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Curioso Felino 2🌻
♟️Derrota atrás de derrota♟️
1964 palavras • 11137 caracteres • ⏱ 7 min 51 s

♟️Derrota atrás de derrota♟️

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Quando chegamos acima da mesa, me assustei em ver como as peças eram bem maiores do que eu pensei, eram quase duas vezes o meu tamanho, e eram bem mais detalhadas, esculpidas e detalhadas como bispos, peões, torres, reis e rainhas de verdade, ao invés de apenas desenhos simplificados, e eu gostava muito daquilo.


Apesar do que a Dandara me avisou, eu já tina descoberto o quão inteligentes e implacáveis que aqueles gigantes eram em suas partidas quando pesquisei aquele lugar, então eu sabia que apenas professores e diretores (ou pessoas com o nível de experiência deles) conseguiam ter uma luta disputada e até talvez vencer eles numa partida.


Como um jovem adulto, apesar de estar formado, sentia que tinha pouquíssimas chances de vencer, mas eu fui mesmo assim, porque eu poderia não vencer, mas minhas derrotas iriam me ensinar mais que qualquer vitória.


Enquanto esperava minha vez, via como muitos gigantes pareciam ter piedade e se seguravam lutando com alguns jogadores. Eu estava dividido em pensar que eles não gostavam de mim, e pensar que eles entendiam que eu não queria que eles se segurassem, porque quando chegou minha vez, eu fui completamente destruído todas as vezes. 


Eram técnicas simples, mas eles faziam um jogo mental comigo tão bom que eu dançava na mão deles todas as vezes, e mesmo com a minha mão mais calma e com os avisos da Dandara, eu fiquei muito, mas muito irritado mesmo com cada derrota, mas eu me controlei, conversei com as vozes irritadas dentro de mim, deixei elas falarem, e fiz com quem minhas vozes calmas deixassem elas relachadas. 


E com o tempo, a raiva e minha ansiedade me acalmaram, quase como se tivesse massageando meu próprio cérebro. Eu tinha aprendido a fazer isso a pouco tempo, mas isso me deixava de forma tão boa, que eu não conseguia me imaginar viver sem aquela técnica mais.


Mas tinha momentos que até a técnica mais forte vacilava, e na minha trigésima quarta derrota, foi um desses momentos, mas antes da minha magia vazar ou eu fazer algo muito idiota pelas emoçoes, a Dandara segurou meu ombro gentilmente, haaaaaah, as vezes eu sentia que podia derreter pelos toques dela, mas eu mantive a compostura enquanto me virei pra ela, e ela falou.


Dandara: me fala, como é o mundo lá fora?


Antônio: ah, é muito legal, eu não viajei pra muitos lugares ainda, mas os poucos lugares que eu fui foram bem legais, as fadas são tão doidas por combate como eu pensei, os gigantes se amarram numa cerveja, com ou sem álcool, e o reino das fadas é lindo, lindo demais, lindo a ponto que se você não tomar cuidado, pode acabar morrendo sem nem saber o que te matou


Dandara: até você?


Antônio: até eu Dará.


A ruiva ficou em choque com minhas palavras, eu tentei quebrar a visão dela de que eu sou um deus ou alguma espécie de super humano, mas mesmo naquele momento, quando eu dizia algo simples como “eu não posso fazer isso” ela parecia entrar em conflito, como se não conseguisse de verdade me ver falhando em alguma coisa. 


Eu tinha medo do que essa confiança extrema poderia dar, mas por enquanto, só tentar pensar em me acalmar, e matar minha curiosidade com o que a própria ruiva fez enquanto eu estava fora(o que não devia ser muita coisa, assim como eu, já que só se passaram 3 meses desde que eu me formei).


Antônio: então? Como é estar do lado de fora de novo?


