Depois disso, descansei em casa por um tempo, apesar de gostar bastante de sair, eu precisava descansar um pouco, afinal, eu precisava de energia pra gastar nessas doideiras.
E apesar de gostar muito da minha família, aquela foi uma semana que eu fiquei apenas em meu quarto, e só sai quando era extremamente necessário, e foi mais quando eu precisei trabalhar, eu não queria falar com ninguém, eu não queria sair mais, aquele seria minha folga, mas eu fiquei tão cansado que eu decidi ficar um mês inteiro trancado em casa.
Naquele tempo em casa, fiquei apenas focado em deixar todas as coisas em dia, os livros que eu quis comprar, os equipamentos que eu quis pra mim, os jogos de psicocinese que eu queria tanto, mas não tínhamos dinheiro o bastante pra comprar, e agora eu tinha, haaaaaaa.
Mas apesar de tudo, fiquei muito mais tempo viajando de território em território e criando golens. O mercado de golens era bem famoso, mas eu ficava muito mais tempo viajando em lugares com combates constantes para consertar golens danificados, e nooooooossa, tinham muitos, mas muitos tipos de danos diferentes, quebrados, rasgados cortados, queimados, derretidos por calor, derretidos por ácido, congelados e depois quebrados.
E os métodos sempre variavam também, as vezes apenas fundir as partes danificadas sem precisar trocar, as vezes o dano era tanto que era mais fácil remover a peça e comprar uma nova, e tinha também os casos mais comuns ainda, que era quando o golem estava num estado tão ruim que não tinha mais como salvá-lo.
Cliente: tem certeza que não pode fazer nada?
Antonio: olha, eu até posso, mas vai ser bem mais fácil conseguir um golem novo do que concertar esse
Cliente: mas esse golem me custou 100 ouros
Antonio: bom, vamos ver, pra deixar o golem inteiro, terei que comprar juntas novas, dois núcleos novos, pulsos reforçados, cameras oculares novas, e isso tudo sem contar as pinturas novas pra manter tudo no lugar
Cliente: e no fim, quanto tudo isso custaria?
Antonio: ahn, uns 500 ouros no mínimo
Cliente: ta bom, e quem você sugere que eu compre?
Ah, graças a deus, o cliente daquela vez era inteligente.
António: pro seu próprio bem, eu sugeriria a oficina Escudo de Ares, eles são perfeitos pra golens de combate, e pelo estado dos seus golens isso deve acontecer muito com você, não é?
Cliente: sim, é verdade, obrigado
Antonio: deu 50 ouros
Cliente: uhum, aqui.
E assim continuei meus dias, as vezes aparecia um cliente chato que não queria me escutar, ou um que não entendia o que eu falava, não importa o quanto eu tentasse explicar, aqueles eram dias difíceis, mas eu também ficava um bom tempo no meu quarto apenas pensando, ouvindo música e refletindo.
E pela primeira vez em bastante tempo, eu me permiti relaxar, enquanto estava no meu quarto, no escuro, e relaxando, (mas não dormindo) eu refletia um pouco sobre as coisas que eu ja passei, as coisas que eu já vivi, e uma grande tentativa de encontrar meu centro de novo.
E depois de muito tempo refletindo, pensei em ver a minha pergunta de outra forma, comecei a me perguntar, “o que era a coisa que estava comigo antes mesmo de eu entender direito que eu estava vivo?” e quando comecei a pensar sobre isso, tentei pensar em todas as coisas que eu fazia quando ainda era uma criança que vivia, e não tinha ideia de que estava viva de verdade.
Naquela época, eu lembro que eu gostava de ir para lugares desconhecidos, eu gostava de perguntar coisas pros meus pais, coisas que eu mesmo não entendia direito pra saber perguntar pra eles. Mas algo que sempre se destacou pra mim, era minha Singularidade, mesmo não sabendo direito o que eu tinha, eu sempre sabia que eu era diferente, e por muito tempo, eu tentei entender isso através de contos e textos antigos de filó-arcanos ancestrais, e por indagações e momentos de pensamentos constantes, como eu fazia agora.
Tudo aquilo parecia meu centro, mas eu queria limpar aquilo mais, eu limpei, pensei, então eu cheguei a uma conclusão. Uma conclusão tão boa, tão óbvia e tão brilhante ao mesmo tempo que eu pulei da cama e gritei pra cima, não acreditando no quanto eu demorei pra descobrir isso.
