O punho de Luna passou rente ao queixo de Yuri.
Ele cambaleou para trás, os pés deslizando na areia da dimensão de treino. O coração disparado. A respiração curta.
"Quase."
Luna não deu trégua. Avançou com um chute baixo. Yuri bloqueou com a canela — sentiu o impacto subir pela perna como uma corrente elétrica.
"Ela é rápida. Rápida demais."
— Tá melhorando — Luna disse, um sorriso no canto dos lábios.
Yuri não respondeu. Estava ocupado demais tentando não cair.
Ao lado, sentada numa cadeira de praia minúscula, Lilica balançava as patinhas de crochê no ar.
— Vai, Luna! Acaba com ele! — gritou a gata, a voz fina e animada. As orelhas de pano balançavam a cada movimento.
Yuri lançou um olhar rápido para ela.
"Claro. Até a pelúcia torce contra mim."
Luna riu.
— A Lilica é imparcial. Ela só torce pra quem dá comida.
Lilica levantou-se na cadeira, as patinhas erguidas.
— Vai, Luna! A Lilica tá torcendo por você! Bate nele daquele jeito que eu te ensinei!
A gata de crochê dava vários soquinhos no ar, os olhos azuis brilhando de empolgação.
— E ela te dá comida? — Yuri perguntou para a gata, desviando de outro golpe.
— Dou. — Disse Luna, pressionando Yuri com vários golpes.
— Então tá explicado.
Luna preparou o próximo ataque mas parou. Os olhos se desviaram para a entrada.
Yuri sentiu também. Uma presença. Três, na verdade.
A porta da dimensão se abriu.
Três figuras entraram na sala de treino.
A primeira veio como um foguete.
Uma garota de cabelo ruivo vibrante, preso em duas marias-chiquinhas, correu na direção deles com os olhos arregalados e um sorriso que ocupava metade do rosto. As mechas soltas balançavam como labaredas. Vestia um casaco preto longo e ajustado, que descia até os quadris, sobre uma camisa branca de colarinho. A gravata vermelha, fina e precisa, contrastava com a saia curta escura e as meias longas que subiam até acima dos joelhos. Os sapatos eram simples, resistentes feitos para correr e lutar.
Ele mal teve tempo de processar.
Ela parou a poucos centímetros de Yuri.
— Pode ir, Luna! — disse, a voz carregada de entusiasmo. — Eu fico no seu lugar! É divertido lutar!
Luna riu, já recuando.
— Rubi, pega leve com ele. Ele ainda é novo.
Rubi concordou com a cabeça, olhando para Luna.
— Pode deixar.
Então ela se virou completamente para ele.
E Yuri sentiu o estômago gelar.
Os olhos de Rubi antes normais, quase entediados enquanto conversava com Luna agora estavam arregalados. As pupilas dilatadas. O brilho ali não era de curiosidade. Era de fome.
O sorriso... o sorriso era largo demais. Alegre demais. Como se ela tivesse acabado de encontrar o brinquedo mais divertido do mundo.
"Ela quer me matar?", pensou Yuri. "Ou só quer brincar?"
Não sabia qual opção era pior.
— Rubi.
A voz veio de trás. Calma. Firme.
O segundo irmão se aproximou. Cabelo loiro claro, bem alinhado, caindo suavemente sobre a testa. Os olhos azul-acinzentados observavam a cena com uma serenidade que contrastava brutalmente com a energia de Rubi. Vestia-se com uma elegância simples camisa social clara, calças bem ajustadas. Nada fora do lugar.
— Não é hora para isso — ele disse. — Precisamos falar com ele.
Rubi fechou a cara instantaneamente. O sorriso macabro desapareceu, substituído por uma expressão de profunda decepção. Os olhos perderam o brilho maníaco e ficaram... vazios. Como se alguém tivesse apagado uma lâmpada.
— Seu bobalhão — resmungou, cruzando os braços. — Chato.
O loiro suspirou, mas havia um quase sorriso no canto dos lábios.
— Depois você brinca com ele.
Rubi bufou. Ficou parada ali, os braços cruzados, o rosto sério. Quase triste. Como uma criança que acabaram de proibir de brincar.
Yuri ainda tentava processar a mudança brusca de personalidade quando percebeu a terceira figura.
