Não conseguindo silenciar esses pensamentos, eu contatei a ruiva várias vezes, fui a casa dela, e até conheci as amigas dela em um encontro, mas de novo, eu me sentia muitas vezes mais como um professor do que um namorado naqueles momentos, ela me perguntava várias coisas, eu perguntava coisas a ela, agente compartilhava respostas…na verdade, agora que eu pensava nisso, seria melhor comparar aquilo como dois cientistas conversando suas teorias, e considerando tudo que eu descobri por causa dela, e vice versa, eu queria muito contar pra ela o que eu descobri sobre meu centro, mas não fiz isso, ela própria parecia estar dentro de algo tão incrível em sua grande corrente de pensamentos, que eu não queria contaminar isso com nada.
Mesmo que esses pensamentos me impedissem de falar muitas coisas pra ela, eu estava muito feliz pela garota, eu tinha avisado pra ela que ela me alcançaria dando apenas um pouco de tempo pra ela florescer, e eu sentia que tinha a obrigação de ajudá-la nesse despertar, apenas ajudar, porque eu não queria interferir na formação pessoal dela, pelo menos não muito.
No fim disso tudo, acabei não tendo muito tempo só eu e ela, e no meio disso tudo, pensei que aquilo seria um momento muito bom pra eu me aproximar ainda mais do meu pai, eu não sabia direito como chamá-lo, então eu fui o mais sincero possível, dizendo pra ele que eu só queria conversar, e ele acabou me chamando pra dar uma volta na carruagem dele, ja tinham séculos que eu não subia naquela carruagem, e pensando naquilo, eu fiquei mais empolgado em subir nela de novo.
Pra me encontrar com meu pai, eu flutuei, flutuar usava muito mais magia que apenas voar com o Zorro, mas sabendo aonde eu iria, era melhor eu sacrificar um pouco de magia. E segundos depois, encontrei ele, ele não estava muito longe da minha casa, só o suficiente pra não ter um problema pra sair com a carruagem.
Aquele modelo de carruagem era bem diferente, tinha um vidro poderosíssimo na parte de cima, parecido com janelas, e o coveiro, que devia estar fora da carruagem, estava protegido com uma grande quantidade de portas e de janelas também, conseguindo ver perfeitamente onde ir.
Quando vi aquela carruagem, e vi meu pai encostado lá, me esperando, então me aproximei e dei um abraço bem forte nele
Pai: senti saudade
António: agente se viu semana passada
Pai: ainda assim, já tava sentindo saudade.
O calor do abraço dele mostrava que ele não tava mentindo, sério, ver meu pai sorrindo daquele jeito ainda era surreal pra mim, cada vez que eu o via, notava que minha magia tinha distorcido o rosto dele mais do que eu pensei.
E depois de falar com meu pai, eu decidi falar com as donzelas mais lindas que eu já conheci no mundo. Me aproximei do curral, e vi duas éguas presas nele, apesar de ter se passado tanto tempo, quando sentiram meu cheiro, elas me reconheceram, mesmo depois de eu ter ficado tão diferente, eu fiz carinho nele e fiz uma grande animação.
Antonio: oi garotas, e aí, o papai tá cuidando bem de vocês? Podem ser sinceras com o irmãozão, Haha.
Uma égua preta como a noite, e outra amarela como o sol, elas eram opostos completos, e ainda tinham a crina, o pelo normal e o pelo das caudas tão bem feito que elas estavam brilhando pela beleza, muito nobres iriam vender casas inteiras pra conseguir uma delas, e meu pai tinha duas, cara, como eu senti saudade de alisar o pelo delas assim, isso me fazia voltar a época de criança, quando eu precisava que alguém me segurasse pra eu conseguir acariciar elas, como o tempo voa.
Antonio: pronto, boas garotas
Pai: elas estavam com saudade de você também, então, onde quer ir?
Antonio: bom, eu tava pensando na gente sair e só andar na carruagem, como nos velhos tempos
Pai: por mim tudo bem.
