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Nova Era
06 - Scar
2664 palavras • 15406 caracteres • ⏱ 10 min 39 s

06 - Scar

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Scar estava em sua sala — o escritório do líder da guild. Os pés apoiados sobre a mesa, o chapéu cobrindo o rosto. Quase cochilava.

"Eu mandei o Douglas procurar pistas do que aconteceu com a Kamila..."

O pensamento veio como um estalo.

"Uma semana atrás. E nada dele me responder."

Scar tirou os pés da mesa e se sentou corretamente. Só então percebeu o suor escorrendo pela testa. O calor estava insuportável.

Olhou para o ventilador. Parado.

"Que maravilha. O Devorador não para de me trollar. Toda vez que as coisas começam a andar, alguma coisa quebra, some ou explode. Agora uma nova dívida."

Pegou o celular. Uma notificação piscava na tela.

Ligação perdida: Nonato de Arimateia.

Fazia meses que o Dourado líder da região Nordeste não ligava. Scar franziu o cenho e retornou a chamada.

Do outro lado, a voz veio carregada de sotaque, arrastada e calorosa.

— Oxe, Scar, meu filho! Por que você não apareceu na reunião dos dourados?

Scar piscou.

— Não recebi nenhum convite.

Nonato não perdeu o ritmo.

— Acredito que seja bom você vir o mais rápido possível. Deram um tempo na reunião, a gente tá comendo uns petiscos aqui... mas é do seu interesse aparecer.

Scar ignorou a provocação.

— A reunião está no lugar de sempre? Em Brasília?

— Sim, sim. E lhe garanto, você vai se amarrar nos salgadinhos que estão aqui hoje. Estão uma delícia.

Uma pausa. Scar já sabia que vinha mais.

— Ah... e tenho notícias boas e más pra te contar.

Scar revirou os olhos.

— Não existem notícias boas e más. Só existem notícias.

— Lhe garanto que você vai mudar de ideia quando escutar. Já vou lhe dar o spoiler da boa, acredita que minha irmã tá grávida? Vou ser titio! Da hora, né?

Scar manteve o rosto imóvel.

— Parabéns. Pensei que a notícia boa era pra mim.

Nonato riu do outro lado. Uma gargalhada longa, genuína, que ocupou a linha por alguns segundos.

— Pois bem... nunca disse que a notícia boa era pra você.

Scar esperou. Os olhos fixos em algum ponto vazio da parede.

— Mas a ruim é.

A risada continuou. Scar não se moveu.

— É... a notícia má e ruim sempre é pra mim, né? Sempre tem que ser. E aí, vai me spoilar qual é?

Nonato parou de rir — mas o sorriso ainda estava lá, audível na voz.

— Bem... use seu portal e venha pra cá agora. Quero ver sua reação quando eu lhe contar.

Scar ficou em silêncio por um segundo.

— Tá bom. Vou aí.

Desligou.

Olhou para o ventilador parado. Depois para a parede à sua frente.

"Notícia ruim."

Suspirou.

"Sempre é."

Estendeu a mão direita. A sombra no canto da sala escorreu pelo chão e subiu pela parede como tinta viva, abrindo-se num círculo perfeito. O ar dentro do portal tremia, distorcido, como se o espaço tivesse enjoos de existir ali.

Scar sentiu o puxão familiar no peito — aquele desvio minúsculo de energia que Bahamut sugava. Nada grave. Mas sempre lá. Cada portal, cada técnica, cada movimento. Metade dele estava sempre ocupada mantendo o dragão no lugar.

Atravessou.

Do outro lado, Brasília.

O sol castigava o estacionamento. O calor aqui era diferente, seco, agressivo, como se o ar tivesse sido espremido até não sobrar nada além de luz e poeira. Scar sentiu o suor secar instantaneamente na pele.

Caminhou até a entrada de um prédio discreto, concreto, vidro escuro, zero placas. Nada indicava que ali se reuniam alguns dos usuários mais poderosos do país. O segurança o reconheceu e apenas acenou com a cabeça, abrindo a porta sem perguntas.

O corredor era climatizado. O alívio foi imediato.

Seguiu até a sala de reuniões. Antes mesmo de abrir a porta, ouviu vozes abafadas e o cheiro de salgadinhos fritos.

Abriu.

A sala era ampla, com uma mesa oval de madeira escura. Sobre ela, bandejas de salgadinhos, uma garrafa térmica de café e copos espalhados — o caos organizado de uma pausa prolongada.

