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Nova Era
03 - Janderson
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03 - Janderson

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Horas de estrada. A caatinga se estendia infinita sob o sol impiedoso.

Janderson pensou nos desertores. "Pobres coitados. Achavam que estavam fugindo. Não sabiam que só estavam cavando a própria cova, pecado por pecado, crime por crime. Esse tipo de coisa só atrai coisa pior."

O sol já se arrastava para o horizonte quando a placa surgiu à frente: Cabaceiras. Uma das regiões mais secas do Brasil. Chão rachado, mandacarus e xique-xiques apontando para o céu como sentinelas esquecidas, pedras gigantes espalhadas como se um gigante as tivesse largado ali.

O calor ainda era sufocante. Janderson nem piscou.

Sentiu frio.

Sempre assim.

O controle sobre o gelo alterara seu corpo. Enquanto os outros sufocavam, sua pele registrava a temperatura ambiente como se fosse uma brisa gélida. O sol da caatinga, para ele, era apenas uma lembrança distante do que deveria ser calor.

Já não o afetava mais.

Estacionou em frente a um mercadinho simples. Assim que desceu do carro, percebeu algo diferente. As ruas estavam se esvaziando. Os moradores recolhiam cadeiras, fechavam portas, entravam em suas casas com pressa, como se temessem o cair da noite.

Os olhares que recebia agora eram diferentes. Não apenas curiosos. Eram apreensivos. Desconfiados.

Ele entendia. Sua vestimenta era estranha para aquelas bandas. Sobretudo preto até os pés. Bata de padre com listras azuis-escuras, cada uma terminando em pequenas cruzes. Luvas de couro preto com crucifixos desenhados e as palavras "Jesus Cristo" escritas nos punhos. E na cabeça, um chapéu preto de abas largas de padre, sim, mas de longe parecia um chapéu de cowboy.

Sempre se vestia assim em missão. "A armadura da fé", gostava de pensar.

Entrou no mercadinho. Um lugar pequeno, com cheiro de café velho e sabão em pó. O dono, um homem magro de bigode fino, o observava com atenção, como se quisesse fechar logo as portas e ir embora.

Enquanto pegava água e biscoitos, os ouvidos treinados captaram a conversa apressada de três moradores encostados no balcão:

— ...não é seguro depois que escurece.

— A criatura voltou, tenho certeza.

— Três desaparecidos este mês. Três!

Eles pagaram rápido e saíram sem olhar para trás.

Janderson franziu o cenho. "Criatura? Que tipo?"

Guardou a informação no fundo da mente." Primeiro, a missão". Depois, se sobrasse tempo, ajudava os moradores.

O dono do mercadinho tossiu, impaciente.

— Vai levar isso ou não, padre? A noite chega rápido.

Janderson colocou as compras no balcão. Pagou. Pegou a sacola e saiu sem olhar para trás.

O sol já não passava de um risco alaranjado no horizonte. As ruas estavam vazias, portas fechadas, janelas trancadas. A cidade se preparava para a noite.

Precisava de um lugar para ficar. Não sabia quantos dias ficaria na cidade. Um hotel, pensou. Tinha visto um na entrada da cidade, simples, de uma só parede, com uma placa pichada que anunciava "Hospedagem".

Conseguiu um quarto no primeiro andar. Pequeno, mas suficiente. Cama de solteiro, guarda-roupa de madeira clara, uma janela que dava para a rua de terra batida.

A fome apertava. Mais tarde pediria algo para comer. Primeiro, precisava deixar as coisas.

Largou a sacola do mercadinho sobre a cama e começou a organizar.

Foi então que sentiu.

Uma energia estranha. Limiar. Não era dos desertores, ele conhecia as assinaturas deles. Essa era diferente. Mais densa. Mais... antiga.

Ele se virou, rápido. Nada. Apenas as paredes descascadas e o silêncio do fim de tarde.

Concentrou-se, tentando localizar a fonte. Mas antes que pudesse se aprofundar...

— Que soninho bom...

A voz veio de dentro de sua mente. Familiar. Preguiçosa.

Janderson suspirou.

— Agora não, Leviatã.

— Vai me deixar sair hoje, padre? Tô entediada aqui dentro.

Ele ignorou. A energia estranha ainda o preocupava. "Onde estava?"

— Aff. Sempre sério. Nunca me deixa brincar.

O ar ao lado da cama tremeluziu. Ela se materializou.

Leviatã era tudo o que ele não era. Provocante, solta, escandalosamente bela. O cabelo azul longo caía até o meio das costas, contrastando com os olhos da mesma cor, olhos que, apesar da beleza, guardavam algo antigo. Cansado. Como se ela já tivesse visto impérios surgirem e caírem.

O corpo era escultural, seios grandes, abdômen definido, quadris largos. A blusa, pequena demais, mal continha o decote e deixava a barriga de fora. A calça jeans era tão curta que revelava a curva da bunda e deixava as pernas inteiras à mostra. Nas costas, quase escondida pela roupa, uma tatuagem antiga.

As botas cor-de-rosa completavam o visual, chamativa, extravagante, feita para provocar.

Janderson desviou o olhar. Não por pudor, por hábito. Já conhecia aquele jogo.

