Antes de eu me formar, eu tinha uma pequena rotina de me exercitar um pouco logo de manhã, pra eu pelo menos não ficar gordo, e ter um ataque no coração por ser preguiçoso demais. Sei que parece exagero, mas antes de aprender a me dar reforços positivos, eu me motivei muito através da pressão e pessimismo pra fazer quase tudo na minha rotina.
Hoje em dia, eu já estava usando pesos em uma academia de verdade, e ultimamente, chamei o meu irmão pra fazer o treino comigo, algo que ele ficou bem feliz em me ajudar, eu até pensei em pedir pro meu pai vir também, mas sentia que ainda era muito cedo pra mim e pra ele tentarmos algo como aquilo.
A academia tinha poucos clientes e que precisava saber os locais certos pra encontrar, algo que fazia o lugar ser bem seguro e discreto ao mesmo tempo. Eu estava apenas com uma bermuda e uma regata pra treinar, e por mais que eu não tivesse que sentir vergonha, eu não gostava de exibir meu corpo por aí. Principalmente por olhares como o do meu irmão estava me dando agora, não irei descrever meu corpo pra você, apenas tentem imaginar o corpo de um garoto que decidiu se exercitar um pouquinho todo dia, e que tinha espasmos sempre que tentava quebrar a própria rotina. Eu fui esse garoto por 18 anos, estava menos intenso agora, mas mantive o ritmo quase igual, e enquanto colocava as luvas pros pesos, o meu irmão comentou.
Pedro: se alguém te ver sem camisa, vai duvidar que você é um mago
Antonio: pffhahaha, as vezes eu fico pensando se eu conseguiria usar meu cajado como um porrete nas piores condições
Pedro: já vi você usando ele como uma espada e como uma lança, usar ele como um porrete sem magia seria a coisa menos absurda que já vi você fazer.
E nesse ponto de piadinhas, nós começamos a malhar, uma malhação sem aura e sem mana, apenas nossos corpos de forma simples e sem trapaças, era duro, mas eu nunca usei minha própria magia como uma bengala, então mesmo sendo complicado, não era impossível pra mim.
E pra variar, meu irmão pegou muito mais peso que eu, mas em questão de repetições, agente fazia iguais. Eu conseguia fazer 100 repetições de boas, enquanto o meu irmão parecia ter bem mais problemas que eu, ele suava, respirava fundo e sentia os músculos dele saltando também.
Mas nós dois tínhamos a mesma estratégia, nos ficávamos apenas nos números, a dor nos músculos, a cãibra muscular, a dor no abdômen quando respiravamos errado, tínhamos N motivos para desistir, mas no fim, os números eram iguais, não precisávamos interpretar se nossa dor estava nos ajudando ou não, nem precisávamos entender um quebra cabeça super complicado para conseguir a grande força. Nem precisávamos comer uma grande fruta rara pra conseguirmos um poder instantâneo (os shakes de proteína não contavam). Não, eram apenas números, o meu maior sonho, tudo que eu precisava era aguentar a dor dos 60 quilos, e ir do 1 ate o 100, e quando o 1 ao 100 parasse de doer, eu colocava mais 10 quilos e começava tudo de novo.
O meu irmão tinha uma motivação bem diferente, diferente de mim, ele conseguia guardar muito bem toda a raiva e frustração que um patriarca de família grande tem de forma constante, e ele guardava tudo pra jogar nos equipamentos, ele me falou como ele sempre se imaginava esganando os pescoços das pessoas que o irritavam quando fazia aqueles exercícios, e vendo como ele ficava sempre 60 quilos na minha frente, dava pra ver que esse método era absurdamente eficaz.
Quando terminamos nosso treinamento, limpamos nosso suor, e tomando água, agente apenas conversava como sempre fazíamos fora do treino.
Antonio: (suspiro) que saudade das aulas de cavalgadas
Pedro: por que você não tenta começar elas de novo? Tenho certeza que você seria um ótimo professor
Antonio: haha, é, quem sabe, mas não agora, não sei se voce notou irmão, mas eu tenho andado muito ocupado ultimamente
Pedro: se eu não notei? Eu quase não te vejo parado em casa, se você tá mais de uma hora em casa já é muita coisa, onde você tá indo com tanta vontade assim?
