Hoje seria um dia interessante, por que eu estava prestes a testar, da forma mais estranha possível o quão determinada minha namorada (e com sorte, futura esposa) estava em seu passatempo, muitos pensam que passatempos são coisas que as pessoas fazem pra se divertir, e apesar de que, sim, nós fazemos esses passatempos porque os achamos divertidos, também tem o fato que passatempos são traços bem fortes de nossas personalidades, se você sabe o passatempo de alguém, você quase consegue montar a personalidade da pessoa.
O meu por exemplo era ler, e o do amor da minha vida, era dançar e escrever músicas, claro, na última vez que conversamos sobre isso, ela não parecia muito disposta a escrever, mas pro que eu iria fazer, eu queria a ajuda dela.
Eu cheguei na casa dela em pouco tempo, e como não era segredo o que eu queria que ela fizesse, eu falei no quarto com as luzes acesas, e pela cara dela, era nítido que ela levou alguns segundos pra entender o que eu falei, e quando ela entendeu, ela apenas falou.
Dandara: espera, o que?
Antonio: eu quero que você me faça uma canção de desculpas, pro meu pai
Dandara: mas, por que agora?
Antonio: meu pai já me perdoou, mas, eu ainda sinto um pouco de culpa no meu peito, sabe, todo mundo me diz “você já se perdoou, só segue em frente” mas não é tão simples “seguir em frente” mesmo depois do que eu fiz com ele, e eu tenho muitas coisas pra dizer, coisas que não podem ser ditas, nem escritas, então por que não os dois, não é
Dandara: eeeeeee, você vai mostrar isso pro seu pai?
Antônio: não, sei que ele não iria gostar, é mais um lance pra mim mesmo.
A Dandara me olhou alguns segundos, como se tivesse que ter certeza que o que eu estava falando era sério, e depois ela balançou a cabeça, como se estivesse decepcionada consigo mesma, e falou.
Dandara: sempre que penso que te entendi, você me surpreende melzinho, mas eu vou aceitar meu bem.
E numa velocidade extrema, ela pegou uma pena e um papel, com uma espécie de profissionalismo em seu olhar e em sua voz que me pegou de surpresa.
Dandara: me de um pouco de material, me conte sobre vocês, e sobre o que você quer transmitir na música
Antonio: essa é fácil…
Então, naquele momento, onde tudo pareceu estar mais perto de se concretizar, eu travei, não por medo, mas sim porque tinha tanta coisa acumulada em minha garganta que eu nem sabia direito por onde começar, mas eu me acalmei, respirei, e apesar de um pouco impaciente, a Dandara não me apressou.
Antonio: bom, acho que quero que a música diga como eu sempre amei e admirei o meu pai, e como ele sempre tentou me ajudar, mas também ele não podia me ajudar com o que as pessoas não entendiam ainda. E apesar de não ter sido culpa totalmente dele, eu ainda passei por cada coisa que me deixou com muita raiva, raiva de tudo, de literalmente tudo que me fez passar por isso, e que acabou sendo descarregado de forma quase completa nele. E ao invés de me odiar de volta, ele apenas aguentou tudo, nunca me culpando e apenas não entendendo porque eu o odiava tanto, e essa atitude dele, conseguiu que a minha raiva acabasse completamente, sabe…
Continuei falando até meus sentimentos quase me engasgarem, mas eu tive paciência, e esperei meus pensamentos se acalmarem para começar a falar novamente.
Antonio: e como…eu amo ele, eu…sei que, apesar de tudo, sei que sou o homem que sou hoje graças a ele…
Falar aquilo em voz alta, me fez apertar meu peito, pela dor do coração que eu estava tendo agora, mas eu não lutei com a dor, eu a aceitei, eu cometi um erro, eu sinto culpa disso, mas deixa a dor e os sentimentos serem sentidos, na maioria das vezes, é a única forma de fazê-la passar.
Antonio: apesar de que…tá na cara que eu não sou mais o garotinho dele.
A Dandara não fez um único som, quando eu olhei pra cima, vi que ela estava me observando com um olhar predatório e muito frio ao mesmo tempo, como um predador analisando cada parte de sua presa, mas ela não falou nada, apenas ficou me olhando daquele jeito, não parando de anotar, como se minha pose já entregasse tudo que eu tava sentindo, mais que minhas próprias palavras, então ela se levantou e falou.