Ela espreguiçou-se, bocejando com exagero, e olhou em volta.

— Hum... uma cama.

Ela olhou para Janderson com um sorriso de canto.

— Acabei de acordar e você já vai dormir? Olha que sou uma preguiçosa profissional, mas vocês humanos parecem me superar. Uma pergunta: tá de férias, padre?

Janderson continuou em silêncio, os olhos ainda percorrendo o quarto em busca da energia.

Ela se aproximou, rebolando de propósito.

— Travessuras hoje à noite? Posso te mostrar umas coisas bem interessantes.

Ele a ignorou. Mas a energia... tinha sumido. Como se nunca tivesse existido.

Leviatã percebeu a mudança na expressão dele.

— O que foi?

Janderson não respondeu. Algo estava errado.

Ela virou o rosto para a janela. Os olhos azuis se estreitaram.

— Padre... acho que você vai gostar de olhar lá fora.

Ele se aproximou da janela. Olhou para a rua.

Lá embaixo, caminhando pela calçada oposta, um homem. Magro, cabelo comprido, andar desconfiado.

Janderson reconheceu na hora. As fotos no celular não mentiam.

Um dos desertores.

— Volta — disse, sem olhar para Leviatã.

Ela fez um bico.

— Ah, sempre a mesma coisa. Te ajudo e sou dispensada.

Mas obedeceu. O corpo dela se desfez em partículas de água que evaporaram no ar.

Janderson já estava na porta. Antes de sair, fechou os olhos por um segundo.

O Véu desceu sobre ele como uma sombra. Sua presença se apagou do mundo.

Então abriu a porta e correu para a rua.

Janderson seguiu o homem por quase duas horas. A cidade ficou para trás, as casas rarearam, a luz dos postes sumiu, e a caatinga tomou conta de tudo. A noite ficava mais densa a cada passo. Olhou para o céu. Dez horas, calculou. Talvez mais.

O desertor fazia um caminho cuidadoso. Desvios. Paradas estratégicas para ouvir se era seguido. Janderson usava o Véu como uma segunda pele, sua presença apagada, seus passos silenciosos, sua respiração controlada.

Finalmente, uma casa surgiu na escuridão. Pequena, de taipa, com uma luz fraca vazando pelas frestas. O desertor entrou.

Janderson sentiu antes de ver. Limiar. Múltiplas assinaturas.

Contou.

Cinco.

Os cinco alvos. Todos ali.

Escondeu-se atrás de uma árvore seca, a poucos metros da casa. Fechou os olhos por um instante, sentindo o fluxo de energia. Quatro estavam parados, provavelmente dormindo ou descansando. Um se movia lentamente dentro da casa, o vigia.

Janderson olhou para o céu novamente. Lua alta. Madrugada longa.

Esperaria até as duas da manhã.

"Na verdade, eles sempre estiveram aqui."

A caatinga era grande, e ele sabia que eles nunca imaginavam que alguém os encontraria ali, naquele local deserto e isolado. Escolheram aquele lugar como se soubessem que alguém viria atrás deles.

GRRRRRRR.

O som veio da própria barriga. Alto. Inconfundível.

Dentro da casa, o vigia parou de andar. Janderson prendeu a respiração. Segundos se passaram. O vigia retomou a ronda.

— Aff — a voz de Leviatã sussurrou na mente dele. — Estou aqui tentando ser discreta, e você faz barulho de estômago.

Ela se materializou ao lado dele, ainda na sombra.

— Está com fome, padre? Quer algo para comer?

Janderson a ignorou por um instante, os olhos fixos na casa.

Então, pela primeira vez, ele respondeu.

— "Nem só de pão viverá o homem." — Mateus 4:4.

Leviatã arregalou os olhos, surpresa. Depois sorriu, maliciosa.

— É... mas tem que ter uma manteiguinha.

Janderson sentiu um canto da boca se erguer. Quase um sorriso.

— Deve ter sido por causa desse tipo de piada que você foi para o inferno.

Ela deu de ombros, leve.

— Talvez.

O silêncio voltou. Janderson olhou para o céu. Lua alta. Horas de espera ainda.

— Agora some — disse, sem olhar para trás.

Leviatã fez uma reverência irônica e se desfez em gotas d'água.

Janderson voltou os olhos para a casa. O vigia ainda rondava.

Duas da manhã estava longe. Mas ele esperaria.

Tentaria capturá-los vivos.

Janderson olhou para o celular. "2h da manhã. Hora de colocar o plano em prática."

Observou a casa. O vigia ainda rondava, mas o padrão mudara, a cada hora, um novo desertor era acordado para assumir a ronda. Janderson decidiu: pegaria o vigia antes que ele acordasse o próximo.

Foi então que o homem se afastou da casa. Caminhou até uma árvore seca a poucos metros. Janderson entendeu na hora.

— Ele vai mijar — sussurrou, quase sem acreditar na sorte.

— Vocês, humanos, e essas necessidades primitivas — a voz de Leviatã ecoou na mente dele, divertida. — Nós, demônios, não fazemos isso. Viu? Somos mais civilizados.

Janderson a ignorou. Já estava em movimento.

