Segunda-feira
Ícaro acordou no sofá.
Não sabia que horas eram.\nA luz entrava pela fresta da cortina — clara demais, dolorosa demais. A boca\nseca. A cabeça latejando.
Olhou para a mesinha.\nGarrafas vazias. Três. Quatro. Não lembrava quantas tinha bebido.
"Merda."
Sentou-se devagar. O\ncorpo reclamava. As costas doíam de dormir torto no sofá, o mesmo sofá onde\ndormia há semanas. A cama ficava no quarto. Com ela.
A voz veio da cozinha.\nCansada. Familiar.
— Acordou.
Não era uma pergunta.
Ícaro esfregou os olhos.\nMarina estava encostada no balcão, uma caneca de café na mão. Já vestida. Já\npronta para o dia. Os cabelos escuros presos em um coque frouxo, algumas mechas\nescapando. Ela sempre ficava bonita assim, natural, sem esforço. Mas hoje os\nolhos estavam cansados. Cansados dele.
— Já tomou café? — ele\nperguntou, a voz rouca.
Ela soltou um riso curto.\nSem humor.
— Tomei. Sozinha. Como\nsempre.
Ícaro passou a mão no\nrosto. Não tinha resposta para isso.
Marina largou a caneca na\npia. O som foi mais alto do que precisava ser.
— Você sabe que horas\nsão, Ícaro? Quase meio-dia. Meio-dia. E você aí, largado no sofá, cheirando a\ncerveja.
— Eu sei. Desculpa.
— Você sempre pede\ndesculpa, Ícaro.
— Porque eu sempre erro,\nMarina.
Ela o encarou. Os olhos\ncastanhos buscavam algo nele, talvez o homem por quem ela se apaixonou. Talvez\napenas um sinal de que ele ainda estava lá.
— Você ia me levar na\ncasa da minha mãe ontem. Esqueceu de novo.
Ícaro fechou os olhos.
"Merda. Merda.\nMerda."
— Marina, eu...
— Não importa. Fui de\nônibus.
O silêncio encheu a sala.\nÍcaro queria dizer algo que prestasse, algo que consertasse. Mas as palavras\nnão vinham. Só o vazio. E o vazio pedia cerveja.
— Vou para a guild —\ndisse, levantando-se. — Vou treinar. O torneio regional tá chegando e Scar\npediu para eu participar.
Marina o observou por um\nlongo momento.
— Você quer um café antes\nde ir?
A voz dela estava mais\nbaixa agora. Menos raivosa. Mais... triste.
Era um gesto. Uma\nponte. "Ainda estou aqui. Ainda quero você aqui."
Ícaro olhou para ela.\nPara a caneca vazia ao lado da pia. Para os olhos castanhos que ainda tinham\nesperança, mesmo que pouca.
— Não dá. Tô atrasado. O\ntreino... você sabe.
Marina desviou o olhar.\nAssentiu devagar.
— Sei.
Ícaro pegou a carteira, o\ncelular. Passou por ela sem tocar. Na porta, hesitou por um segundo, um segundo\nem que poderia ter voltado, sentado, tomado o maldito café.
Saiu.
No caminho para a guild,\nparou no mercadinho da esquina. O mesmo de sempre. Seu Renato já deixava a\ngrade de cerveja separada no balcão quando o via entrar.
— Tá pesada hoje, hein,\nÍcaro?
Ele não respondeu. Pagou.\nSaiu.
“A guild estava viva”,\npensou Ícaro.
Ícaro entrou pelos\nfundos, a grade de cerveja pesando nos braços. O corredor estava silencioso a\nmaioria devia estar na dimensão de treino. Ele preferia assim. Menos olhares.\nMenos perguntas.
Passou pela porta que\ndava para o quintal e parou.
Janderson estava\najoelhado na terra.
O padre, porque Ícaro\nnunca conseguia chamá-lo de outra coisa, mesmo sabendo que ele era muito mais\ndo que isso mexia na terra com as mãos enluvadas. Ao redor, pequenos canteiros\nde madeira. Mudas de hortaliças. Flores que começavam a brotar.
O chapéu preto de abas\nlargas protegia o rosto do sol. A batina escura estava suja de terra. Ele não\nparecia se importar.
Ícaro apoiou a grade de\ncerveja no chão e se aproximou.
— Desde quando você é\njardineiro?
Janderson ergueu os\nolhos. Um sorriso cansado, mas genuíno.
— Desde que descobri que\nplantas não respondem. É terapêutico.
Ele afofou a terra ao\nredor de uma muda de tomate.
— "Eu plantei, Apolo\nregou; mas Deus deu o crescimento." Primeira carta aos Coríntios.
Ícaro franziu o cenho.
— Apolo?
— Coincidência. Ou não. —\nJanderson sorriu. — A passagem fala sobre como o trabalho de plantar e regar é\nimportante, mas o crescimento... esse vem de algo maior.
Fez uma pausa. Os olhos\nescuros encontraram os de Ícaro.
— Algumas plantas a gente\nrega a vida toda e elas nunca florescem. Mas a gente continua regando. Porque\ndevemos acreditar que elas vão ser fortes para entender os propósitos de Deus.
Ícaro desviou o olhar.\nNão sabia se aquilo era um consolo ou uma sentença.
Ficou em silêncio por um\nmomento. Depois apontou com o queixo para os crucifixos nas luvas de Janderson.
— Você acredita nisso\ntudo mesmo? Deus. Céu. Inferno.
Janderson não respondeu\nde imediato. Continuou afofando a terra ao redor de uma muda de manjericão.
— Acredito que existe\nalgo maior. Algo que a gente não entende completamente.
— E isso te conforta?
— Às vezes. Outras\nvezes... me assusta.
Ícaro ficou em silêncio.\nNão sabia por que tinha perguntado aquilo. Talvez porque, no fundo, queria\nacreditar que existia algo além daquilo, além do sofá, das garrafas vazias, dos\nolhos cansados de Marina.
Olhou para a terra. Para\nas mãos enluvadas de Janderson. Para a muda de manjericão que cresceria ou\nmorreria, dependendo do cuidado que recebesse.
— E eu?
Janderson ergueu os\nolhos.
— Você o quê?
— Você acredita que eu\ntenho propósito?
Janderson parou de mexer\nna terra. Endireitou as costas, os olhos escuros fixos em Ícaro. O silêncio\ndurou um segundo. Dois.
— Deus cria todos os\nseres com um propósito em mente. Só não sabemos qual é. Mas todos têm.
Ícaro soltou um riso\ncurto. Sem humor.
— Até um bêbado como eu?
Janderson não desviou o\nolhar.
— Sim, Ícaro. Até um\nabençoado como você.
Algo apertou no peito de\nÍcaro. Algo que ele não queria sentir. Algo que a cerveja geralmente\nanestesiava. Mas agora, sob o sol do quintal, com as mãos sujas de terra de um\npadre que acreditava em propósito divino até para os perdidos... aquilo doeu.
— Obrigado pelo sermão.
Foi quando sentiu.
Uma presença. Não\nexatamente física mais como uma mudança na textura do ar. Uma sombra de água.
Leviatã.
Ela não se materializou\ncompletamente. Apenas... uma silhueta translúcida, os cabelos azuis flutuando\ncomo se estivessem debaixo d'água. Os olhos azuis profundos, antigos\nestavam fixos em Janderson.
Não era um olhar de\nameaça. Nem de fome.
Era... admiração.
Ícaro desviou o olhar,\ndesconfortável. Janderson pareceu não notar ou fingiu não notar.
