Eu não me considerava um adulto, eu ainda era impulsivo, apesar de conseguir entender meus sentimentos bem melhor, ainda os deixava me controlar bastante, e apesar do que muitas pessoas me falaram ao longo do tempo, eu ainda possuía muita raiva de muitas pessoas.
E eu sabia que não era um adulto pelo que eu estava prestes a fazer, eu entrei em um lugar cheio de outros Singulares, muitos tinham colares, mas muitos não precisavam de tão doidas que eram suas Singularidades.
Ignorei a atendente que tentou me parar, vi ela chamar os seguranças, mas antes dela terminar de discar, o psicalquimista (algo equivalente a um psiquiatra magico) a impediu, e ele olhou pra mim como se me conhecesse.
Antônio: você é o Enzo?
Enzo: sou.
Tentei argumentar com minha raiva, mas era inútil depois de tudo o que passei, tentei me controlar de forma inútil, toda aquela raiva incontrolavel me fez dar um soco no rosto do mago que arrancou vários dentes dele, a secretária dele ficou com raiva, os Singulares lá fora ficaram com medo, mas mesmo com sua boca sangrando, o Enzo falou.
Enzo: NÃO NÃO, TUDO BEM…eu meio que mereci essa.
Ele tava sendo bem casual com isso, então provavelmente não era a primeira vez que ele recebeu um soco de um ex paciente, eu nem dei explicação, era óbvio que ele sabia por que eu estava lá.
E sem nenhum medo, saí de lá como se nada tivesse acontecido, e na saída vi outro Singular, parecendo prestes a fazer a mesma coisa que eu, então sem falar nada, apenas dei um tapa na mão dele e deixei ele se vingar.
Depois da minha pequena sessão de terapia, eu fui andando pro trabalho de novo, meu trabalho era simples, olhar golens, ver se eles estavam trabalhando bem, dizer se certas peças estavam com defeito e instruir os donos como aprimorar seus golens sem acabar os quebrando ou deixando mais fracos no processo. Um trabalho simples, bom, simples para quem estudou tanto quanto eu, mas ainda simples.
Minha maior alegria era ver como eu tinha bem mais tempo pra pensar, claro, não tinha mais tempo pra ficar de bobeira o tempo todo, mas eu tinha muito tempo pra escutar minhas músicas favoritas, ou apenas aproveitar o silêncio numa fábrica onde eu tinha uma sala bem tranquila.
Não era assim que eu imaginava que “ser um mago” seria, mas não era algo completamente ruim, pois me dava bastante tempo pra pensar o quanto eu fui um babaca.
Toda a raiva, todo o desprezo, e todos os gritos que eu joguei em meu pai por tantos anos, eles foram jogados na pessoa errada, mas a parte ironia era que eu sabia perfeitamente por que eu fiz isso.
O mago que eu soquei a pouco tempo foi o mago que me testou primeiro, e ele até acertou minha maldição, pois pelo jeito, além da maldição dos super sentidos, eu também tinha a maldição da cabeça das nuvens. (Uma maldição que, pelo que eu descobri, é uma que quase sempre está junto dos super sentidos, e só alguns casos raros ela não está).
E acontece que por muito tempo, meus pais me trataram pensando que eu era hiperativo e que tinha a maldição da cabeça das nuvens, e o tratamento realmente funcionou, por um tempo.
Entretanto, nada da minha maldição dos super sentidos foi tratada, então apesar de eu estar parcialmente bem, ainda tinha um monte de “pequenas coisinhas” que aconteciam comigo, pequenas coisinhas que se acumularam bastante com o passar do tempo, pequenas coisinhas que ficaram cada vez maiores, cada vez mais fortes e cada vez com um acúmulo maior, até o ponto em que elas explodiram naquela ridícula divisão de cavaleiros. Mas eu não precisava pensar naquilo, não, eu ia deixar pra pensar aquilo quando chegasse no trabalho.
