No próximo dia, eu tava indo para um lugar muito exclusivo, um lugar que era bem perigoso tanto de entrar quanto de sair. Tanto que, pra entrar lá, eu tive que passar por testes rigorosos, pra garantir que eu não causaria problemas ali, e ao invés de ir com o Zorro, um mordomo da família real veio me pegar. Nós pegamos vários desvios no caminho, pra confundir caso alguém quisesse chegar até nós.
E quando chegamos ao castelo, depois de tanto tempo, nós fomos recebidos por um cavaleiro completo, que dispensou o mordomo, e apenas olhando, eu já sabia que eu nunca conseguiria vencê-lo, em nenhuma circunstância.
E seguindo o cavaleiro, fui levado até uma das entradas para o grande porão subterrâneo, ou seja, pra dentro da maior casa de reabilitação que existia, bem abaixo dos pés da família real.
Quando entramos, passamos por um detector, que dizia se tinha uma maldição, alguma tecnologia ou qualquer coisa que poderia soltar os prisioneiros. Depois de detectarem meus golens, mostrei meu certificado pra tê-los, e depois fui liberado.
E no fim, não havia acabado ainda, eu tive que também colocar um colar, pra impedir que os mais “sãos” ali em baixo, jogassem feitiços e controlassem a minha mente, além dele me dar choques caso, mesmo assim, eu decidisse ajudá-los.
Quando passamos por toda aquela segurança, nós chegamos no lugar. Um lugar ironicamente bem mais alegre do que eu pensei, as paredes eram brancas, cheias de desenhos fofinhos, e com um céu azul que seria digno de uma creche infantil. E com o peso do que eu estava fazendo finalmente me atingindo, eu parei de andar, e o cavaleiro percebeu.
Cavaleiro: tá tudo bem?
Antônio: ah, sim, é que eu só tô um pouco receoso, porque, agora que agente tá aqui, tudo do nada, agora ficou real demais, e eu agora tô…com vergonha, vergonha de ver essas pessoas e enxergar elas apenas como animais enjaulados, ou pior, animais de circo pra me entreter.
O cavaleiro não ficou nem um pouco surpreso com o que eu falei, e de forma natural demais, ele tirou uma das manoplas da mão, e cutucou meu peito, bem onde estava o coração, como ele foi lento, e que eu consegui ver o movimento de forma tranquila, não fiquei nervoso nem um pouco.
Cavaleiro: acredite jovem, se você achasse que os pacientes são animais de zoológico, ou um número de circo, você não estaria aqui, você está aqui porque entende e percebe que essas pessoas merecem tanto respeito quanto você, vem, vamos continuar?
Eu absorvi o que o Cavaleiro falou enquanto o acompanhava, e agente logo chegou em uma das primeiras portas.
Ele abriu uma portinha e eu consegui ver que tinha um quarto absurdamente bagunçado lá dentro, pelos pra todo lado, camas, cadeiras e quaisquer outros móveis lá dentro, reduzidos a entulhos. Junto com um monte de comidas e outras coisas mais “orgânicas” no chão fazendo o lugar inteiro parecer um chiqueiro.
E no meio de toda aquela confusão, um grande lobisomem mágico estava no meio do caos, mas não um normal, ele tinha mais de 15 metros de altura, e o único resquício humano que tinha nele era sua forma antropomórfica, mas de resto? Ele era um animal completo, pelos desengonçados, cheios de sangue, feridas e um fedor horrível. Músculos imensos que pareciam até machuca-lo sempre que se movia. E um rosto que, apesar de ter tanta expressão quanto outros lobisomens, essas expressões a mais eram usadas apenas pra expressar um ódio profundo.
Mas algo ainda mais interessante que o ódio, era a falta de racionalidade, eu olhei o rosto absurdamente sinistro do Lobisomem apenas por alguns segundos, mas na hora eu entendi que aquele lobo não tinha mais cabeça, ele perdeu sua identidade, sua racionalidade, o “ele” que o mandava conter o lobo, até que o lobo ficou tão forte que o engoliu por completo.
Antônio: deixa eu adivinhar, o lobo se manifestou, mas ao invés de ajudá-lo, a família bateu, gritou e repreendeu o lobo até que ele foi engolido de novo, não é?