Janderson voltou sua\natenção para as plantas. O olhar era calmo. Sem julgamento. Apenas... triste.
— O vício é um pecado,\nÍcaro. Não porque Deus te pune. Mas porque ele te destrói. Te afasta de quem\nvocê ama. Te isola dentro de você mesmo.
Fez uma pausa. A voz\nbaixou.
— "O vinho é\nescarnecedor, e a bebida forte, alvoroçadora; todo aquele que por eles é\nvencido não é sábio." Provérbios 20.
Ícaro olhou para a grade\nde cerveja.
— Não sou sábio, padre.\nNunca fui.
— Mas você é bom. Eu\nvejo. Por trás disso tudo... você é bom.
Ícaro sentiu algo apertar\nno peito. Algo que ele não queria sentir.
Levantou-se.
— Obrigado pelo sermão\nnovamente.
Pegou a grade de cerveja\ne entrou na guild.
Janderson não o impediu.
O corredor estava\nsilencioso. As palavras do padre ecoavam na mente de Ícaro enquanto ele\ncaminhava. "Até um abençoado como você." O peso da\ngrade nos braços era familiar. Confortável.
O refeitório estava\nvazio.
A mesa longa de madeira\nonde tantas vezes a família Scar se reunia estava silenciosa. Apenas o zumbido\ndo freezer no canto.
O freezer de Ícaro.
Ele abriu a porta. Lá\ndentro, um espaço que ele mesmo tinha esvaziado semanas atrás. Agora, servia\npara uma única coisa, manter a cerveja gelada.
Guardou as garrafas.\nFechou a porta. Sentou-se na cadeira ao lado, a cadeira que ninguém mais usava,\nporque todo mundo sabia que era dele.
Abriu a primeira garrafa.
O líquido gelado desceu\nqueimando. O primeiro gole era sempre o melhor. O segundo, um alívio. O\nterceiro... o terceiro era só hábito.
Olhou pela janela. Ao\nlonge, a porta da dimensão de treino estava fechada. Lá dentro, Apolo, Yuri,\nRubi, Ciel e Yohan, todos se preparando. Suando. Melhorando.
Ele aqui. Bebendo.
"Amanhã eu\nparo."
Tomou mais um gole.
Lembrou-se dos olhos\ncastanhos de Marina. Da caneca de café que ele não aceitou.
"Amanhã."
Terça-feira
Ícaro acordou com o sol\nbatendo no rosto.
Não estava no sofá. Não\nestava em lugar nenhum que reconhecesse imediatamente. A luz doía. A cabeça\nlatejava uma enxaqueca chata, daquelas que se instalam atrás dos olhos e não\nsaem por nada.
Piscou. Grama. Terra. O\nportão de madeira da casa.
"O quintal."
Estava jogado no quintal.
Sentou-se devagar, o\ncorpo reclamando de cada movimento. A roupa suja de terra e orvalho. Marina não\no tinha deixado entrar ontem à noite. Ele nem lembrava que horas tinha chegado.
"Merda."
Olhou para cima. A janela\ndo quarto estava aberta. Marina se arrumava em frente ao espelho, os cabelos\nescuros soltos sobre os ombros, os brincos ainda na mão. Ela estava linda mesmo\nde longe, mesmo com ele todo sujo e amassado no quintal.
— Marina.
A voz saiu rouca. Ela não\nouviu. Continuou colocando os brincos.
— Marina! — chamou mais\nalto.
Ela olhou para baixo. Os\nolhos castanhos o encontraram. Não havia raiva ali. Apenas... cansaço. E algo\nmais. Pena, talvez.
Ícaro engoliu seco.
— Por favor, Marina.\nDeixa eu entrar. Eu já tô sóbrio. A gente toma café juntos.
Ela o observou por um\nlongo momento. Depois suspirou, um som que vinha de algum lugar profundo, onde\na paciência já tinha se esgotado há muito tempo.
— Tudo bem, Ícaro. Vou\nabrir a porta. Mas você faz o café.
Ele assentiu, grato.
A porta se abriu. Ícaro\nentrou, sentindo-se um invasor na própria casa. Marina estava terminando de se\narrumar, ajeitando a blusa da loja onde trabalhava. Ele passou por ela devagar,\ntentando não encostar, tentando não quebrar aquele frágil momento de paz.
— Engraçado — ela disse,\na voz mais suave agora. — Você mesmo estando todo sujo tem um cheiro tão bom. É\nreconfortante.
Ícaro a olhou com\nternura. Algo dentro dele, algo que a cerveja geralmente mantinha adormecido,\nacordou. Ele se aproximou, inclinou-se para beijá-la.
Marina se afastou.
— Agora não, Ícaro. Tô me\narrumando pro trabalho. E você tá com bafo de bebida.
Ele virou a cabeça,\ntentando disfarçar a pontada de rejeição.
— Desculpa.
— Só faz o café.
E fez.
Ícaro preparou uma\nomelete como sua mãe tinha ensinado ovos batidos no ponto certo, queijo\nderretendo por dentro, uma pitada de orégano por cima. O café, ele fez do jeito\nque só ele sabia: forte, mas não amargo; quente, mas não queimando.
Sentaram-se à mesa.\nMarina deu a primeira garfada na omelete e fechou os olhos.
— Nossa.
— Tá bom?
— Tá perfeito.
Comeram em silêncio por\num momento. Um silêncio bom. Dos que não doem.
Marina largou o garfo e\nolhou para ele.
— Queria que todas as\nmanhãs fossem assim.
Ícaro arqueou uma\nsobrancelha.
— Comigo acordando no\nquintal?
Ela riu. Uma risada\ngenuína, leve, que iluminou seu rosto cansado.
— Não, seu bobo. Com você\nsendo como está agora. O Ícaro que eu conheci.
Ele coçou a cabeça, sem\nsaber o que dizer. O Ícaro que ela conheceu. O Ícaro antes das garrafas vazias,\nantes das mentiras, antes do sofá. Onde foi que ele tinha se perdido?
— Vamos aproveitar esse\nmomento juntos — ele disse, baixo. — Tem algo que queira conversar?
Marina olhou para o\nrelógio na parede e arregalou os olhos.
— Ícaro, tô atrasada.\nTenho que sair.
Levantou-se, pegando a\nbolsa.
— Você pode me levar para\no trabalho hoje?
— Claro.
A viagem foi... boa.
Conversaram sobre coisas\npequenas. A música no rádio. O trânsito. Uma cliente chata que Marina tinha\natendido na semana passada. Nada profundo. Nada pesado. Apenas duas pessoas\nnormais em um carro normal, indo para o trabalho.
Ícaro riu de algo que ela\ndisse. Marina apoiou a mão no braço dele por um segundo, um toque leve, quase\ninvoluntário.
Chegaram em frente ao\nshopping. Marina desceu do carro, ajeitou a bolsa no ombro, e se virou para\nele. Inclinou-se pela janela aberta e deu um beijo em sua bochecha.
— Por favor, Ícaro. Não\nbebe hoje.
Os olhos castanhos\nestavam fixos nos dele. Não era uma ordem. Era um pedido. Uma súplica.
— Tá bom.
Ela sorriu, um sorriso\npequeno, frágil, mas real.
— Obrigada.
E entrou no shopping.
Ícaro ficou parado com o\ncarro em frente ao shopping por um longo minuto.
"Não bebe\nhoje."
A voz de Marina ecoava na\nmente. O beijo na bochecha ainda queimava de um jeito bom.
"Tá bom. Eu não vou\nbeber."
Dirigiu em direção à\nguild. O caminho era familiar. As ruas, as árvores, as curvas.
