Nossa, apenas, nossa, não sabia se estava perdendo a noção do tempo ou se eu estava lentamente só ficando maluco mesmo, mas eu fiquei bem impressionado quando eu cheguei no castelo Psicomantico, eu já tinha passado por todo tipo de lugar, mas aquele lugar em específico parecia tão…novo agora.
Quando me sentei novamente na sala de espera, foi interessante ver como eu não tava sozinho, muitos dos Singulares ali, Singulares que, em minha primeira ida ali, mal conseguiam ficar em pé juntos antes de uma grande dor ou um extremo tremor acontecer com eles, ficavam ali panados, sem nenhum de seus tiques ou problemas claramente visíveis, no bom sentido claro, eles não estavam escondendo eles os trataram, a ponto de não terem nenhuma dor, impulso ou magia rebelde pra esconder.
Era bem interessante que o tratamento ficou tão bom que agora eles precisavam dos colares de verdade pras pessoas entenderem que eles eram singulares.
Quando fui chamado, eu caminhem com a maior calma do mundo, enquanto caminhava pelo corredor, pensei como eu passei por um grande caminho até ali, a estrada estava bem longe de estar finalizada, e ao mesmo tempo, eu estava muito feliz aonde eu cheguei, e eu iria falar isso pra talvez, a pessoa que mais me ajudou a chegar nesse estado até agora.
Quando abri a porta, notei quem estava na minha frente, ela era uma Sapien, como eu, com uma pele bem escura, um cabelo liso, uma maquiagem leve, e um terno azul com paletó em cima com uma parte de vestido debaixo.
Em seu rosto, eu via a mesma calmaria, controle e compaixão que vi na primeira vez que passei por aquela porta, mas agora eu tinha a ideia perfeita do que estava sentindo, não sentindo mais muito e nem pouco, só o bastante.
Eu entrei na sala, me sentei no puff que eu me sentei desde a nossa primeira sessão, e deixei ela falar primeiro.
Kauane: olá Antonio, como você está?
Antonio: eu to ótimo na verdade…é engraçado, nós continuamos tendo seções toda a semana, mas algo em mim sente que essa seção é totalmente diferente das outras
Kauane: diferente como?
Antonio: bom, pra começar, eu sinto que finalmente sou um adulto de verdade, de forma que, eu sou responsável por mim, eu consigo ser responsável por mim mesmo, e principalmente, eu estou me preparando pra nao precisar de mais ninguém, e apenas conseguir viver sozinho, sem que ninguém precise me ajudar, vai ser difícil, mas estou preparado pros desafios que essa empreitada me deu
Kauane: mais alguma coisa?
Antonio: bom, eu meio que perdoei meu pai, além de que, eu entendi um pouco melhor por que eu estava com tanta raiva dele…a verdade é que o meu ataque de raiva foi dividido em três partes diferentes, primeiro, uma raiva que não era virada para ele, por que a raiva que eu descarreguei nele por tanto tempo, apesar de muitas terem uma justificativa, o que eu estava realmente com raiva, ódio e rancor, era a própria sociedade
Kauane: a sociedade?
Antônio: é, eu fiquei por muito tempo com pessoas dizendo que “eu só tava fazendo birra”, “eu tava fazendo aquilo para aparecer” ou que “eu só tava sendo malcriado”. E por muito tempo, eu acreditei nessas pessoas…e mesmo que eles tivessem me dado razão depois, e admitido que não, eu não estava fingindo nada daquilo, e que eu realmente tinha algo de diferente dos outros, eu fiquei feliz, muito feliz, mas eu também fiquei irado, no meu mais profundo interior, tinha um ódio que foi cultivado dentro de mim com muito cuidado e atenção, com uma simples mentalidade, “porque agora?”, “por que não antes?” “porque demoraram tanto pra descobrir o que eu tinha?”.