Ela se aproximou devagar. Sem pressa. Sem fazer barulho.
Cabelo azul intenso, curto, caindo sobre o rosto como se quisesse escondê-lo. Uma bandana vermelha no pescoço. Roupas largas, masculinas jaqueta de couro preta, calça cargo, coturnos pesados.
Yuri notou os seios. Generosos demais para o corpo esguio. Ela vestia camadas para disfarçar, mas aquilo... aquilo ela não conseguia esconder.
"Ela é uma garota?", pensou. "Mas por que se veste como homem?"
Os olhos castanhos claros o observaram por um instante breves, avaliadores e depois se desviaram. Como se ele não merecesse mais do que um segundo de atenção.
O loiro se colocou entre eles, os gestos abertos, o sorriso fácil.
— Prazer, Yuri. Soube que você chegou há pouco tempo.
A voz era calma. As palavras, medidas. Nada parecido com Rubi ou Luna.
"Esse aí é perigoso de outro jeito", pensou Yuri. "Perigoso de inteligência."
O garoto estendeu a mão.
Yuri apertou. O aperto era firme, mas não agressivo. Controlado.
— Sou Yohan — ele continuou. Apontou com o queixo para Rubi, ainda emburrada. — Aquela ali é a Rubi. Ela não morde. Geralmente.
Rubi mostrou a língua para ele.
Yohan ignorou.
Então virou-se para a terceira figura.
— E essa é a Ciel.
Yuri olhou para ela. Ciel permaneceu imóvel, os braços cruzados sobre o peito, o olhar perdido em algum ponto distante da dimensão de treino.
Ele estendeu a mão.
— Prazer.
Ciel não se moveu.
Os braços continuaram cruzados. O rosto não virou.
Apenas... silêncio.
Yuri ficou com a mão estendida no ar por um segundo. Dois. Três.
Então a recolheu, devagar.
"Certo. Essa não gosta de mim."
Yohan pareceu notar o desconforto, mas não comentou. Apenas manteve o sorriso educado.
— Scar quer falar com você, Luna. Parece que é importante.
Luna, que já estava indo em direção a Lilica, parou. Virou-se.
Yohan continuou:
— Ele disse que quer conversar com você também, Yuri. Mas é sobre outro assunto. Então... Luna vai primeiro.
Luna franziu a testa. Olhou para Yohan parecia tentar decifrar o que estava acontecendo.
— Comigo?
— Com você — disse Yohan de forma tranquila.
Luna desviou o olhar para Yuri. Rápido. Provavelmente tentando entender por que ele também fora chamado.
Depois assentiu, como se aceitasse que entenderia depois.
— Depois a gente continua o treino — disse a ele.
Yuri assentiu.
Luna saiu. Lilica saltou da cadeira e correu atrás dela, as patinhas de crochê mal tocando o chão.
— Espera, Luna! Lilica vai também!
Yohan deu um passo na direção da saída, mas Rubi não se moveu. Continuava parada no mesmo lugar, os braços cruzados, os olhos vazios fixos em Yuri.
— Rubi — Yohan chamou.
Ela não respondeu.
— Rubi.
— Tô indo — resmungou.
Passou por Yuri devagar. Quando estava ao lado dele, virou o rosto apenas o suficiente para que ele visse seu perfil.
— Depois a gente brinca — sussurrou.
E saiu.
Yuri sentiu um arrepio.
Ciel foi a última. Passou por ele sem olhar, sem falar.
Mas não saiu.
Caminhou até o oásis, onde as palmeiras faziam sombra sobre a areia. Encostou as costas em uma delas, uma perna apoiada no chão, a outra dobrada contra o tronco da árvore. Os braços continuavam cruzados. Os olhos castanhos, perdidos em algum ponto distante — ou talvez apenas evitando olhar para Yuri.
A porta se fechou atrás de Yohan e Rubi.
Yuri ficou... não exatamente sozinho.
A areia ainda marcava as pegadas da luta com Luna. O suor escorria pela testa. A garganta seca.
"Água."
Olhou para Ciel. Ela continuava imóvel, os olhos fixos em nada.
— Ei... você tem água aí?
Silêncio.
Yuri esperou. Nada.
— Ou sabe onde tem? — insistiu, dando um passo na direção dela.