E então ele viu.
O bar do Seu Renato.
A fachada simples. As\nmesas de plástico na calçada. O letreiro desbotado. Aquele lugar que ele\nconhecia tão bem, talvez melhor do que a própria casa.
A boca começou a salivar.
"Não."
Estacionou o carro em\nfrente ao bar. Não lembrava de ter virado o volante. As mãos estavam suadas no\ncouro do volante.
Abaixou a cabeça.
"Hoje não. Por\nfavor, Ícaro. Hoje não."
A testa encostou no\nvolante. O plástico estava quente do sol. A respiração saía curta, irregular.
"Faça isso pela\nMarina. Só hoje. Só um dia. Um maldito dia."
— Ô, Ícaro!
A voz veio de fora.\nCarregada de sotaque português, arrastada e amigável.
Seu Renato estava na\nporta do bar, um pano de prato jogado no ombro, a barriga proeminente sob o\navental. Os olhos brilhavam.
— Hoje tem promoção,\nrapaz! Estão bem geladinhas, do jeito que você gosta!
Ícaro ergueu a cabeça.\nOlhou para o velho português. Para o bar. Para a porta atrás da qual as\ngeladeiras zumbiam, cheias de garrafas suadas.
"Só uma não faz\nmal."
A mão abriu a porta do\ncarro.
Poucos minutos depois,\nestava de volta ao volante. A grade de cerveja no banco do passageiro,\nsilenciosa, gelada, fiel. O motor ronronava. A guild ficava a poucas quadras.
"A Marina não\nprecisa saber."
Ícaro entrou na guild com\na grade de cerveja nos braços.
O corredor estava\nsilencioso. Passou pelo quintal, Janderson não estava lá hoje. Talvez estivesse\nem algum lugar rezando. Ou regando outras plantas. Ou sendo observado por uma\ndemônia apaixonada.
Entrou no refeitório.\nAbriu o freezer. Guardou as garrafas. Fechou a porta.
Foi quando ouviu o som.
A porta da dimensão de\ntreino estava aberta.
Não era comum. Apolo\ngeralmente mantinha aquela porta fechada, isolamento total, foco absoluto. Mas\nhoje... hoje estava aberta.
Ícaro pegou uma cerveja\ndo freezer. Abriu. O primeiro gole desceu gelado, anestesiando a culpa,\nsilenciando a voz de Marina que ainda ecoava: "Não bebe\nhoje."
"Só uma."
Mas o som da luta lá\ndentro despertou sua curiosidade. Quem Rubi estava enfrentando com tanta\nanimação? O barulho dos golpes, os gritos de incentivo de Apolo, a respiração\nofegante de alguém...
Pegou mais três cervejas.\nSó por precaução.
Com uma garrafa aberta na\nmão e as outras três sob o braço, caminhou até a porta da dimensão.
O que viu fez sua\nsobrancelha se erguer.
Rubi estava com aquele\nolhar. Ícaro já conhecia, os olhos arregalados, as pupilas dilatadas, o brilho\nmaníaco de quem estava se divertindo mais do que qualquer coisa no mundo. O\nsorriso macabro ocupava metade do rosto. Ela desferia golpes atrás de golpes,\nrápida, precisa, implacável.
E o oponente...
Era o garoto novo. Yuri.
O garoto bloqueava.\nDesviava. Recuava. O suor escorria pelo rosto. A respiração era pesada. E nos\nolhos dele, Ícaro viu nitidamente, havia medo. Medo puro, genuíno,\ndaqueles que fazem o corpo querer fugir mesmo quando a mente ordena ficar.
Mas ele ficava. Após cada\ngolpe, ele se recompunha. Respirando fundo. Levantando os braços. Enfrentando o\nmonstro de cabelo ruivo outra vez.
Ícaro sorriu. Não sabia\nbem por quê. Talvez porque entendesse aquele garoto. O medo. A insistência. A\nteimosia de continuar mesmo quando tudo dizia para parar.
— E aí, Ícaro.
A voz veio da direita.\nCalma. Firme.
Apolo estava sentado numa\ncadeira próxima à porta, os braços cruzados, os fones de ouvido pendurados no\npescoço. Os olhos intensos observavam Ícaro com uma mistura de surpresa e\ncuriosidade.
— Pensei que você não ia\ntreinar nenhum dia.
Ícaro colocou as três\ncervejas fechadas sobre uma pequena mesa ao lado de Apolo. A garrafa aberta\ncontinuou na mão.
— Eu decidi dar uma\nchance hoje.
Apolo o encarou. O olhar\nera de dúvida, não de julgamento, mas de quem realmente não esperava aquilo.
— Isso é novidade.
Ícaro riu. Um riso curto,\nquase tímido. Tomou outro gole da cerveja enquanto observava Yuri levar um\nchute no antebraço que o fez cambalear para trás.
— Como está o treinamento\ndo garoto?
Apolo voltou os olhos\npara a luta.
— Ele está progredindo\nincrivelmente bem. Minha irmã conseguiu ensinar as posturas de luta de forma\ncorreta pra ele. Luna é uma boa professora.
Fez uma pausa. Um sorriso\norgulhoso surgiu nos lábios.
— Igual a mim.
Ícaro se sentou na\ncadeira vazia ao lado de Apolo. Estendeu uma das cervejas fechadas para ele.
— Aceita?
Apolo balançou a cabeça.
— Durante o treinamento é\nfoco absoluto. Não pode haver momentos para distração.
Ícaro deu de ombros.\nAbriu outra garrafa, a primeira já estava pela metade.
— Pelo menos sobra mais\npra mim.
Apolo o observou por um\nmomento. Os olhos intensos pareciam ler algo além da superfície.
— E você? Realmente vai\nquerer treinar hoje?
Ícaro suspirou. Olhou\npara a garrafa na mão. Para Yuri apanhando de Rubi. Para Apolo, o treinador\nsério, esperando uma resposta.
— Olha, eu tô querendo\nmuito. Mas não sei ao certo por onde começar. Treinamento não é comigo.
Apolo soltou uma\ngargalhada. Uma risada genuína, calorosa, que contrastava com sua postura\ngeralmente contida.
— Pois você veio no lugar\ncerto. Eu te ajudo.
Algo dentro de Ícaro se\nacendeu. Uma pequena faísca. Motivação. Talvez, só talvez, ele pudesse fazer\nisso. Talvez pudesse treinar. Melhorar. Ficar sóbrio. Fazer Marina sorrir como\nsorriu no café da manhã.
Ficaram ali conversando.\nApolo explicava algo sobre postura, sobre respiração, sobre como Yuri precisava\nparar de recuar e começar a avançar. Ícaro ouvia ou pelo menos tentava. A\ncerveja tornava as palavras um pouco turvas, mas ele assentia, fazia perguntas,\nrealmente se esforçava para prestar atenção.
Yuri acertou um soco em\nRubi.
Não foi um golpe forte.\nApenas um toque no ombro. Mas Rubi parou por um segundo, os olhos arregalados\nde surpresa. Depois sorriu ainda mais.
— Tá melhorando, garoto!
Apolo assentiu,\nsatisfeito.
— Viu? Ele está\naprendendo.
Ícaro sorriu. Ergueu a\ngarrafa para dar mais um gole.
A garrafa estava vazia.
Piscou. Olhou para a\nmesa. A primeira garrafa, vazia. A segunda, vazia. A terceira... vazia. A\nquarta... ele nem lembrava de ter aberto a quarta.
Todas vazias.
"Quando foi que\neu...?"