E como antigamente, eu entrei na carruagem do meu pai e ele puxou as rédeas para as garotas correrem. Nós passamos um bom tempo apenas observando a imagem, eu gostava muito de andar de carruagem e apenas ficar vendo a rua passar desse jeito, tinha algo tão relaxante nisso que era impossível de eu expressar em palavras, simples ou complexas. E no meio desse cenário onde eu estava mais tranquilo do que nunca, eu pensei em falar qualquer coisa pro meu pai, e depois de pensar bastante, falei pra ele.
António: sei que você já deve saber, mas, eu passei na escola, e agora to trabalhando como um tecnomante
Pai: serio filho? E o que você faz?
Antonio: a maioria do tempo eu só concerto golens quebrados ou com defeito, e em casos bem especiais eu construo golens por encomenda, mas como eu sou novo no mercado e não sou aprendiz de ninguém grande ainda, esses casos são raros, esse ano mesmo, eu só recebi um pedido assim
Pai: mas você vai tentar entrar num lugar grande, né?
Antonio: sim, mas primeiro quero aproveitar minha liberdade mais um tempo, sei que você sempre disse pra eu não me conformar, mas eu sinto que eu mereço poder comemorar um pouco antes de entrar em algo perto de uma escola, mas que não é uma escola
Pai: entendo o que você quer dizer.
E depois, silêncio de novo, um silêncio que durou apenas 10 minutos antes do meu pai perguntar algo que me pegou de guarda baixa.
Pai: então, pode me mostrar seu cajado?
Demorei pra responder, por que não pensava que ele se importasse com essas coisas.
Antonio: eu posso, mas vamos ter que parar a carruagem.
E segundos depois de eu falar isso, o meu pai parou a carruagem em um lugar seguro e olhou pra mim. Eu não sabia por que, mas eu estava com uma vergonha absurda de mostrar meu cajado pra ele, algo estranho, porque tinha vezes que eu usava de bengala enquanto andava na rua, pra todo mundo ver, mas aqui, na carruagem, e mostrando pra mais ninguém além dele, eu me sentia absurdamente íntimo, uma intimidade que era familiar eu sentir por ele, e que eu ainda estava tentando sentir aquilo sem problemas com ele de novo, mas mesmo sem raiva, partes de mim ainda tinham medo, medo de mostrar algo como aquilo pra ele de novo, mas acabei mostrando de qualquer jeito.
Meu cajado estava longe de ser chamativo, na verdade, ele tinha a aparência como se várias raízes tivessem se unido para criá-lo, criando um cajado a partir disso. Ele olhou o cajado por muito tempo, como se tentasse entender o verdadeiro valor dele, mas apesar de ter muito carinho pela peça, ele não conseguiu compreender totalmente, enquanto continuava o olhando.
Pai: eu ouvi dizer que cada cajado é único, pois em sua forma final, ele representa um traço absurdamente poderoso do mago que a empunha, o que o seu significa?
Antônio: eu acho que as raízes simbolizam as raízes da árvore genealógica. Não sei quando comecei a fazer isso, mas em algum ponto da minha vida, eu comecei a ter uma noção bem grande do quanto eu devo agradecer a muitas pessoas pelo que eu já consegui na vida, você já deve ter percebido, mas, eu tenho muito orgulho de tudo que a nossa espécie conquistou, não apenas nossa família, mas nossa espécie inteira em geral, e cada feitiço, cada batalha e cada decisão que eu tomo é com isso em mente, “honrar o legado que todos os nossos ancestrais me deixaram”. Esse é o traço mais poderoso que eu tenho quando eu usei minha varinha por todo o meu tempo na escola, por isso ela ficou assim. Eu me formei com grandes honras, e agora eu tenho dinheiro o bastante para ir pra onde eu quero, quando eu quero e entro e saio do território quando eu quiser.
Meu pai estava sorrindo, um sorriso com os olhos relaxados, um rosto que comecei a interpretar como orgulho, e quando pensei nisso, uma insegurança poderosa bateu, a insegurança de que, depois de tudo que eu fiz, ele me odiasse, todos esses sentimentos me fizeram pedir uma pergunta, uma pergunta que eu já sabia a resposta, mas pelo desespero que eu estava na voz, sentia que era a minha insegurança falando.
Antônio: você ta orgulhoso de mim?
