Eu tentei me convencer de que eu não era uma pessoa ruim por ter me esquecido do Midas, mas talvez o fato de eu ainda me lembrar do nome dele me dava um pouco de crédito, o conteúdo da carta era algo simples, nada muito extraordinário, mas pelo que eu lembrava dele, isso já demonstrava uma mudança gigantesca no rapaz, e vendo aquilo, eu me senti obrigado a ver o progresso dele.
Para o meu mentor, e grande amigo de um dia, Antônio Carvalho.
Eu me formei com grandes honras durante os anos que esteve fora, e lhe convido a passar na escola para poder lhe demonstrar as habilidades que cultivei dia após dia, pensando na sabedoria que compartilhou comigo, e sinto que me tornei um adulto respeitado, e lhe desafio formalmente para um duelo, apenas para lhe mostrar meu próprio progresso, isso é claro, se não for um problema para o senhor.
Assinado, Midas.
Midas, a quanto tempo que eu não escuto esse nome, e considerando que a última vez que o escutei foi da vez em que eu fui chamado pra dar uns cascudos em uma criança que pensava ser mais inteligente que os adultos, e considerando que ele apanhou feio pra mim, ele definitivamente não era, e agora ele estava me convidando para ver o progresso dele, ah não, isso eu tinha que ver de qualquer jeito.
Com isso em minha mente, eu me equipei, coloquei meu melhor chapéu e manto blindado, e me preparei para ir até aquela escola novamente.
Eu cavalguei com muita calmaria em cima do Zorro, e com o grande poder que o corcel exalava agora, eu conseguia me destacar até mesmo entre os outros cavalos poderosos, a crina do Zorro ficou completamente azul, os cascos dele pareciam feitos de ferro, e agora os olhos dele brilhavam, mas era apenas um aumento de poder, por dentro, ele ainda era o mesmo fofo potrino que eu olhei pela primeira vez, e eu confirmei isso fazendo carinho nele e ele relinchando de felicidade.
Eu levei menos de 10 minutos pra chegar no lugar certo, e agora que eu era adulto, eu conseguia entender de forma perfeita o quão fascinante eram as defesas da escola, as defesas das grandes muralhas era absurda, mas as muralhas de magia eram tão espessas que pareciam até as grandes muralhas que o Davi e o Brutus protegiam, só que muito maiores e muito mais complexas, uma proteção que me fazia me sentir uma formiga pelo poder, a ponto que eu sentia que eu teria que esperar que alguém me deixasse entrar, eu estava com medo de entrar sem permissão e acabar sendo atacado.
E como se tivesse sentido o que eu fiz, a Diretora apareceu, ou melhor, um dos clones golens dela, um em específico que era igual a sua aparência mais jovial de 30 anos.
Clone: olá jovem Antônio, já faz um bom tempo que nos vimos
Antonio: nós dois sabemos que isso é uma boa notícia, se um aluno vê a diretora muitas vezes, e por que ele e muito encrenqueiro
Clone: pior que é mesmo, então o que o leva aqui hoje, jovem?
Antônio: estou aqui como um desafiante, um aluno recém formado gostaria de desafiar a própria força de vontade em mim, e como sinto que o inspirei a seguir esse caminho, me sinto obrigado a saber se eu o influenciei tanto assim
Clone: se fala do senhor Midas, sei que você o influenciou de forma perfeita, eu garanto jovem Antônio, você não irá sequer reconhecê-lo
Antônio: eu percebi isso logo na carta dele, mas pode me mostrar o caminho?
Clone: certamente.
E a Clone me levou dentro da escola, eu passei por muitos corredores, corredores que eram muitos familiares pra mim, os armários, as aulas, e os alunos, claro, a maioria eram alunos novos, e quando eu vi eles…notei como eles, pareciam tão pequenos, não apenas em altura, o olhar deles, a magia, a visão de mundo, cada um daqueles alunos parecia tão pequeno, e quanto mais eu andava pelas escola, mais eu via como aquele lugar parecia tão apertado, não estava ficando claustrofóbico ou algo do tipo, mas eu sentia como aquele lugar não podia mais me segurar, eu estava cheio de energia, e se não saísse rápido dali, ou descarregasse ela logo, talvez eu acabasse criando uma parede e fugindo pelo teto.
