logo do projeto lunar

Capa
Nova Era
05 - Douglas
2576 palavras • 14816 caracteres • ⏱ 10 min 18 s

05 - Douglas

0
0
0

No restaurante, já passava das 13h. Douglas estava impaciente, seu pedido estava demorando. Inclinou a cabeça e franziu levemente a testa.

Tinha a sensação incômoda de que havia esquecido algo.

Tirou o bloco de notas do bolso e começou a folhear. Algumas anotações eram recentes; outras pareciam antigas demais para que ele lembrasse quando as havia escrito. Aquilo o incomodava.

A garçonete se aproximou com o prato. Ao colocá-lo na mesa, lançou um olhar curioso para o bloco e para o diário aberto.

Douglas percebeu. Fechou o diário imediatamente e guardou o bloco.

— Nossa, sua letra é muito bonita — comentou ela, sorrindo. — Mas como você consegue escrever sem enxergar?

Douglas ergueu a cabeça. A bandana cobria seus olhos, mas ele sabia exatamente onde ela estava.

— Na verdade, não sou cego. Consigo ver por baixo da bandana. É só um enfeite.

A garçonete piscou, confusa.

— E a bengala?

Douglas pegou o objeto encostado na cadeira e apoiou sobre a mesa.

— Uso para espantar gente curiosa.

Ela soltou um sorriso sem graça e se afastou.

Douglas voltou ao bloco de notas.

Uma anotação chamou sua atenção:

"Ligação do Scar. Investigar casa da Kamila. Odeio quando ele faz brincadeira comigo, principalmente sobre meu nariz. Vou matar ele por me chamar de tucano."

Ele franziu o cenho.

— Scar ligou...? — murmurou.

Não lembrava.

Abriu o diário na data indicada — uma semana atrás.

No topo da página, a frase de sempre:

"Se você está lendo isso, é porque você esqueceu."

Douglas ficou imóvel por um instante.

"De novo."

A mandíbula travou. Ele passou a língua pelos dentes, tentando puxar qualquer lembrança, qualquer coisa que provasse que aquilo estava errado.

Nada.

Só aquele vazio irritante.

Ele encarou a frase por mais alguns segundos. Como se, insistindo o suficiente, as palavras fossem mudar.

Não mudaram.

Soltou o ar pelo nariz, curto, controlado.

Ele já tinha lido aquilo antes.

Não lembrava quando.

Nem quantas vezes.

— Certo... — murmurou, mais para si do que para o papel.

Uma pausa.

— Que ótimo...

O humor seco não escondia o incômodo.

Não era a primeira vez.

E, pelo jeito, também não seria a última.

Percorreu rapidamente o texto até encontrar o que procurava:

"Scar ligou, me chamou de tucano, briguei com ele. Depois ele ficou sério e pediu para eu ir ao Parque das Hortências, em Canela. Já que estou quase terminando minha missão em Caxias do Sul, devo ir para lá. Ícaro disse que ia beber hoje..."

— Droga.

Guardou o diário.

"Esqueci de novo."

Comeu rápido, quase sem prestar atenção no gosto da comida.

"Preciso encontrar o Ícaro."

Levantou-se. A garçonete olhou em sua direção.

— Precisa de mais alguma coisa, senhor?

Douglas deixou o dinheiro na mesa.

— Não, obrigado.

Pegou a bengala e saiu do restaurante.

O sol da tarde batia forte. A bandana vermelha, marcada com uma lua cheia, cobria seus olhos, mas ele ainda sentia o calor na pele.

Tentou puxar alguma lembrança da ligação com Scar.

Nada.

— Pelo menos eu anotei — murmurou.

Enquanto caminhava, viu seu reflexo no vidro de uma loja.

O sobretudo preto, as caveiras discretas nos bolsos, o broche de meia-lua vermelha pulsando fracamente no peito.

Gostava daquele visual.

Sombrio. Sofisticado.

Na sua opinião, um detetive moderno devia se vestir assim.

Passou em frente a um bar. A porta estava aberta, e o cheiro de cerveja velha misturado com cigarro escapava para a calçada.

A bengala tocava o chão em intervalos regulares.

Para qualquer um, ele pareceria apenas mais um cego.

Mas ele sabia que não era.

Douglas parou.

Suspirou.

E entrou.

Ícaro estava sentado no balcão, cercado por garrafas de cerveja vazias.