Cavaleiro: isso mesmo
Antônio: alguém da família sobreviveu?
Cavaleiro: não, o jovem rapaz aqui é de terras distantes, bem longe do nosso continente, quando o encontramos, metade da cidade dele tinha virado entulho
Antônio: é uma pena, poucas coisas são capazes de vencer um amaldiçoado Berserk na força
Cavaleiro: o Rei acredita que fizemos progresso, antes ele estava maior
Antônio: na minha opinião pessoal, acho que não deveriam tentar pegar o “eu” dele de volta, ele foi destruído, engolido e desfeito, é bem mais fácil tentar criar um novo, um que não tenha relação com o passado traumático dele
Cavaleiro: você está se adiantando muito senhor, por enquanto, estão todos focados apenas em tentar fazer o jovem rapaz conseguir falar, e diminuí-lo bastante de tamanho
Antônio: é, é bom começar por aí também.
Tem gente tão burra nesse mundo, fazer o Lobo, ou qualquer “sombra” recuar pra dentro do corpo, nunca a enfraquece, é o contrário, ela apenas fica mais forte, e às vezes até engole a máscara, coitado do jovem, nem deve se lembrar do próprio rosto, mas por mais que fosse difícil, sabia que ele iria ficar bem, os Psicomagos que moravam na guarda real eram além de “não ser brincadeira” tinham histórias que até faziam as pessoas questionarem se eles sequer eram humanos.
A próxima porta foi algo que me pegou de surpresa, pois era um quarto que, não ironicamente estava normal, com uma simples fadinha pintando um quadro, ela estava com um quadro bem bonito, e um quarto bem lindo e arrumado, mas quando uma única gota da tinta caiu no chão, uma explosão gigantesca aconteceu, eu fiquei com medo, e maravilhado com a explosão, por que era como se 1 milhão de feitiços diferentes fossem lançados ao mesmo tempo, criando uma gigantesca massaroca de cor, feitiços e raiva.
Aquilo mexeu comigo de formas inimagináveis, por que aquele era um tipo de feitiço que eu conhecia muito bem, era uma “explosão sentimental” depois que se fica no limite depois de muitos estímulos e sentimentos acumulados, mas por mais que eu quisesse, não falei nada, por que eu não queria de forma alguma comparar minha situação com a dela e acabar que eram maldições diferentes, e vendo meu semblante, o Cavaleiro falou do mais profundo nada.
Cavaleiro: ah, a maldição dos super sentidos, a cada novo paciente “especial” que conseguimos, mais eu entendo que estamos longe de entender o que as maldições são, ainda mais com tantos Singulares com a mesma maldição, só que tão diferentes entre si. E ainda com casos como a da senhorita dessa cela, ela se entregando de boa vontade no fim
Antônio: isso não é uma coisa boa?
Cavaleiro: não, porque mostra que esses Singulares se acham perigosos, e que eles precisam ser presos, e repreendidos por sequer existirem. (Toca porta) É um trabalho árduo, mas pra quem realmente se importa com a saúde dos outros, vale a pena
Antônio: sei que isso vale pra qualquer emprego, mas por algum motivo, sinto que apenas quem realmente gosta de cuidar de pessoas consegue aguentar uma carreira assim
Cavaleiro: e tem vezes que nem o amor a carreira bastante
Antônio: consigo imaginar.
Apesar de não ver o rosto daquela paciente, eu conseguia sentir os gritos, e os rostos distorcidos em profunda agonia sempre que ela parecia se aproximar de nós, pra muitos, aquele seria um rugido de fúria, uma descarga pura de ódio primordial, mas para aqueles que olhassem apenas a explosão com mais atenção, veriam, no meio de tantos disparos e explosões que o rosto da paciente estava recheado de dor, tristeza, e desespero.
Eu pelo menos reconheci cada um daqueles sentimentos, quando até a mais básica sombra dela chegou perto do vidro, por que eu já vi esses mesmos sentimentos em mim, quando eu não sabia o que eu tinha e me culpava por isso.
