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Nova Era
02 - Yuri
5409 palavras • 31132 caracteres • ⏱ 21 min 38 s

02 - Yuri

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Yuri observava a chuva escorrer lentamente pela janela do quarto de hóspedes da casa de dona Maria. As gotas se acumulavam no vidro antes de ceder ao próprio peso, deixando rastros irregulares — como se hesitassem em cair.

Foi ela quem o acolheu após o estranho incidente que destruiu sua casa. Uma senhora de idade avançada, cabelos grisalhos sempre bem penteados, rosto gentil e um sorriso que parecia permanente demais para alguém que já tinha visto tanta coisa em sua vida. Conhecia Yuri desde pequeno; cuidou dele inúmeras vezes quando sua mãe precisava sair para trabalhar.

O som da chuva preenchia o quarto, mas não conseguia abafar os pensamentos.

A explosão.

O caos.

Os escombros espalhados como se a casa tivesse sido arrancada do lugar.

E, acima de tudo, a ausência.

Nenhum corpo fora encontrado entre os destroços.

Essa ausência era o que mais doía, porque também era o que sustentava uma esperança frágil, quase cruel. Talvez sua mãe ainda estivesse viva. Talvez tudo aquilo fosse apenas um erro, uma peça fora do lugar.

Uma lembrança emergiu, insistente: a última conversa.

"Ela pediu para eu entrar no e-mail... procurar um nome."

"Qual era mesmo?"

— Meu filho, você está com fome? — perguntou dona Maria, da porta, em voz baixa, como se o quarto pudesse se quebrar se ela falasse mais alto.

Yuri demorou um segundo para responder.

— Não, obrigado — disse, percebendo tarde demais que a voz saiu mais fraca do que pretendia.

Ela se aproximou um pouco.

— Você precisa se alimentar... mas eu entendo sua dor. Também já perdi alguém que amava.

Yuri assentiu.

Dona Maria tocou seu ombro com cuidado, como quem fecha uma porta sem fazer barulho, e saiu.

O silêncio voltou e, com ele, a lembrança.

O nome.

"Scar."

O coração de Yuri acelerou de repente, como se o corpo tivesse despertado antes da mente. Pegou o celular, abriu o e-mail da mãe e foi direto à pasta de enviados.

Lá estava.

Uma mensagem curta, direta demais para o jeito dela.

"Preciso falar algo importante com você. Venha nesse endereço. É urgente. Preciso da sua ajuda."

Yuri franziu a testa. A mãe nunca pedia ajuda daquele jeito. Muito menos enviava o próprio endereço para estranhos.

A resposta veio logo abaixo:

"Primeiramente, devíamos começar dando um BOM DIA. Em segundo lugar, a última vez que falei com você foi há muito tempo. Você nunca me explicou por que sumiu. Agora aparece do nada pedindo ajuda e ainda quer que eu vá até aí?
Se quer falar comigo, venha você. Este é o meu endereço."

Yuri releu a mensagem.

O tom era ríspido. Arrogante até.

Ótimo, pensou. "Além de tudo, a única pista que eu tenho é um sujeito mal-educado."

Suspirou.

— Claro que ia ser assim... — murmurou para si mesmo.

Mas o sarcasmo morreu rápido. Porque, gostasse ou não, aquela era a única coisa concreta que restava.

Olhou novamente pela janela. A chuva havia cessado. O céu permanecia fechado, pesado, não mais caindo, apenas esperando.

Pegou a mochila.

Na sala, dona Maria descansava na poltrona.

— Dona Maria... — começou, a voz mais firme do que se sentia. — Um tio meu apareceu. Vou ficar um tempo na casa dele. Queria agradecer por tudo.

Era uma meia-verdade. Mas ele não tinha energia para explicar a verdade inteira.

Ela segurou suas mãos por um instante, apertando-as com carinho silencioso, como se entendesse mais do que ele dizia.

Yuri saiu pela porta sem olhar para trás.

Enquanto caminhava, um único pensamento se repetia, insistente:

"Eu vou descobrir a verdade sobre o que aconteceu."

No aeroporto, o destino era Manaus, uma cidade distante demais para quem não tinha mais para onde ir. Durante o voo, Yuri permaneceu quase imóvel, olhando pela janelinha enquanto a paisagem se desfazia sob as nuvens.