Olhou para Apolo. O\ntreinador ainda observava a luta, mas algo tinha mudado. Ícaro já não sentia\naquela empolgação de antes. Havia uma sombra ali. Uma resignação.
Ícaro sentiu o estômago\nafundar.
— Apolo. Sobre o\ntreinamento. Vamos treinar hoje? Só deixa eu pegar mais cerveja.
Apolo o olhou. O silêncio\ndurou um segundo. Dois.
— Tudo bem, Ícaro. Vai\nlá. Só se cuida.
A voz era calma. Sem\njulgamento. Mas o brilho nos olhos tinha se apagado.
Ícaro se levantou rápido\ndemais, quase derrubando a cadeira.
— É sério, Apolo. Já\nvolto. A gente treina.
Pegou as garrafas vazias.\nCaminhou até o refeitório. O som da luta de Yuri e Rubi foi ficando para trás.
Abriu o freezer.
A brisa gelada bateu no\nrosto. Fechou os olhos por um instante, deixando o frio anestesiar a vergonha.
Lá dentro, fileiras de\ngarrafas. Cheias. Geladas. Esperando.
"O Apolo nem vai\nperceber."
Pegou uma. Depois outra.
"Antes do treino,\nvou beber mais um pouquinho. Apolo não vai se importar."
Abriu a primeira. O\nlíquido desceu queimando.
A porta da dimensão de\ntreino continuava aberta. Lá dentro, Yuri enfrentava um monstro. Rubi sorria\nseu sorriso macabro. Apolo instruía, corrigia, lapidava.
Ícaro ficou no\nrefeitório.
Bebendo.
Lembrou-se do beijo na\nbochecha. Do pedido de Marina. "Por favor, Ícaro. Não bebe\nhoje."
"Amanhã eu\nparo."
Mas amanhã ainda não era\nhoje.
Quarta-feira
Ícaro acordou no sofá.
A luz entrava pela fresta\nda cortina. A boca seca. A cabeça latejando mas menos que ontem. Ou talvez ele\njá estivesse se acostumando.
Olhou ao redor. O sofá.\nEstava no sofá.
"Ela me deixou\nentrar."
Não sabia se isso era bom\nou ruim. Talvez significasse que Marina ainda tinha esperança. Talvez\nsignificasse que ela estava cansada demais para brigar.
— Marina?
Silêncio.
— Marina!
Nada.
Sentou-se, esfregando os\nolhos. O relógio na parede marcava meio-dia. Meio-dia. Ela já tinha saído para\ntrabalhar há horas.
Foi quando viu o bilhete\nna mesa. A letra dela, redonda, cuidadosa, tão diferente dos rabiscos que ele\nmesmo fazia.
"Ícaro,
Tentei te acordar e você\nnão levantou. Fiquei até com medo de ter perdido você, mas o seu ronco entregou\nque estava vivo.
Você quebrou a sua\npromessa. Isso me deixou muito triste.
Quero conversar hoje à\nnoite com você. Por favor, esteja sóbrio.
Marina."
Ícaro passou a mão no\nrosto. O papel tremia levemente em seus dedos.
"Você quebrou a sua\npromessa."
Lembrou-se do beijo na\nbochecha. Do pedido dela. "Não bebe hoje." Do "Tá\nbom" que saiu tão fácil de sua boca e foi quebrado tão rápido\ndepois.
"Merda."
Levantou-se. O cheiro do\npróprio corpo o atingiu, azedo, velho, impregnado de cerveja e suor. Precisava\nde um banho. Urgentemente.
A água quente escorria\npelo corpo. O vapor preenchia o banheiro.
E no meio do silêncio,\nsem as garrafas para anestesiar, as memórias vieram.
A irmã.
Ela era um ano mais\nvelha. Cabelos castanhos, olhos claros, um sorriso que iluminava qualquer\ncômodo. Quando eram crianças, brincavam juntos o tempo todo. Ela inventava\nhistórias. Ele corria atrás dela pelo quintal. Eram melhores amigos.
Até que ela foi para a\nfaculdade.
E nunca mais voltou.
Ícaro lembrava do dia em\nque recebeu a notícia. Um assassino, um homem que deveria estar preso, mas\ntinha saído na maldita saidinha, a encontrou. Abusou dela. Matou. Jogou o\ncorpo como lixo.
Ele pensou em se vingar.\nPassou noites acordado planejando. Imaginando o rosto do assassino. O que faria\ncom ele. Como faria doer.
Mas a voz da irmã ecoava\nem sua mente. Ela tinha valores cristãos. Sempre dizia: "Devemos\nperdoar nossos inimigos."
Ele carregava esses\nmesmos valores. Ou tentava carregar.
Não se vingou. Mas algo\ndentro dele quebrou.
A depressão veio como uma\nnévoa espessa. Dias em que não conseguia sair da cama. Noites em que não\nconseguia dormir. Foi quando decidiu entrar na guild Dossel Imperial, em\nManaus. Queria ficar mais forte. Prometeu a si mesmo que se tornaria forte o\nsuficiente para que nenhuma outra mulher passasse pelo que sua irmã passou.
Treinou. Melhorou. Subiu\nde nível.
E numa missão, encontrou\nMarina.
Ela estava em um\ncativeiro. Iam vendê-la para o mercado internacional. Ícaro a resgatou.\nCarregou-a para fora daquele lugar imundo. Ela agarrou-se a ele como se ele\nfosse a única coisa sólida no mundo.
Depois, ela começou a\nvisitá-lo na guild. Conversavam. Riam. Ele sentia algo que não sentia há muito\ntempo. Algo bom.
Mas o peso da irmã nunca\nsaiu de suas costas.
Um dia, bebeu. Só um\npouco. Para relaxar. E percebeu que, quando bebia, as memórias ficavam turvas.\nA dor ficava distante. O rosto da irmã morta não o visitava.
No começo, era pouco.\nDepois, um pouco mais. Depois, muito.
E agora...
Ícaro desligou o\nchuveiro. Olhou-se no espelho embaçado. O rosto que o encarava era o de um\nestranho. Olheiras profundas. Pele pálida. Olhos que já tinham brilhado, agora\nopacos.
Pensou na irmã. No que\nela diria se o visse agora. Provavelmente nada. Ela apenas o abraçaria. E isso\nseria pior do que qualquer bronca.
"O que eu me\ntornei?"
Secou-se. Vestiu-se.\nSaiu.
No caminho para a guild,\nparou no bar do Seu Renato.
O velho português já\ntinha a grade separada. Sempre tinha.
— Tá com uma cara péssima\nhoje, rapaz.
Ícaro não respondeu.\nPagou. Saiu.
A grade pesava nos\nbraços. O peso era familiar. Confortável. A única coisa que nunca o abandonava.
Entrou pelos fundos da\nguild novamente. O corredor silencioso. O freezer no canto do refeitório.\nGuardou as garrafas. Puxou sua cadeira. Abriu a primeira.
O líquido gelado desceu.
"Ela me deixou\nentrar."
A voz de Marina no\nbilhete. "Você quebrou a sua promessa."
Bebeu mais um gole. O\npensamento foi se apagando.
Depois de várias\ncervejas, três? quatro? ele já não contava, viu movimento no corredor.
Douglas.
O detetive caminhava com\nsua bengala, o sobretudo preto impecável, a bandana vermelha cobrindo os olhos.\nEntrou em uma sala que Ícaro sabia ser seu escritório, o lugar onde ele\nguardava documentos, pistas, mapas.
Ícaro se levantou. Pegou\numa cerveja. Cambaleou até a porta.
A sala de Douglas era um\ncaos organizado.
