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Nova Era
04 - Yuri
4122 palavras • 22596 caracteres • ⏱ 16 min 29 s

04 - Yuri

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Yuri estava se arrumando para ir para escola. Com pressa. Colocou o tênis e saiu correndo.

Passou por sua mãe.

— Yuri, você não vai tomar café?

— Depois, mãe!

Quando passou pela porta de casa, uma memória estranha veio em sua mente.

Chamas.

Sua mãe.

O cenário começou a deformar.

Yuri estranhou aquilo. Decidiu olhar para trás.

O cheiro da fumaça chegou antes da visão. A casa estava em chamas.

Um grito. O grito dela.

Ele tentou voltar. Mãos invisíveis o seguraram.

Em meio às chamas, algo se aproximou da mãe.

Uma figura mascarada.

Uma máscara de doutor da peste — ele reconhecia dos livros de história.

A figura parou. Por um momento. Em meio às chamas, virou o rosto — lentamente — e encarou Yuri. Mesmo sem olhos visíveis, ele sentiu. Ela sabia que ele estava ali.

Yuri acordou com o coração disparado. A mão foi ao peito. O suor escorria. A respiração não vinha.

Levantou-se assustado e sentou na beira da cama.

— Era só um sonho? — perguntou em voz alta.

Olhou em volta.

— Na verdade... onde estou?

Aos poucos, a memória voltou. Tudo. A explosão. A casa. Scar. Safira. O jardim. A última lembrança era correr atrás dela antes de apagar.

Provavelmente desmaiou.

No quarto, uma luz quente e uma brisa reconfortante entravam pela janela. Ele olhou para fora e viu o jardim — aquele mesmo, impossível, que Safira mostrara.

Estranhou, mas tentou não ligar.

Foi quando seus olhos encontraram, no canto do quarto, uma gatinha de pelúcia feita de crochê sentada ali.

O corpo era uma bolinha redonda — fios creme, marrom e branco se entrelaçando num mosaico macio. As patas, dois cilindros curtos e gordinhos, mal tocavam o chão. A cabeça era maior que o corpo, desproporcional, quase caindo para o lado. Duas orelhas pontudas, moles, pendiam como se fossem de pano.

Mas o que realmente prendia a atenção eram os olhos. Grandes. Muito grandes. Dois círculos azul-claros que brilhavam como se tivessem luz própria. As pupilas, negras e redondas, se mexiam lentamente, acompanhando cada movimento de Yuri com uma curiosidade silenciosa. O nariz era preto e brilhante, pequeno, quase um botão. A gata inclinou a cabeça. E sorriu. Um sorriso infantil, desarmante, mostrando dentes minúsculos e desenhados.

Nas costas, duas pequenas asas de crochê despontavam, delicadas como enfeite. No pescoço, um paninho azul claro, amarrado frouxo, balançou com o movimento. Na cabeça, uma folha verde descansava como uma coroa.

Yuri a encarou e piscou.

Ela piscou de volta.

Por algum motivo, Yuri não sentia medo ou maldade na pequena criatura que o observava.

Mas tomou um susto quando a gatinha começou a falar.

— Safira pediu pra Lilica ficar de olho em você. Ela falou para Lilica cuidar de você. Agora que você acordou, está na hora de tomar um café. Vem!

A gatinha começou a mexer a patinha, chamando Yuri. Depois apontou para a porta.

Correu até lá e começou a dar pequenos pulinhos, tentando alcançar a maçaneta.

Sem sucesso.

Yuri levantou da cama. Caminhou até a porta. Abriu.

Ela olhou para ele e ronronou alto — um som que parecia vir de um motorzinho de brinquedo.

— Vem! Siga a Lilica para não se perder!

E começou a andar corredor afora.

Yuri seguia Lilica pelo corredor, os olhos fixos na bolinha de crochê que rebolava ao caminhar. Estava tão distraído que não viu a porta que se abriu à sua frente.

— Ai!

Esbarrou em alguém. Sentiu um cheiro de shampoo de coco.

— Nossa, me desculpa! — ele disse, erguendo as mãos.

A garota à sua frente esfregava o ombro, mas já sorria.

— Tudo bem, eu também não olhei — respondeu, com uma voz doce e meio apressada.

Ela era mais ou menos da altura dele. Pele marrom clara, cabelo preto preso em dois rabos de cavalo altos que balançavam quando ela se mexia — algumas mechas pintadas de azul. Os olhos escuros encontraram os dele por um segundo — e desviaram rápido.