O Véu de Janderson era impressionante. Qualquer usuário do Limiar podia ocultar a própria presença mas fazer isso com uma aura tão poderosa quanto a dele, a ponto de se tornar invisível para o mundo, exigia anos de prática e um controle absurdo.

Ele dominava essa arte como poucos.

Cruzou a distância em segundos. O vigia ainda se aliviava quando Janderson chegou por trás. Um golpe seco no queixo. O homem desabou, desmaiado antes de tocar o chão.

— Rápido e limpo — Leviatã comentou, divertida. — Gosto quando você é prático.

Janderson ignorou de novo. Tirou do bolso um papel dobrado. Pequeno, com símbolos desenhados à mão, círculos e traços entrelaçados que ele reconhecia dos ensinamentos de Scar. Colou na testa do homem. O papel brilhou por um instante e depois apagou.

— Esse selo que seu amigo criou é bem útil — Leviatã observou.

Janderson pensou: "realmente". Selava as habilidades do Limiar e paralisava o alvo. Mas para funcionar, a pessoa precisava estar inconsciente.

Ele olhou para a casa. Os outros quatro estavam dormindo.

— Perfeito — murmurou.

Janderson avançou até a porta da pequena taipa. Lá dentro, os quatro desertores dormiam no chão. Ele se aproximou do primeiro. Abaixou-se. Colou o selo na testa. O papel brilhou e apagou.

Passou para o segundo. Tirou outro papel do bolso — e então sentiu.

A mesma energia que sentira no hotel. Densa. Antiga. Poderosa. Como se algo o observasse das sombras.

Janderson tentou localizar de onde vinha, mas a energia parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo.

Se distraiu por um segundo. Talvez dois.

Foi o suficiente.

O desertor mais próximo acordou, sentindo aquela aura assustadora. Os olhos se arregalaram: primeiro susto, depois ódio. Ele ergueu as mãos. A terra do chão explodiu numa onda de areia e pedra, arremessando Janderson para trás.

A parede de taipa não resistiu. Janderson foi jogado a alguns metros de distância, atravessou a estrutura e caiu no chão seco, de pé.

Janderson tinha aplicado uma armadura de gelo em seu corpo, o que o protegeu do impacto do golpe e dos destroços. Mas não teve tempo de proteger as costas. Sentiu uma das costelas estalar.

"Estava fácil demais pra ser verdade", pensou.

Na mente, Leviatã sussurrou:

— Realmente estava fácil demais. Agora posso te ajudar?

Janderson a ignorou. Ergueu-se devagar, sacudiu os destroços da batina. A costela doía a cada movimento, mas ele não demonstrou.

Dentro da casa, um dos desertores tentava remover o selo na testa do amigo, sem sucesso. Os outros dois já estavam de pé, encarando-o. O que tentava remover o selo gritou:

— Isso não sai! Que droga é essa?

Os outros dois não responderam. Apenas observavam Janderson.

Um deles deu um passo à frente. Confiante.

— Não sei o que é isso. Mas vamos ter que perguntar pra aquele cara.

O chapéu de padre cobria o rosto de Janderson. Ele levantou a cabeça devagar.

Foi quando um dos desertores o reconheceu. O rosto, a vestimenta.

— Ele é aquele padre! Da classe Soberano! — gritou, recuando um passo. — Nunca imaginei que mandariam alguém como ele atrás da gente.

O outro desertor o segurou pelo braço.

— Se acalma. Estamos em três. Ele é só um. Mesmo sendo desse nível, a vantagem numérica é nossa.

Os dois acenaram a cabeça com confiança.

Janderson falou, a voz calma:

— Vocês são jovens. Parecem ter potencial. Não sei por que resolveram ser desertores. Principalmente você, Fábio.

Fábio o encarou. O ódio nos olhos.

— Não quero ser cão do exército. Você sabe que eles mandam na gente. A guild é só uma fachada. Um antro de corruptos e sujos.

Janderson não respondeu. Conhecia as histórias. Sabia que a corrupção era algo recorrente no país e não se surpreendia que em algumas guilds fossem assim.

Suspirou.

— Pelo jeito não vou conseguir convencer vocês a vir comigo do jeito mais fácil.

Ele endireitou o corpo. O punho esquerdo estava coberto de gelo, intacto, pronto. O braço direito, firme. A costela, essa doía a cada respiração.

— Mas mesmo assim sou obrigado a falar. O crime de deserção é a morte. Vocês sabem muito bem. Eu posso levar vocês vivos ou mortos. Eu prefiro vivos.

Silêncio.

O terceiro desertor, o que tentara remover o selo, agora estava imóvel. Olhava para os lados, como se procurasse uma saída. Os outros dois não perceberam. Ou não quiseram perceber.

Janderson esperou.

— E aí? O que vai ser?

Janderson sentiu o chão de terra tremer. Por um momento, um peso imenso comprimiu seu corpo, como se alguém tivesse dobrado a gravidade sobre ele.

Sabia o que era. Distorção. Estavam tentando afundá-lo.

Rápido. Criou uma camada de gelo sob os pés. Depois, ergueu uma parede de gelo à sua frente, alta, larga, opaca. Bloqueio visual.