Clone: sufocante, não é?
Antônio: é
Clone: não se preocupe, apenas lute com meu recém formado aluno, e você poderá ir pra casa.
Eu não falei nada, apenas fiquei quietinho enquanto eu era guiado, tentando não enlouquecer de vez. E quando eu cheguei na arena, eu fiquei impressionado, não pela a arena, para uma luta de alunos formados, ter uma arena com escudos poderosos daquele jeito, era apenas o mais normal do normal.
Eu fiquei impressionado com a transformação do Sapien, que quando o vi pela última vez, não passava de uma criança melequenta e pensava ser mais inteligente do que era.
E agora, na minha frente estava um homem descalso, de calças azuis e uma jaqueta branca sem camisa. Com uma barba rala, e um cabelo loiro e longo digno de surfista. E quando ele olhou pra mim, ele me deu um sorriso largo, e abriu os braços.
Midas: E AI MANO, A QUANTO TEMPO
Antônio: fico feliz que sua energia não mudou muito, você vai precisar dela
Midas: você vai saber o que eu fiquei fazendo durante todo esse tempo.
E falando isso o Midas revelou seu cajado, um grande cajado feito de dentes de animais, madeira bruta e pelos de animais absurdamente perigosos.
Antonio: esse cajado combina com você mesmo.
Essas foram minhas últimas palavras antes de começar a exalar minha energia, não houve apresentações, apesar de estar bem animado, Midas também tinha a ideia de deixar os nossos feitiços falarem por si próprios.
Eu e o Midas tocamos os nossos cajados no chão ao mesmo tempo, e de forma instantânea, nós criamos grandes armaduras pra nós, bom, eu criei uma armadura completa, grossa e ainda aerodinâmica de alguma forma, enquanto o Midas pareceu só se importar em ter duas luvas e duas botas e um grande poder ao redor dele.
Eu me coloquei na posição, e disparei junto de Midas, e nós não miramos em nenhuma parte do corpo do outro, na verdade, miramos no ar, bem onde o punho do outro iria passar, causando um impacto perfeito, e na primeira colisão, nossos braços foram jogados pra trás com uma violência que deixou todos assustados, era como uma explosão sonora pura tivesse acertado todos ali, e nós estávamos bem longe de terminarmos, nós jogamos mais um golpe, e na colisão de mãos diferentes, nós criamos o som característico de martelo batendo em martelo, aço batendo em aço, e nenhum dos dois querendo ceder.
Eu não tive piedade, por mais que não tivesse usado todo o meu poder, eu não me segurei, eu lutei sério com o Midas, e ele agradeceu mostrando os frutos de seu treinamento, passando magia pura para aquelas manoplas, conseguindo me fazer sentir dor, conseguindo rachar minhas armaduras na minha frente, e até conseguindo me fazer recuar.
Eu recuei muitos passos para trás, eu tentei pensar em um plano, uma girada de corpo diferente, uma regeneração melhor, ou até uma maior concentração de poder.
Mas no fim, eu não fiz nada, até pensei em concentrar meu poder nas manoplas, mas pelos danos que minha armadura sentia apenas com os impactos, eu sabia que deveria manter ela ali.
Haha, olha isso, o cara estava com músculos tão definidos que ele não precisava de uma armadura, ele conseguia passar a magia pelo próprio corpo e transformar o próprio corpo em uma arma, mas esse poder tinha um custo, um custo que já estava aparecendo.
Foi demorado, os primeiros indícios dessa consequência já estavam aparecendo, um dos problemas deste método de fortalecimento, é que a magia, diferente da aura, era um poder muito instável pra passar por um corpo humano, o deixando exausto. E seja lá qual treinamento o Midas passou, ele conseguiu aguentar muito bem a exaustão desse método, e tava até me fazendo quebrar cada vez mais a minha manopla.