Ela abaixou a cabeça, sem jeito.

Antes que ele pudesse falar, Lilica apareceu entre os dois.

— Lilica está com fome! — a gata exclamou, com uma cara de chateada.

A garota riu, parecendo aliviada com a interrupção.

— Como sempre, né? Vem, vou te levar pra cozinha.

Ela olhou para Yuri de novo. Dessa vez segurou o olhar por um instante a mais.

— Você deve ser o Yuri. Safira falou de você.

Estendeu a mão.

— Me chamo Luna. Prazer em te conhecer.

Yuri apertou a mão dela com firmeza. A mão dela era macia.

— Prazer em te conhecer, Luna. Como você já sabe, me chamo Yuri.

Ela sorriu. Dessa vez, o olhar não desviou tão rápido.

— Vamos? A cozinha é pra cá.

Lilica, já alguns passos à frente, parou e olhou para trás com uma expressão de impaciência — o máximo que um rostinho de crochê conseguia demonstrar.

— Andaaaaa — ela reclamou, batendo a patinha no chão.

Luna riu.

— Ela não brinca quando o assunto é comida. Vem.

Os três seguiram pelo corredor. Yuri ainda meio tonto com tudo — a gata falante, a casa maluca, a garota bonita que apareceu do nada.

— Então... você mora aqui? — perguntou, tentando puxar conversa.

Luna balançou a cabeça concordando, os dois rabos de cavalo acompanhando o movimento.

— Moro sim. Desde pequena. Scar me adotou quando eu era criança.

Yuri franziu o cenho.

— Adotou?

— Ele adota todo mundo praticamente — ela disse, com um sorriso. — Você vai ver. A casa é cheia.

— Cheia?

— Tem uns dez, por aí. Fora o pessoal mais velho da Guild.

Yuri piscou.

— Dez? Guild?

Luna riu da expressão dele.

— Relaxa. A maioria é gente boa. Alguns são estranhos, mas você acostuma.

Lilica, lá na frente, começou a pular de ansiedade.

— CHEGAMOS — gritou, com sua vozinha fina.

Luna apontou para uma porta à frente.

— Ali. E parece que a Lilica já sentiu o cheiro da comida.

Quando chegou na cozinha, ele viu a grande mesa vazia. Ficou um pouco decepcionado — do jeito que Luna falou, parecia que todo mundo estaria ali hoje.

Yuri sentiu um cheiro de tapioca, tucumã, pão de queijo, pão e café.

Ele nunca tinha provado tucumã na vida. Lembrava de ver a mãe comendo algumas vezes, mas nunca sentiu curiosidade em provar. Agora, o cheiro parecia tão bom. A tapioca com tucumã parecia tentadora.

Luna estava segurando Lilica e a colocando em uma cadeira que tinha alguns livros para nivelar o tamanho dela com a mesa. Quando se sentou, as patinhas foram rápidas na comida — comendo tudo com pressa, como se a comida fosse fugir dela.

Luna olhou para Yuri.

— Pode se sentar e comer.

Ele se sentou. Ela foi para perto dele e sentou ao lado.

— Tapioca com tucumã — disse, apontando para o prato. — Meu café da manhã favorito.

Yuri olhou para a comida, curioso.

— Sabia que a lenda do tucumã é igual um Romeu e Julieta? — Luna continuou, animada. — Amor proibido e tal. Só que no final só o Romeu morre. A Julieta chorou tanto sobre o corpo do amado que, onde as lágrimas caíram, nasceu uma árvore. O tucumãzeiro.

Yuri a olhava sem falar nada.

Resolveu quebrar o gelo.

— Interessante. Você gosta desse tipo de lenda local?

Ela o encarou por um momento.

— Sim. Lendas são divertidas. Principalmente quando têm a ver com algo que você gosta.

Yuri concordou com a cabeça.

— Entendo. E onde estão os outros?

Luna respondeu, apontando com o queixo para a mesa.

— Bem, como você pode observar, eles tomaram café da manhã bem cedo e saíram para um treinamento especial com o Apolo.

Yuri repetiu:

— Apolo?

Luna sorriu, como se esperasse a reação.

— Meu irmão. O mais velho. Os nomes foram ideia do Scar — eu sou a Lua, ele é o Sol. Meio brega, eu sei. Mas combina com a cara dele.