Eu quase me atrasei, mas como eu sempre chegava cedo, eu consegui chegar na hora certa.
Apesar de meu horário mudar bastante, eu já estava bem acostumado com isso, e hoje, eu iria ficar numa escola por um tempo pra criar vários golens de segurança, alguns outros golens sparren(golens mais avançados, pra alunos que queriam lutar) e golens de educação, para alunos com maldições…não, SINGULARIDADES. Não podia me esquecer, era Singularidades não maldição. Os golens educadores eram para alunos com problemas bem mais sérios que o meu.
O meu trabalho, apesar de ser um pouco difícil, não era nada que eu não pudesse resolver, e com a facilidade que eu entendia várias coisas, no fim, no meio de meu trabalho, eu tinha muito tempo de pensar em várias coisas, como o fato de eu ter sido um idiota completo e injusto com meu pai…apesar desses pensamentos doerem, as horas que eu gastava no trabalho tinham me dado tempo pra pensar em várias coisas, como sobre o “por que eu estava com tanta raiva do meu pai?” e “por que eu não queria perdoá-lo?” e “por que eu o amava tanto, mesmo ele tendo me machucado tanto?”
Aquilo me fez ter uma lembrança bem clara, uma lembrança do dia em que fui conversar com ele. Muitos diziam pra mim “você tem que perdoá-lo” ou “você não pode ficar com raiva dele pra sempre” e ironicamente, eu sabia disso, eu sabia bem que “pra sempre” era tempo demais pra ter raiva de alguém, mas eu sabia que não podia apenas deixar aquela raiva de lado, não, não depois do que eu aprendi, então depois de me permitir sentir aquela raiva por tanto tempo, ela passou, e quando ela passou, eu fui conversar com meu pai, ficando impressionado com o que eu descobri no processo.
Enquanto me lembrava daquele momento, me lembrei do dia em que eu conversei com meu pai de forma simples. Me perdendo no flashback.
O dia não estava nublado, nem ensolarado, não tinha sido um dia ótimo, nem terrível, talvez, sem considerar aquela conversa, aquele deveria ter sido um dia totalmente comum, e no meio disso, pedi pro meu pai se encontrar comigo, por que o que eu queria falar pra ele era algo que eu queria falar na cara.
Quando ele chegou, ele ficou calado, como se ainda não soubesse o que falar perto de mim, e apesar de estar um pouco desconfortável, levei um tempo pra falar, pra tentar deixar meu pai tranquilo, mas vendo que aquilo teve o efeito contrario no meu velho, eu decidi falar logo de uma vez.
Antônio: desculpa.
Então algo estranho aconteceu, pelo que eu lembrava, da última vez que eu pedi desculpas pro meu pai, ele havia apenas aceitado as desculpas, tendo um rosto neutro, mas ele não riu, nem se aproximou de mim, como imaginei que faria.
Naquela hora, eu até notei que ele parecia estar…era difícil pôr em palavras mas, ele parecia “mais bonito” do que as últimas vezes que nós conversamos, será que a minha magia distorceu o rosto do meu pai sem eu saber? Com tudo que eu aprendi que a magia pode fazer, eu não me surpreenderia se ela tivesse feito isso, me fazendo pensar no que mais ela distorceu.
Pai: por que está se desculpando?
Antônio: por que eu usei você como minha válvula de escape, meu saco de pancadas, o alvo de toda a negligência que eu tomei, e você não merecia isso, então, desculpa
Pai: eu não entendo
Antônio: deixa que eu explico…quando eu descobri que eu tinha a Singularidade dos super sentidos, eu neguei, neguei por bastante tempo, mas com a insistência da minha mãe e com uma ajudinha dos psicomagos, comecei a aceitar o que eu tinha, mas com a aceitação, veio a raiva. Raiva de que tudo que eu senti não era apenas “birra de criança” ou “bancar o maluco” como todos achavam. Eu não era louco, eu era apenas diferente…e eu tive muita raiva acumulada pra gastar, uma raiva que eu não sabia onde gastar, e eu acabei mirando ela pra você.