Paredes cobertas de\ndocumentos. Fotos presas com alfinetes. Linhas vermelhas conectando rostos,\nlugares, datas. Um quadro cheio de anotações que só o detetive entendia.
Douglas estava de costas,\na bengala apoiada na parede, a mão enluvada marcando algo em um mapa.
— Você quer alguma coisa,\nÍcaro?
A voz era seca. Sem se\nvirar.
Ícaro deu um gole na\ncerveja.
— Não. Só fiquei curioso.\nQuem são essas pessoas no quadro?
— Suspeitos da minha\ninvestigação. Tô ligando alguns pontos pra ver se consigo descobrir uma\ninformação que preciso.
Ícaro observou as fotos.\nRostos que não reconhecia. Lugares que nunca visitou. A teia de Douglas era\nvasta, intrincada, meticulosa, o oposto da vida de Ícaro.
— Vai querer beber\ncomigo? Você sempre tem umas conversas interessantes.
Douglas continuou\nanotando.
— Não, obrigado, Ícaro.
De repente, o detetive\nparou. A mão enluvada ficou imóvel sobre o papel. A cabeça virou levemente para\no canto da sala.
Ícaro não via nada. Mas\nsentia. Uma presença. Algo antigo, silencioso, poderoso.
"Fenrir."
O lobo primordial.\nInvisível para quem ele não queria que visse.
Douglas pegou a bengala.
— Vou dar uma saída.
— Você vai pra onde?
O detetive caminhou em\ndireção à porta.
— Se lembra daquela marca\nque Fenrir colocou no mascarado? Ele apareceu por aqui perto. Vou dar uma\nolhada.
Ícaro se endireitou ou\ntentou. O corpo cambaleou.
— Vou com você. Você vai\nprecisar de ajuda.
Douglas parou. Virou-se\nlentamente. A bandana vermelha cobria seus olhos, mas Ícaro sentiu o peso\ndaquele olhar. O ar pareceu mais denso. A sala, menor.
— Não, Ícaro. Fique, por\nfavor. Você não está em condições de ajudar ninguém. Nem a você mesmo.
Uma pausa.
— Indo comigo, seria\nalguém pra eu me preocupar.
Ícaro abaixou a cabeça.\nAs palavras doeram mais do que esperava. Porque eram verdade.
Olhou para si mesmo.\nEstava cambaleando. A cerveja na mão. Mal conseguia ficar em pé.
— Deixa eu ir. Por favor.
Douglas continuou\nandando.
— Da próxima vez, Ícaro.\nSó se cuida. E vê se para de beber.
A porta se fechou.
O silêncio da sala era\nabsoluto.
Ícaro ficou parado, os\nolhos fixos na porta fechada. Algo queimava em seu peito. Uma dor antiga,\nfamiliar, que ele passava a vida tentando anestesiar.
Uma lágrima escorreu pelo\nrosto.
Ele nem percebeu de\nimediato. Só sentiu o calor descendo pela pele, até pingar no chão.
"Só se cuida."
"Você não está em\ncondições de ajudar ninguém."
A verdade doía.
Mas então olhou para a\nmão. A cerveja ainda estava lá. Gelada. Cheia. Esperando.
E a tristeza, lentamente,\ndeu lugar a algo mais confortável.
Um sorriso surgiu nos\nlábios. Pequeno. Satisfeito.
— É... essa aqui é a\ncompanheira que nunca me abandona nessas horas.
Ergueu a garrafa em um\nbrinde silencioso.
Bebeu.
Quinta-feira
Ícaro acordou com uma\npontada horrível na lombar.
Piscou. O teto não era o\ndo seu apartamento. Não era o sofá. Não era o quintal.
Era o refeitório da\nguild.
"Merda."
Estava sentado na\ncadeira, encostada na parede perto do freezer. O corpo rígido, torto,\nreclamando de cada hora que passou ali. A boca seca. A cabeça latejando.
Tentou se levantar. A dor\nna lombar o fez se curvar, a mão pressionando as costas como se pudesse\nempurrar o osso de volta ao lugar.
"Dormir na cadeira\nnão parecia uma boa ideia."
Mas quantas noites ele já\ntinha dormido assim? Não lembrava. As costas doíam como se carregassem o peso\nde todas elas.
Foi quando percebeu que\nnão estava sozinho.
Scar estava mexendo no\nfreezer. O chapéu cobria parcialmente o rosto, mas Ícaro reconhecia aquela\npostura relaxada em qualquer lugar. O líder da guild remexia entre as gavetas,\npuxando peças de carne de jacaré, examinando, separando.
O freezer. O altar do\nvício de Ícaro. E Scar estava ali, transformando aquele espaço em algo que\nnutria, que alimentava, que unia.
— Difícil, né, amigo.
A voz saiu baixa.\nCansada. Sábia.
— Às vezes a gente se\nperde dentro daquilo que pensou que poderia nos ajudar.
Ícaro esfregou os olhos.\nA visão ainda estava turva.
— Tá falando comigo?
Scar olhou de canto, um\nsorriso mínimo no rosto.
— Sim. Às vezes falo\ncomigo mesmo. Mas dessa vez é com você.
Ícaro tentou se levantar\nde novo. A lombar protestou. Ele se curvou, a mão nas costas, uma careta de\ndor.
Scar encontrou o que\nprocurava, algumas peças de carne de jacaré, frescas, prontas para serem\ntemperadas. Fechou o freezer e apoiou a carne na pia.
— Você tá convidado para\no almoço, meu amigo. Já faz um tempo que não vejo você comer nada.
Ícaro sentou-se\nnovamente, a dor intensa demais para ficar de pé.
— Scar... eu fui pra\ncasa?
Scar começou a cortar a\ncarne, a faca deslizando com precisão.
— Infelizmente, não.
O estômago de Ícaro\nafundou. Marina. O bilhete. A promessa de estar sóbrio para a conversa.
— Mas ela ligou pra cá —\nScar continuou, sem tirar os olhos da carne. — Eu falei que você estava numa\nsessão de treinamento. Dessa vez te acobertei.
Fez uma pausa. A faca\nparou por um instante.
— Não espere que eu vou\ncontinuar mentindo assim. Marina é uma moça muito doce e gentil. Não é legal\nmentir pra ela.
Ícaro sentiu o alívio\nmisturado com vergonha. Scar tinha mentido por ele. Tinha protegido ele. Mas\ntambém tinha deixado claro que aquilo não se repetiria.
Ficou em silêncio por um\nmomento. As palavras pesavam na garganta.
— Por que você mantém um\ncara quebrado e inútil como eu na sua guild?
Scar parou. A faca ficou\nimóvel sobre a tábua. Ele apoiou as duas mãos na pia, o corpo inclinado para\nfrente, os olhos fixos em algum ponto distante.
— Bem, Ícaro... você\najudou o Douglas quando ele teve um problema de memória severo.
Ícaro piscou.
— Talvez você não lembre\nporque estava muito bêbado. Mas Douglas nem sabia quem ele era naquele dia. E\nvocê o levou pra casa. Cuidou dele. E o ajudou a chegar aqui na guild para eu\nconseguir recuperar as memórias dele.
Scar virou-se lentamente.\nOs olhos encontraram os de Ícaro.
— Você é uma pessoa boa e\nconfiável. E eu respeito isso. Mas no momento... você só está perdido.
Fez uma pausa.
— Eu gosto de ajudar as\npessoas perdidas a se encontrarem. Mas eu ajudo quem quer ser ajudado. Faço as\ncoisas no tempo da pessoa. Uma mão lava a outra. Me sinto responsável em te\najudar.