O casaco cinza claro caía sobre os ombros com elegância, contraste estranho com o estado em que se encontrava. Um colete branco bem ajustado aparecia por baixo, junto de uma camisa escura e uma gravata clara.

Mesmo ali, havia algo disciplinado nele.

O cabelo castanho claro estava levemente bagunçado, caindo sobre a testa. Os olhos verdes permaneciam atentos, apesar do brilho turvo da bebida.

Na visão de Douglas, era um desperdício. Ícaro tinha potencial demais para se afundar daquele jeito.

Quando viu Douglas entrar com a bengala, sorriu.

— Ainda se fingindo de cego?

— Funciona — respondeu Douglas, sentando-se ao lado.

Ícaro o analisou de cima a baixo.

— Você parece um detetive de filme ruim. Mas com um gosto caro.

Douglas soltou o ar pelo nariz, irritado.

— Pelo menos não estou bêbado no meio da tarde.

Fez uma pausa curta.

— Você já almoçou?

Ícaro ergueu a garrafa.

— Aqui está o meu almoço.

Douglas soltou um leve riso e deu um pequeno soco no braço dele.

— Desse jeito você vai ganhar uma cirrose. Come alguma coisa.

Ícaro sorriu de canto.

— Entendi. Vou pensar nisso.

Bebeu mais um gole.

— Garçom, traz mais uma.

Douglas ignorou o comentário e pediu um café. Enquanto esperava, tirou o bloco de notas novamente.

— Por que você não falou nada sobre a investigação da Kamila?

Ícaro franziu a testa.

— Que investigação?

— A que o Scar pediu. Semana passada.

Ícaro coçou a cabeça.

— Você comentou alguma coisa... disse que ia explicar melhor depois. Aí teve aquela história dos ladrões de banco.

Douglas pressionou a têmpora.

— Eu usei demais o poder naquela luta. Esqueci.

— Pois é — Ícaro deu de ombros. — Se ele tivesse me contado, eu não esqueceria.

Douglas o encarou.

Ícaro estava sério. Apesar da bebida, seus olhos ainda tinham clareza.

Douglas não respondeu.

Mas pensou: "Você esqueceria, sim."

— Vamos — disse, levantando-se.

— Pra onde? — Ícaro perguntou, sem sair do lugar.

— Casa da Kamila. Antes que eu esqueça de novo.

Ícaro não se moveu.

— Você não esqueceu nada?

Douglas continuou andando até a porta.

— Não, Ícaro. Vamos. Já chega de beber.

— Você esqueceu que pediu um café?

Douglas parou.

O silêncio durou um segundo.

Talvez dois.

Ele se virou devagar.

Voltou até o banco e sentou-se ao lado de Ícaro.

Pegou o café assim que o garçom o colocou na mesa.

Deu um gole.

Fez uma pausa.

— Eu só estava testando você.

Ícaro riu baixo.

Enquanto Douglas bebia o café, tirou o bloco de notas e puxou o diário. Fez algumas anotações e, quando terminou, o fechou.

— Parque das Hortências, em Canela — disse em voz alta. — É pra lá que vamos.

Terminou o café, guardou o diário na carteira e se levantou.

— Vamos.

O carro alugado rodava pela estrada em direção ao endereço informado por Scar. Já eram 19h quando estavam se aproximando do local.

Douglas olhou pelo retrovisor e viu Ícaro jogado no banco de trás, dormindo. Isso o irritou.

Mais cedo, quando o carro apresentou problemas na estrada, tentou acordá-lo para ajudar a empurrar. Não conseguiu. Ícaro tinha um sono pesado depois que bebia e isso fez com que Douglas tivesse que empurrar o veículo sozinho até uma oficina.

Demorou horas até encontrar uma oficina e resolver o problema.

Desde então, Ícaro não tinha se mexido.

Douglas sabia que ele não estava morto porque roncava alto.

E, a cada ronco, pensava:

"Estou doido para te abandonar na estrada, seu maldito."

Douglas parou o carro perto dos destroços da casa queimada. O Parque das Hortências era um bairro tranquilo, mesmo à noite. As casas ao redor eram bonitas, bem cuidadas um contraste triste com o que restava daquela que deveria ter sido mais uma delas.

Olhou para Ícaro, que continuava roncando no banco de trás.

— Ícaro — chamou, baixo.

Nada.

— Ícaro — repetiu, mais alto.

