Eu já tinha ido a tantos lugares, e passado por tantos ambientes diferentes, que pensei que ninguém iria perceber quando eu só entrasse em casa, mas eu estava muito enganado, assim que eu entrei, eu ouvi a voz da minha mãe, ficando impressionado como ela conseguia ter tanta autoridade, mesmo depois de tanto tempo.
Mãe: Antônio, vem cá.
Droga, eu não gostava de quando minha mãe me chamava, na maioria das vezes ela só queria falar comigo, mas na maioria das vezes eu nunca sabia o que ela queria dizer, por que ela usava o mesmo tom severo sempre que me chamava.
Eu fui até a mesa de jantar, e vi que ela tinha separado um pouco de achocolatado com pão pra comer comigo, e como ainda tinha um tempo até eu voltar a trabalhar, eu me sentei e apenas comi de boas.
Antônio: oi mãe, o que foi? Teve algum problema?
Mãe: problema? Eu preciso de um problema pra querer falar com meu filho?
Antônio: touché, desculpa por isso, eu tenho andado tão ocupado que agente mal conversa direito
Mãe: pois é, mas eu queria saber como você tá indo com a Dandara, ela tá chateada por vocês não terem se encontrado tanto?
Antônio: muito pelo contrário, ela parece que tá tendo os próprios problemas, então ela tá aproveitando ainda mais o tempo que nós ficamos juntos
Mãe: bom saber, e o Brutus e o Davi? Como estão aqueles dois?
Antônio: bom, o Davi eu não tenho tanta certeza, não tenho passado tanto tempo com ele, mas o Brutus parece ótimo, além de que eu descobri bastante coisa sobre como ele conseguiu ficar escondido por tanto tempo
Mãe: que incrível…aí filho, o que você acha de sair um pouco comigo?
Antônio: pra onde?
Mãe: pra lugares calminhos, o jardim botânico da rainha, o grande museu de Alaric e o campo de golfe que eu acho que você quer ir.
Hum, golfe, um esporte que eu queria muito participar, mas depois de eu descobrir o quão caro era, eu decidi deixar essa conquista pra depois.
Antônio: mas não vai dar problema?
Mãe: não se preocupe querido, eu tenho minhas próprias economias
Antônio: hummm, nesse caso, eu queria saber, o que você tem feito desde que você se aposentou?
Mãe: booooom, eu nunca me aposentei de verdade, depois que eu me recuperei um pouco, graças ao seu irmão, eu decidi trabalhar como uma voluntária em orfanatos, e além das crianças gostarem muito de mim, eu também sou muito boa em jogar cuidadores incompetentes pra fora.
Eu queria falar muitas coisas naquele momento, mas o que mais se destacou em minha cabeça naquele momento era o fato de que a minha mãe falou de forma tão casual que ela “demitiu pessoas que maltratavam crianças” podia parecer simples, mas encontrar essas pessoas, reunir provas, e fazer as crianças machucadas (que na maioria das vezes estavam traumatizadas demais pra sequer falar) era algo absurdo demais pra qualquer um fazer.
Antônio: sem ofensas mãe, mas com o nível de conexões que você tem, eu sinto que você é uma espécie de chefona da máfia
Mãe: ah, por favor filho, eu não mexo com drogas nem apostas, eu só ajudo pessoas, e como retribuição elas apenas me contam quando algo interessante ou perigoso acontece, e quando se coloca os outros pais na equação, não existe quase nada que aconteça nesse reino que os pais não acabem sabendo
Antônio: quando eu virar pai, eu posso entrar nessa organização?
Mãe: farei uma recomendação, mas eu não posso garantir nada
Antônio: acredite mãe, só sua recomendação vai ser o bastante pro que eu quero
Mãe: espero que esteja certo.
E quando o papo morreu, uma curiosidade grande foi posta em mim, uma carregada por todas as minhas falhas e os meus erros, até que eu falei.
Antônio: mãe…como o meu pai era comigo?
Mãe: não se lembra de como ele te tratava?
Antônio: eu até lembro, mas está tudo distorcido pela raiva que eu tive dele por tanto tempo, então agora eu não tenho mais certeza
Mãe: o que você lembra?
Antônio: dele me levando pra vários lugares, me levando pra parques, me ajudando a brincar com as crianças, crianças essas que eu mal lembro os rostos agora, e…de me levando pra muitos parques e muitos lugares divertidos…só, eu lembro de nós tendo muitas “conversas de homem” mas eu não tenho nenhuma boa lembrança daquilo
Mãe: sobre o que vocês falaram?
Antônio: eu não lembro, tudo que eu lembro é o que a minha raiva resgatou pra eu conseguir sentir ainda mais raiva dele, e foi bastante coisa
Mãe: por exemplo?
Antônio: das vezes que ele me falou o quanto me amava, o quanto ele sempre me amou e como ele usou esse sentimento pra me manipular
Mãe: ele te manipulou com isso?
Antônio: bom, isso é o que a minha mente diz o que aconteceu, mas eu mesmo não tenho certeza, como falei, tudo distorcido pela raiva.