Aquilo tocou Ícaro em\nalgum lugar profundo. Um lugar que ele pensava estar morto.
As palavras de Janderson\necoaram: "Até um abençoado como você."
As de Apolo: "Só\nse cuida."
As de Douglas: "Vê\nse para de beber."
As de Marina, em cada\nbilhete, em cada olhar cansado: "Por favor, esteja sóbrio."
E agora Scar. Dizendo que\nele era uma pessoa boa. Que ele tinha valor. Que ele já tinha ajudado alguém,\nmesmo sem lembrar.
Os olhos de Ícaro\narderam.
— Scar... eu acho que eu\nnão tenho mais jeito.
A voz saiu quebrada.
— Peço desculpas por\ntudo. Acho que eu nunca vou a lugar nenhum. E acho que nunca vou conseguir\nsuperar o meu vício.
Scar lavou as mãos na\npia. Secou com um pano. Caminhou até Ícaro devagar, sem pressa.
— Bem, Ícaro. O primeiro\npasso é aceitar que você tem um vício.
Ajoelhou-se diante dele,\nos olhos no mesmo nível.
— E você acabou de fazer\nisso. O primeiro passo você deu.
Scar o abraçou.
Não foi um abraço rápido,\nprotocolar. Foi um abraço firme. Demorado. Daqueles que dizem "eu\nestou aqui" sem precisar de palavras.
— Eu acredito em você —\nScar disse, a voz abafada pelo ombro de Ícaro. — Acredito que você vai\nconseguir superar seu vício. Você é uma pessoa boa e forte. Então sei que vai\nconseguir. Um dia.
Ícaro retribuiu o abraço.\nE chorou.
Não soluços altos. Apenas\nlágrimas silenciosas que escorriam pelo rosto e molhavam o ombro de Scar. O\ncorpo tremia levemente. A dor nas costas, a dor na alma, tudo se\nmisturava.
Depois de um tempo, não\nsabia quanto, se recuperou. Scar se afastou, os olhos também um pouco úmidos,\nmas o sorriso no rosto.
Ícaro enxugou os olhos\ncom as costas da mão.
— Amanhã é aniversário da\nMarina. Eu queria dar um presente pra ela.
Scar arqueou uma\nsobrancelha.
— Bem... você sabe o que\nela gosta?
— Sim. Ela é uma pessoa\nsimples. Gosta de um buquê de flores e chocolate. Se eu der um bichinho de\npelúcia, melhor ainda.
Scar riu.
— É. Geralmente elas\ngostam desse tipo de coisa.
— Acho que se eu marcar\nno restaurante do nosso primeiro encontro... acredito que ela vai amar.
— Então o que você está\nesperando?
Ícaro se levantou,\ndevagar, a lombar protestando, o corpo curvado como um velho.
Scar observou a cena. Um\nsorriso malicioso surgiu nos lábios.
— Olha, não vou mentir...\nmas você andando desse jeito parece até que foi pego por um negão.
Scar começou a gargalhar.\nUma risada alta, genuína, que ecoou pelo refeitório vazio.
Ícaro o encarou com um\nolhar chateado.
Nem parecia o mesmo cara\nque ainda pouco foi amigável. Agora estava ali, fazendo piada sem graça.
— Quase que o Apolo chega\nperto de você ontem à noite — Scar continuou, rindo ainda mais. — Eu que não\ndeixei.
Ícaro revirou os olhos.\nVirou-se e começou a andar, mancando, dolorido, mas andando.
— Ei, Ícaro.
Parou.
— Esqueceu que vai\nalmoçar aqui hoje? Me ajuda a preparar o almoço.
A cozinha estava viva.
Scar temperava a carne de\njacaré com ervas que Ícaro não sabia nomear. Ícaro cortava legumes, devagar,\nsem jeito, mas cortava. O silêncio entre eles era confortável. De vez em\nquando, Scar soltava uma piada. Ícaro ria. Ou revirava os olhos. Ou ambos.
Quando o almoço ficou\npronto, a mesa longa de madeira começou a se encher.
Rubi chegou primeiro, os\nolhos brilhando, o sorriso radiante. Sentou-se e começou a comer com uma\nalegria que parecia deslocada mas que, de alguma forma, aquecia o ambiente.
Safira veio depois.\nSilenciosa. Os olhos roxos percorrendo a mesa, avaliando, calculando. Comeu em\nsilêncio, mas não parecia triste. Apenas... presente.
Apolo entrou com os fones\nde ouvido pendurados no pescoço. Sentou-se, serviu-se, e colocou os fones\nnovamente. Comia enquanto ouvia algo que só ele sabia o que era. De vez em\nquando, um sorriso mínimo surgia nos lábios.
Yohan chegou rindo. Ciel\nao lado — sim, Ciel ao lado dele, e ela tinha dito algo. Algo que fez Yohan\nrir. Ícaro não ouviu o que foi, mas viu o sorriso contido nos lábios de Ciel.\nPequeno. Quase invisível. Mas real.
Yuri foi o último a\nchegar. Sentou-se, serviu-se, e começou a comer rápido como se tivesse medo de\nque a comida fosse desaparecer. De vez em quando, desviava o olhar. Rubi o\nencarava. Aquele olhar de psicopata feliz. Yuri engolia seco e voltava a comer.\nÍcaro reconhecia olhar do garoto. Já tinha sentido algo parecido o medo de não\nser bom o suficiente. De não pertencer.
"Ele só precisa de\num empurrão."
Scar estava sentado ao\nlado de Ícaro. Inclinou-se e falou baixo:
— Viu? Almoçar em família\né divertido.
Ícaro concordou.
Olhou para Yuri. O garoto\nparecia tenso. Aterrorizado, talvez. Mas ali, comendo, cercado por aquela\nfamília maluca, ele também parecia... pertencer.
— Ei, garoto.
Yuri ergueu os olhos.
— Você parece forte.\nLutar com a Rubi é pra poucos. Ela é durona. Mas se você tá conseguindo\naguentar os golpes dela... significa que vai se sair bem no torneio.
Yuri piscou. O olhar de\nmedo pareceu vacilar. Algo novo surgiu ali, pequeno, frágil, mas real.\nConfiança.
O garoto assentiu. Voltou\na comer. Mas agora, os ombros estavam um pouco mais retos.
Ícaro sentiu algo\naquecido no peito. Algo que a cerveja nunca tinha dado.
Assim que o almoço\nacabou, Ícaro saiu.
Foi ao restaurante. O\nmesmo do primeiro encontro com Marina. Mesas pequenas, luzes amareladas, um\ngarçom idoso que ainda lembrava dele. E lá fora, na área coberta, um grande\nguarda-sol cantiléver azul.
Ícaro olhou para ele por\num momento.
"Foi ali."
Embaixo daquele\nguarda-sol, ele tinha dado o primeiro beijo em Marina. Ela estava nervosa,\nrindo de algo bobo que ele disse. A luz do fim de tarde deixava tudo dourado. E\nquando os lábios se tocaram, ele soube que aquilo era especial.
Agendou para sexta à\nnoite. Um jantar romântico. Dois lugares.
Depois, comprou o\nchocolate. As flores. E um ursinho de pelúcia, pequeno, fofo, com um laço\nvermelho no pescoço.
Voltou para casa.
O apartamento estava um\ncaos. Louças acumuladas na pia. Poeira nos móveis. Roupas jogadas. O cheiro de\ncerveja velha impregnado no ar.
Ícaro arregaçou as\nmangas.
Lavou a louça. Varreu o\nchão. Passou um pano nos móveis. Abriu as janelas para o ar circular. Arrumou\nas roupas. Jogou as garrafas vazias fora, todas elas.