A Kauane queria com certeza falar alguma coisa, mas ela viu que eu não tinha terminado de falar e que eu não queria ser interrompido.
Antônio: mas o ódio se mascarou, ele não se mostrou logo de primeira, bem pelo contrário na verdade, ele se esgueirou no ponto mais profundo de mim mesmo, até encontrar um alvo certo, então, meu pai apareceu. E…quando eu tentei dizer pra ele, o que eu realmente era, ele negou, e esse foi o primeiro motivo do por que eu descarreguei todo o ódio que eu acumulei do mundo nele, me convenci que ele era o motivo por eu passar por tanta por tanto tempo apenas reprimindo e comprimindo uma parte tão importante de mim nele, mas não foi apenas isso…
Eu parei de falar, apenas por um momento, para respirar, e ver se a Kauane iria me interromper algum momento, e como ela não fez isso, me senti no direito simples de continuar.
Antônio: mas o segundo motivo, foi algo muito mais importante do que a raiva em si…que era…que eu queria testá-lo, testá-lo se ele me amava de verdade
Kauane: como assim?
António: desde que eu me lembro por gente, ele sempre me falou como me amava, o quanto ele sempre me amou desde o primeiro momento em que nós nos vimos…e talvez, apenas talvez, de forma inconsciente, eu despejei toda aquela raiva nele, por que eu queria acreditar que ele aguentaria, e que no fim, agente conseguiria se entender depois, por que no fundo, eu também sabia que ele era a única pessoa capaz de aguentar todo esse ódio dentro de mim.
Hummmm, que interessante, eu tinha acabado de pensar aquilo, eu sempre me impressionava com as coisas que conseguia aprender falando o que eu sentia e pensava em voz alta.
Kauane: e você deixou de odiar seu pai agora?
Antonio: sim, eu parei…o que eu to aliviado, por que minha familia sempre dizia o quanto eu era parecido com ele, mas o comentario mais comum que eu ouvia era “ele é o seu pai, nao pode ficar com raiva dele pra sempre”, eles falavam isso como se eu não soubesse, é claro que eu sabia que não dava pra ter raiva do meu pai pra sempre, pra sempe é muito tempo, mas ao mesmo tempo, eu não queria apenas fingir que a raiva não existia, depois de todos os sentimentos que eu reprimi por tanto tempo, não parecia justo reprimir a raiva da “traição” que eu ganhei do mundo, sabe…eu queria permitir a mi mesmo sentir essa raiva, eu não sabia quanto tempo ela iria durar, mas não importa o que eu causasse, eu não esava sendo impulsivo…eu estava despejando toda essa raiva no meu pai, sabendo que eu poderia me machucar, mas graças a isso, minha conciencia ta mais leve, o odio se foi, e pelo jeito, eu tava certo, meu pai aguentou sem problemas cada resquicio de odio que eu joguei nele, ainda me da um aperto no coração de vez em quando, quando paro pra pensar no que fiz ele passar, mas apesar de doer, eu abraço esse aperto no coraçao e tento lidar com ele com a consequencia das minhas proprias ações, afinal, isso que significa ser um adulto.
Nossa, falar com ela sempre parecia tirar um peso enorme em meu peito, eu me sentia mais leve, e a culpa que eu tentei tanto lidar sozinho se suavizou a ponto de se tornar um simples incômodo, até que a Kauane falou.
Kauane: Você tem alguma ideia de onde veio essa dor?
Antonio: absoluta, vou te dar um simples exemplo, enquanto eu andava até a escola, quando eu era criança, eu estava numa sala cheia de crianças barulhentas, eu gritava, dizendo que estava incomodo de mais de mil maneiras, mas sempre que eu reclamava ou dizia que estava incomodado, as pessoas nunca levavam a sério o que eu sentia. E sempre que isso acontecia, um pouco de raiva era colocado dentro do meu coração, apenas esperando pra se libertar. E isso é apenas em um dos exemplos, agora imagina isso em todas as situações do dia a dia, da mais banal até a mais séria do dia, em todos os dias do ano, por mais de 20 anos…Na verdade, quando se coloca tudo em perspectiva, a raiva acabou até que bem rápido, não é?