Dandara: já tenho o suficiente, você ligaria de ficar um tempo com meu irmão? eu quero um pouco de privacidade pra criar
Antonio: o seu irmão vai ligar pra isso?
Dandara: tenho certeza que ele vai estar muito empolgado pra te conhecer melhor, vai, pode sair.
E depois que eu saí do quarto da ruiva, fui andando de forma normal até o quarto do João, o irmão mais novo adotivo dela. E no fim, a ruiva tava certa, porque o João fez um interrogatório severo para ter certeza que eu era a pessoa certa para a irmãzona dele, e por mais tarde que esse teste tenha sido, eu passei com as maiores honras no pequeno teste de João, e depois de passar o teste, agente se divertiu assistindo ao espelho antes da ruiva me chamar pro quarto de novo.
Quando ela me chamou, eu entrei no quarto, não tinha notado quanto tempo se passou, mas olhando pro lado de fora da janela, vi que eu fiquei assistindo o espelho com o João por quase 3 horas, e com uma letra na mão, Dandara falou.
Dandara: e ai? o que você achou?
Peguei o papel, sabendo que a música não seria profissional, mas li mesmo assim.
(inicio da musica)
Hoje senti uma dor no coração.
pensando em minha antiga solidão.
Isso me faz ver, que mesmo perdoado.
Minha culpa não me abandonou.
quando todos só sabiam me julgar.
minha mente com o caos a espalhar.
você ajudou com tudo que conseguiu.
E minha mente acalmou
o rancor por não saber o meu lugar.
sentimentos que tinha a descarregar.
seu amor exclamou com todo o coração.
e com meu ódio te testei.
Ninguém entendeu meu ódio a ti.
por muito tempo, nem eu entendi.
mas você não parou, você sempre me amou.
e o rancor eu acalmei.
a culpa me corrói, em toda ocasião.
mesmo que você irrite meu coração.
puro rancor, não vence meu amor.
tudo devo ao senhooooooooor.
Renato essa carta é pra vocêeeeeee
(fim da música)
Eu fiquei ali, parado, apenas olhando a letra, até que as lágrimas começaram a cair, era engraçado, porque não era um choro muito barulhento, era muito pelo contrário, era um choro silencioso, como se toda a tristeza por trás daquelas lágrimas soubessem que não precisassem gritar ou espernear para serem ouvidas, pois eu abri as portas pra elas saírem com uma facilidade que impressionou até a mim mesmo.
Eu não limpei minhas lágrimas, porque elas não pararam de cair, só depois que elas começaram a irritar o meu rosto que eu decidi finalmente mexer nelas. E olhando para a Dandara, apenas naquele ponto que eu vi o quão próximo ela tava de mim, e pra variar, eu não liguei pra isso, ela passou o dedo no meu rosto e provou minhas lágrimas como se elas tivessem um gosto doce pra ela, sério, onde ela aprendeu a fazer aquilo? O que a garota tem estudado quando eu tava fora.
Dandara: como eu imaginei, de todas as pessoas, eu nunca pensei que veria você chorando de felicidade.
Não sabia o porque, mas aquela frase em específico conseguiu me acalmar, bastante, então com uma tranquilidade absurda, eu apenas fiquei feliz e dobrei a carta, não ironicamente, decidi deixar ela pertinho de mim, ao invés de deixar em algum lugar na minha casa, não me sentia seguro deixando aquela carta em qualquer outro lugar além de poucos centímetros de mim.
Antônio: ah, eu apenas to feliz que, agora que os meus sentimentos foram transmitidos assim, eu sinto que a minha mente tá bem mais levinha
Dandara: que nada, você tava assim desde que chegou, o que você estava fazendo lá fora?
Antonio: eu prometo que te conto os detalhes com mais calma depois, mas no lugar disso, o que você acha da gente comer alguma coisa na cozinha.
E sorrindo, a ruiva me levou pra cozinha com a maior tranquilidade e felicidade do mundo, abriu o baú de frio(algo equivalente a uma geladeira) e tirou uma tigela de morangos de lá, junto com um jarro cheio de leite condensado.