Fábio correu em sua direção enquanto o outro desertor fazia a terra onde Janderson estava afundar como areia movediça.

Quando Fábio contornou a parede de gelo, Janderson não estava mais lá.

— Onde ele foi? — Fábio procurou com os olhos, estendeu o Limiar para sentir a presença do padre.

Nada. O Véu o apagara do mundo.

— Pegamos ele? — o outro desertor gritou de dentro da cabana.

— Não! — Fábio rangeu os dentes. — Fica atento!

Foi quando um dos desertores — o que hesitara, o que olhara para os lados — tomou uma decisão. Correu para fora da cabana em desespero.

— Seu idiota! — Fábio gritou. — Mantém a formação! Você vai morrer!

O desertor não ouviu. Ou não quis ouvir.

Deu três passos para fora da cabana.

No quarto passo, o gelo o envolveu. Rápido. Silencioso. Completo.

Um túmulo de gelo, ereto, translúcido. O corpo lá dentro, imóvel, os olhos arregalados.

Janderson pisou suavemente no topo do túmulo. A lua brilhava em suas costas, recortando sua silhueta contra o céu noturno.

A voz veio calma. Quase cansada.

— Seu amigo não está morto. Só está... descansando um pouco. Se vocês cooperarem, não precisarei fazer o mesmo com vocês.

Fábio explodiu.

— Seu maldito! — gritou, a raiva vibrando em cada sílaba. — Daniel, vamos acabar com ele!

Ergueu as mãos. A Distorção veio violenta agora — não para prender, para esmagar. A pressão no ar mudou. O chão ao redor de Janderson rangeu.

Janderson se moveu. Rápido. Anormal. Antes que a técnica o alcançasse, já estava fora do alcance.

Mas o túmulo de gelo, não.

A pressão o atingiu em cheio. O gelo estalou, rachou, explodiu em mil fragmentos.

Silêncio.

Fábio olhou para os pedaços do corpo por um instante. A cabeça do amigo estava a poucos passos, os olhos ainda abertos, fixos no nada.

Depois desviou o olhar.

Janderson apareceu atrás dele. Suspirou.

— Você acabou de matar seu amigo. Satisfeito?

Fábio se virou, os olhos em chamas. Daniel, ao lado, já criava uma cortina de poeira e terra para ocultá-los.

— Que droga, Fábio! — Daniel gritou, a voz abafada pela poeira. — Você matou nosso companheiro! Sem querer, mas matou!

Fábio recuou para perto de Daniel, os dentes cerrados.

— Infelizmente ele ia fugir sem a gente. Certeza que na primeira oportunidade nos entregava.

Daniel não respondeu. Estendeu a areia. Ela se espalhou como um radar silencioso, tocando cada palmo de chão, cada arbusto seco.

Nada.

— Ele... sumiu mesmo — murmurou.

— Ele é rápido demais — Daniel completou, a voz tensa. — Some da vista como se fosse teletransporte. Mas é só velocidade. Velocidade anormal.

Os dois esperaram, imóveis, a poeira os protegendo.

Dez minutos se passaram. Talvez mais. Daniel estendia a areia a cada instante, varrendo o chão, os arbustos, as sombras. Nada. Janderson continuava invisível.

Os dois estavam atentos. Sabiam: qualquer vacilo era morte certa.

Respiravam devagar, tentando manter a calma. Mas Daniel não conseguia parar de arfar. O medo. O cansaço. O desespero.

Foi então que Fábio percebeu.

O ar gelado que saía da boca de Daniel. Uma nuvem fina, quase imperceptível. Ele olhou para as próprias mãos. A pele começava a arrepiar.

Frio. O local estava ficando frio demais.

— Droga — murmurou. — Ele está tentando nos congelar aqui dentro.

Daniel não respondeu. Mas seus olhos se moveram. Lentamente, apontaram para baixo.

Fábio olhou. No chão, um buraco escuro. Um túnel.

Daniel acenou com a cabeça. Vamos.

Ambos ativaram o Véu. Desceram no buraco em silêncio.

Vinte minutos. Trinta. Quarenta. O túnel parecia não ter fim. Escuro, úmido, apertado. Daniel cavara com cuidado, criando uma rota de fuga que os levasse longe da casa. Longe do padre.

Finalmente, uma luz fraca à frente. A lua.

Daniel parou na boca do túnel. Olhou para fora. A caatinga se estendia, vazia, silenciosa. Segura?

— Vou sair primeiro — sussurrou. — Se algo der errado, eu crio a tempestade de areia de novo. A gente faz mais túneis e foge.

Fábio concordou.

Daniel saiu.

Dez segundos. Vinte. Trinta. Nada.

Fábio esperou. O silêncio era absoluto.

— Daniel? — chamou, baixo.

Ninguém respondeu.

Fábio rangeu os dentes. Não podia gritar. Não podia chamar. O padre podia estar ouvindo.

Subiu. Devagar. A cabeça emergiu do buraco.

Ninguém.

Daniel não estava lá.

Fábio olhou em volta. A caatinga vazia. A lua alta. O silêncio.