Antonio: pros lugares que eu sempre falei que queria ir quando era criança, por falar nisso, eu irei passar bastante tempo no reino dos gigantes, mais principalmente em um lugar que eu sempre achei muito maneiro e muito assustador ao mesmo tempo, mas eu posso acabar me machucando, então não fica impressionado se eu voltar enfaixado pra casa
Pedro: pode me dizer o que é?
Antonio: vou fazer aulas de surfe
Pedro: surfe é perigoso mesmo, mas até pra você vai ser difícil?
Antonio: o tipo que eu vou fazer, sim
Pedro: tá, vou tentar não ficar assustado.
E sorrindo, eu só tomei um pouco de suco de abacaxi, e mais uma vez eu senti o calor em meus músculos enquanto levava o copo até a minha boca, é, precisava ficar algum tempo parado ainda, mas como se não pudesse entender completamente isso, meu irmão me perguntou.
Pedro: sei que você não é um mago 24 horas por dia, mas eu nunca achei que você gostasse tanto de se exercitar
Antonio: eu gosto de me exercitar, as crianças que eu tentava brincar na época era que eram doidas
Pedro: haha, pior que eu não posso negar isso, lembra do dia que uma daquelas crianças te jogou num arbusto de espinhos?
Antonio: eu lembro de você quebrando o nariz dela
Pedro: eu devia ter quebrado mais
Antonio: concordo.
Silêncio de novo, mas então o Pedro perguntou.
Pedro: quem foi sua inspiraçao?
Antônio: foi o Kael
Pedro: o Kael do conto dos Singulares?
Antonio: o próprio, ele tinha uma visão muito interessante do corpo humano, que cada ser humano possui um grande potencial que era apenas alcançado com muito esforço, e que o maior pecado que um homem poderia cometer, é nunca saber o verdadeiro potencial de si mesmo.
Era uma cota simples e ampla, mas que tinha sido transmitida em uma coletânea de contos de motivações e de exercícios em específico. Não era um dos textos mais complexos do Kael, mas talvez fosse por isso que eu gostava tanto dele.
Pedro: é...é uma forma muito interessante de ver o corpo humano
Antonio: alem de eu descobrir, atraves de textos antigos, que em grandes palestras antigas, muitos filo-arcanos tiravam suas camisas e exibiam seus musculos para proteger sua tese, e eu achei isso tão esquisito, maneiro e imprecionante ao mesmo tempo, que muitas vezes eu me exercito pensando se um dia eu estarei em uma dessas palestras, defendendo uma das minas teses dessa forma.
Pedro: serio? que legal.
Levou alguns minutos pro Pedro entender o que eu falei, mas quando ele entendeu, ele ficou paralizado, e depois me olhou, pensando que eu tivesse contado uma piada, mas quando ele viu minha cara tranquila, ele teve mais certeza que eu não estava brincando.
Pedro: pera ai, isso é sério?
Antônio: quando tiver tempo, eu te mostro esses textos depois.
O Pedro não acreditou no que eu falei, porque aquilo era absurdo demais, até mesmo quando consegui umas cópias do teto antigo e mostrei para ele, o garoto não acreditou.
Os textos eram absurdamente detalhados, alguns tinham até imagens mostrando alguns filo-arcanos fazendo poses, mas o meu irmão ainda estava receoso, aquele era o tipo de coisa que "eu só acredito vendo, e mesmo vendo eu não acredito". E apesar do quão chato foi mostrar tudo aquilo pro meu irmão, achei engraçado a irredutibilidade dele, até que em um desses momentos comigo mostrando pra ele o que eu queria, ele falou.
Pedro: se isso tiver qualquer indício de ser verdade, eu consigo entender por que você quis tanto ficar forte assim
Antonio: fico bom que você pelo menos entendeu isso.
Então ele olhou pra baixo, vendo os robes que eu usava e que cobriam quase todo meu corpo, (com alguns feitiços de frio por baixo pra conseguir me manter fresco), não conseguindo entender por que eu fazia isso.
Pedro: sei que deve ter seus motivos, mas é uma pena que o mundo não possa ver seus resultados
Antonio: as pessoas certas vão saber dos resultados, acredite em mim maninho.
Eu falei aquilo, não me referindo a ninguém em específico, eu não gostava muito de mostrar meu corpo por aí, e graças as roupas de feitiços de frio, senti menos ainda a necessidade de usar menos roupas. Mas mesmo assim, se eu chegasse a um ponto de mostrar meu corpo pra alguém, seria alguém que realmente merecesse isso.