Eu tinha muito o que falar ainda, mas deixei meu pai entender direitinho o que eu estava falando, e quando chegou no ponto onde ele parecia ter entendido, ele perguntou
Pai: e por que eu? E não sua mãe?
Antônio: você não aceitou o que eu tinha, eu tinha muito mais lembranças ruins de você do que dela, e apesar de tudo, você traiu minha mãe, ficava dias fora de casa e mesmo que a minha mãe quisesse que eu não escolhesse entre você e ela, as vezes eu escutava ela reclamando de você enquanto eu fazia minhas coisas…por um tempo, eu odiei tudo, eu odiei a sociedade inteira que me fez sofrer desse jeito por bastante tempo, mas quando eu parei pra olhar, você parecia um alvo bem mais fácil de descarregar a raiva do que uma sociedade inteira que no fim, ainda queria me ajudar, e o fato de você não ter aceitado que eu era um Singular por muito tempo, não importa o que eu falasse pra você, ajudou muito nisso também.
Não senti vergonha do que falei, era a verdade, e mesmo que destruísse minha relação com meu pai, não podia mais esconder isso dele. E novamente, o rosto do meu pai estava neutro, indecifrável, a mente dele era um mistério pra mim, como sempre foi, mas no fim ele apenas falou.
Pai: e essa raiva passou?
Antônio: sim
Pai: filho, não é que eu não achava que você era um Singular, você pode não se lembrar, mas nós fomos a vários psicalquimistas quando você começou a escola, e todos diziam pra nós a mesma coisa, “seu filho tem a maldição da cabeça das nuvens e a maldição da adrenalina” então te colocamos num clube de cavalos pra você se acalmar, e conseguimos professores pra te ajudar a entender as matérias melhor. Você não deve se lembrar mas quem te levava pra praia escura, quem te levava as grandes masmorras, e quem sempre tava com você quando você tava brincando era eu, filho, eu não consigo entender o que eu fiz pra fazer você me odiar assim, mas eu espero que entenda que eu sempre fiz o melhor que eu pude
Antônio: é…eu sei, e sabe por que eu sei disso? Por que apesar da minha grande pesquisa, eu descobri que a minha Singularidade é algo bem recente, algo com apenas 50 anos de descoberta, bom, ela foi “descoberta” a 50 anos atrás, por que ela sempre existiu, o problema é, que além dela ser uma Singularidade que varia muito, tipo, MUITO MESMO, ela também tem o dom de sempre estar misturada com algo, a minha por exemplo, está misturada com a cabeça nas nuvens e a super adrenalina, eu tenho três singularidades juntas, então, foi covardia eu cobrar tanto de você, apesar do que você fez por mim
Pai: tá, desculpas aceitas.
Depois daquele papo, agente ficou sem conversar por algum tempo, eu fiquei lembrando de todas as coisas que agente já fez junto, de quando agente visitou a praia, de quando ele me deu o Zorro, dos passeios que agente fazia na carruagem dele, de quando agente foi comprar minha varinha, e até quando agente via meus desenhos no espelho mágico.
Lembrei ate dos momentos em que eu ficava deitado com ele no sofá ou na cama, só vendo desenho. (Ele parou de fazer isso, por algum motivo, mas eu nem ligava mais). E no meio desses pensamentos, perguntei.
Antônio: e então, você tem visto algum jogo recentemente?
Queria dar uma chance, uma chance de entender melhor o mundo dele, queria me esforçar, mesmo que um pouco pra entende-lo depois de tanta raiva que eu despejei nele, eu devia isso a ele.