Estou gastando o pouco que tenho indo pra um lugar que nem conheço...

Suspirou, sem humor suficiente para rir da própria situação.

"Mas, sinceramente, não tenho nada a perder. Pena que essa viagem já começou sendo uma facada, no bolso e na alma."

Ao desembarcar, recolheu a única mochila na esteira e foi imediatamente atingido pelo calor. Denso. Incômodo.

"Será que o ar-condicionado do aeroporto tá quebrado?"

Deu dois passos além das portas automáticas e entendeu.

"Ah. Não. Então tava funcionando mesmo."

O impacto do calor real arrancou qualquer pensamento leve. O suor veio rápido demais. Yuri respirou fundo e seguiu em frente. Aquilo não era o problema. Nada ali era.

Chamou um táxi e passou o trajeto em silêncio, observando a cidade sem realmente vê-la.

O endereço ficava na zona norte, em um bairro mal sinalizado, exposto à luz do dia, mas estranhamente contido. Poucas pessoas circulavam. Portas fechadas. Janelas entreabertas. Não era silêncio de madrugada, mas uma ausência de movimento sob o sol forte, como se o bairro soubesse que chamar atenção nunca terminava bem.

O táxi parou com um solavanco curto.

— É aqui — disse o motorista, sem esconder o tom desconfiado.

Yuri desceu devagar, a mochila pendendo de um ombro só. O carro arrancou rápido demais, como se o lugar pudesse contaminar quem ficasse parado por muito tempo.

Ele ficou ali, alguns segundos, observando.

A construção à sua frente parecia não ter decidido o que queria ser. Bar de beira de estrada. Casa abandonada. Talvez os dois. A alvenaria manchada refletia a luz de forma opaca. A fachada parecia esquecida. A porta de ferro branca, descascada e tomada pela ferrugem, absorvia o calor, como se o tempo tivesse desistido daquele endereço mesmo sob o sol.

Yuri engoliu em seco.

"Claro que é aqui."

Pensou em dar meia-volta. A ideia passou rápido. Fugir exigia energia demais.

— Parabéns, Yuri... — murmurou. — Sequestro de órgãos ou respostas existenciais. Belo leque de opções.

Ele bateu no portão. O metal respondeu com um som seco, oco demais. Bateu de novo. Palmas. Chamou alto.

Silêncio.

Por um instante, sentiu um alívio estranho. Talvez Scar não estivesse ali. Talvez tivesse errado o horário. Talvez aquele fosse o fim da trilha.

"E se for só isso?"

A irritação veio antes do medo.

Foi então que percebeu movimento no canto da rua.

Um homem caminhava pela calçada com uma sacola de pão na mão, como se tudo fosse absolutamente normal. Óculos de armação grossa. Um chapéu fedora antiquado demais para ser ironia. Cabelo castanho-escuro despenteado, caindo em mechas sobre o rosto. Camiseta preta com uma caveira mal impressa, short marrom até os joelhos e chinelos gastos.

Yuri observou em silêncio.

"Que cara esquisito..."

"Alguém avisa pra ele que ele matou a moda?"

"E, pelo visto, ainda escondeu o corpo dentro desse chapéu."

O humor apareceu e desapareceu logo em seguida.

A lembrança do fogo veio em sua mente sem pedir licença. A voz da mãe, firme, apressada. O pedido dela que ele não tinha o direito de ignorar.

O homem parou a poucos metros, procurando algo no bolso do short. Parecia vasculhar de forma desesperada, como se tivesse perdido alguma coisa importante. De repente, continuou andando na direção de Yuri, ele tinha a expressão de quem havia perdido a própria dignidade junto com o objeto. Revirava os bolsos com crescente indignação, como se eles o estivessem traindo, antes de chegar ao portão de ferro branco, parou de repente. Sorriu, como se tivesse lembrado de algo óbvio demais para ser esquecido, levantou o chapéu e retirou a chave que estava escondida ali.

"Esse cara realmente guarda a lógica em outro lugar", pensou Yuri.

Respirou fundo e falou:

— Você conhece alguém chamado Scar? Estou procurando por ele. Aparentemente, ele mora aqui.

O homem não respondeu. Apenas encaixou a chave no miolo do portão e tentou girá-la.