Ela deu uma mordida na tapioca antes de continuar.

— Eu não quis ir hoje. Preferi lavar o cabelo, tomar um banho e acabei me encontrando com você.

Yuri quase engasgou com o café.

Luna continuou, natural.

— A Safira estava esperando você acordar. Ela falou que vai te treinar hoje. Então... acho que, para não te deixar sozinho, vou te acompanhar no treinamento.

Ela sorriu, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Yuri não sabia o que dizer. Olhou para Lilica, que agora lambia os próprios bigodes de crochê com satisfação.

— É... obrigado — conseguiu dizer.

Luna riu baixinho.

— Relaxa. Vai ser divertido.

A porta se abriu.

Safira entrou na sala com a mesma confiança de sempre. Os olhos roxos percorreram o ambiente rapidamente — e pousaram em Luna.

— Por que não foi treinar com Apolo?

Luna não recuou. Sorriu.

— Estava curiosa com o convidado.

Safira estreitou os olhos por um segundo, mas não insistiu. Virou-se para Yuri.

— Está bem?

Yuri assentiu, ainda meio tonto com tudo.

Safira cruzou os braços.

— Então vamos direto ao ponto. Você precisa treinar o Limiar.

Yuri franziu o cenho.

— O que é o Limiar?

Safira o encarou por um segundo, como se avaliasse a pergunta.

— É a manifestação da sua alma em forma de energia e habilidade. Todo mundo pode despertar, mas se não controlar, ele te consome.

— Me consome? — Yuri perguntou, assustado.

Safira pareceu sorrir por um breve momento.

— O Limiar precisa de energia e controle para funcionar. Se você não treinar, ele começa a sugar tudo do seu corpo. Nutrientes, vitaminas, força. Você começa a ter anemia, cansaço, tontura. E não sabe por quê.

Ela fez uma pausa.

— O treinamento é para você aprender a controlar. Para poder desligar o consumo do Limiar quando não estiver usando.

— E se eu não aprender? — Yuri perguntou, com curiosidade.

— Você vai definhando. Até morrer.

Yuri piscou.

"Que da hora. Primeiro dia aqui e já me falam que posso morrer. Espero pelo menos durar mais que o café da manhã da Lilica."

Safira olhou para Luna.

— Leva o nosso aprendiz para a sala de treinamento. Vou arrumar essa bagunça que o pessoal fez. E estou pensando em levar uma garrafa de café e o restante desses lanches para a gente comer depois.

Luna segurou a mão de Yuri e o conduziu até o fim do corredor. Pararam diante de uma porta de madeira simples.

— É aqui — ela disse, empurrando a porta.

Do outro lado, o cenário mudou completamente.

Não era um corredor. Não era um quarto. Era um campo aberto, com céu azul e vento.

Yuri parou na entrada, olhou para o céu, depois para o chão, depois para Luna.

— Vocês têm um deserto particular?

— É uma dimensão — Luna explicou, puxando-o pela mão. — Scar criou. Tem várias aqui. Essa é a sala de treino.

O chão era arenoso, mas firme. Algumas paredes de tijolo estavam espalhadas pelo campo, provavelmente para servirem de obstáculos ou alvos. Não havia árvores. O lugar parecia um deserto.

Ao lado da porta, um pequeno oásis com palmeiras e redes.

— Aqui é onde descansamos entre os treinos — Luna apontou.

Yuri olhou para as redes, depois para as paredes de tijolo.

— Então é tipo um resort... mas o grande hotel no meio do deserto tá com as obras paradas.

Luna riu.

— Algo assim.

Naquele clima descontraído, Yuri lembrou da mãe novamente.

Ele encarou Luna com um olhar sério.

— Luna, acho que não posso ficar aqui. Preciso encontrar minha mãe. Sinto que estou perdendo tempo.

Luna olhou para Yuri, parecendo preocupada.

— Você despertou o Limiar recentemente, Yuri. Você precisa fazer pelo menos o treinamento básico, senão você vai morrer.

Yuri refletiu um pouco.

— Eu entendo. Mas prefiro correr esse risco do que ficar aqui de braços cruzados.

Luna ficou calada por um momento. Encarou ele de forma séria.

— Sua mãe vai querer te encontrar vivo, Yuri. Não seja imprudente.

— O que os dois pombinhos estão cochichando aí? — falou Safira passando pela porta.