— Ele não fugiria sem mim — pensou. — Não podia.

Foi quando sentiu.

Frio. Mas não o frio do padre. Diferente. Mais antigo. Mais... animalesco.

Ele se virou.

A criatura emergiu da escuridão.

Era enorme. Parecida com um lobo, mas ereta, andando sobre duas patas. O pelo escuro brilhava sob a lua. As garras, longas. Os olhos, amarelos. Na mão, arrastava um corpo.

Um corpo cortado ao meio.

As roupas... Fábio reconheceu.

Daniel.

Fábio sentiu as pernas fraquejarem. O estômago revirou. Recuou um passo, mas as pernas não obedeciam direito.

— Isso é... técnica do padre? — pensou, sem acreditar.

A criatura desapareceu na escuridão, arrastando o que restava de Daniel.

Fábio ficou imóvel, paralisado.

Então sentiu.

Aquele frio. O frio do padre.

Por um instante, quase foi confortável. Quase foi alívio. Depois lembrou.

Era ele. O inimigo.

Fábio ergueu as mãos. Pronto para lutar.

Janderson emergiu das sombras. O punho esquerdo ainda coberto de gelo. Os olhos atentos, percorrendo a escuridão atrás de Fábio.

— Vocês foram espertos — disse, a voz baixa. — Criaram uma técnica defensiva e fugiram. Seu amigo é habilidoso, Fábio. Onde ele está?

Fábio o encarou. O medo nos olhos agora, não a determinação.

— Você o matou.

Janderson franziu o cenho.

— Como assim? Eu só comecei a seguir vocês agora. É alguma armadilha?

Fábio apontou para a escuridão, a mão trêmula.

— Eu vi. Uma criatura. Parecia um lobo grande, andava sobre duas patas. Arrastou o corpo do Daniel pra dentro da escuridão. Ele controlava o gelo. Como você.

Janderson sentiu o sangue gelar.

Lembrou-se do mercadinho. As vozes dos moradores. "A criatura voltou." "Três desaparecidos."

— Um lobisomem — deixou escapar, quase sem perceber.

Fábio franziu o cenho.

— O quê?

Janderson não respondeu. Pensou rápido.

— Lobisomens não controlam gelo — pensou. — A menos que...

A ficha caiu.

Um Alpha. O líder da alcateia. Diferente dos lobisomens comuns, meras feras, fortes e rápidas, mas bestiais. O Alpha preservava algo do humano que fora. Incluindo o Limiar.

O poder do hospedeiro, mantido na fera.

— Isso complica tudo — murmurou.

Fábio o encarou, sem entender.

— O quê?

Janderson ia responder, mas o som cortou a noite.

UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU.

O uivo. Não como os outros. Mais profundo. Mais antigo. A terra tremeu. Fábio sentiu os ossos vibrarem. Janderson cerrou os punhos.

O uivo ainda ecoava na noite quando Janderson se virou para Fábio.

— Se prepare. Isso é questão de vida ou morte.

Fábio ainda tremia, os olhos fixos na escuridão de onde a criatura viera. Janderson segurou seu ombro.

— Escuta. Preciso saber. Quais são suas habilidades?

Fábio hesitou. Os dentes cerrados.

— Gravidade — murmurou. — Eu controlo a gravidade.

Janderson assentiu. Pensou rápido.

— Você só consegue usar a técnica no alvo que está olhando. É isso?

Fábio arregalou os olhos.

— Como você...

— Já vi seu tipo antes. E tem mais uma coisa. Dependendo do seu humor, sua técnica falha ou fica mais forte que o normal. Medo, raiva, desespero, tudo interfere.

Fábio não respondeu. Sabia que era verdade.

Janderson apertou o ombro dele.

— Agora é hora de se concentrar. Não pode haver falhas. Se errar, nós dois morremos.

Fábio engoliu seco. Assentiu.

Foi então que a criatura emergiu da escuridão.

Ela era maior do que parecia. Dois metros e meio, talvez três. Uma silhueta disforme que ora lembrava um lobo, ora um homem, uma mistura grotesca, como se a natureza tivesse errado ao criá-la. O pelo era escuro, sujo de sangue seco. O peito, largo. As pernas, musculosas, terminavam em garras que arranhavam o chão sem fazer barulho.

Os olhos. Amarelos. Perversos. Fixos neles.

Dois brilhos na escuridão.

Fábio sentiu as pernas fraquejarem.

Na mente de Janderson, Leviatã sussurrou.

— Olha que lobinho fofo.

Janderson a ignorou.

Ergueu a mão. Uma ventania de gelo seguiu-se, carregando dezenas de pequenas lanças. Elas cortaram o ar em direção à criatura.

A fera se moveu.

Rápida. Silenciosa. Desviou das lanças como se fossem lentas, correndo em círculos ao redor deles, testando, observando.

— Por que você não congela logo esse bicho? — Fábio gritou.

— Não se combate gelo com gelo — Janderson respondeu, os olhos fixos na criatura.

Ergueu as mãos. Estacas de gelo dispararam em direção à fera.

Ela parou. Não desviou. As estacas congelaram no ar a poucos centímetros dela, como se tivessem encontrado uma barreira invisível. A criatura as absorveu, o gelo se dissolveu e sumiu em seu corpo.