Dandara: haha, parece que eu troquei os olhos, o mundo cinza e chato que eu via antes ficou cheio de cor, eu me sinto ótima de mais de um jeito, mesmo que eu ainda me sinta lesada em vários momentos do meu dia


Antônio: normal, apesar de melhorar muito, ninguém sai totalmente bem da sala de recuperação, podem sair muito melhores, mas não totalmente bem


Dandara: você fala como se já tivesse entrado lá


Antônio: não entrei, mas eu não precisava entrar, só entender o que meus amigos passam lá, parece ser o bastante pra eu entender o básico do lugar pelo menos, mas me diz, ainda é uma fanática por música?


Dandara: talvez, eu descobri que tem muitas coisas incríveis que eu gosto demais, eu amo dançar, eu amo música de bardos bárbaros, eu amo bolo de laranja, e eu amo séries levinhas, como aquela da bruxa que cuida dos filhos da princesa que eu te falei


Antônio: haaaaa, aquela série é tão legal


Dandara: às vezes é doido pra mim pensar que aquilo tudo foi baseado numa história real


Antônio: a palavra chave é “baseado”, com certeza que eles dramatizaram muitas cenas, pra deixar impactante e mais legal, e se é uma sitcom, eu tenho certeza que a história real não foi tão engraçada quanto a da sitcom


Dandara: mesmo assim, gosto de pensar que os momentos bonitos, os fofinhos e os carinhosos que me fizeram me apaixonar pela série são de verdade, tipo, se fizessem um livro ou uma série de espelhos contando a nossa história, você não acha que as pessoas iam achar que muitas coisas que não aconteceram, realmente aconteceram? O nosso encontro “do destino”, o seu chamado para a minha ajuda, a minha recuperação na casa de reabilitação, ou o mais simples, quando eu te conheci pela primeira vez, e tive uma conversa muito séria com você na quadra


Antônio: agente não se conheceu na quadra


Dandara: o que agente teve na escola, até aquele momento, não era sequer ser conhecido, eu te achava irritante e por isso te pedi pra se afastar…mas quando agente conversou de verdade, eu te conheci, o verdadeiro você, não o você que a minha cabeça inventou…não sei se você fez alguma imagem mental minha quando nos conhecemos pela primeira vez, mas tenho certeza de que me ouvir falar destruiu muitas Dandaras que você imaginou né?


Noooooossa, como ela sabia disso? “É por que ela passou na mesma coisa bestão”. Meu cérebro me respondeu, ao mesmo tempo que eu me lembrei de algo, algo que eu senti quando conversei com ela de verdade pela primeira vez


Antônio: bom, todas menos uma


Dandara: uuuuuh, então você acertou uma? E qual foi?


Antônio: uma filha maltratada, que deixou todos os seus sentimentos de lado, pra sobreviver e pra tentar não se machucar de novo.


E de repente, a Dandara ficou mais quieta, quase ficando alerta, preocupada e triste, até que, com uma voz bem mais receosa, ela falou.


Dandara: você chegou tão perto de acertar assim?


Antônio: eu pensei muito sobre você


Dandara: quantas versões de mim você fez?


Antônio: centenas, até milhares, como eu nunca me canso de te falar Dandara, você faz a minha lógica parar.


E qualquer medo e receio que ela estava pensando, com aquelas palavras, se tornou calma e tranquilidade de novo, pensando em como eu realmente a amava.


Dandara: aaaaah, seu galanteador especial


Antônio: obrigado


Dandara: Tá bom, agora vai jogar, é a sua vez.


Enquanto ela falou isso, vi que uma das mesas estava vazia de novo, e eu peguei as brancas assim que ela falou isso. O jogo daquela vez durou bem mais que os anteriores, e pra me motivar mais, a Dandara ficou do meu lado, falando palavras de motivação pra mim.


Antônio: hehe, eu não memorizei de cor todas as cenas da série, mas só pelo que eu lembro, posso dizer que, eu tenho certeza que as cenas sérias, onde o sitcom se torna mais que um sitcom, e se torna uma história séria e com uma mensagem linda, tudo disfarçado de comédia, essas partes eu tenho certeza que foram 100% reais


Dandara: tenho certeza que em alguns momentos eles suavizaram algumas partes, como a parte que a bruxa é quase queimada viva, um ponto onde não tem risadas ou piadas, e apenas a situação seria, ainda fica nítido que deve ter sido bem mais sinistro na história real que a sitcom


Antônio: também não tenho dúvidas nisso…mas me fala, por que você gostou tanto da série?