Então, a minha manopla foi destruída, e por muito pouco minha mão não se destruiu também, e apesar de estar bem imprecionado, eu não me desesperei, eu apenas pensei como foi idiota eu me conter, é, ele parece que me levou a sério mesmo, eu não podia mais chamar o carinha de criança agora.
Então utilizando finalmente os 30% de poder que eu não tinha usado desde o início da batalha, eu consegui uma colisão bem maior com o Midas, e novamente, os nossos punhos ficaram empatados, com nenhum de nós dois conseguindo vencer, e quando nós colidimos o punho com a luva quebrada, o Midas ficou impressionado vendo como a manopla já estava inteirinha.
Eu olhei o Midas nos olhos, e ele me olhou de volta, ele não recuou, nem quando as luvas dele começaram a quebrar, era engraçado, mas em pura força física, eu não tinha mudado muito, mas com uma manipulação melhor de mana, eu comecei a usar minha magia de forma melhor, fazendo ela explodir em um grande jato de poder a cada golpe, e o Midas respondeu ao ataque explodindo uma grande quantidade de magia não muito longe da minha mão também.
Eu realmente o subestimei, um erro que não cometeria de novo, e com mais golpes chegando, eu concentrei cada ataque em destruir por completo as mãos dele, nos dois primeiros golpes, eu quebrei as luvas, nos próximos quatro, eu quebrei os dedos, e nos próximos seis, eu quebrei a mão dele a ponto dela não conseguir mais se fechar, mas olha só, o jovem adulto estava bem longe de desistir, por que quando as mãos deles ficaram inúteis, ele começou a chutar, e eram chutes grandes, aerodinâmicos, e muito doidos.
Os chutes não eram muito diferentes dos socos, não estávamos mirando um no outro, estávamos mirando “no ar” ou na trajetória onde nossas pernas iriam se chocar, e só agora eu notei como ele fez caneleiras poderosas para ele mesmo, esse tipo de consciência ele teve pelo menos.
Os chutes, diferentes dos socos, eram tão perfeitos que os impactos criavam dois cortes mágicos que voavam pela arena e criavam quase uma arte contemporânea no chão.
E assim como os chutes, nós trocamos as pernas, mas pra fazer aquilo da forma certa, nós precisamos ficar saltando e voando com nossos foguetes, fazendo com que agente tivesse que compensar o equilíbrio disparando imensas quantidades de fogo e calor pelas nossas botas.
E de novo, eu vi as caneleiras do Midas quebrarem de novo, mas eu não podia enrolar muito dessa vez, minha magia estava acabando e já estava sentindo minhas máquinas falhando, mas antes de colocar meu plano em açao, eu ouvi algo, no meio do fogo, do caos e da confusão dos ataques, um aluno falando com um professor.
Aluno: professor
Professor: sim
Aluno: eu não fazia ideia que uma batalha podia ser tão linda
Professor: hohoho, e você tá dizendo isso só porque não sabe o que tem atrás dela.
O professor não explicou ao aluno o que ele queria dizer com isso, apenas deixou nos continuarmos a trocar golpes, e quando a canela esquerda do Midas se quebrou a ponto de dobrar pro lado errado, fiquei impressionado que ele fez tudo que pode pra atacar e se equilibrar com a perna ainda boa, e fiquei mais impressionado ainda vendo como ele aguentou mais de 100 golpes antes da última pena ser quebrada em milhares de pedacinhos.
Eu pensei que acabou, mas então, o Midas jogou todo seu corpo para trás, e jogou todo o poder que ainda tinha em uma cabeçada quase suicida.
O golpe foi tão feio que criou o som de ferro rasgando ferro, e pra muitos alunos, eu tinha perdido, mas depois de alguns segundinhos em silêncio, o corpo do Midas ficou mais fraco, e desabou nos meus braços. O meu capacete estava com sangue, mas inteirinho.