Nada.

Tentou de novo.

Nada.

O miolo parecia ter envelhecido uns vinte anos desde a última abertura. A chave travou.

Ele sacudiu o portão como se estivesse tentando acordá-lo.

— Claro. Porque abrir normalmente seria simples demais — resmungou o estranho. — Essas coisas só acontecem comigo... Fazer o quê? Acho que vou ter que pular o muro. Duvido que os pirralhos vão me ouvir se eu gritar.

Então olhou para Yuri como se só agora tivesse notado que ele existia.

— Garoto, segura minha sacola de pão rapidinho. Vou abrir o portão por dentro. Se você me ajudar, eu te dou um pãozinho. Sei que você parece estar com fome... e vida de mendigo não é fácil, né?

Yuri o encarou, incrédulo.

"Ele me chamou de mendigo???"

A sacola foi empurrada para suas mãos antes que pudesse protestar.

O homem tentou pular o muro. Pulou uma vez. Duas. Nenhuma delas particularmente impressionante. Parecia disputar uma competição invisível contra a própria altura.

Recuou alguns passos.

Correu.

Apoiou os pés na parede e, milagrosamente, conseguiu se agarrar à borda. Ficou pendurado ali por alguns segundos, os braços tremendo.

A cena não era heroica.

Era... persistente.

Com esforço desajeitado, conseguiu se equilibrar no topo. Já ia pular para o outro lado quando parou de repente.

Olhou para Yuri.

Para a sacola.

De volta para Yuri.

Sentou-se sobre o muro.

— Garoto... você não vai fugir com o meu pão, né?

O tom não era agressivo. Era leve demais para a frase.

— Porque, se fugir... — disse, ajustando o chapéu com naturalidade — eu te encontro.

Fez uma pausa breve, não dramática. Apenas suficiente.

— E acredite... eu sempre encontro.

A frase foi dita quase distraída, como quem comenta sobre o clima.

Um arrepio leve percorreu a espinha de Yuri antes que ele pudesse racionalizar.

"Esse cara fala como se estivesse contando vantagem... mas não parecia brincadeira."

Pensou Yuri antes de perguntar novamente.

— Você conhece o Scar? — insistiu.

O homem o encarou por alguns segundos longos demais.

— Conhecer é uma palavra forte — respondeu. — Depende do que você acha que sabe.

— Eu só preciso falar com ele.

— Todo mundo que me procura diz isso.

O silêncio que veio depois não era constrangedor. Era... intencional demais.

— É dívida? — perguntou o homem. — Ou trabalho?

— São perguntas.

O homem sorriu de canto.

— Perguntas costumam ser mais caras que dívidas.

Yuri franziu o cenho.

— Você é ele?

O homem inclinou a cabeça novamente.

— E se eu for?

Antes que Yuri respondesse, ele pulou para dentro do terreno.

Começou a sacudir o portão pelo lado de dentro com exagero quase teatral. De repente, a chave girou.

O portão se destrancou.

— Viu? — disse, satisfeito – É técnica. Eu tenho o jeitinho.

Falou com a confiança de quem tinha acabado de realizar algo impressionante.

Yuri o encarou por alguns segundos, o rosto imóvel.

O homem estendeu a mão para pegar a sacola de pão.

Quando Yuri estava prestes a entregá-la, puxou-a de volta.

— Me responde. Você é o Scar ou não?

O homem suspirou, como se a pergunta tivesse interrompido algo muito mais importante.

— Garoto... eu tô com fome. Bora entrar, tomar um café. Lá dentro eu respondo suas perguntas.

Simples. Leve. Irritantemente tranquilo.

Yuri sentiu o incômodo crescer.

"Esse cara tá me fazendo de palhaço. Nunca responde nada direto."

Ele poderia insistir. Poderia ir embora. Poderia tentar arrancar uma reação.

Mas precisava de respostas e aquele homem claramente não tinha pressa nenhuma em entregá-las.

Sem alternativa melhor, entrou.

A parte externa da casa parecia abandonada.

A parte interna, não.

O contraste era quase ofensivo.

O espaço era amplo, organizado demais para alguém que parecia viver à base de pão e ironia. À direita da entrada, uma escada levava ao andar superior. Em frente, uma sala grande com sofás e cadeiras bem posicionados, como se aquele lugar tivesse sido feito para receber muita gente embora estivesse vazio.