— Ela absorveu seu gelo? — Fábio perguntou, os olhos arregalados.

— Foi o que eu pensei — Janderson disse, recuando. — A fera vai absorver minhas técnicas de gelo para ficar mais forte.

A criatura disparou estacas de gelo em direção a eles. Janderson desviou, mas uma delas raspou seu ombro, arrancando um pedaço da batina. Fábio ergueu a mão, tentando usar a gravidade, mas a pressão veio fraca, instável.

— Concentra! — Janderson gritou.

Fábio rangeu os dentes, tentando acompanhar a criatura com os olhos. Ergueu as mãos, tentando usar a gravidade para esmagá-la, mas a fera se movia rápido demais. A Distorção vinha fraca, instável.

— Droga — ele murmurou.

Janderson agiu. Criou uma parede de gelo na frente da criatura que corria em círculo ao redor deles. A fera parou por um momento, desviou no último instante e foi nessa brecha que Fábio conseguiu acertar sua técnica.

A pressão no ar mudou. A Distorção desabou sobre a criatura, forçando-a para baixo.

Janderson não perdeu tempo. Duas mãos gigantes de gelo surgiram do chão e envolveram a criatura, segurando-a.

— Agora, garoto! — gritou.

Fábio ergueu as mãos. A gravidade pressionava a criatura, esmagando-a contra o chão.

Mas algo errado. Fraco. Inconstante.

O gelo estalou. Rachou. Explodiu.

A técnica de Fábio destruíra as mãos de gelo, mas não a criatura.

Ela avançou. Direto para Fábio.

Janderson se jogou na frente. Um bloco maciço de gelo surgiu entre eles. Uma armadura cobriu seu corpo.

A criatura colidiu com o bloco. As garras rasparam o gelo. O impacto jogou Janderson e Fábio para trás.

Fábio se levantou primeiro, desorientado, mas ileso. Olhou para Janderson.

O braço esquerdo do padre pendia torto. Deslocado. No ombro direito, um pedaço de gelo, o próprio bloco que se partira, estava fincado na carne. Sangue escorria pela batina.

Mesmo assim, Janderson se levantou.

— De novo — disse, a voz firme, apesar da dor. — Essa é nossa última chance.

Fábio o encarou. Algo mudou em seu olhar. O medo deu lugar a algo mais.

Determinação.

Janderson criou uma espada de gelo na mão direita. Avançou.

A luta que se seguiu foi uma dança. A criatura atacava com garras e dentes; Janderson desviava com uma facilidade que parecia irreal. Seus pés se moviam no chão seco como se ele soubesse exatamente onde a fera atacaria antes dela mesmo se mover.

Mas agora a fera usava gelo. Estacas brotavam do chão, paredes se erguiam, lanças voavam. Janderson desviava de todas, mas a cada esquiva, a criatura se aproximava mais.

— Ela está aprendendo — Janderson pensou. — Ficando mais rápida.

A criatura tentou abocanhar sua cabeça. Janderson desviou no último instante e a espada de gelo subiu.

O golpe acertou o olho da fera.

Ela recuou, uivando de dor.

Janderson não perdeu tempo. Uma mão gigante de gelo surgiu e prendeu a criatura com força.

— AGORA, GAROTO! — gritou.

Fábio ergueu as mãos. A Distorção veio violenta, precisa. A pressão desabou sobre a criatura, esmagando-a contra o chão.

A fera tentou se levantar. Não conseguiu. Fábio continuou apertando, como quem esmaga um inseto.

A criatura cedeu. O corpo se curvou sob o peso.

Fábio apertou mais. Mais. Até que...

O Limiar vacilou.

A energia acabou.

A pressão sumiu.

A criatura se libertou.

Num movimento só, ela avançou. O braço, a garra, atravessou o peito de Fábio.

Fábio olhou para baixo. O braço da fera saía de suas costas. Sangue escorria, quente, rápido.

Ergueu os olhos para Janderson.

— Me... desculpa...

A criatura mordeu. A cabeça de Fábio, parte dela, sumiu entre as mandíbulas.

O corpo caiu.

Silêncio.

Janderson ficou imóvel. O sangue de Fábio respingara em seu rosto.

O olho brilhante da criatura o encarou.

Janderson cerrou os punhos. O braço direito ainda firme. O esquerdo pendia. A espada de gelo ainda na mão.

— Agora — disse, a voz baixa — é só nós dois.

A fera avançou.

Janderson sentiu o corpo pesar. O cansaço. A dor. O sangue que não parava de escorrer do ombro.

Na mente, Leviatã sussurrou.

— Precisa de ajuda, padre?

Ele não respondeu. Mas também não disse não.

Ela entendeu.

O ar ao lado dele tremeluziu. Leviatã se materializou, não como fusão, mas como parceira de combate. O corpo escultural, o cabelo azul flutuando como se estivesse debaixo d'água. Ela sorriu, mas não havia humor nos olhos. Havia foco.

— É sério isso, padre? — provocou, enquanto a água começava a girar ao redor dela. — Só agora resolveu me deixar brincar?