Dandara: deixa eu ver…(levanta dedo) a série tem personagens incríveis (levanta outro dedo) uma boa comédia (levanta outro dedo) mensagens incríveis (levanta mais um dedo) e eu me sinto conectada com a bruxinha. Porque ela é alguém que nasceu num lugar horrível e competitivo, onde ela precisou se tornar alguém implacável pra sobreviver, mas conseguiu ficar mais doce, gentil e humana. Depois de ser acolhida pelas crias da pessoa que ela maltratou…ao mesmo tempo que me senti inspirada pela Princesa, que apesar de eu estar bem receosa dela no começo, eu acabei quebrando a cara vendo que ela era o exemplo perfeito de Princesa bonita, linda e perfeita. A ponto que ela pediu ajuda da Bruxa quando ela precisou e que ela perdoou a Bruxa, mesmo depois de tudo que ela fez a Princesa passar, cada cena que a Princesa tá, tudo que eu consigo pensar é… “ela é perfeita demais, eu nunca poderei ser como ela, então eu vou tentar ser a mais parecida com ela possível, porque assim, eu ficarei melhor”...e essas duas personagens são as protagonistas, ah e o Príncipe é legal de seu próprio jeito também…


E ela continuou descrevendo a série, até eu terminar quase 39 jogos com os gigantes, todos difíceis, muitos em que eu consegui encurralar os gigantes nas minhas jogadas, várias vezes, mas nunca ganhar, meu chapéu e cabelo ficaram sujos com a com as pedras e poeira que caíram das minhas peças derrotadas. 


Antônio: que droga, bom, tanto faz, vamos.


Apesar de não ter ganhado nenhum deles, fiquei feliz que melhorei de “sofrer massacre unilateral” pra “duelo equilibrado até chegar no final” , uma conclusão mais feliz que a maioria dos participantes Sapiens tinha quando enfrentava gigantes naquele parquinho.


Gigante: muito bem, vamos ter que tomar cuidado pra não sermos pegos de surpresa por você


Antônio: mesmo com cuidado, isso irá acontecer meu senhor, eu garanto.


E depois de nossos estômagos ficarem mais calmos e nossa força ser recuperada, eu e a Dandara voltamos a andar, eu a levei pra casa, já tava anoitecendo, mas naquela hora, enquanto eu estava a segurando, eu me sentia o homem mais forte do mundo. 


E apesar do perigo em que eu estava atento, e dos monstros que tentava evitar que pegassem nos dois, eu via uma beleza naquela noite, das luzes acesas, dos sapinhos e patinhos cantando e até dos gafanhotos violino tocando suas músicas, eu me sentia no lugar mais pacíficos do mundo, até que a Dandara falou.


Dandara: eu me sinto no paraíso sempre que eu tô com você


Antônio: eu também, garota, eu também.


Quando chegamos na casa dela, antes de entrar, ela deixou que eu beijasse a mão dela, como uma despedida.


Antônio: madame, eu me sinto agradecido por me dar a chance de passar um tempo com você hoje


Dandara: também fico lisonjeada pelo que compartilhamos hoje senhor, e espero que possamos fazer isso mais vezes


Antônio: muito mais muito mais vezes.


E quando a noite já estava chegando, caminhei todo animadinho pra casa, com meus olhos amarelos brilhando quanto mais a noite se aproximava, eu me sentia o cara mais sortudo do mundo, sortudo por ter alguém como ela em minha vida, se bobear, meus olhos estavam com corações nos olhos até agora.


Mas não, não podiam ser corações, por que minha alegria e felicidade pura de criança era tão grande, que ao invés de coração, eu brilhava enquanto sapateava e cantava em meio a rua, e apesar de eu estar agindo como um louco da forma que eu tava numa rua bem deserta, ninguém veio até mim, o caminho até eu chegar em casa foi um dos mais tranquilos da minha vida, e eu amava isso.


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