Fritz Müller, o líder da região sul, estava sentado à esquerda, o casaco azul-marinho impecável sobre o corpo robusto. Sobre os ombros largos, a meia-capa dourada pendia em pregas perfeitas, presa por um broche com o símbolo da Irmandade do Chimarrão. O tecido refletia a luz em um tom âmbar envelhecido — o amarelo da bandeira, pensou Scar. O ouro do poder que eles carregavam. A postura de Fritz era ereta, o olhar calmo. O grande bigode loiro, com as pontas curvadas para cima, reforçava a figura de general. Sempre parecia estar aguardando o próximo movimento enquanto passava os dedos pelo bigode.

Nero Plínio, o líder da região centro-oeste, ocupava a cabeceira oposta. Alto, magro, extremamente elegante. O terno preto tinha cortes tão precisos que pareciam desenhados com régua. Camisa branca impecável. Gravata preta fina demais para ser acidente. Abotoaduras prateadas discretas. Tudo nele transmitia controle. Até o jeito como os cabelos pretos lisos estavam penteados para trás, perfeição absoluta, sem um fio fora do lugar. O rosto fino, de maxilar definido, não revelava nada. Os olhos cinza-escuros pareciam avaliar cada detalhe do ambiente. E das pessoas nele. A expressão vazia no rosto não era tédio. Scar reconhecia aquele tipo. Era cálculo. A meia-capa dourada sobre os ombros parecia deslocada, como se a cor vibrante recusasse combinar com a frieza cinzenta dos olhos dele. O broche exibia o símbolo do Planalto do Horizonte. Os olhos de Nero se moveram lentamente até Scar, avaliando, calculando. Depois voltaram para o copo de água à sua frente mas não antes de um quase imperceptível erguer de sobrancelha. Como se a presença de Scar fosse uma variável que ele já tivesse antecipado e descartado.

Henrique Menezes, o líder da região sudeste, falava algo baixo para uma assistente. Era alto, atlético, vestido em um terno grafite de corte impecável o tipo de homem que parecia ter saído de uma reunião de negócios e entrado em outra sem intervalo. O cabelo castanho escuro estava perfeitamente penteado, a barba curta bem aparada. Os olhos, castanhos profundos, estavam sempre atentos, como alguém que nunca dorme completamente tranquilo. A meia-capa dourada estava jogada sobre o encosto da cadeira, ele priorizava a mobilidade para gesticular enquanto dava ordens pelo celular. O broche da Locomotiva de Aço brilhava mesmo à distância.

Nonato de Arimateia, o líder da região nordeste, estava recostado numa cadeira, um copo de suco na mão, rindo de algo que Fritz acabara de dizer. Era alto, ombros largos, a pele morena dourada marcada pelo sol do litoral. O cabelo preto ondulado caía em comprimento médio, sempre um pouco bagunçado pelo vento. Vestia um blazer de linho bege claro sobre uma camisa branca com alguns botões abertos no colarinho, elegante, mas confortável. A meia-capa dourada pendia torta sobre um dos ombros, ele nunca se importava em mantê-la alinhada. O broche do Conclave do Sol refletia a luz em pequenos raios. Ao ver Scar, abriu um sorriso enorme. O tipo de sorriso que conquistava pessoas sem esforço.

— Olha aí! O Arquiteto resolveu dar as caras!

Scar fechou a porta atrás de si.

Os Dourados sempre usavam aquela meia-capa dourada. Símbolo de liderança. De poder. De pertencimento.

Ele não.

Nunca carregara.

— Cadê minha notícia ruim?

Nonato trocou um olhar rápido com Fritz. Rápido demais.

Scar percebeu que ele não tinha sido convidado. Nonato ligou por conta própria. Nenhum dos outros três parecia surpreso com sua chegada — apenas... desconfortáveis.

Algo tinha mudado.

— Alguém vai falar ou eu preciso adivinhar?

Nonato suspirou. O sorriso desmanchou-se lentamente, como açúcar no café. Olhou para os lados, Henrique ao celular, Nero impassível, Fritz aguardando. Ninguém parecia disposto a começar.

— É sobre você — disse Nonato, a voz mais baixa do que o normal. — O título de Dourado.

Scar não piscou.

— O que tem ele?

— Não é mais seu.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até Henrique abaixou o celular.