Nada. Os olhos castanhos nem se moveram.
Yuri coçou a nuca. "Difícil."
Tentou de novo. Algo mais pessoal, talvez.
— Você é irmã mais velha da Luna?
Dessa vez, ela se mexeu.
Virou o rosto lentamente. Os olhos castanhos finalmente encontraram os dele. Não havia curiosidade ali. Nem timidez. Apenas... seriedade. Uma parede.
Yuri sustentou o olhar por um segundo.
Então ela desviou. Virou a cabeça para o lado com um movimento seco. Raiva. Ou algo muito parecido com raiva.
"O que eu fiz?"
Yuri recuou, levantando os braços. Não ia insistir.
Caminhou até o outro lado do oásis, longe dela, e sentou-se na areia. O coração, aos poucos, voltava ao normal.
"Essa família é maluca."
Respirou fundo. Sentiu o peso da presença dela mesmo de costas, mesmo em silêncio.
"E eu estou no meio dela."
Yuri não sabia quanto tempo havia passado.
Sentado na areia do oásis, as pernas cruzadas, os olhos fechados. Tentava sentir o fluxo do Limiar ao redor — a água invisível onde todos boiavam. Safira dissera que Vigília era como abrir os olhos debaixo de um rio.
"Então abre logo."
Mas o rio estava turvo. Ele sentia a presença de Ciel do outro lado do oásis uma mancha escura no canto da percepção. Imóvel. Silenciosa. Como uma pedra.
"Ela ainda está ali."
Não sabia por que ela ficara. Talvez esperasse algo. Talvez apenas preferisse a solidão da dimensão de treino à companhia dos outros. Yuri não entendia. E, sinceramente, depois da virada de cabeça com raiva, não estava com pressa de tentar de novo.
Inspirou. Expirou.
O fluxo pulsava. Fraco. Distante. Como um coração batendo atrás de uma parede grossa.
"Melhor que ontem."
A porta da dimensão se abriu.
Yohan entrou. Os passos calmos, o sorriso fácil no rosto. Tudo nele parecia... arrumado. Como se o caos daquela família nunca o tocasse.
Ele olhou para Ciel.
— Scar quer falar com a gente. Está na hora.
Ciel não respondeu. Apenas se desprendeu da árvore com um movimento fluido, os braços ainda cruzados, e caminhou em direção à porta. Passou por Yohan sem olhar.
Yohan suspirou — um som leve, quase divertido.
Então virou-se para Yuri.
— Você também. Vem.
Yuri levantou-se, sacudindo a areia das roupas. Seguiu os dois pelo corredor. Ciel ia na frente, os passos silenciosos, a bandana vermelha balançando no pescoço. Yohan caminhava ao lado de Yuri, os gestos abertos, o ritmo tranquilo.
— Luna falou que você chegou há pouco tempo — Yohan disse. — Está se adaptando?
Yuri deu de ombros.
— Ainda tentando entender metade do que acontece aqui.
Yohan sorriu.
— Leva tempo. Mas logo você se acostuma.
Yuri sentiu que Yohan parecia genuinamente interessado. Algo na voz dele calma, sem pressa fazia Yuri querer responder mais do que o habitual.
"Minha primeira impressão é que ele era perigoso", pensou Yuri. "Mas acho que me enganei. Ele parece ser um cara legal. Ou será que ele se comporta assim para ganhar confiança rápido?"
Yuri deu de ombros. Talvez seu instinto de desconfiança estivesse indo longe demais.
— Você é irmão deles também? — Yuri perguntou. — Adotado, quero dizer.
— Sim. Scar me adotou quando eu tinha três anos. Logo depois do incidente na Europa.
"Incidente na Europa?"
Yuri queria perguntar mais. Mas algo na forma como Yohan desviou o olhar — rápido, quase imperceptível — o fez recuar.
"Cada um com seus fantasmas."
Chegaram ao final do corredor. Uma porta de madeira escura, pesada. Na altura dos olhos, uma folha de papel sulfite colada com fita adesiva nas pontas uma das fitas já descolando, a folha levemente amassada.
A letra era horrível. Rabiscos apressados, quase ilegíveis.
"Líder da Guild."
Yuri piscou.
"Isso é... oficial?"
Yohan percebeu o olhar dele e sorriu.