Além de eu ver a automutilação em cada feitiço, para tentar se acalmar, sim, a dor era boa, por que pelo menos ela te distraía do completo tormento de sua própria cabeça.
E o mais importante, era a rejeição, o ódio por não saber o que é, ou saber, e negar, por que ninguém nunca levou a sério o que ela tinha, sempre gritaram que ela estava sendo dramática, e que era tudo da cabeça dela, e agora ela estava aqui, ainda acreditando nisso, bom, quem era o dramático agora?
E enquanto o descarregamento de emoções é magia aconteciam, eu via também as lágrimas caírem no rosto dela e parecerem terminar o quadro, o deixando mais brilhoso e lustroso do que nunca.
Antônio: não é um rugido de fúria, é um grito de socorro.
Eu não pensei nisso, eu afirmei.
Cavaleiro: dependendo da perspectiva, essa jovenzinha tem mais sorte que o lobo, ela foi reprimida, assim como ele, mas ao invés de guardar os sentimentos, eles explodiram de uma única vez, e como retaliação, a família tentou parar a garota, a repreender, gritar com ela, até quebrar coisas nas costas dela, mas isso só fez tudo piorar, os sentimentos, junto da magia, ficaram muito mais intensos, a ponto de que em uma explosão de fúria, ela devastou o castelo inteiro, e torturou a família inteira por dias, isso foi o quanto os sentimentos dela estavam acumulados…ainda me lembro do rosto que ela fez quando nos viu, a raiva dela durou muito mais tempo, mas em menos de 2 dias, ela se acalmou e começou a chorar, como um bebê que deixou o sorvetinho cair…foi um dos poucos casos que a paciente se entregou antes do Psicomago aparecer…mas eu queria muito que ela não tivesse passado por aquilo, olha pra ela, ela é tão jovem.
Eu olhei com mais atenção para a jaula, bem quando as explosões pararam, e a garota agora estava deitada no chão, exausta, suada e ainda chorando, uma posição que eu me senti mais familiar do que gostaria de admitir. E agora eu via, que ela deveria ter, no máximo do máximo, uns 10 anos, ela já passou por tanto, tão nova, ela é guerreira por não desistir.
Cavaleiro: agora ela tenta lutar com os próprios sentimentos, por que agora cada coisinha cria uma grande explosão de sentimentos nela
Antônio: pelo menos ela tem algum lugar pra começar, será difícil, mas ela já fez o grande primeiro passo, que é encontrar esse lugar, agora todo o resto vai ficar bem mais fácil
Cavaleiro: concordo com você, vem, vamos.
O próximo era algo beeeeeeeeeeeeeeeem interessante, que era o quarto mais gelado que eu já vi na vida, o cavaleiro apenas abriu a portinha, mas eu senti como se a temperatura da sala tivesse abaixado quase a 60 graus negativos, eu tava com tanto frio que eu quase troquei o frio do meu manto pra calor, quase.
Lá dentro tinha uma visão que eu achava bem comum, era um homem, sentado numa cadeira, não fazendo absolutamente nada. Ele tava olhando pra um ponto específicos da parede, ou apenas pra nada mesmo, e o quarto inteiro dele estava coberto em uma neblina profunda, o próprio quarto dele, apesar de também ter desenhos felizes, estava escuro, frio e com um azul forte por toda parte. Os olhos dele eram brancos, como se não tivesse alma, e ele estava paralisado, como uma máquina sem função.
Ver ele era quase como se a minha felicidade fosse drenada, mas eu não desviei o olhar, eu olhei pra ele por um bom tempo, desafiando o vazio daquele homem, não ligando que aquilo ia possivelmente me olhar de volta, e ele nem se mexeu, mas tudo bem, eu só continuei olhando ele, vendo apenas como ele parecia um grande totem da mais profunda escuridão e vazio do mundo, não tendo nada, além da anciã de respirar o mantendo em pé.