Kauane: é difícil dizer que foi rápido ou lento, afinal,cada um sente de forma diferente, se eu passasse pelo mesmo que você, é bem provável que eu demorasse muito para perdoá-lo
Antonio: hum, interessante, então, por todas as nossas sessões, o que você acha? pela minha personalidade e pelo que você sabe de mim, você acha que a minha raiva se dissipou muito rápido?
A Kauane então pensou por alguns segundos, não levando muito tempo para ela falar.
Kauane: na verdade, não, porque pelo que eu vi em você depois de tantas seções, é que você é um bom menino, de certa forma, não estou tão impressionada que você conseguiu esgotar mais de 20 anos de falta de cuidado em menos de 6, você nunca foi alguém bom em guardar rancor, e falo isso no bom sentido.
“Você é um bom menino”, era engraçado, eu costumava falar isso pra mim mesmo, pra me manter na linha e não deixar que minhas maneirisses dos meus super sentidos vazarem pra fora, então, mais pensando alto mesmo, falei.
Antônio: tem vezes que falar pra você mesmo o que você quer ouvir, não basta
Kauane: o que?
Antonio: só tô pensando alto aqui, tem vezes que, você falar pra você mesmo algo legal como, “tá tudo bem” não é o suficiente, você precisa que outra pessoa diga isso pra você, eu nunca entendi isso, mas até frases simples como, “tá tudo bem” parecem ter um sentido diferente quando são ditas por alguém que não é você mesmo pra tentar se acalmar.
A Kauane ouviu aquilo com muita calma, pensou mais um pouco, depois falou.
Kauane: as vezes não acreditamos no que nós mesmos falamos, por que em nossas mentes, agente já entende de forma perfeita o que nós queremos conseguir falando isso pra nós mesmos, mas quando outra pessoa nos fala isso, nós não podemos ler a mente dela, então, por mais doido que pareça, quando outra pessoa nos fala o mesmo que dizemos em nossas mentes parece mais real pelo fato de não termos certeza absoluta do que ela está falando ou não, isso faz sentido pra você?
E aquela explicação me fez ver tudo com outros olhos, me fez pensar como muitas pessoas que eu já encontrei passaram por coisas parecidas comigo e conversar comigo apenas fizeram elas entenderem bem mais que o que elas estavam sentindo e\ou pensando não era idiotice, e também me fez pensar de quantas pessoas que eu encontrei que pensaram estar sentindo algo errado, e apenas abraçaram por completo o sentimento depois de terem uma conversa sincera comigo ou com mais alguem especial, mas o que eu mais me lembrei mesmo foi como devem ter sido muitas pessoas que não perceberam sentimentos tão importantes até eu conversar com elas.
Era interessante pensar como pessoas viviam sem entender direito o que as moviam, casados que não entendiam direito o próprio amor, jovens que não entendiam direito a própria diversão, cavaleiros que não entendiam o próprio desejo por violência, e quando eu mostrava pra eles o que eles próprios sentiam, a transformação era assustadora, era com libertar eles de apenas viver no automático e fazê-los encarnar por completo os próprios sentimentos, e isso me deixava extasiado, porque querendo ou não, eu era um dos motivos desses sentimentos verem a luz do dia, e eu sempre tinha um orgulho absurdo disso, um orgulho que ninguém podia tirar de mim de forma fácil.
Antônio: é engraçado como muitas pessoas conseguem viver sem saber os próprios sentimentos por muito tempo, parece estranho demais pensar que existem tantas
Kauane: você diz sobre, pessoas que ignoram suas dores como o Davi e a Dandara?