Pai: bom, o jogo dos flamingos listrados foi bem disputado, eles cometeram um grande erro de começar com uma equipe de ataque, pois as zebras estreladas eram conhecidas por sua grande defesa, mas eles não desistiram, e colidindo com força para contra a defesa, eles a penetraram com tudo e criaram uma grande avalanche de pontos…
Eu ouvi meu pai falando mais sobre o jogo, mais e mais, falando cada detalhe dos jogadores, cada detalhe das vassouras, e como o jogo dos flamingos podia ter sido bem melhor e que eles desperdiçaram a energia dos jogadores e como eles quase perderam atoa.
Mas em algum momento eu parei de escuta-lo, por que eu fiquei de olhos arregalados enquanto eu percebia algo depois de muito tempo no meu velho.
Eu tentei manter o rosto calmo, mas em minha mente, eu só conseguia pensar “ele sempre falou assim?” e não apenas isso, ouvir meu pai falando me lembrou de várias coisas, das vezes que a minha mãe falou que meu pai não falava muito e nem tinha muitos amigos, além dele ser um viciado em jogos.
Mas em meio a todas aquelas lembranças, uma frase da minha mãe se destacou em todas elas, “eu não quero que você sinta raiva do seu pai, ele é mais parecido com você do que parece” então tudo fez sentido, ao mesmo tempo que me deixou animado, e ao mesmo tempo triste. Por que apesar do que eu descobri, eu nunca poderia dizer isso pro meu pai, por que eu sabia que ele nunca iria acreditar em mim, e que ele não acreditaria que tinha a minha Singularidade mesmo se o teste de comprovação estivesse na frente dele, mas agora que eu vi isso, eu não conseguia ver meu pai da mesma forma, no bom sentido. E com um sorriso mais tranquilo, ele olhou pra mim e falou.
Pai: ei, você está me ouvindo?
Antônio: não, parei de ouvir depois de pensar muito em algo que ouvi no meio do caminho, desculpe
Pai: para de se desculpar tanto
Antônio: des…tá bom, vou tentar
Pai: mas agente vai se ver de novo, né?
Antônio: pode contar com isso, apenas relaxa.
E quando sai do flashback, percebi que tinha terminado meu serviço do dia, e já podia ir pra casa.
Apesar de estar a quase 3 meses naquele trabalho, eu ainda morava com a minha mãe, estava economizando minhas moedas pra fazer uma viagem bem especial, tudo enquanto a Dandara, meu amor, estava finalmente na escola de novo, eu tinha vontade de visitá-la as vezes, mas algo dentro de mim dizia que a garota precisava de um tempo só pra ela, assim como eu.
Quando voltei pra casa, cumprimentei minha mãe, tomei banho, vi que Pedro, meu irmão, tinha saído pra resolver algo da família e eu fui pro meu quarto. Eu não lembro quando foi a última vez que eu acendi a luz do meu quarto, mas pela primeira vez em muito tempo, eu queria ficar na luz.
Meu quarto não tinha nada de especial, ele era apenas azul, com vários desenhos de aviões por todo lado, um cobertor bem grosso preto e cheio de estrelas, com um travesseiro amarelo, parecido com o sol.
A esquerda, tinha uma pequena cabeceira onde eu estudava, a direita, tinha uma pequena estante onde meus livros mais particulares ficavam, livros que eu fazia questão de que ninguém tocasse. E de frente pra minha cama, eu tinha meu próprio espelho mágico, então sem preocupação, depois de um tempo que pareceu quase uma eternidade, afundei em minha cama e falei.
Antônio: espelho espelho de tamanha beleza, me mostre um programa sobre a natureza.
E com aquelas palavras, o espelho começou a mudar, ao invés do meu reflexo, ele ficou preto, e segundos depois, começou a mostrar as imagens de uma harpia voando dentro do mar branco, enquanto o Narrador narrava a história do dia, e me dando lugar pra relaxar sem preocupações, enquanto pensava o que eu iria fazer logo em seguida.