— Scar disse que placa de metal é coisa de gente que se leva a sério demais.
Yuri não soube se ria ou se preocupava.
Yohan abriu a porta e segurou para que Yuri entrasse.
— Depois conversamos mais — disse, com um sorriso.
Ciel entrou logo atrás. Yohan fechou a porta.
A sala era ampla, mas parecia pequena com tanta gente dentro.
Yuri reconheceu alguns. Outros, não.
Safira estava encostada na parede dos fundos, os braços cruzados, os olhos roxos percorrendo a sala como se catalogasse cada pessoa. Ao lado dela, um homem alto, de ombros largos, pele negra, cabelo trançado em fileiras precisas. Os olhos eram intensos, atentos olhos de predador. Vestia um casaco longo preto de combate, uma armadura tecnológica ajustada ao torso. Fones de ouvido grossos descansavam no pescoço.
"Deve ser o Apolo."
Rubi estava sentada no chão, as costas contra a parede, os joelhos abraçados. A expressão entediada mas os olhos, aqueles olhos vazios de peixe morto, se moveram lentamente até Yuri. Ele desviou o olhar antes que ela sorrisse.
Perto da janela, dois homens que Yuri não conhecia. Um deles vestia um sobretudo preto até os pés, uma bata de padre por baixo, com listras azuis-escuras terminando em pequenas cruzes. O chapéu preto de abas largas cobria parte do rosto. As luvas de couro tinham crucifixos desenhados e as palavras "Jesus Cristo" escritas nos punhos.
"Um padre?"
Ao lado dele, outro homem. Mais baixo, mas não menos imponente. Sobretudo preto, camisa azul escuro, uma bandana vermelha com uma lua cheia cobrindo os olhos. Uma bengala escura apoiada na parede ao lado. No peito, um broche de meia-lua vermelha pulsava fracamente.
"Um cego? Com uma bengala?"
Yuri lembrou-se de algo que Safira dissera no primeiro dia. "A casa é cheia."
"Não brincou."
Havia outro homem. Magro, cabelo castanho claro levemente desalinhado, olhos verdes turvos, mas atentos. Vestia um casaco longo cinza claro, uma echarpe escura no pescoço. Estava encostado na parede, os braços cruzados, a expressão de quem preferia estar em qualquer outro lugar.
"Esse aí parece tão perdido quanto eu."
Scar estava sentado atrás da mesa, os pés apoiados sobre a madeira, o chapéu cobrindo parcialmente o rosto. Mas, diferente da primeira vez que Yuri o vira, agora ele não parecia entediado. Parecia... cansado. Como se o peso daquela reunião já estivesse sobre seus ombros antes mesmo de começar.
Quando Yohan fechou a porta, Scar tirou os pés da mesa e endireitou-se na cadeira.
— Bem. Já que todos estão aqui, vamos começar.
A sala ficou em silêncio.
Scar respirou fundo.
— Hoje de manhã, fui a Brasília. Na reunião dos Dourados.
O padre inclinou a cabeça.
— E o que aconteceu?
Scar contou. Sobre Antonio Castelo, o novo Dourado da região Norte. Sobre a acusação de que a guild era uma farsa. Sobre a votação para dissolvê-la. Sobre Nonato e Fritz defendendo, Henrique e Castelo atacando. Sobre Nero jogando a decisão para ele.
— E eu aceitei as condições — Scar concluiu. — A guild participa do torneio regional. Se vencermos em pelo menos três categorias, continuamos de pé. Se perdermos...
Não precisou terminar.
— O torneio é no próximo sábado. Temos uma semana.
Silêncio.
O padre foi o primeiro a falar.
— Sábado?
Scar assentiu.
O padre suspirou. Passou a mão enluvada pelo rosto.
— Scar... eu não vou poder. Tenho um evento na igreja no sábado e no domingo. Não posso faltar.
Scar colocou os dedos entre os olhos, esfregando. Parecia uma frustração contida.
— Tudo bem, Janderson — disse, por fim. — Eu entendo.
Janderson pareceu aliviado. Mas também culpado. Yuri percebeu o conflito nos olhos do padre antes que ele desviasse o olhar.
O homem da bandana ergueu a mão.
— Eu também não vou.
Scar o encarou.