Quando terminou, o\napartamento parecia outro. Cheirava a limpo. A casa. A lar.
Sentou-se no sofá, o\nmesmo sofá onde dormia há semanas, e esperou.
Marina chegou à noite.
Abriu a porta devagar,\ncomo se esperasse encontrar o mesmo caos de sempre. As mesmas garrafas. O mesmo\ncheiro. O mesmo homem largado no sofá.
Em vez disso, encontrou\nÍcaro de pé. Vestido com uma camisa limpa. O cabelo penteado. Os olhos...\nvivos.
— Boa noite, meu amor.
Ele estendeu os\npresentes. O chocolate. As flores. O ursinho de pelúcia.
Marina piscou. Os olhos\nforam do ursinho para as flores, das flores para o chocolate, do chocolate para\nÍcaro.
Ela corou. As bochechas\nficaram rosadas. Os olhos brilharam.
Segurou o ursinho contra\no peito.
— Ele é tão fofo...
Depois olhou para as\nflores. Para o chocolate. Para Ícaro.
— Você lembrou. De tudo.
Ícaro coçou a nuca.
— Claro que lembrei. Você\né minha namorada.
— E não é só isso — ele\ncontinuou. — Preparei um jantar.
Marina entrou. Viu a mesa\nposta. A comida quente. As velas acesas.
Ela levou a mão à boca.\nOs olhos se encheram de lágrimas.
Sentaram-se. Comeram.\nConversaram. Riram.
Marina contou sobre o\ntrabalho, a cliente chata, a promoção que talvez viesse. Ícaro ouviu. Realmente\nouviu. Não estava bêbado. Não estava com a mente em outro lugar. Estava ali.
Ela percebeu.
— Nossa, Ícaro. Essa\nnoite tá sendo incrível. Pelo jeito, o treinamento da guild de ontem fez você\nser um novo homem.
Ícaro olhou para ela.\nPara os olhos castanhos que tinham recuperado o brilho. Para o sorriso que não\nera cansado, mas genuíno.
— Sim. Acredita que não\nbebi hoje?
Marina parou. O garfo\nficou imóvel no ar.
Os olhos dela se encheram\nde lágrimas. Mas não de tristeza. De emoção.
— Fazia tempo que eu não\nte via assim. Sóbrio à noite. Isso é algo incrível.
Ícaro sorriu.
— Eu fiz uma reserva\nnaquele restaurante. O do nosso primeiro encontro. Amanhã como vai ser seu\naniversário... acredito que você vai amar.
Marina não respondeu com\npalavras.
Ela se levantou,\ncontornou a mesa, e o beijou. Um beijo longo. Demorado. Daqueles que\ndizem "eu ainda estou aqui" sem precisar de\npalavras.
Quando se afastou, os\nolhos brilhavam.
— Hoje você pode dormir\nna cama.
Ícaro sentiu algo apertar\nno peito. Não era dor. Não era culpa. Não era a sombra da resignação.
Era... esperança.
"Eu posso fazer\nisso. Eu posso ser melhor."
Segurou a mão dela.
— Obrigado. Por não\ndesistir de mim.
Marina apertou os dedos\ndele.
— Eu nunca vou desistir\nde você, Ícaro. Nunca.
Naquela noite, Ícaro\ndormiu na cama.
Pela primeira vez em\nsemanas.
Com Marina ao seu lado.
O travesseiro cheirava a\nela. O quarto estava escuro, silencioso, quente. O corpo dela encaixado no\ndele. A respiração suave, ritmada.
Ícaro ficou acordado por\num longo tempo. Olhando para o teto. Sentindo o peso dela contra seu peito.
"Eu posso fazer\nisso."
Fechou os olhos.
"Amanhã. O jantar. O\naniversário dela. Vai ser perfeito."
E pela primeira vez em\nmuito, muito tempo...
Ele acreditou.
Sexta-feira
Ícaro acordou na cama.
A luz entrava pela\ncortina, suave, dourada, gentil. Não doía. O corpo não reclamava. A cabeça não\nlatejava.
Ao seu lado, Marina\ndormia. Os cabelos escuros espalhados no travesseiro. A respiração calma. O\nrosto sereno.
"Ela está em\npaz."
Ficou ali por um momento,\napenas observando. Havia quanto tempo não acordava assim? Sem o gosto amargo da\ncerveja na boca. Sem a névoa da ressaca. Sem a vergonha de não lembrar como\ntinha chegado ali.
Levantou-se devagar, para\nnão acordá-la. Foi para a cozinha.
Preparou o café. O mesmo\nque só ele sabia fazer, forte, mas não amargo. A omelete, a que aprendeu com a\nmãe. Pão fresco. Frutas cortadas.
Quando Marina acordou,\nencontrou a mesa posta. E Ícaro, de pé, com um sorriso que não era forçado.
— Bom dia, meu amor.
Ela piscou. Os olhos\nainda sonolentos percorreram a mesa, a comida, ele.
— Você fez isso tudo?
— Fiz.
Marina sentou-se. Comeu.\nE a cada garfada, algo no rosto dela se iluminava. Conversaram. Riram. Sobre\ncoisas pequenas, o café que estava perfeito, a cliente chata que ela teria que\natender, o ursinho de pelúcia que agora ocupava um lugar de honra na estante.
Foi uma manhã\nmaravilhosa.
Depois, Ícaro a levou\npara o trabalho. No carro, ela segurou a mão dele sobre o câmbio. Os dedos\nentrelaçados. A pele quente.
— Tô feliz — ela disse,\nolhando pela janela.
— Eu também.
E era verdade.
Deixou-a na frente do\nshopping. Ela se inclinou, deu um beijo demorado em seus lábios.
— Te vejo à noite. Nosso\njantar.
— Pode deixar.
Ela saiu. Andou até a\nporta, virou-se, acenou. O sorriso iluminava o rosto inteiro.
Ícaro ficou olhando até\nela desaparecer lá dentro.
"Vai dar certo. Hoje\nvai dar certo."
Chegou na guild sem\npassar pelo bar do Seu Renato.
Pegou outro caminho. Mais\nlongo. Mais silencioso. Mas longe da tentação.
"A guild estava\nviva", pensou.
Mas hoje, ele não estava\nde fora. Hoje, ele fazia parte.
Foi direto para a\ndimensão de treino. Apolo já estava lá, ajustando os fones de ouvido, os olhos\natentos percorrendo o espaço vazio.
— Ícaro.
A voz de Apolo tinha uma\nnota de surpresa.
— Veio treinar?
— Vim.
Apolo o encarou por um\nmomento. Depois, um sorriso mínimo surgiu nos lábios.
— Então vamos.
Treinaram a tarde toda.
Apolo era exigente.\nCorrigia postura, ajustava ângulos, repetia movimentos até que ficassem\nperfeitos. Ícaro suava, ofegava, mas não desistia. A cada acerto, Apolo\nassentia. A cada erro, instruía com paciência.
Em um momento, após uma\nsequência de golpes que saiu quase perfeita, Apolo parou.
— Você é bom, Ícaro.\nSempre foi. Só tinha esquecido.
Ícaro sentiu algo\naquecido no peito.
"Eu posso fazer\nisso."
Foi quando viu.
Yohan estava sentado no\nchão, encostado na parede. Rubi se aproximou dele. Ela falou algo, baixo demais\npara ouvir. Yohan riu. Respondeu algo. Rubi fez uma careta exagerada, mostrou a\nlíngua, e num movimento rápido pegou a garrafa de água dele e saiu correndo.