Eu quis falar mais, mas as palavras que eu queria dizer ficaram todas tortas, enroladas e erradas, até que elas se concentraram num movimento, eu segurei minhas duas mãos com a cabeça, como se tivesse tentando esmagar meu cérebro.
Antônio: não consigo confiar na minha própria cabeça, não consigo mais saber o que era real e o que não era…então, como o meu pai era?
Minha mãe ficou sem falar um tempinho, como se estivesse pensando a melhor coisa a falar pra mim na hora.
Mãe: filho, eu vou te falar o que eu sempre te falei, seu pai era um péssimo marido, um dos piores do tipo, ele não me respeitava, me traiu muitas vezes…e eu descobri recentemente que ele se casou e até teve um filho com uma das amantes dele…
E de novo, eu fiquei com raiva, e dessa vez ela ficou, mesmo assim, dilui a raiva, não por que eu queria perdoar meu pai, era por que eu pensei não haver sentido em sentir raiva, não mais. E olha só, consegue diluir tudo com mais facilidade do que eu imaginei, então vi minha mãe continuar falando.
Mãe: …mas eu não quero que você sinta raiva de seu pai, nem daquela mulher, afinal, a Criadora irá retribuir o que ele fez comigo, e por mais que me doa dizer isso, ele é um excelente pai, ele fez tudo que podia, pra você e pro Pedro, e apesar de tudo que o seu irmão passou, tenho certeza que ele apenas pensa em como ele poderia ser melhor que seu pai, e não totalmente diferente dele
Antônio: a parte de trair a esposa com certeza é algo que ele não vai copiar
Mãe: com certeza.
Ela ficou sem falar por alguns segundos, como se o que eu falei tivesse aberto alguma ferida emocional nela.
Mãe: ele sempre fez tudo que esteve no alcance dele pra vocês dois, os melhores livros, os melhores curandeiros, e um ritmo de estudo ótimo, ele não poupou esforços pra vocês conseguirem tudo o que ele não conseguiu na época dele
Antônio: é, eu sei.
Então eu abaixei minha cabeça, triste, pela forma como eu tratei ele por tanto tempo.
Mãe: está arrependido?
Antônio: não ironicamente, não
Mãe: por que?
Antônio: mesmo que eu tivesse jogado a raiva que eu senti do mundo em alguém inocente, foi o melhor caso, por que se não fosse o meu pai, algo ou alguém iria receber toda essa raiva no lugar dele…
E como eu tinha com a minha Psicomaga as vezes, eu parei de falar, mas a minha própria mãe estava de olhos arregalados também, porque nós dois sabíamos muito bem aonde eu estava indo.
Antônio: então foi melhor mesmo que o meu pai recebeu a raiva, por que nós dois sabíamos que ele aguentaria
Mãe: você brincou com fogo
Antônio: não, eu o testei, se ele me amava tanto quanto dizia, e garanto, ele sempre dava ênfase disso pra mim, então ele com certeza aguentaria aquela raiva…hmhmhmhm, hahahahaha, HAHAHAHAHA
Mãe: filho?
Antônio: AQUELA PALESTRA DE GIGANTES ESTAVA CERTA
Mãe: certa no que?
Antônio: O SER HUMANO É EGOÍSTA…EU FUI EGOISTA.
Era como eu falei, eu sabia que tinha jogado a minha raiva no meu pai daquela forma, mas eu nunca parei pra pensar como, bem no fundo, eu fiz aquilo consciente que ele aguentaria toda a minha raiva, e provavelmente por que eu queria ver tambem se ele realmente falou sério, todas as vezes que ele disse que me amava, se ele realmente me amava tanto ele iria conseguir me amar depois de eu descarregar todo esse ódio nele?...cara, eu me sentia uma pessoa horrível por que a resposta foi “sim” claro que ele parecia chateado de alguma forma mas tirando isso, ele não mudou nada, ele continuou me tratando do mesmo jeito como se tudo o que eu fiz não passasse de uma birra de criança, e de certa forma, era mesmo…
Antônio: eu fui egoísta…mas o ser humano é egoísta por natureza então eu apenas fui humano…então por que ainda dói tanto?
Mãe: beleza já chega, para com isso
Antônio: o que?
Mãe: para de se torturar com isso, o que passou passou, você entendeu o que você fez, e você não vai fazer de novo, o seu pai não parece ligar pra isso pela forma como você tá reagindo, então a única pessoa que parece se importar com isso é você, então para de pensar no passado e não pense em “compensar” o seu pai, apenas pense que…”já passou” isso mesmo, você fez uma besteiras você entendeu que errou e foi isso, agora você só precisa continuar em frente e não cometer o mesmo erro de novo fácil fácil.
Eu queria falar alguma coisa, qualquer coisa, mas a minha mãe falou tudo que eu precisava ouvir, sem me dar chance de falar qualquer coisa que contrariasse o que ela mesma falou, e sorrindo, satisfeito com a resposta que tive, falei.
Antônio: é…fácil fácil.