— Por quê?
— Pedi folga de três dias. Minha folga cai justamente nesse fim de semana do torneio.
Scar inclinou-se para frente.
— Se você não participar Douglas, eu tiro essas folgas.
A sala mudou.
Douglas não se moveu. Mas algo ao redor dele... escureceu. A aura Yuri sentiu pela primeira vez, uma pressão densa, fria, como se a sombra da bandana tivesse engolido a luz.
Lentamente, Douglas puxou um revólver da carteira, mas a arma parecia ter sido puxada de outra dimensão.
Apontou para Scar.
Scar ergueu as mãos. Um suor escorreu pela testa. Um sorriso amarelo brotou do seu rosto.
— Tudo bem, você me convenceu. Ganhou cinco dias de folga.
Douglas não se moveu. A arma continuou apontada.
Então, lentamente, sua mão livre foi em direção à carteira novamente como se fosse puxar outra arma.
Scar gritou, a voz espalhafatosa e desesperada:
— Tudo bem, tudo bem! Dez dias de folga! Ou se quiser pode ganhar até mais!
Douglas o encarou por um momento. Longo. Silencioso.
Então guardou a arma dentro da carteira. A aura se dissipou como fumaça.
— Assim está melhor.
Scar limpou a testa com as costas da mão, o sorriso amarelo ainda no rosto. Yuri viu seus lábios se moverem, quase inaudíveis.
— Maldito tucano... — Ele ajeitou o chapéu e pigarreou, a voz firme novamente. — Como eu ia dizendo, vamos precisar do apoio de todos. Treinamento intensivo esta semana. Quem vai lutar, vai lutar para vencer. Quem não vai, ajuda como puder. Os filhos de Scar assentiram. Apolo, Safira, Rubi, Ciel, Yohan. Até o homem de olhos turvos, deu um aceno vago.
Yuri sentiu o estômago apertar.
— Por que eu deveria participar?
Todos os olhos se viraram para ele.
Scar o encarou. O silêncio durou por alguns segundo.
— Porque eu tenho informações sobre sua mãe.
O coração de Yuri disparou.
— Então fala logo. Não tenho tempo a perder.
Scar não se moveu.
— Safira. Douglas. Fiquem. O resto... saia.
Houve um murmúrio. Cadeiras arrastando. Passos.
Rubi foi a primeira a sair, lançando um olhar para Yuri não de raiva, mas de curiosidade. Como se ele tivesse acabado de ficar mais interessante.
Yohan tocou o ombro de Yuri ao passar.
— Boa sorte.
Ciel saiu sem olhar para trás.
O homem de cabelos castanhos bocejou e seguiu os outros.
Janderson parou na porta. Olhou para Scar.
— Depois conversamos.
Scar assentiu.
A porta se fechou.
Ficaram apenas Scar, Safira, Douglas e Yuri.
— Uma mão lava a outra — Scar disse, recostando-se na cadeira.
Yuri cerrou os punhos.
— Que informação você tem?
Scar apontou para Douglas.
— Ele é o melhor detetive da guild. Está investigando o que aconteceu com Kamila. E conseguiu informações... quentes.
Douglas não disse nada. Apenas observava Yuri por trás da bandana Yuri sentia o peso daquele olhar, mesmo sem ver os olhos.
— E por que eu deveria acreditar?
— Porque eu não minto sobre mães — Scar respondeu, a voz mais baixa. Mais séria.
Yuri sustentou o olhar.
— O que você quer?
— Que você treine. Que se esforce. Que lute no torneio. Se você fizer isso... eu te conto o que descobrimos.
Yuri rangeu os dentes.
— Isso é chantagem.
— Isso é negociação.
Safira deu um passo à frente.
— Apolo pode treinar ele.
Scar virou-se para ela.
— Apolo é bom com Iniciados. Yuri é Desperto. Ele precisa do básico.
— Ele já tem o básico — Safira disse, os olhos roxos fixos no pai. — Vigília, Égide, Véu. Ele domina os três pilares melhor do que qualquer Desperto que já vi. O que ele precisa é combate físico. E nisso... Apolo é um dos melhores.
Scar franziu o cenho.
— E você?
Safira cruzou os braços. Os olhos brilharam.