Cavaleiro: ele ja ta espirrando sozinho tem alguns dias, mas tá na cara que vamos precisar de um tempo antes que ele consiga se cuidar sozinho de novo
Antônio: considerando o que eu acho que é o ponto onde vocês começaram, o trabalho até que tá muito bem feito
Cavaleiro: hummmm, que curioso, muitos não entendem o real valor de ver um homem que sequer tinha a força pra respirar, conseguir ter a força pra fazer isso de novo
Antônio: eu namoro uma Singular do Vazio, então eu sei uma coisa ou duas, claro que ela nunca chegou ao nível do cavaleiro aqui, mas ela passou por coisas também
Cavaleiro: ela era mulher, então era mais fácil de perceber
Antônio: não é ser machista falar isso?
Cavaleiro: não, muitos dizem que mulheres têm mais problemas Psicológicos que homens, mas isso é por que os homens são ensinados desde cedo a nunca, jamais, demonstrar fraqueza, e muitos conseguem fazer isso muito bem, só com algumas sequelas, mas tem muitos como o jovem cavaleiro ali, que esconderam tanto os sentimentos, que criaram um buraco para jogar os sentimentos fora, mal sabem eles que, depois de um tempo, o buraco fica tão grande que ele começa a engolir os sentimentos “bons” também, e depois de mais algum tempo, até o próprio “eu” é engolido pelo vazio. Não tem nada além de peso, vazio e falta de propósito, até que…a lâmina de uma faca, a força de uma corda, e até as alturas de grandes prédios, parecem ser bem tentadoras para acabar com essa vida sem sentido…mas enquanto eles estiverem conosco, não deixarei nenhum deles se machucar.
Eu fiquei olhando aquele senhor, não era incomum pessoas chegarem a esse nível da maldição do vazio, mas mesmo sendo comum, ainda era desesperador, triste e muito solitário ver alguém chegar a esse nível de desespero, e pensei também no quanto ele tinha guardado, no quanto ele ignorou, e o quanto ele fingiu, até chegar ao ponto onde não se dava mais pra fingir, então falei.
Antônio: sabe o que eu tenho certeza que 70% de todos os Singulares aqui tem em comum?
Cavaleiro: que eles guardaram seus sentimentos, até que a magia teve que ajudá-los, mas que a própria magia foi contida por eles, até que não sobrou nada deles, além de todos os sentimentos reprimidos, por que eles eram a única coisa que parecia fazer sentido, junto da magia é claro
Antônio: (assovio) uau, você realmente é um profissional
Cavaleiro: eu tô nesse ramo a muito tempo rapaz, e sou normalmente chamado para acompanhar visitantes aqui em baixo, os últimos visitantes me descreveram como “bom de papo” e “ótimo em ler o clima”
Antônio: parabenize-se, eles estavam certos
Cavaleiros: eu gosto de acompanhar pessoas aqui, graças ao teste vigoroso de vossa alteza, apenas pessoas que realmente desejam entender os pacientes podem entrar aqui, posso não entender seus motivos, mas seja qual for, desejar entender melhor os Singulares é algo que sempre irei respeitar.
Não respondi o Cavaleiro, eu apenas fiquei em silêncio, com um rosto feliz e tranquilo, que ele rapidamente entendeu, enquanto nós visitávamos outra cela.
Cavaleiro: se importa de responder a esse cavaleiro, por que você desejou vir aqui?
Antônio: curiosidade, eu já li muitos livros e já ouvi muitas histórias de Singulares que perderam o controle, mas depois de muitas experiências, aprendi que existe bastante diferença entre as histórias, as escritas, e a coisa real. Eu li muito sobre o que acontece quando se é engolido por sua maldição, mas a cada paciente que vejo, mais eu entendo que os livros não conseguiram descrever por completo o que esses pacientes fascinantes desejam nos contar.
Eu falei aquilo, enquanto o Cavaleiro abria mais uma porta, e agora, abrimos outra janelinha, vendo como um paciente escrevia com seu sangue, algo nas paredes. “Caroline Lessem” várias, várias e várias vezes, e apesar de não entender os motivos, eu tinha certeza que isso ia dar problema pra ele depois.
Cavaleiro: e lá vai ele de novo, pensei que tinham o acalmado
Antônio: só isso? Não vai me contar a história triste dele?
Cavaleiro: talvez depois, mas é melhor não chegarmos perto dele, digamos que esse Singular é o motivo de nós termos tantas medidas de segurança assim.