Ela carregava uma sacola num braço e, no outro, uma garrafa de café. Lilica vinha correndo atrás dela, comendo um pão de queijo.

Safira olhou para Lilica passando correndo ao seu lado.

— Lilica, coloca a mesa ali debaixo da sombra da palmeira. E coloca aquela cadeira de praia que eu gosto do lado da mesa.

Lilica correu até debaixo da sombra. Abriu um zíper com certa dificuldade na parte de trás das suas costas. Com suas mãozinhas, puxou uma mesa grande — que não caberia dentro da pequena gata de crochê. Arrumou a mesa com cuidado embaixo da sombra e puxou uma cadeira de praia e uma cadeira de praia pequena.

Depois de arrumar as duas cadeiras debaixo da sombra, já foi deitando na cadeira menor.

Yuri observava aquilo com curiosidade.

Safira colocou a garrafa de café sobre a mesa, junto com a sacola que parecia ser das comidas que tinham sobrado do café da manhã. Foi em direção a Yuri.

— Escutei um pouco sobre o que você falou pra Luna. Scar pediu pra eu cuidar de você, te treinar. Você é minha responsabilidade agora. Então me obedeça. Vamos até aquela parede.

Yuri obedeceu, ainda processando tudo.

Safira parou diante de uma das paredes de tijolo e se virou para ele.

— Antes de qualquer coisa, você precisa entender o que é o Limiar.

Yuri franziu o cenho.

— O Limiar é a ressonância e a vibração da sua alma. Você já ouviu falar que as pessoas vibram na mesma frequência? Se alguém começa a acreditar que tudo vai dar certo, a vibração daquilo atrai o sucesso. Assim como o contrário. Se você vibra medo, você atrai medo.

— Todo mundo tem isso?

— Todos têm. Mas as pessoas que possuem o Limiar estão um passo além. Elas conseguem controlar essa ressonância. Fazer com que sua alma torne o impossível em realidade. É o que falam: se você tiver fé do tamanho de um grão de mostarda, você consegue mover montanhas. Para quem tem o Limiar desperto, isso é possível. É real.

— E como as pessoas conseguem o Limiar?

— Existem três jeitos.

Ela ergueu um dedo.

— Primeiro: se alguém está morrendo e outro usuário de Limiar está por perto, e a pessoa sobrevive, ela desperta. Foi o seu caso. Eu parei seu coração e você voltou.

Yuri engoliu seco.

Ela ergueu o segundo dedo.

— Segundo: se alguém entra em contato com um objeto que tenha grande fluxo de Limiar, pode despertar. Mas o processo é demorado. E muitas vezes não é um despertar verdadeiro — a pessoa só consegue usar o poder enquanto está com o objeto, ou se for possuída por algo que já tenha o Limiar.

Ela ergueu o terceiro dedo.

— Terceiro: um usuário de Limiar banha o aprendiz com seu próprio fluxo, liberando o Limiar do corpo dele aos poucos. É a forma que dizem ser mais fácil.

Yuri arregalou os olhos.

— Ué, então por que você escolheu me fazer despertar do jeito mais difícil se existe um jeito mais fácil?

Safira o encarou.

— Sempre vai existir alguém que faz as coisas do jeito mais fácil. Mas isso não deve impedir você de fazer do jeito certo.

— E qual é o jeito certo?

— O jeito natural de dominar o Limiar de verdade é morrendo. Mergulhando no mar das galáxias e vendo a sua real natureza. Foi o que você viu quando eu parei seu coração. Aquele branco. Aquele silêncio. Era o mar das galáxias.

Yuri ficou em silêncio.

— Entender o Limiar não é só usar ele. É compreender que tudo é um fluxo. E nesse fluxo existe caos. Mas você consegue controlar esse caos com a ordem.

Ela deu um passo à frente.

— Quando você percebe, e tem humildade para entender que é só uma poeira no universo...

Silêncio.

— Poeira no universo. É só o que somos. É aí que você cai na real. Entra na sua tranquilidade. No seu eu. É aí que você consegue ver a maravilha que é o Limiar. Algo brilhante. Que está dentro de você.

Yuri ficou em silêncio.

— Se lembra que eu perguntei se você lembrava do que viu? E você disse que sim?

Ele assentiu.

— Falei que você era sortudo. Porque muitos poucos que passam por isso lembram. Mas essa experiência é necessária. Para você entender que o Limiar não é sobre poder. É sobre a sua vida.