"Grande demais para um homem só."

Yuri percebeu que estava observando tudo com atenção excessiva.

— Se você tá procurando algo de valor — disse o homem, sem olhar diretamente para ele — não vai encontrar nada demais. Eu tenho tudo de menos.

Ele riu da própria piada como se fosse brilhante.

Yuri não riu.

A cozinha era ainda mais espaçosa. Uma mesa longa ocupava o centro, madeira maciça, antiga, rústica, mas bem cuidada. Doze cadeiras.

"Doze."

O homem puxou uma cadeira.

— Senta.

Trouxe a garrafa de café e serviu duas xícaras sem perguntar se Yuri queria. Sentou-se à cabeceira da mesa, não exatamente de frente, mas levemente inclinado. Um ângulo que permitia observar melhor.

— Então... — soprou o café — o que você quer saber, garoto?

O tom era casual demais.

Yuri sustentou o olhar.

— Minha mãe te enviou um e-mail. Pouco antes da minha casa explodir. Então eu vou perguntar uma vez só: o que você sabe?

Scar levou a xícara aos lábios. Bebeu. Fez uma leve careta.

— Forte demais.

Colocou a xícara na mesa com calma.

Então ergueu os olhos.

— Explodiu?

Não havia choque.

Havia foco.

O estômago de Yuri apertou.

— Você não sabia?

Scar ignorou a pergunta.

— Sua mãe me enviou um e-mail?

Agora o interesse era nítido. Não ansioso.

Atento.

— Enviou.

— Quando?

— Antes da explosão.

Silêncio.

Scar cruzou os dedos sobre a mesa.

— Não foi isso que eu perguntei. Qual a data? Ou pelo menos o nome dela. Recebo muitos e-mails.

Yuri sentiu a irritação subir, mas manteve a voz firme.

— Informação é troca. Você responde primeiro.

Os olhos de Scar permaneceram nele por tempo demais.

— Preciso saber o nome dela para te dar qualquer resposta.

— Kamila.

Por um segundo, algo passou pelo rosto de Scar.

Talvez preocupação.

Sumiu rápido demais.

— Você não perguntou se eu a conhecia — ele disse.

— Não.

— Por quê?

Yuri inclinou levemente a cabeça.

— Porque você não parece o tipo de pessoa que responde perguntas simples com respostas simples.

Um canto da boca de Scar se ergueu, um sorriso.

— Interessante.

Ele tamborilou os dedos na madeira.

— Me diz uma coisa... você veio até aqui esperando o quê?

— Respostas.

Scar inclinou a cabeça, os olhos fixos.

— Não. — Ele balançou a cabeça devagar. — Isso é o que você precisa. Não é o que você espera.

O incômodo cresceu no peito de Yuri.

"Ele prolonga as respostas de propósito."

— Eu não vim pra jogo de palavras.

— Veio sim.

A resposta foi imediata.

Scar começou a ajeitar o chapéu em sua cabeça

— Você veio até mim. Você podia ter ido à polícia. Podia ter aceitado que foi um acidente. Mas veio até mim.

Ele inclinou o corpo para frente.

— Quer saber o que aconteceu com sua mãe?

Ele esfregou os dedos em um gesto que lembrava dinheiro.

— Mas respostas têm preço, garoto — Scar sorriu de canto. — E não estou falando de dinheiro. A minha pergunta é por que você veio até mim?

Yuri respirou fundo.

— Porque minha mãe não pediria ajuda a alguém irrelevante.

O silêncio mudou de peso.

Scar não desviou o olhar.

— Hmmm.

Recostou-se na cadeira.

— E você acha que eu sou relevante?

— Eu acho que você é a única pista que eu tenho.

Alguns segundos se passaram.

Então Scar perguntou:

— Se eu dissesse que sua mãe está viva... o que você faria?

O mundo pareceu encolher.

Mas ele percebeu.

Scar não disse que ela estava viva.

Disse "se".

Yuri não piscou.

Scar inclinou levemente a cabeça. Esperando.

O silêncio durou o tempo exato para ser desconfortável.

Então Yuri respondeu:

— Eu pediria provas.

