dandara: humpf, você tem sorte que eu gosto de me sentir mais velha…
Antônio: jura?
E com um sorriso orgulhoso, daqueles que ela só dava quando me mostrava algo bem especial bem do fundo do seu coração, ela falou.
Dandara: me faz me sentir mais sábia
Antônio: apesar de estar bem ligada a isso, tem vezes que a inteligência e a experiência não acompanham a idade
Dandara: isso só se a pessoa não quiser aprender
Antônio: é, faz sentido.
E depois de caminharmos mais um pouco, o assunto pareceu ficar mais sério, mas não porque algo horrível estava pra ser dito, mas sim porque algo lindo estava prestes a acontecer, e nós dois sabíamos o que era.
Antônio: e aí, tá pronta pra me acompanhar?
Dandara: você pode me dar mais três meses? Se sabe, pra eu conseguir virar uma carpinteira de verdade, eu não quero ter que depender do seu dinheiro nas viagens
Antônio: bom, deve ter algum lugar que eu consiga ficar por três meses, esse tempo não é nada pra mim
Dandara: eeeeeeeeee, quando esses três meses acabarem, você pode me falar pra onde agente vai?
Eu segurei um riso, eu tinha uma ideia bem divertida pra levar ela, mas eu queria muito ver a reação sincera dela quando nós chegássemos lá sem que ela soubesse de nada.
Antônio: hehe, é uma surpreeeesaaaaaaa
Dandara: não vale, você odeia surpresas
Antônio: e você ama elas
Dandara: é…eu gosto…
Ela tentou parecer irritada, mas apenas imaginando o tipo de surpresa que eu estava preparando a deixou tão alegre que nem conseguia conter a empolgação, e começou a dar pulinhos e bater as palmas das mãos como se fosse uma criança.
Dandara: agente vai pra um lugar legal de primeira?
Antonio: O MAIS LEGAL DE TODOS
Dandara: haaaaa, apenas imaginar o tipo de músicas que irei tirar dali esta me estasiando
Antônio: não se preocupe ruiva, você vai conseguir criar muitas músicas incríveis no caminho até lá
Dandara: eu confio em você melzinho, e obrigado por me esperar
Antonio: eu te esperei por mais de 3 anos, eu consigo esperar mais um tempinho.
Eu estava explodindo de ansiedade por ter que esperar mais por ela, mas eu podia sentir a ansiedade, eu me permiti sentir, e com o tempo,eu lidaria com isso, ser paciente nunca foi sobre não ficar ansioso, porque tem horas que a ansiedade é inevitável, e tudo que se pode fazer, é lidar com ela, como da forma que eu tava fazendo agora, e com muita dor de cabeça, e muita conversa interna, eu consegui me acalmar, e consegui ficar mais tempo com a minha amada, ficando bem feliz que eu tava conseguindo me controlar, e só esperava que melhorasse ainda mais nisso, haaaaaaa, quando ela terminar tudo, agente vai se divertir tanto.