Yuri franziu o cenho.

— Mas se nem todos lembram dessa experiência, por que esse caminho mais difícil é necessário?

Safira o encarou por um momento.

— Por que um bebê chora quando nasce?

Yuri piscou, confuso.

— Porque sente o ar entrando nos pulmões pela primeira vez. É estranho. É desconfortável. Mas é instintivo. Ele não precisa aprender — já nasce sabendo. É o corpo dele reagindo para sobreviver.

Ela fez uma pausa.

— Essa é a diferença essencial entre quem passa pelo caminho mais difícil e quem passa pelo mais fácil. O caminho mais difícil te lapida. Te prepara de forma instintiva a controlar e dominar o Limiar. Enquanto o caminho mais fácil te torna dependente. É como se alguém precisasse estar sempre do seu lado para ver se você está respirando direito.

Yuri ficou em silêncio.

— Agora, antes de qualquer coisa, você precisa entender o básico. O Limiar se sustenta em três pilares: Vigília, Égide e Véu.

— Vigília? Égide? Véu? — Yuri repetiu, confuso.

— Vigília é a percepção. Você aprende a sentir o fluxo do Limiar — nos outros, no ambiente, em você. É como enxergar o que antes era invisível. Com Vigília, você vai sentir o Limiar em mim, em Luna, até em Lilica. É como se o mundo ganhasse uma camada invisível que você aprende a enxergar.

— Égide é a proteção da alma e do corpo. É o que impede que alguém manipule você por dentro. Sem ela, qualquer usuário poderia explodir seu coração com um pensamento. No começo, é instintiva — seu corpo reage sozinho para se defender.

Yuri engoliu em seco.

— E Véu?

— Véu é o controle. É o que você usa para aumentar, diminuir, desligar o consumo do Limiar. Para ocultar sua presença. Para não ser detectado.

Yuri franziu o cenho.

— Por que não começar pelo Véu então? Se é ele que controla, não seria mais fácil?

Safira balançou a cabeça.

— Não se pode pular as etapas. Primeiro você aprende a sentir o Limiar. Depois, seu corpo começa a reagir sozinho para se proteger. Só então você aprende a controlar.

— E depois que domino o Véu?

— Depois, a Égide deixa de ser só instinto. Você consegue aumentar sua defesa conscientemente. Usar a aura que você controla para se proteger ainda mais.

Yuri respirou fundo.

— E quanto tempo leva?

— Depende de você. Alguns levam meses. Outros, anos.

Ele olhou para as próprias mãos.

— E eu?

Safira o encarou por um momento.

— Vamos descobrir.

Yuri olhou para a parede, depois para Safira.

— E como a gente começa?

— Fechando os olhos e prestando atenção. Vigília primeiro. Ajoelha.

Yuri obedeceu. Ajoelhou no chão arenoso. Fechou os olhos. Tentou. Nada. Apenas o vento, o som das palmeiras, a própria respiração.

— Não sinto nada.

— Calma. Respira. O Limiar não é um músculo. É uma presença. Você não vai sentir com as mãos. Vai sentir com a alma.

Yuri tentou de novo. E de novo. O silêncio se alongou. A frustração começava a crescer.

Luna se aproximou, devagar.

— Posso tentar?

Safira a encarou, mas não disse não.

Luna ajoelhou ao lado de Yuri.

— Esquece o que ela falou de sentir com a alma. Pensa assim: você está dentro de um rio. O Limiar é a água. Ela está em todo lugar. Em você, em mim, na Safira, até na Lilica. Você não precisa procurar. Só precisa perceber que já está nela.

— Um rio?

— Um rio de energia. Você está boiando. Só precisa abrir os olhos debaixo d'água.

Yuri fechou os olhos de novo. Respirou fundo. E sentiu.

Não era uma visão. Era uma presença. Como se o mundo ao redor ganhasse peso, textura, vida. Ele sentiu Luna ao lado. Sentiu Safira à frente. Sentiu Lilica na cadeira pequena, comendo algo.

— Eu... sinto.

Safira arqueou a sobrancelha. Por um momento, Yuri achou que viu algo passar pelo rosto dela. Surpresa? Satisfação? Algo que passou rápido demais e logo sumiu.

— Então vamos testar. Vai para o outro lado da parede.

Yuri obedeceu. A parede de tijolo ficou entre ele e as duas.