Scar sorriu. Satisfeito.

— Ótimo.

Pegou a xícara novamente.

— Porque esperança é a coisa mais fácil de manipular.

Tomou outro gole.

E dessa vez não fez careta.

— Garoto... existem coisas nesse mundo que—

A porta da cozinha se abriu. Não com força. Mas sem pedir permissão.

Yuri olhou.

Uma garota entrou. Cabelos claros demais para aquela casa escura sob a luz, quase prateados. Os olhos ele demorou um segundo para entender. Roxos. Não vibrantes. Profundos.

Yuri não sabia explicar. Algo nela, o jeito como se movia, como o olhar roxo parecia enxergar além do que estava na frente, fazia com que qualquer hesitação parecesse besteira.

Ela ignorou Yuri completamente. Seus olhos estavam fixos em Scar.

— Resolvido.

Era uma palavra simples. Ainda assim, havia confiança e peso nela.

Scar apenas inclinou a cabeça.

— Eu imaginei, bom trabalho Safira.

Só então ela pareceu perceber Yuri.

O olhar mudou. Ficou mais atento.

— Quem é?

— Um problema — Scar respondeu.

Ela não reagiu à resposta. Apenas continuou encarando Yuri. Não com curiosidade, mas como se o estivesse avaliando.

— Ele sabe de alguma coisa?

— Não.

Scar suspirou, já prevendo a próxima pergunta.

Ela deu um passo sutil para o lado, observando melhor.

— Hmmm.

Os olhos roxos percorreram Yuri lentamente.

— Ele tem alguma coisa familiar.

— Não começa — Scar falou, baixo.

Ela ignorou.

— Estranho você trazer um problema pra dentro de casa... e ainda servir café?

Scar não responde de imediato.

O olhar dele foi de Yuri para Safira.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um som cortou o silêncio.

O celular vibrou sobre a mesa. Não era alto, mas naquela cozinha pareceu invasivo.

Scar olhou para a tela. Sua expressão mudou sutilmente.

Então atendeu.

— Fala.

Os olhos dele endurecem.

— Agora?

Mais um segundo ouvindo.

— Estou indo.

Ele desligou. Guardaou o celular no bolso sem pressa.

Mas a tensão já estava diferente.

— Oque houve? — Safira perguntou.

— Nada. — Scar pegou o pão e deu uma mordida — Só... complicado.

Ele mastigou com calma.

Ela cruza os braços.

— E ele?

Scar olha para Yuri outra vez.

— Fique de olho nele.

Safira ergue levemente uma sobrancelha.

— Só isso?

Scar caminha até a porta.

— Não faça nada, só fique de olho nele.

O tom não era alto. Mas absoluto.

Ele encara Safira por um segundo.

— Nada.

Ela sustenta o olhar.

Depois sorri de leve.

— Relaxa.

Scar não parecia convencido. Mas saiu mesmo assim.

A porta fecha.

O silêncio que fica não é confortável.

Safira volta o olhar para Yuri. Agora sem interrupções.

Ela inclina a cabeça.

— Então...

Os olhos roxos analisam cada micro reação.

— Vamos descobrir se você é mesmo um problema.

Ela se virou antes que ele pudesse formular qualquer resposta e começou a caminhar em direção ao corredor, os passos firmes, silenciosos, seguros demais para alguém que duvidasse do próprio julgamento.

— Vem comigo.

Yuri sentiu uma confiança estranha nela, imediata demais para alguém que acabara de conhecer. Sabia que aquilo não era racional. Sabia que, em circunstâncias normais, teria feito mais perguntas, mantido distância, desconfiado. Ainda assim, quando ela começou a andar pelo corredor, ele a seguiu.

O corredor parecia mais longo do que ele lembrava. À primeira vista, nada ali havia mudado, as mesmas paredes, a mesma iluminação discreta, mas os passos se acumulavam sem que o fim surgisse. Ele só percebeu tarde demais que aquela sensação não era distração; era extensão.

Em algum momento, Safira começou a falar de Scar. Disse que ele raramente respondia perguntas de forma direta, que preferia conduzir as pessoas até a resposta em vez de entregá-la. Havia algo quase irônico naquilo, como se ela soubesse exatamente o que estava fazendo.