O ronco continuou.

Douglas suspirou.

— Claro.

Desceu do carro e deixou a porta entreaberta. A bengala tocou o chão enquanto caminhava em direção aos escombros.

O cheiro de fumaça velha ainda impregnava o ar. Madeira carbonizada estalava sob seus pés. O que restava da casa era apenas memória, paredes enegrecidas, telhas quebradas, móveis queimados. Ele parou no que antes era a sala de estar. A parede onde a TV deveria estar era agora um buraco aberto para o céu noturno.

"Aqui. Ela estava aqui quando aconteceu."

Sentiu algo estranho. Como se algo o observasse.

Virou-se.

Nada. Apenas a noite e o vento.

"Só impressão."

Mas a sensação não foi embora.

Douglas respirou fundo e forçou a visão por trás da bandana. A visão se expandiu, dez metros ao redor, em todas as direções. Cada detalhe, cada sombra, cada fresta. Mas nada. Nenhum fluxo de Limiar, nenhuma presença detectável. Apenas a noite e o silêncio.

— Estou ficando paranoico — murmurou.

Avançou mais. Os destroços rangiam sob seus pés. O que um dia foi uma sala agora era só entulho.

Douglas parou. Suspirou.

— Fenrir — chamou, baixo. — Sei que você quer passear. Pode sair.

O ar ao lado dele tremeu. Uma sombra se materializou, densa, escura. O lobo surgiu como se emergisse da própria noite.

Era enorme. O pelo preto como carvão, os olhos vermelhos como brasa viva. Na testa, uma marca em forma de meia-lua vermelha brilhava fracamente, como se guardasse luz própria. Cada passo era silencioso, mas o peso de sua presença parecia comprimir o ar ao redor. A respiração saía em nuvens finas, mesmo sem frio.

Fenrir olhou para Douglas. Esperou.

— Preciso que você fareje — Douglas disse, apontando para os destroços. — Rastros humanos. E, se sentir o cheiro do Limiar de alguém, melhor ainda.

O lobo inclinou a cabeça. Depois começou a caminhar devagar, o focinho baixo, as narinas se contraindo.

Douglas o seguiu.

Fenrir parou, farejando o ar então fixou o focinho em um ponto no chão.

Douglas se ajoelhou e removeu os destroços com cuidado. Abaixo, marcas no piso. Não eram apenas de fogo. Eram marcas de combate. Arranhões, sulcos, como se algo, ou alguém, tivesse sido arrastado à força.

— Temos alguma coisa — murmurou.

Fenrir seguiu adiante, o faro ainda ativo. Douglas o acompanhou.

— Bom trabalho, garoto — disse, quase em tom de brincadeira.

O lobo parou de novo. Farejou o ar, depois o chão.

Douglas se aproximou. Entre os escombros, algo brilhou sob a luz fraca da lua. Mechas de cabelo. Longas, ainda presas em um pedaço de tecido queimado.

Ele se abaixou. Apertou os olhos.

O Limiar ali era fraco, mas reconhecível.

— Kamila — murmurou.

Guardou as mechas na carteira com cuidado.

Fenrir continuou. Seguiu farejando pelos destroços, contornando paredes caídas, atravessando o que restou da casa. Quando chegou perto do fim do terreno, parou.

O lobo ergueu a cabeça. Farejou o ar. Depois olhou para Douglas.

Douglas entendeu.

— Perdeu o rastro aí, né? — disse, com um suspiro.

Fenrir não se mexeu.

— Portal, teletransporte, sei lá — Douglas continuou. — Alguém que não queria ser seguido.

Olhou para os céus.

— Nunca é do jeito fácil, né?

Douglas pegou o bloco de notas e começou a fazer anotações. Distraído, perdido em pensamentos, não percebeu quando Fenrir começou a rosnar.

O pelo do lobo se eriçou. A raiva estampada em cada movimento.

Douglas ergueu a cabeça.

No céu, uma figura levitava, imune à gravidade. A máscara de doutor da peste brilhava sob a lua.

— Se prepara — Douglas murmurou para Fenrir.

Antes que pudesse erguer as mãos, algo passou voando. Rápido. Violento.

Ícaro.

Ele colidiu com a figura mascarada em pleno ar. Os punhos voavam em sequência, cada golpe certeiro, cada movimento frenético. A criatura só recuava.