— Você nunca me deixou participar de um torneio antes. Agora que posso... eu quero estar pronta. Quero lutar.
Silêncio.
Scar suspirou. Passou a mão no rosto.
— Tá bom. Apolo vai treina ele. Você se prepara.
Safira assentiu. Yuri viu algo nos olhos dela — não era apenas empolgação. Era fome.
"Ela realmente quer isso."
Douglas pigarreou.
— Já posso sair?
Scar acenou com a mão.
— Vai.
O detetive caminhou até a porta. Antes de sair, parou ao lado de Yuri. A mão pousou em seu ombro firme, mas não agressiva.
— Seja forte, garoto.
A voz era baixa. Quase gentil.
— Vamos encontrar sua mãe.
E saiu.
A porta se fechou atrás dele.
Yuri ficou parado, o peso daquelas palavras ainda no ombro.
Scar chamou Apolo de volta.
O homem alto entrou na sala, os fones agora pendurados no pescoço. Os olhos atentos percorreram o ambiente antes de pousarem no líder da guild.
— Treina ele — Scar disse, apontando para Yuri. — E também Ciel, Yohan e Rubi.
Apolo arqueou uma sobrancelha.
— Todos?
— Todos. Precisamos de vencedores em três categorias. Desperto, Iniciado, Dominador. Você vai lapidar os Iniciados e o Desperto. Safira cuida de si mesma.
Apolo coçou o queixo.
— Rubi... precisa mesmo de treino?
Scar soltou uma risada curta.
— Pois é. Achei que você ia reclamar dela.
Apolo balançou a cabeça.
— Não é reclamação. É que ela já é um monstro.
Apolo sorriu, um sorriso calmo, controlado.
— Mas monstros também precisam ser lapidados.
Yuri sentiu um arrepio. Lembrou-se do olhar de Rubi. Do sorriso macabro. Do "Depois a gente brinca."
"Eu vou ter que treinar com ela?"
— E a Luna?
A pergunta saiu antes que Yuri pudesse segurar. A voz mais baixa do que pretendia.
Scar o olhou.
— Não. A equipe principal já está definida. Luna precisou sair em uma missão importante. Outros quatro irmãos foram com ela.
Yuri assentiu. Não perguntou mais nada.
Mas algo dentro dele apertou.
"Ela nem se despediu."
Apolo deu um passo em direção à porta.
— Amanhã cedo, então. Sala de treino. Não se atrase.
Olhou para Yuri.
— Você vem comigo agora. Vou te mostrar os equipamentos que vai precisar. Geralmente meu treinamento não é fácil. Vou te levar na cozinha para você preparar alguns alimentos, porque vamos ficar focados e dentro da dimensão até um dia antes do torneio.
Fez uma pausa. Os olhos intensos fixos em Yuri.
— Então se prepare, garoto.
Yuri sentiu o peso daquelas palavras.
"Até um dia antes do torneio."
"Sem sair da dimensão."
"Com ele. E com Rubi."
Engoliu seco.
Scar acenou com a cabeça.
— Vai. Amanhã começa a parte difícil.
Yuri seguiu Apolo para fora da sala.
O corredor estava vazio agora. As vozes da reunião tinham se dissipado. Apenas o som dos passos os de Apolo, firmes e cadenciados; os de Yuri, mais hesitantes.
"Uma semana."
"Minha mãe."
"Luna."
Os pensamentos se atropelavam..
— Apolo.
Ele não diminuiu o passo.
— O quê?
— A Luna... ela vai ficar bem? Na missão?
Apolo demorou um segundo para responder.
— Minha irmã é mais forte do que parece.
Yuri não soube se aquilo era uma resposta ou uma forma de encerrar o assunto.
Apolo parou diante de uma porta de metal, diferente das outras mais larga, com uma fechadura reforçada. Puxou uma chave do bolso e abriu.
A sala de equipamentos era um depósito organizado. Estantes de metal, ganchos na parede, baús abertos. Espadas, facas, bastões, correntes, luvas com reforços metálicos, coletes de couro, caneleiras. Algumas armas brilhavam com um resíduo fraco de Limiar encantadas, Yuri supôs. Outras eram simples, gastas pelo uso.
Apolo apontou para uma estante.
— Pode escolher uma dessas armas para treinar. Se quiser, eu te ensino a usar.