Antonio: nossa, você tá ousando hoje né?
Dandara: que foi, é culpa minha querer comer morangos?
Antonio: se eu pudesse eu comeria só morangos pra sempre.
Era em momentos como aquele que eu gostava de ser alguém chato pra comidas, por que com morangos, e doces em geral, eu normalmente tinha uma carta totalmente branca, poucos doces conseguiam realmente me deixar sensível com minha língua, por que tinham poucas coisas novas que um doce podia ser, e com a Dandara ali, eu estava sentindo tudo mais doce que o normal.
Agente só tava comendo morangos, mas com a ruiva, tudo parecia especial, ela até fez uma brincadeira da gente colocar morangos na boca um do outro, ate que agente se beijou no calor do momento, mas um beijo só não bastava, eu precisava de mais, EU QUERIA MAIS.
E pelo olhar da Dandara, ela sentia a mesma coisa, mas eu consegui me controlar, eu não era bom em pegar dicas, mas apesar de não ser o garoto mais santo do mundo, tinham coisas que eu não queria ultrapassar
Dandara: o que foi Antônio?
Antônio: eu quero mais, sabe do que eu quero dizer?
Dandara: eu tenho uma ideia
Antonio: mas eu não quero fazer assim, não desse jeito, pode me chamar de fresquinho, mas, eu quero fazer isso a moda antiga, sabe
Dandara: você tá falando, tipo, casar?
Antonio: sim…mas eu entendo se você não quiser
Dandara: bom…não agora, porque, você sabe, eu ainda tenho uma cerimônia pra ir, minha formatura tá batendo na porta, e por mais que eu esteja super curiosa pra saber o que você esconde por baixo desse manto, acho que posso deixar isso pra depois, afinal, meu futuro é mais importante que um amor passageiro
Antonio: hmhmhmhm, quem foi que criou uma garota tão inteligente assim?
Dandara: um pai bem caloroso, um pai de verdade, diferente do demônio que tem o meu sangue.
E de repente, o clima da conversa mudou quase por completo, tudo ficou muito mais pesado, o ódio esfriou o ambiente, e eu entendi na hora que o momento de brincar acabou, porque eu sabia do que ela estava se referindo.
Antônio: ah, então você ficou sabendo?
Dandara: que ele tentou sequestrar você, foi espancado e depois preso no calabouço? sim, eu fiquei sabendo
Antonio: voce ta irritada comigo?
Dandara: claro que não, porque até a sujeira que gruda nas minhas botas tem mais valor do que aquele patife, apenas admitir que aquele cara simplesmente entrou em sua linha de visão é muito crédito pra ele.
Eu estava orgulhoso da Dandara, mas não apenas pela resposta dela, mas sim o semblante dela, o rosto dela mostrava aquilo que eu sempre quis pra ela, ela não sentia ódio e nem tristeza quando falávamos do pai de sangue dela agora, ela estava com um olhar super indiferente dele, mostrando que com exceção do corpo biológico que os pais lhe entregaram, ela não tinham uma única ligação com eles. E quando ela viu o rosto que eu estava fazendo, ela sorriu e falou.
Dandara: a maior vingança que você pode jogar em alguém que te fez mau é esquece-lo
Antonio: hummmm, interessante, mas e se essa pessoa que você esqueceu continuar a fazer maldade com as outras pessoas em sua volta, mesmo depois de você esquecê-lo?
Dandara: aí você o pará, mas não por que ele te machucou, mas sim pra impedir que ele machuque mais alguem, não é pessoal, é apenas a coisa certa a se fazer, isso que diferencia a vingança de justiça, apesar de serem bem parecidas, elas não poderiam ser mais diferentes, principalmente nos limites que cada uma pode ultrapassar.
E de repente, aquele sentimento de luxúria se desfez, sendo preenchido por uma admiração tão grande, que eu abracei ela com bastante força, e ela apenas aceitou abraço ficando corada de felicidade.
Era engraçado que os pais da Dandara estavam nos olhando, pra ter certeza que nós não passamos o limite, sendo que, de todos do reino, nós é que estamos menos propensos a passar muito do limite, mas cuidado nunca é demais, principalmente quando você é pai.