Scar permaneceu imóvel.

— Quem ficou no meu lugar?

— Antonio Castelo — respondeu Nonato. — Assumiu seu lugar. A votação foi ontem. Você não foi convidado justamente por isso.

Nonato fez uma pausa. Olhou para Fritz, para Henrique, para Nero. Nenhum deles sustentou seu olhar por muito tempo.

— Eu queria que você soubesse antes. Mas também queria ver a reação dos nossos companheiros que decidiram esse absurdo em votação.

Nonato começou a gargalhar. Uma risada alta, exagerada, que ecoou pela sala como se ele tivesse acabado de contar a piada mais genial do mundo. A meia-capa dourada escorregou ainda mais para o lado com o movimento de seus ombros.

— Eu fui contra, obviamente! — conseguiu dizer entre uma risada e outra.

Fritz desviou o olhar, ajustando a gola do casaco. Henrique voltou a digitar no celular, os lábios apertados. Nero permaneceu imóvel, o sorriso mínimo ainda no canto da boca mas algo nos olhos cinzentos mudou. Um brilho. Divertido? Irritado? Impossível dizer.

Scar não riu.

Apenas observou Nonato gargalhando sozinho na sala silenciosa.

Quando Nonato finalmente se acalmou, enxugando uma lágrima do canto do olho, Scar desviou o olhar para a porta. Como se soubesse.

"Castelo. Agora Dourado. O líder da Dossel Imperial. Aquele que sempre olhou torto para a minha guild. Aquele que nunca aceitou que existissem duas guilds no mesmo território. E agora tinha o poder de acabar com a guild que sempre detestou."

Foi nesse momento que a porta se abriu.

Antonio Castelo entrou na sala como se fosse dono dela.

A meia-capa dourada pendia sobre seus ombros em pregas perfeitas, o oposto da de Nonato, sempre torta. O broche exibia o símbolo do Dossel Imperial. A onça esculpida no cabo da espada brilhava à luz fria do ambiente.

Os olhos verdes claros percorreram a sala. Passaram por Fritz. Por Henrique. Por Nero.

Pararam em Scar.

Castelo não sorriu. Não provocou. Apenas... avaliou.

— Scar Hughes.

A voz era neutra. Calculada.

— Não esperava ver você aqui.

Scar permaneceu onde estava.

— Também não esperava estar aqui. Mas a vida é cheia de surpresas.

Castelo caminhou até a cabeceira da mesa, o lugar que antes pertencia a Scar nas reuniões. Sentou-se. As mãos pousaram sobre a madeira, os dedos entrelaçados.

— Já que está aqui, podemos resolver um assunto pendente.

Scar inclinou a cabeça.

— Estou ouvindo.

A sala estava em silêncio agora.

Castelo foi direto.

— Sua guild é uma farsa.

O peso das palavras assentou sobre a mesa como uma lâmina.

— Não participa dos torneios regionais. Não apresenta resultados. Não aceita novos membros há anos. O que vocês fazem lá, exatamente? Lavam dinheiro? Servem de fachada para alguma operação ilegal?

Scar não respondeu.

Castelo continuou.

— Eu nunca entendi por que o Amazonas tem duas guilds. A minha e a sua. É um desrespeito à estrutura que nós mesmos criamos. E se sua guild não serve para nada, ela deve acabar.

Henrique assentiu, os braços cruzados.

— Sou pragmático. Se algo não funciona, a gente corta. Recursos são limitados.

Fritz pigarreou novamente. Dessa vez, a voz saiu mais firme.

— Discordo. Uma guild não se julga apenas por torneios. O trabalho nas sombras também tem valor.

Nonato bateu a mão na mesa. A meia-capa dourada escorregou ainda mais para o lado.

— Oxe, e desde quando a gente fecha guild por causa de competição? Scar construiu metade do que a gente usa hoje. Respeita, Castelo.

Castelo não recuou.

— Respeito o passado. Mas o presente é o que importa.

Os olhares se dividiram.

Castelo e Henrique — pelo fim da guild.

Nonato e Fritz — contra.

Dois a dois.

Todos se viraram para Nero Plínio.

Ele estava recostado na cadeira, as mãos unidas sob o queixo. A meia-capa dourada pendia impecável sobre o terno preto. O broche do Planalto do Horizonte brilhava discretamente.

Os segundos se arrastaram.

Então Nero olhou para Scar.

— Você foi um de nós. A decisão... deve ser sua.