Janderson não respondeu. Avançou.

Ela o acompanhou. Sincronia perfeita. Uma corrente de água surgiu ao lado dele, serpenteando no ar como uma extensão de seu movimento.

A criatura investiu com fúria, erguendo uma parede de gelo à sua frente. Leviatã respondeu com um jato d'água que quebrou a parede em estilhaços. A fera passou por dentro do vapor, as garras abertas.

Leviatã desviou, usando os tentáculos de água para se impulsionar para trás. Ela criou uma barreira líquida que envolveu a criatura, mas o gelo da fera congelou parte da água, transformando-a em armas.

A criatura quebrou o gelo com um movimento seco e avançou.

— Esperta — Leviatã murmurou.

A criatura disparou estacas de gelo. Leviatã as desviou, mas uma delas passou perto de Janderson, que se moveu no último instante.

— Deixa comigo — Leviatã disse, e suas águas se transformaram em chicotes que açoitaram a fera, forçando-a a recuar.

Janderson não esperou. Avançou por trás, a espada de gelo erguida. Uma fina camada de água envolveu a lâmina, Leviatã estava ali, impedindo que a criatura absorvesse o gelo.

A fera sentiu o movimento e se virou, mas Leviatã já estava lá, prendendo seus braços com tentáculos de água.

— Agora, padre! — gritou.

Janderson avançou. Cirúrgico. Preciso. A espada encontrou as costas da criatura, onde o coração deveria estar. Ele fincou com força, até o cabo.

O lobisomem uivou, um som agonizante, profundo. Sangue jorrou, escorrendo pela lâmina, pelas mãos de Janderson.

A fera começou a ceder. Os joelhos dobraram.

Janderson não parou. O gelo se espalhou do ponto de impacto, cobrindo o corpo da fera, congelando-a por dentro e por fora.

Um último estalo.

Ele a despedaçou.

Os blocos de gelo caíram no chão seco, levando consigo os restos da criatura.

Silêncio.

Janderson ficou imóvel, a respiração pesada. A espada ainda na mão. O sangue ainda escorrendo.

Leviatã apareceu ao lado dele. Olhou para os pedaços congelados. Depois para ele.

— Nada mal, padre. Para um primeiro encontro.

Ele não respondeu. Mas também não a mandou embora.

Janderson ficou imóvel por um instante. A respiração pesada. O corpo doendo.

— Obrigado — murmurou, baixo.

Leviatã não respondeu. Mas ele sentiu algo. Quase um sorriso.

O dia começava a nascer. Uma linha de luz no horizonte.

Foi então que ouviu.

Um estalo.

— Ei, padre — a voz de Leviatã veio, diferente. Sem provocação. — Acho que não acabou. Olha aquilo ali.

Janderson se virou.

O corpo de Fábio começava a se levantar.

Os membros estalavam, se ajustavam, como se algo estivesse tomando posse deles. O buraco no peito, aberto pela garra do lobo, agora deixava passar a luz do sol nascente.

Onde a cabeça deveria estar ou o que restava dela, algo se encaixava.

Uma máscara.

De doutor da peste.

Janderson sentiu o sangue gelar.

— Impossível — murmurou.

O mascarado, que não era mais Fábio, inclinou a cabeça. O gesto era quase educado. Quase humano.

Ergueu a mão.

A Distorção veio. Não como Fábio usava, hesitante, instável. Ela veio Perfeita. Natural. Sem precisar olhar para o alvo.

Janderson desviou por instinto. O chão onde estivera explodiu.

— A técnica dele... — pensou. — Perfeita. Sem falhas.

O mascarado atacou de novo. E de novo. Janderson esquivava, recuava, tentava encontrar uma abertura.

Leviatã tentou avançar. Os cabelos do mascarado se ergueram, como se tivessem vida própria, e açoitaram o ar na direção dela. Ela desviou, mas recuou.

— Esse troço é nojento! — reclamou, os olhos fixos na figura. — E rápido.

Janderson não respondeu. Estava focado. Observando. Esperando.

Ela entendeu. Recuou mais, criando distância, mas pronta para agir no momento certo.

O mascarado atacou Janderson de novo. E de novo.

Foi então que Janderson viu.

O braço direito do mascarado. Algo crescia nele. Fios. Cabelos.

Eles se ergueram, como se tivessem vida própria. E junto com eles, uma energia.

Janderson reconheceu na hora.

Era uma energia de Limiar familiar. Íntima.

— Essa técnica... — murmurou, quase sem voz. — Parece a da Kamila. A energia... é idêntica.

Ele sabia o que a habilidade de Kamila era capaz. O cabelo, se tocasse alguém, forçava o usuário a entrar em Véu absoluto, selando seu poder enquanto o contato durasse.

Sem Limiar. Sem defesa. Completa e total impotência.

Janderson resolveu manter distância.

Os cabelos avançaram.

Janderson desviou, criou uma parede de gelo, recuou mais.

— Oque é isso? — pensou. — impossível existir duas energias idêntica de limiar?

Leviatã sussurrou:

— Depois você pensa nisso. Agora luta.

Janderson cerrou os dentes. Mas começou a planejar o próximo ataque.