O Cavaleiro não deu nem chance do Singular nos ver, ele fechou a janela com a maior velocidade que conseguia e me levou pra outro canto do lugar, o que, da mesma forma que me deixou bem mais feliz e tranquilo, me fez imaginar que tipo de problemas um Singular poderia causar pra conseguir deixar um cavaleiro veterano desse jeito.
Antônio: então, qual vamos ver agora?
Cavaleiro: esse aqui.
E não ironicamente, nos encontramos com mais um Singular, mas esse era beeeeeem mais antigo que os outros, porque aquele Singular estava dormindo, mas eu não era enganado, ao redor dele, grandes espíritos o protegiam, todos eles pareciam grandes bichos papões, e quando eles nós notaram, eles tentaram nos atacar correndo até nós e nos batendo com tudo, até que eles foram impedidos de continuar pela parede de magia resistente dali.
Cavaleiro: coitadinho, ele foi tirado de uma família que os pais brigavam constantemente, a ponto de que ele ficou cada vez mais longe do mundo real, até o ponto em que ele começou a dormir pra fugir da família, com o passar do tempo, a magia dele começou a criar esses monstros, por que ele não queria acordar, o mundo acordado se tornou o seu inimigo, e agora ele fica aqui dormindo, e apenas o Psicomago dele consegue fazê-lo acordar
Antônio: hummm, então crianças são uma espécie em extinção mesmo
Cavaleiro: como assim?
Antônio: ouvi dizer que, pra muitos animais, a calmaria é tão importante quanto comida e bebida, por exemplo, existem muitos animais no mundo, que se você der comida e água pra ele de forma ilimitada, mas colocar ele num lugar completamente barulhento, hostil e perigoso, ele não vai sobreviver muito, porque sem um ambiente calmo, essas espécies não conseguem sobreviver por muito tempo, por que é a natureza buscar um lugar seguro, mesmo que eles tenham que criar eles mesmos
Cavaleiro: lugares seguros existem no mundo real, só temos que convencer o pequeno que isso é verdade
Antônio: isso vai demorar.
Isso me fez lembrar em quanto tempo demorou pra eu aceitar que eu era um Singular, mais tempo pra eu aceitar usar o colar, e mais tempo ainda pra eu aceitar os remédios. E apesar de não ter me conectado tanto com o garotinho, já que nossas origens eram totalmente diferentes, ainda senti uma conexão, sabendo que a jornada dele iria ser bem longa ainda, mas estava tranquilo sabendo que tinha gente que se importava com ele nesse caminho.
Antônio: então, vamos ver o próximo?
Cavaleiro: nada a declarar?
Antônio: hum, não estudei a maldição dele direito ainda, então não, vamos ter que olhar o próximo com mais atenção
Cavaleiro: se você tá dizendo né.
E depois, mais uma portinha foi aberta, e novamente, eu vi e vi, e senti mais e mais Singulares, o ponto mais fundo da singularidade, onde cada singular que eu via, parecia, em certos grau, ter perdido o que tornava eles “humanos” pra início de conversa.
Eu tentei não pensar muito nisso, mas, era a verdade, como monstros absurdos que perderam a humanidade muito antes de serem monstros em si, ou pessoas que se tornaram bombas emocionais, incapazes de ter uma única crítica ou problema sem surtar em de vez, ou pessoas que se tornaram tão vazias, tão paradas que mal dava pra chamar elas mais de pessoas.
Perder para a Singularidade, perder a máscara, e ser incapaz de sentir qualquer coisa por outra pessoa, cada uma dessas coisas soava muito como um filme de terror, colocando minha mão no peito, enquanto saia de lá, eu pensei se, um dia, eu iria passar por algo assim, e quanto mais eu pensava nisso, mais desesperado eu ficava, não conseguindo me imaginar perdendo minha humanidade, meu irmão me disse “mesmo se você se tornar a criatura mais perigosa e horrenda do mundo, eu irei te amar” mas é eu? Eu me reconheceria? Provavelmente não. E essa simples conclusão, abalou minha mente um bom tempo, antes de eu me acalmar o bastante pra ir pra casa.