Yuri olhou para as opções. Uma espada curta. Um bastão de madeira escura. Uma adaga de lâmina curva. Um par de manoplas de couro com pequenas esferas metálicas nos nós dos dedos.
Antes que pudesse decidir, Apolo continuou:
— Mas você precisa levar aquilo. E aquilo também.
Apontou para uma mochila reforçada no canto, já abarrotada de equipamentos. Ao lado, um colete pesado, com placas de metal costuradas no tecido. E mais adiante, um par de tornozeleiras grossas, com pequenos pesos presos a elas.
Yuri piscou.
"Caramba. É muita coisa."
Olhou para a mochila, para o colete, para as tornozeleiras, para a estante de armas.
"Esse treinamento realmente vai ser pesado."
Apolo pareceu ler seus pensamentos.
— Você disse que queria encontrar sua mãe. Isso não vai acontecer se você não sobreviver ao torneio. E não vai sobreviver se não estiver preparado.
Yuri assentiu. Não havia espaço para reclamações.
Pegou a mochila. Pesava mais do que parecia. O colete, então, nem se fala.
Apolo o levou até a cozinha uma sala ampla, com uma mesa longa e prateleiras cheias de mantimentos. Yuri preparou alguns alimentos secos, frutas, pães, água. Tudo foi para dentro da mochila.
Depois, Apolo o guiou até um corredor mais silencioso. Parou diante de uma porta simples.
— É aqui. Refeitório é no fim do corredor. Banheiro à esquerda. Qualquer coisa, grita.
Yuri assentiu.
Apolo ia se virar para sair, mas parou.
— Ei, garoto.
Yuri ergueu os olhos.
— A Luna falou de você.
O coração de Yuri disparou.
— Falou o quê?
Apolo sorriu, um sorriso enigmático, difícil de ler.
— Que você é persistente.
E saiu.
Yuri ficou parado no corredor, a mão na maçaneta, o rosto quente.
"Persistente."
Não sabia se era um elogio ou um aviso.
Abriu a porta. O quarto era simples, cama, armário, uma janela que dava para o jardim impossível.
Largou a mochila no chão. O baque foi mais alto do que esperava.
Sentou-se na cama.
Olhou para o teto.
Fechou os olhos.
"Eu vou encontrar você, mãe. Eu prometo."
Uma batida na porta.
Yuri abriu os olhos.
Scar estava encostado no batente, o chapéu cobrindo parcialmente o rosto. Parecia... apressado. Ou talvez apenas não quisesse ser visto ali.
— Yuri. Esqueci de te falar uma coisa.
Yuri sentou-se na cama.
— O quê?
Scar tirou uma papelada dobrada do bolso do casaco de forma desengonçada. Estendeu para ele.
— Preciso que você assine esse documento. Dizendo que faz parte da nossa guild. Só assim pode participar do torneio.
Yuri pegou a papelada. O papel era amarelado, como se tivesse sido impresso há décadas e nunca usado. No topo, um carimbo borrado que ele não conseguiu ler. Era um formulário denso, cheio de parágrafos minúsculos, cláusulas numeradas, termos em negrito. "O participante declara...", "Em caso de ferimento grave...", "A guild não se responsabiliza por..."
Scar fez um gesto com a mão.
— Pode virar essas páginas. Não tem nada de interessante pra ler. Só assina aqui.
Apontou para uma linha pontilhada no final da última folha.
Yuri franziu o cenho.
"Isso é muito suspeito."
Olhou para Scar. O homem do chapéu sustentou o olhar ou pelo menos pareceu sustentar, já que a aba cobria metade do rosto.
"Ele está escondendo algo."
Mas Yuri pensou na mãe. No torneio. Na promessa de Scar. Na informação que Douglas tinha.
Pegou a caneta que Scar oferecia.
Assinou.
Scar recolheu a papelada rapidamente, dobrou e guardou no bolso.
— Bom garoto. Descansa. Amanhã começa o inferno.
E saiu.
A porta se fechou.
Yuri ficou olhando para o teto novamente.
"O que foi que eu assinei?"
"Será que importa?"
Fechou os olhos.
Lembrou-se da voz dela ao telefone. "Yuri, me escuta com atenção agora."
"Eu só queroencontrar minha mãe."