Ícaro a empurrou para fora do alcance da visão de Douglas.

Douglas puxou os dois revólveres da carteira. A bandana limitava sua visão a dez metros e Ícaro já estava longe. Fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, dois olhos feitos de Limiar vermelho pulsavam sobre as miras.

Olhos de Caça.

Douglas apontou as armas para a direção onde sentia o Limiar de Ícaro. A visão se expandiu. Viu Ícaro. Viu a figura mascarada se defendendo, incapaz de atacar. Ícaro era agressivo, quase selvagem. Socos, chutes, esquivas.

De repente, uma bola de energia se formou em sua mão esquerda. Ele a lançou. A criatura desviou.

Mas Ícaro já tinha outra.

A segunda voou. A figura mascarada se esquivou para trás e a primeira bola, em vez de se dispersar, voltou.

Douglas mirou.

Não atirou.

"Vou deixar esse maldito suar um pouco. É o troco por não ter me ajudado antes."

A criatura esquivava dos ataques de Ícaro e das bolas que voltavam. O combate era frenético.

Até que a figura mascarada parou.

Sua aura se expandiu. Pesada. Aterrorizante.

As bolas de energia de Ícaro se desfizeram no ar.

Como se nunca tivessem existido.

Ícaro foi arremessado para trás, os braços cruzados na frente do rosto em defesa. Caindo de volta ao chão, cambaleou e caiu.

— Agora, Fenrir! — Douglas gritou.

Disparou.

A figura mascarada ergueu a mão, tentando dissipar o tiro como fez com a técnica de Ícaro.

Não conseguiu.

Ela se esquivou.

Mas a bala não se dispersou. Douglas controlava sua trajetória, fazendo ela perseguir o mascarado.

A criatura voava rápido, tentando escapar do projétil, e mudou de direção — em direção a Douglas.

Douglas ergueu o outro revólver.

— Marcação da Besta.

Fenrir saltou. A criatura tentou se afastar, mas o lobo já estava lá, não mordeu o corpo, mordeu sua aura. Arrancou um pedaço do Limiar dele antes que ele pudesse reagir.

A marca estava feita. Onde quer que aquela coisa fosse, Fenrir a encontraria.

Atrás da figura mascarada, o ar começou a se distorcer.

No céu, uma rachadura surgiu — fina no início, como vidro prestes a quebrar.

No instante seguinte, quebrou.

Um portal branco e luminoso se abriu.

A criatura disparou em direção a ele e atravessou.

O tiro de Douglas quase acertou. O portal se fechou. A bala cruzou o vazio.

Sem atingir nada.

Douglas abaixou os revólveres e guardou na carteira.

Ícaro estava deitado no chão, ofegante. Olhou para Douglas.

— Essa carteira que o Scar te deu é muito útil, né? Tem uma dimensão aí dentro onde você guarda qualquer coisa. Só não entendo como funciona. Como você puxa o que quer?

— Um dia te explico — Douglas respondeu, estendendo a mão. — Vem cá, vou te ajudar a levantar.

Ícaro segurou o braço dele. Douglas puxou.

Ícaro levantou com dificuldade, cambaleou e se curvou, a mão na boca.

Vomitou.

Douglas deu alguns tapinhas nas costas do amigo.

— Bem — começou, enquanto Ícaro se recuperava — consegui marcar ele. A parte ruim é que provavelmente ele cria dimensões. O rastro sumiu. Se fosse só teletransporte, o Fenrir ainda conseguiria farejar a marca. Isso significa que ele se escondeu em outra dimensão.

Ícaro se endireitou devagar, limpando a boca com as costas da mão.

— Aquele cara é poderoso — disse. — Ele estava se segurando. Não usou nenhuma técnica. Justamente pra não mostrar o seu poder. Mas a pressão do Limiar dele era absurda. Ele só queria ver nossas técnicas.

— Então ele não conseguiu muita coisa — Douglas disse, quase sorrindo. — A gente também não mostrou quase nada.

Olhou para Ícaro.

— E você também tava se segurando. Na verdade, é o seu alcoolismo que te segura, Ícaro. Desse jeito, você não tem nem 10% da sua força.

Ícaro riu, virou o rosto — e vomitou de novo.

Douglas ergueu os olhos para o céu.

"Esse mascarado atacou a Kamila. Atacou o Janderson. Me atacou."

Pegou o bloco de notas e começou a escrever.


Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.