Então, algo pareceu acertar meu pai como um soco na cara, o sorriso de orgulho desapareceu, eu senti meus sentimentos distorcendo o que eu estava vendo, mas eu respirei fundo, dei uma piscada bem longa, depois olhei meu pai de novo, e ele estava com um olhar assustado, mas então ele fez carinho em minha cabeça enquanto falava.
Pai: eu sempre tive orgulho de você…desde o primeiro instante em que te vi eu tive orgulho de você…eu peguei tão pesado com você, eu te levei a tantos psicomagos, porque eu queria te dar o melhor que eu conseguia…eu não vou pedir desculpas pela forma como eu te tratei, por que eu sempre tentei o meu melhor.
Uma raiva estranha estava dentro de mim, era a mesma raiva pequena demais pra se manifestar, de forma sentimental, eu não conseguia sentir raiva dele, e de forma lógica, eu não conseguia também, desde que eu percebi como minha raiva tinha distorcido minhas memórias, eu não sabia mais dizer o que ele fez e o que ele não fez comigo…e sempre que eu pensava nisso, a maioria dos problemas que eu e ele passamos, eram mais ligados a minha Singularidade…porque eles apenas não sabiam o que eu tinha, e o que eles podiam fazer sobre isso? Nada. Não sabia quem fez o primeiro movimento, mas nós dois estávamos em um abraço forte em pouco tempo.
Antonio: e eu sempre tentei te orgulhar, tudo que eu fiz foi para te orgulhar, e foi esse desejo que fez “aquilo” acontecer
Pai: sério? Se o que eu fiz, foi o suficiente para “aquilo” acontecer, então eu peço desculpas.
Não precisávamos dizer mais nada, apesar de ter só sido uma vez, era difícil esquecer um surto psicomantico capaz de quebrar as defesas da cidade.
Pai: quando eu fecho os olhos, eu ainda ouço os gritos, vejo a lava fervente e sinto o desespero, pensando que você tinha se destruído em meio ao seu surto. Eu fiquei impressionado que você não foi levado para a casa de reabilitação depois daquilo
Antonio: hehe, eu consegui escapar da casa de reabilitação graças ao Pedro
Pai: o Pedro? ele me falou que tinha te encontrado, mas ele não me deu detalhes do que aconteceu.
Então eu desfiz o abraço junto do meu pai, eu estava bem alegre, feliz, e estava mais disposto a contar várias coisas pra ele, era interessante, aquela história era algo que eu tinha escondido até da minha Psicomaga, eu estava pensando em contar isso pra Dandara primeiro, mas ali, naquela carruagem, junto a pessoa que estava voltando a ser a pessoa que eu mais admirei no mundo inteiro, todo meu corpo, do otimismo ao pessimismo, diziam que eu podia contar isso pra ele, e pra fazer meus dois lados mentais concordarem, era porque aquele era o momento.
Antonio: bom, isso é também o motivo de eu gostar tanto do escuro, depois de eu ter destruído o lugar e esgotado todo o meu combustível emocional, eu estava vazio e esgotado de várias maneiras diferentes, e eu tinha me enfiado dentro de um baú de frio (o equivalente a uma geladeira), e fiquei lá por oras, pensei que poderia ficar lá o tempo que quisesse, mas o Pedro me encontrou em 20 minutos.
Vi meu pai ficar levemente impressionado, era normal, pelo que ele lembrava, demorou 3 horas para o Pedro me achar no registro.
Antônio: ele viu que eu estava mal, então ao invés de avisar a todos onde eu tava, ele deixou eu ficar sozinho por um tempo, fechando a geladeira de novo e me deixando ali por quase 40 minutos. (sorrindo) e quando eu tava muito mais calmo, ele perguntou se podia entrar na geladeira comigo, ele não pediu pra eu explicar o que aconteceu, ele só ficou ali comigo, no escuro, onde eu não podia ser o rosto dele, e ele não podia ver o meu.
E quando me lembrei daquele momento, meu coração apertou, lembrar aquilo sempre mexia alguma coisa em meu peito, mas eu respirei, fundo, pensando que como aquele momento me mostrou que entre eu e ele, o Pedro tinha muito mais mérito pra ser o patriarca que eu.