Antonio: é isso, o meu centro é…a curiosidade, eu vejo as coisas mais belas do mundo e desejo entender tudo, eu olho uma árvore e vejo além das folhas, e do caule, eu vejo os insetos, as frutas, e até os pequenos galhos, onde eu posso balançar e brincar…eu até vejo as raízes fora, os lugares perfeitos pra eu descansar. A curiosidade é o que eu carrego comigo, o que eu espalho pelo mundo, e o que eu faço florescer nas pessoas que encontro…é…e o que eu faço agora? Ah é, agora eu deveria viver através de meu centro…viver através da curiosidade, como se eu já não tivesse fazendo isso…hehe…boooooom, agora acho que irei aumentar ainda mais minha curiosidade, ainda mais que amanhã seria “aquele dia”.
Bem animado pro que iria acontecer amanhã, eu fui almoçar com minha família. E depois de tudo que passei pelo meu pai, eu e a minha mãe entramos em um acordo, e agora ele jantava com agente, nos primeiros jantares, almoçar parecia estranho, mas depois de algum tempo, tudo pareceu voltar ao normal, ao mesmo tempo que tudo parecia diferente.
Meu pai não estava mais com minha mae, meu irmão era o patriarca agora, e minha mãe podia muito bem ser considerada “aposentada”, e mesmo assim, os almoços pareciam ainda mais felizes que antes, eu conversava com minha família de forma tranquila, não tinha mais segredos, raiva e nem ressentimentos, agora podíamos conversar sobre qualquer bobagens que tudo ficaria bem, e sinceramente, para momentos assim, eu sentia que valeu a pena tudo que nos passamos, mas eu ainda tentaria evitar tudo aquilo se voltasse no tempo, aquilo provavelmente iria criar problemas novos, que eu mesmo iria querer consertar depois também, e pensando naquilo, comecei a rir, e com minha risada, meu pai ficou curioso.
Pai: qual é a graça filho?
Antônio: ah, eu só tava pensando no grande fardo que muitos adultos de verdade devem carregar
Pai: e ele seria?
Antonio: o fardo de concertar os erros de sua época pra que erros que eram menos importantes na época possam ser postos na luz
Pai: jura?
Antonio: você é um exemplo muito bom disso papai, você, o avô, o bisavô, cada um de vocês, mesmo de forma inconsciente, junto com todos os adultos de cada época tinham uma missão, ou pelo menos os adultos de verdade, que era deixar as coisas mais fáceis para a próxima geração facilitar ainda mais as coisas.
Pai: muito interessante
Antônio: por exemplo, a muito tempo atrás, quando nós ainda éramos uma vila de sapiens tentando sobreviver, nossos ancestrais lutaram muito, morreram e se sacrificaram muito apenas para ancestrais ainda mais antigos conseguirem criar um grande reino.
Pai: anhan
Antonio: E quando finalmente ficamos levemente seguros pra cuidar dos inimigos do lado de fora, a geração de Alaric se focou em cuidar dos poderosos que deveriam nos guiar, mas não os eliminando, mas sim os orientando, e graças a isso, nós agora podemos cuidar das nossas próprias vidas sem pensar se eu deveria confiar no príncipe A ou na princeza B, agora nós estamos seguros o bastante pra não nos importarmos com as coisas que estão fora da nossa casa, agora estamos seguros o bastante pra pensarmos nas coisas que estão aqui.
Falei aquilo enquanto apontava pra minha cabeça, e meu pai entendeu o que eu quis dizer e continuei falando.
Antonio: eu acho isso lindo demais, mas também sinto que isso mostra como temos muito pela frente, sinto que ainda tem muito pra aprendermos com a Psicomancia, isso me faz pensar o que meu filho irá passar
Pai: é, isso é algo bem interessante de se pensar, filho.
Meu pai falou apenas aquilo, e continuou comendo, e apesar de eu estar levemente chateado por ele não me dar a atenção que eu queria, uma parte de mim estava feliz por apenas conversar assim com meu pai e não sentir raiva nenhuma, e isso até me fez rir de novo, mas dessa vez meu pai não me perguntou nada, e só continuamos comendo.