Um sorriso mínimo curvou o canto de sua boca.

— O que propõe, ex-Dourado?

Scar sustentou o olhar de Nero por um instante. Depois virou-se para Castelo.

— Se o problema é o torneio...

Scar apoiou as mãos na mesa e se inclinou levemente para frente.

— Minha guild participa do regional desse ano.

Castelo arqueou uma sobrancelha.

— Só isso?

— Não.

Scar deixou a pausa respirar.

— Se é para a minha guild participar... você vai lutar comigo. Nível Soberano. O vencedor fica com o título de Dourado.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Castelo encarou Scar por longos segundos. Depois sorriu — um sorriso fino, sem calor.

— Aceito.

Inclinou-se sobre a mesa, os olhos claros fixos nos de Scar.

— E vou matar você.

Scar não piscou.

— Quero ver você tentar.

Castelo recostou-se na cadeira, o sorriso ainda nos lábios.

— Mas tenho condições.

Scar esperou.

— Não basta você vencer. Sua guild precisa mostrar que tem valor. Em pelo menos três categorias, quero vencedores da sua guild.

Ergueu três dedos.

— Desperto. Iniciado. Dominador... ou Soberano.

Abaixou um dedo.

— Estou sendo generoso. Sei que na Soberano você vai perder.

Scar riu. Uma risada curta, seca, quase divertida.

— Generoso?

— Realista — corrigiu Castelo.

Scar olhou para os outros Dourados. Fritz observava com atenção. Henrique parecia entediado. Nonato mordia um salgadinho, tenso. Nero... Nero sorria.

"Está se divertindo", pensou Scar. "Sempre se diverte."

Voltou-se para Castelo.

— Aceito as condições.

Castelo ergueu o queixo.

— Então está decidido. Se sua guild não vencer em três categorias... ela acaba.

— Se eu vencer na categoria Soberano — Scar respondeu — o título volta para mim.

— Se você vencer. – Respondeu Castelo com um tom de deboche.

Scar não mordeu a isca.

Castelo levantou-se. A meia-capa dourada balançou suavemente com o movimento.

— Nos vemos no torneio, Scar Hughes.

Caminhou até a porta. Antes de sair, parou. Virou o rosto apenas o suficiente para que Scar visse seu perfil.

— Ah... e prepare seu garoto. O Desperto. Sei que você tem um.

Scar não reagiu.

A porta se fechou.

Nonato foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Tu tem um Desperto?

Scar suspirou.

— Tenho.

— E ele é bom?

Scar pensou em Yuri. No garoto que sobreviveu à parada cardíaca. Que dominou os três pilares em menos de uma semana. Que ainda apanhava de Luna nos treinos de combate.

— Vai ter que ser.

Nonato coçou a cabeça.

— Oxe... pois então reza. – Disse Nonato dando tapinhas no ombro do amigo antes de sair. A meia-capa dourada, como sempre, torta.

Fritz levantou-se, ajeitando a meia-capa dourada.

— Se precisar de algo, Scar... a Irmandade está à disposição.

Henrique já estava de pé, o celular novamente na mão.

— Vou acompanhar o torneio. Quero ver se sua guild realmente tem algo a mostrar.

Passou por Scar sem olhar nos olhos.

Nero foi o último a se levantar. Caminhou lentamente até Scar e parou ao seu lado. Não o encarou — olhava para a porta por onde Castelo saíra.

— Interessante.

Scar não respondeu.

— Castelo não sabe quem você realmente é, sabe? O que você fez. O que você carrega.

Nero virou o rosto apenas o suficiente para que Scar visse o sorriso mínimo.

— Vai ser divertido ver a reação dele quando descobrir.

E saiu.

Scar ficou sozinho na sala.

A mesa oval. As bandejas de salgadinhos. Os copos vazios. A garrafa térmica de café pela metade.

Pegou uma coxinha fria da bandeja. Deu uma mordida. O sabor era de derrota — ou talvez só de massa velha.

"Uma semana. O torneio regional vai ser no próximo sábado."

Uma semana para treinar um garoto que mal sabia dar um soco. Uma semana para decidir quem iria participar do torneio. Uma semana para impedir que tudo o que ele construiu desmoronasse.

Scar mastigou devagar. Depois pegou outra coxinha. Também fria.

"Do jeito que as coisas são pra mim, é melhor eu começar a rezar mesmo."


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