Antônio: no escuro, eu chorei, chorei de uma forma que eu não chorava há muito tempo, e eu falei pra ele tudo que eu guardei por tanto tempo, e graças a deus, mesmo com minha magia recuperada, eu não criei uma destruição imensa, eu nem me importava com mais nada, eu apenas falei de modo desenfreado para o Pedro tudo, as minhas dores, as minhas manias, as minhas dificuldades, eu senti como tivesse contado minha vida inteira pra ele…
O rosto que o meu pai fez quando eu falei isso era estranho, era culpa, misturada com inveja, mas inveja de que?
Antônio: eu não vi o rosto que ele fez quando eu terminei a historia, mas não precisei ver, por que quando eu terminei a história, e voltei a chorar, ele me abraçou de uma forma tão gentil que eu quase dormi nos braços dele, mas eu fui despertado na hora também quando ele falou, “fica calmo Antonio, eu to aqui”.
Uma epifania veio a mim quando eu lembrei daquela cena, mas queria terminar aquela história pro meu pai.
Antônio: sempre que eu to no escuro, eu me lembro daquele momento, e eu me sinto como a pessoa mais forte do mundo, por que não importa o que acontecesse, o Pedro sempre estaria ao meu lado.
Falei aquilo enquanto coloquei minha mão no peito, eu sentia como se uma flor tivesse desabrochado nele, e quando senti isso, senti algo na minha garganta, e logo cuspi algo fora, vendo que uma flor tinha crescido na minha garganta.
Antonio: aaaah, esses efeitos da magia com sentimentos intensos sempre me deixam estranho.
Então eu olhei meu pai de novo, era engraçado falar aquilo, mas eu tinha esquecido momentaneamente que ele estava ali. Pensei que ele iria falar alguma coisa, eu via que ele tava tentando pensar em algo pra dizer, mas era nítido que ele não conseguia pensar em nada, não tinha nada que ele pudesse dizer que conseguia rivalizar com o que eu falei, até que ele apenas falou.
O que me deixou mais decepcionado do que eu pensei, não estava esperando que ele fizesse um grande discurso sobre o que eu falei, mas…silêncio puro? ele não tinha nada pra me dizer depois de eu ter falado aquilo pra ele? Enquanto pensava nisso, senti minha raiva se manifestando bem mais, e dessa vez ela se encheu por completo, eu não estava nem pensando em usá-la, mas era interessante pra mim como esse momento “íntimo” que nós tivemos, finalmente fizeram minha raia se manifestar direito.
Pai: você quer que eu te leve pra casa?
Antônio: Sim.
“PATÉTICO”, pensei, mas não disse, eu tinha acabado de me reconciliar com meu pai, e não queria desfazer tudo agora, mas no meio da viagem, percebi que algo tinha se misturado com a minha raiva…tristeza…aaaaaaah, eu nao tava com raiva, eu tava decepcionado, haha, que engraçado, normalmente eram os pais que sentiam isso, não os filhos.
Aquela pergunta foi a última coisa que ele falou pelo resto da viagem, e minha decepção deixou apenas o clima desconfortável pelo resto do caminho, e apesar de tudo, ficou bem claro pra todo mundo ali que, mesmo que nós tivéssemos feito as pazes, a gente não podia mais fazer as coisas como antes, ou “que nem nos velhos tempos”, os tempos mudaram, e eu apenas falando, e recebendo silêncio como resposta não bastava mais pra mim.
Eu queria falar aquilo para a Dandara, desejando conseguir uma reação de verdade dela, não ligando mais se eu acabasse a contaminando de alguma forma com isso.
Tentando deixar o clima menos desconfortável no meio da viagem, tentei pensar em alguma coisa, qualquer coisa, além da decepção profunda que parecia aumentar cada vez mais a cada segundo, então eu comecei a pensar na grande corrida de triceratops que consegui me inscrever, e fiquei pesando naquilo e fntasiando na felicidade que eu ia ter fazendo aquilo me fez ficar mais tranquilo, pelo menos até chegar em casa, então quando desci da carruagem, eu pai falou comigo de novo.
Pai: ate a proxima filho
Antônio: é, até a próxima, pai.