— Ei! — Yohan gritou,\nlevantando-se. — Devolve aqui, sua praga!
Saiu correndo atrás dela.
A risada de Rubi ecoou\npelo corredor. Uma risada alta, contagiante.
E algo dentro de Ícaro...\nquebrou.
Ícaro ficou parado, os\nolhos fixos no espaço vazio onde eles estiveram.
E então vieram.
As memórias.
Sua irmã. Um ano mais\nvelha. Cabelos castanhos, olhos claros. Ela roubava o copo de suco dele. Ele\ncorria atrás dela pelo quintal. Ela ria, uma risada alta, contagiante, que\nenchia a casa. Ele a alcançava, os dois rolavam na grama, e ela fazia cócegas\nnele até ele pedir arrego.
"Você é muito lerdo,\nÍcaro!"
"Para! Para!"
"Só se você admitir\nque eu sou a irmã mais legal do mundo!"
"Você é! Você\né!"
A risada dela. O sol. A\ngrama verde. O cheiro de terra molhada.
E depois... a faculdade.\nA saidinha. O abuso. A morte.
A dor de cabeça veio como\numa marreta.
Primeiro, uma pressão\nsurda atrás dos olhos. Depois, latejante. A garganta secou. A boca salivou, não\nde fome, mas de desejo. Desejo por algo que anestesiasse. Que apagasse. Que\nfizesse a imagem da irmã morta parar de dançar atrás de suas pálpebras.
— Ícaro?
A voz de Apolo pareceu\nvir de muito longe.
— Você tá bem?
Ícaro segurou o peito. O\ncoração disparado. A respiração curta.
— Tô. Só... preciso de\nar.
Saiu da dimensão.\nCaminhou pelo corredor. Os pés o levaram até a porta da guild. Até o carro. Até\na estrada.
O bar do Seu Renato.
Ícaro nem lembrava de ter\ndirigido até ali. Mas o carro estava parado em frente. E Seu Renato já estava\nna porta, o pano de prato no ombro, os olhos surpresos.
— Pensei que você não\nvinha hoje, rapaz.
Ícaro desceu do carro. As\npernas tremiam.
— Me dá uma grade.\nRápido. Por favor.
Renato o olhou por um\nmomento. Algo passou pelos olhos do velho português, pena, talvez. Ou\nresignação. Ele pegou a grade, entregou.
Ícaro pagou. Abriu a\nprimeira garrafa ali mesmo, em pé, na calçada.
O líquido gelado desceu\nqueimando.
O segundo gole foi\nmelhor.
O terceiro... o terceiro\napagou a imagem da irmã.
Levou mais algumas grades\npara a guild.
Sentou-se na cadeira de\nsempre, perto do freezer. Abriu outra garrafa. Depois outra. E outra.
O tempo se dissolveu.
As horas escorreram como\nágua entre os dedos. O sol se pôs lá fora, mas Ícaro não viu. A noite chegou, e\nele não percebeu. O refeitório escureceu, e ele continuou ali, bebendo, a mente\nmergulhada em uma névoa espessa onde as memórias não doíam.
Em algum momento, tentou\nse levantar.
As pernas não\nresponderam.
Caiu de volta na cadeira.\nO corpo pesado. A cabeça girando.
"Marina. O\njantar."
Tentou de novo.\nImpossível.
A última coisa que viu\nfoi a porta da dimensão de treino, fechada. Lá dentro, ninguém mais treinava.\nTodos tinham ido embora. Só ele ficara.
Apagou.
Sábado
Acordou com uma dor de\ncabeça que parecia rachar o crânio ao meio.
A boca seca. O corpo\nrígido, torto na cadeira. A luz do sol entrava pelas janelas do refeitório —\nclara demais, dolorosa demais.
Piscou. Tentou entender\nonde estava. A guild. A cadeira. As garrafas vazias ao redor.
E então lembrou.
"Marina. O\njantar."
O pânico subiu pela\ngarganta como bile.
Pegou o celular com mãos\ntrêmulas. A tela acendeu.
Sábado.
O jantar era sexta.
E a tela mostrava dezenas\nde ligações perdidas. Todas de Marina.
"Merda. Merda.\nMerda."
Colocou a cabeça entre os\njoelhos. Um grito abafado escapou — não alto, mas carregado de tudo o que ele\nnão conseguia dizer. Raiva. Vergonha. Desespero.
Ficou ali por um minuto.\nDois. Não sabia.
Depois, pegou cinco\ngarrafas da grade. Abriu a primeira. Bebeu. A segunda. Bebeu. A terceira. O\nlíquido descia sem gosto agora, apenas necessidade.
Pegou o que sobrou da\ngrade e levou para o carro.
Dirigiu.
Uma mão no volante, a\noutra na garrafa. O sol batia forte. As ruas passavam borradas. O caminho de\ncasa, mesmo bêbado ele lembrava o caminho, mesmo destruído.
Estacionou. Saiu do\ncarro. Cambaleou até a porta.
Bateu.
Silêncio.
Bateu de novo. Mais\nforte.
— Marina! Por favor,\nabre!
Nada.
Ligou para ela. Chamou\numa vez. Duas. Três. Na quarta, a voz veio do outro lado da porta. Cansada.\nVazia.
— Vai embora, Ícaro.
— Marina, por favor. Me\ndeixa entrar. A gente conversa.
— Conversar o quê? Você\nfurou comigo. De novo. Me deixou esperando. De novo.
A voz dela tremia.
— Você mentiu, Ícaro.\nDisse que tinha mudado. Que estava sóbrio. Que ia me levar no jantar. Eu\nacreditei. Coloquei o vestido que você gosta. Fui até lá. Sentei na mesma mesa\nde sempre. Debaixo do mesmo guarda-sol azul. E fiquei esperando. E você... você\nnem apareceu.
— Eu sei. Eu sei. Me\ndesculpa.
— Você tá bêbado. Consigo\nouvir pela sua voz. Arrastada. Mole. Você bebeu até de manhã, não foi?
Ícaro encostou a testa na\nporta. A madeira estava fria.
— Não. Eu bebi agora de\nmanhã. Só um pouco. Eu tava no treino ontem, juro.
— Para de mentir, Ícaro.
O silêncio doeu mais que\nqualquer grito.
— Tá bem. Eu bebi ontem\nsim. Tive uma recaída. Mas por favor... me desculpa. Você falou que nunca\ndesistiria de mim.
Do outro lado da porta,\num soluço.
— Eu tô cansada, Ícaro.\nPor favor. Me deixa sozinha hoje.
Uma pausa.
— Você não ia participar\ndo torneio hoje?
O torneio.
O sangue de Ícaro gelou.\nO torneio. A coisa para a qual ele deveria ter treinado. A coisa que Scar\nconfiou que ele faria. A coisa que poderia salvar a guild.
— Marina... quando eu\nvoltar, a gente conversa. Eu prometo.
Silêncio.
— Vai, Ícaro. Boa sorte\nno torneio.
A voz dela era tão\npequena. Tão distante.
Ícaro ficou parado ali\npor um momento. A testa ainda encostada na porta. A mão espalmada contra a\nmadeira, como se pudesse sentir o calor dela do outro lado.
"Ela ainda me\ndesejou boa sorte."
Aquilo doeu mais do que\nse ela o tivesse xingado.
Saiu correndo. Entrou no\ncarro. O motor roncou. As garrafas vazias rolaram no banco do passageiro.
"Eu só preciso\nchegar lá. Só chegar lá."
Direção ao estádio.
O torneio ia começar.
E ele estava bêbado.