— Agora me diz quantos dedos a Luna está mostrando.

Yuri fechou os olhos. Sentiu Luna. A mão dela subiu. Três dedos.

— Três.

— Agora?

A mão mudou. Um.

— Um.

Luna sorriu.

Safira não comentou. Apenas pegou algumas pedras do chão.

— Vigília você tem. Agora a Égide. Vou jogar pedras em você. Seu corpo vai reagir sozinho.

— O quê?

A primeira pedra veio. Yuri nem teve tempo de pensar. Uma camada fina de energia cobriu seu braço. A pedra ricocheteou.

— Viu? Seu corpo já sabe se proteger.

Ela jogou outra. A energia veio de novo.

Mais uma. Falhou. A pedra acertou seu ombro.

— Ai!

— É instintivo, mas não é constante. Seu corpo reage quando percebe o perigo, mas se você está distraído, ou cansado, ou com medo, a proteção falha. Por isso você precisa da Vigília ativa para manter a Égide constante. Sentir o perigo antes dele chegar, para seu corpo reagir sempre.

Yuri massageou o ombro. Luna se aproximou de novo.

— Pensa que a Égide é sua pele. Só que ela não cobre só seu corpo. Ela é sua pele dentro da água. Quanto mais você sente o rio, mais sua pele sabe onde está o perigo.

Yuri fechou os olhos. Sentiu o rio. Sentiu sua pele. Sentiu a pedra antes dela vir.

Safira jogou. A Égide ativou antes do impacto.

— De novo.

Yuri repetiu. E de novo. E de novo. A cada vez, a Égide vinha mais rápido, mais forte.

Safira parou. Yuri notou que os olhos dela pareciam mais atentos agora, como se ela o estivesse avaliando.

— Agora o Véu. Aumenta sua aura.

Yuri se concentrou. Sentiu o fluxo se intensificar.

— Diminui.

Ele segurou. A aura pulsou, mas obedeceu.

— Desliga.

Cortou o fluxo. A aura sumiu.

— Liga de novo.

Ela voltou. Estável. Controlada.

Safira ficou em silêncio por um momento. Yuri não sabia o que ela estava pensando, mas os olhos roxos se estreitaram de um jeito que ele já começava a reconhecer como avaliação.

— Seu Véu... é refinado. Muito refinado. Você pode chegar ao nível do Janderson. Um dos melhores da guild, mas...

Yuri piscou.

— Mas?

— Mas precisa lapidar. Muito. Se quiser chegar lá.

Yuri sorriu.

"Até que foi fácil."

Safira falou rispidamente, de um jeito que parecia ter lido sua mente.

— Não se empolgue. Você só vai sair desse treinamento quando conseguir dar um soco na Luna.

Yuri olhou para Luna. Depois para Safira.

— Eu não bato em mulher.

Safira ergueu a sobrancelha. O olhar endureceu.

— Aqui não tem mulher. Não tem homem. Tem guerreiros. Respeite Luna como tal.

Yuri sentiu o rosto queimar de vergonha.

— Desculpa.

Luna riu baixinho.

— Relaxa. Vou pegar leve.

Os dois se posicionaram. Yuri levantou os punhos de forma estranha, os braços rígidos, o corpo desengonçado. Luna assumiu uma postura que parecia saída de um filme — leve, equilibrada, perigosa.

Safira ergueu a mão.

— Vai.

Luna sumiu. Yuri nem viu. Só sentiu o golpe no estômago — como se um bloco de concreto tivesse batido ali. O ar foi arrancado dos pulmões. Seu corpo voou para trás e bateu nas costas contra a parede de tijolo.

Ele apagou por um segundo. Quando acordou, estava no chão, ofegante.

— Ufa... Acho que fui atropelado por um caminhão. Ou dois.

Safira se aproximou.

— Você conseguiu defender. Usou os três pilares muito bem. Vigília sentiu o golpe antes de te acertar, Égide se protegeu, Véu controlou a aura. E ainda usou a Égide melhorada — a defesa consciente. Mesmo sem treinar.

Safira o encarou por um momento.

— Falta só aprender a lutar.

Luna correu até Yuri e o ajudou a se levantar.

Safira caminhou até a cadeira de praia, sentou e pegou a garrafa de café.

— Começa a ensinar as posturas de combate para ele, Luna. Ele precisa melhorar pra ontem.


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