Antônio: é uma pena pra você meu parceiro, mas meu capacete é a parte mais dura de toda a minha armadura
Midas: hehe.
Apesar de ter perdido pra mim, de novo, ele parecia muito feliz, absurdamente feliz pra falar a verdade, e por algum motivo, aquilo me deixou muito feliz tambem, os curandeiros da escola levaram pouco tempo pra chegarem lá e levarem ele pra enfermaria. E o Golem clone da professora estava bem ali, do meu lado, como se já soubesse que iria pedir a permissão dela.
Antônio: tem algum problema eu ir lá falar com ele?
Clone: claro que não, talvez isso até ajude ele a se recuperar.
E tendo a permissão da Diretora, eu fui até a ala de curandeiros da escola, era uma ala bem grande, cada aluno com uma história diferente, mas o Midas, apesar de todos os ferimentos, ele estava dando bem menos problemas aos curandeiros do que os alunos ainda não formados.
E depois dele ser enfaixado, curado e medicado, ele dormiu um pouco, eu estava querendo falar com ele, mas eu tava com um livro ali, então eu me permiti ficar sentado num canto, apenas esperando ele acordar lendo.
Levou menos de 20 minutos pra ele acordar, e quando ele me viu, ele voltou a sorrir de forma tranquila e bobinha.
Antonio: bom, acho que não posso mais chamar você de “criança”
Midas: é, mas eu vou querer uma revanche
Antônio: quando?
Midas: logo, eu tenho que treinar mais, pra entender ainda mais o que eu sou, e como eu deveria te vencer de novo
Antônio: de novo? Eu acho que você não entendeu o que houve na arena
Midas: não estou falando de uma derrota na arena.
Eu tinha uma pequena ideia do que ele queria dizer, mas eu ainda fiquei quieto, esperando ele terminar de falar.
Midas: na nossa primeira batalha, eu era tão patético que os meus feitiços sequer podiam te alcançar, era como se um elefante estivesse enfrentando uma formiga, tenho certeza que você mal tinha percebido que eu tava lá
Antonio: eu te percebi lá…mas [e, se fosse uma batalha numa floresta, talvez eu nem tivesse notado você ali
Midas: mas agora mudou, eu venci, eu não apenas fiz você me notar, mas também fiz você lutar a sério
Antônio: é, admito que você me deixou bem interessado em seu novo progresso, mas o café com leite acabou, na próxima vez, vou jogar tudo que tiver em cima de você
Midas: aquele não foi seu máximo?
Antônio: meu máximo? Querido, eu apenas fui cortes com você e segui o rumo da batalha, já que tava tão óbvio que você queria uma pancadaria sincera, se eu tivesse ido com tudo que eu tinha, você sequer ia conseguir me tocar.
O Midas ficou com os olhos arregalados, mas não de medo, mas sim de empolgação, e aquele olhar empolgado ascendia o próprio poder competitivo dentro de mim, eu estava em chamas tanto quanto ele.
Midas: na próxima vez, não terá vitórias metafóricas, eu te convidei aqui pra mostrar a você que eu não sou mais uma criança, e pelo visto, consegui o que queria, mas na próxima, vamos lutar como adultos
Antônio: e como um colega adulto, posso te garantir, que eu não terei piedade
Midas: não podia pedir menos ao famoso gato preto…até a próxima.
“Gato preto”? É assim que as pessoas estão me chamando? Que falta de criatividade. Mas apesar da decepção com o meu apelido, eu estava beeeeeeeeem feliz pelo garoto que eu dei uns cascudos alguns anos atrás se tornou um homem desses, e o orgulho que eu senti foi bem diferente do que eu pensei, era alegria, misturada com amor, misturada com o próprio orgulho, e misturada também com ansiedade, ansiedade pra ver as coisas incríveis que ele fará no futuro, será que foi isso que o mestre sentiu quando me treinou? Talvez eu deva visitá-lo de novo outro dia, hahahahaha.