A figura mascarada começou a avançar, tentando encurtar a distância.

Janderson falou para Leviatã:

— Segura ele. Mas não deixa o cabelo encostar em você. Use os tentáculos para manter distância. Preciso que distraia ele por um momento.

Leviatã assentiu. E avançou.

A troca de golpes foi rápida. Ela desviava dos cabelos e das técnicas gravitacionais com uma facilidade quase entediante, chegou a bocejar entre um ataque e outro.

Mas Janderson percebeu: mesmo lutando contra Leviatã, a criatura ainda tentava acertá-lo de vez em quando. A Distorção vinha, ele sentia a pressão no ar e desviava.

Janderson estava concentrando algo.

Geralmente, para técnicas mais poderosas, Janderson juntava as mãos em oração. Mas com o braço esquerdo inútil, só podia usar uma das mãos. Mais lento. Mais difícil. Ele ergueu a mão direita mesmo assim. E começou a rezar.

A energia se acumulou. Levou algum tempo. Leviatã segurava a criatura.

Quando sentiu que era o momento, gritou:

— Sai da frente!

Leviatã se afastou num instante.

— Finalmente — ela murmuro. — Tava ficando entediada.

Janderson avançou. Os cabelos tentaram agarrá-lo, mas a luz que emanava de sua mão os repeliu.

Ele encostou a palma na cabeça da figura mascarada.

— Spiritus Sanctus.

A luz explodiu.

A criatura gritou, um som agudo, dolorido, como se algo dentro dela estivesse queimando.

A técnica não era para matar. Era para purificar. Para expulsar o que não deveria estar ali.

E funcionou.

A luta foi longa. O mascarado era forte, rápido, implacável. Mas Janderson tinha Leviatã. Tinha anos de experiência. Tinha calma.

A máscara rachou. Fragmentos escuros caíram como cinzas antes de desaparecer no ar. O corpo de Fábio tombou no chão, agora apenas um corpo.

Mas antes de se desfazer por completo, a máscara falou.

— Até breve, padre. Vou voltar para te buscar.

Leviatã olhou com desdém.

— Até nunca mais, coisa feia. E saiba: o Janderson é só meu.

Janderson ficou imóvel, ofegante. O sol já iluminava a caatinga.

— Acabou — murmurou.

Leviatã se aproximou, os olhos azuis examinando os ferimentos dele.

— Vai precisar de ajuda, padre? Posso te oferecer um colo bem confortável. E quentinho. E macio.

Ele não respondeu.

Ajoelhou-se ao lado do corpo de Fábio, do que restava dele. Fechou os olhos. Murmurou uma oração.

Quando abriu os olhos, passou a mão no rosto. Pegou o celular.

A ligação chamou. Uma vez. Duas.

— Fala — a voz de Scar do outro lado.

— Preciso que você venha aqui onde estou.

— Agora?

— É urgente.

— Estou indo.

Janderson guardou o celular. Tirou do bolso um papel diferente, amarelado, coberto de símbolos e círculos estranhos. Colocou no chão. Pressionou com seu Limiar.

O papel afundou no solo, marcando a terra com aquele símbolo. Depois desapareceu.

Janderson sentou-se no chão, aliviado. Olhou para a manhã que nascia. O local estava calmo, tranquilo, como se não tivesse acabado de abrigar uma batalha.

Um portal feito de sombras se abriu exatamente onde o papel estivera.

Scar saiu dele. Com um pão na mão. Mastigando.

Olhou para Janderson. Para os ferimentos. Para o corpo de Fábio. Para os restos do lobisomem espalhados pelo chão.

— Tá ficando velho, meu amigo. Na sua idade já devia saber que lobisomem não se mata — se reza.

Deu uma olhada no corpo.

— E outra: bagunça de gente jovem faz todo mundo cair no chão.

Ofereceu o pão.

— Vai um paozinho aí?

Janderson estendeu a mão.

— Aceito.

Antes que Scar entregasse, Leviatã surgiu ao lado dele. Olhou para o pão. Depois para Scar.

— "Nem só de pão viverá o homem." — disse, com um sorriso de canto.

Scar riu.

— É verdade. Tem que ter uma manteiguinha.

Janderson encarou os dois. Sério. Incrédulo.

— Dois cabeças ocas — murmurou, pegando o pão.

Comeu ali mesmo, sentado no chão seco.

— Kamila — disse, entre uma mordida e outra. — Sabe de alguma coisa?

Scar franziu o cenho.

— Por quê?

Janderson contou. Rápido. Direto. A energia que sentiu. A técnica dos cabelos. O Limiar idêntico ao de Kamila.

Scar ouviu em silêncio.

— A casa dela foi atacada — disse, quando Janderson terminou. — Ela desapareceu. O filho dela, Yuri, apareceu na porta da minha casa. Disse que ela sumiu.

Janderson parou de mastigar.

— O que vamos fazer?

Scar pensou por um instante. Depois pegou o celular.

— Vamos deixar na mão de um amigo. Detetive. Douglas.

Ele discou. Esperou.

Quando a ligação foi atendida, Scar abriu um sorriso.

— Fala, seu Tucano! Precisamos da tua ajuda.


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