Antônio: não, me refiro a pessoas…na verdade, nem sei se eu conheço pessoas assim, mas estou falando de pessoas que vivem sem entender as próprias emoções positivas que fazem elas levantarem da própria cama, muitos ficam felizes, empáticos, sentem o amor, e muitas emoções positivas que eu sequer preciso mencionar. Mas ao mesmo tempo, eles não mergulham nelas, eles preferem focar a si mesmos em coisas bem mais “importantes” do que simplesmente sentir por completo as próprias emoções, é engraçado como, na teoria, não tem nada de errado nisso, ao mesmo tempo que tem uma diferença gritante entre alguém que consegue sentir por completo seus sentimentos, e quem consegue sentir só superficialmente. Uma diferença que impede um parceiro de trair o outro, ou de alguem abandonar um trabalho que ele realmente ama, ou de alguém parar de comer uma comida que gosta muito. Cada um desses casos as pessoas tinham sentimentos bem fortes dentro de si mesmos, sentimentos que fizeram eles chegarem ao ponto onde eles precisavam decidir se ficavam lá ou se abandonavam o lugar, a diferença é que eles não se aprofundaram nesses sentimentos o suficiente para realmente levarem os laços que conseguiram a sério.
Não esperava ter uma fala tão séria assim, mas não parei, eu tomei fôlego e continuei.
Antonio: e sabe algo engraçado? 90% das vezes, essas pessoas sequer são mal intencionadas, elas apenas não sabiam lidar com as próprias emoções direito, e acabam fazendo decisões ruins e idiotas, hmhmhm, esse tipo de dedução te faz pensar onde a linha de maldade e bondade começa
Kauane: acho que sua explicação se encaixa perfeitamente no que chamam de “área cinzenta”, e realmente é algo interessante de se pensar, mas e você? voce sente bem os próprios sentimentos?
Antonio: seria muito pretensioso dizer que eu sinto completamente todos os meus sentimentos, mas hoje eu tento dar o máximo de voz a eles o que eu consigo, e isso se encaixa no que eu falei antes, sobre ter alguém pra te dizer algo que você já sabe, tem muita gente por aí, que só percebe o quanto seu amor é forte, ou o quanto ela está chateada, ou o quanto ela está sentindo dor depois de ter esse sentimento e testado por outra pessoa
Kauane: como o que nós estamos fazendo agora?
Aquela pergunta me fez ficar boquiaberto, e com os olhos arregalados, mas eu consegui manter a calma, eu respirei fundo, fechei os olhos e pensei no que a Kauane falou, até que dei um sorriso leve, balancei a cabeça em concordância e falei.
Antônio: é, que nem o que estamos fazendo aqui agora, Jakeline realmente era alguém especial por ter sido a primeira Psicomante da historia, me fas pensar em perspectiva em que segredos ela descobriu enquanto cuidava de tantas crianças.
Kauane: a boa Jakeline, ainda me lembro do meu tempo de estudo, levei muito tempo pra levar a serio toda a história contada nas crônicas dela
Antonio: ela nem parece ser real né, com todas as coisas absurdas que ela fez, mas eu acho que todas as pessoas que mudam o mundo são assim.
Eu tava gostando muito do papo que eu tava tendo com a Kauane dessa vez, mas logo, eu vi o som que se tornou meu motivo de pesadelos a muito tempo, o som do timer.
Kauane: eita, parece que nosso tempo acabou, tem algo a falar a mais?
Antônio: nao, to de boa
Kauane: nesse caso, tchau Antonio, eu fiquei muito feliz com a nossa conversa
Antonio: eu ainda tenho muitas coisas pra falar pra você, mas acho que posso deixar pra semana que vem
Kauane: irei esperar ansiosa pra isso.
No fim, eu não contei pra Kauane o que eu passei na semana que vem, fiquei muito ocupado aprontando minha próxima viagem, e se eu, de alguma forma, consegui ir até a sala de consulta dela, tenho certeza que eu não falei nada importante de verdade pra ela.