— Ele saiu sem responder nada — Yuri resmungou, mais para si do que para ela.

Safira soltou uma breve risada, baixa, cúmplice.

— Ele é assim.

Pararam diante de uma porta no fim do corredor.

Yuri franziu a testa. Tinha quase certeza de que aquele corredor terminava numa parede. Lembrava-se disso com clareza desconfortável.

— O que tem aí?

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Algo que ele não gosta de mostrar para qualquer um.

Girou a maçaneta.

A porta se abriu, e a luz que entrou não era de lâmpada nem de reflexo artificial. Era luz de céu aberto, ampla, viva, orgânica.

Yuri levou um segundo inteiro para compreender o que estava vendo.

Um jardim.

Extenso demais.

Verde demais.

Árvores altas alinhavam-se como se cada uma tivesse sido posicionada com cálculo exato, criando uma harmonia quase irreal. O ar parecia mais limpo do que qualquer ar que ele já respirara. Havia vento, e ele podia ouvir o farfalhar das folhas com nitidez.

Então a memória o atingiu.

Quando estivera do lado de fora da casa, o terreno era barroso, irregular, pequeno. Ele lembrava claramente de conseguir ver o muro do vizinho do quintal. Não havia espaço para aquilo. Não havia sequer possibilidade geométrica.

Ele deu um passo para trás.

— Isso não... — olhou por cima do ombro para o corredor. — Isso não cabe aqui.

Safira observava sua reação com atenção contida, quase satisfeita.

— Boa observação.

Ele voltou os olhos para o jardim. O céu parecia real demais, profundo demais. O horizonte se estendia além do que qualquer quintal poderia suportar, como se não houvesse fim mensurável.

Mesmo assim, ele atravessou a porta.

A grama cedeu sob seu peso, macia e úmida. O cheiro de terra viva subiu até ele. O vento tocou seu rosto com naturalidade indiscutível.

Mas, quando se virou, o estômago se contraiu.

A porta estava ali. Sozinha. Plantada no meio do jardim. Sem parede. Sem estrutura. Apenas a porta, erguida como um objeto deslocado da realidade.

O corredor não existia mais.

— Isso é impossível.

Safira entrou logo depois e fechou a porta. Ela permaneceu ali, imóvel, sustentada por nada visível.

— Não é impossível — disse ela com tranquilidade. — É só uma questão de perspectiva.

Yuri encarou o horizonte outra vez. Não havia muros. Não havia vizinhos. Não havia limites.

— O que é isso? — perguntou. — Como isso é possível?

Ela sustentou seu olhar.

— É possível quando você entende as regras.

Ele respirou fundo, tentando encaixar aquilo em qualquer lógica que ainda possuísse.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Eu não perguntei seu nome.

Ele piscou, quase desnorteado pela mudança brusca.

— Yuri.

Ela repetiu o nome como se testasse o som.

— Yuri.

Houve um breve silêncio antes da próxima pergunta.

— Por que você estava naquela casa?

Ele hesitou, mas contou. Falou do que viu, do que sentiu, do instante em que tudo deixou de fazer sentido. Falou do medo, da confusão, da sensação de que algo maior estava acontecendo fora do alcance de sua compreensão.

Safira ouviu sem interromper. Sem comentar. Sem revelar o que pensava.

Quando ele terminou, o vento pareceu diminuir de intensidade, como se o próprio espaço aguardasse uma conclusão.

— Certo — disse ela.

Ele esperou uma explicação.

Não veio.

— Se prepara.

Ele franziu a testa.

— Preparar pra quê?

Ela se aproximou.

Nos olhos roxos não havia crueldade. Nem hesitação. Apenas decisão.

— Se você estiver errado sobre quem você é... você morre.

O mundo pareceu encolher por um segundo.

— O que—

Antes que Yuri pudesse terminar a pergunta, ela encostou dois dedos no centro do peito dele.

Não houve luz. Nem explosão.

Apenas um batimento irregular.

Depois, silêncio.

O coração falhou.

O ar desapareceu.

O som se dissolveu.

O jardim se afastou como se estivesse sendo puxado para trás, tornando-se distante demais para ser alcançado.

Yuri caiu, mas não atingiu o chão.

Ele afundou.

Escuridão.

Fria. Densa. Profunda.

Não era solo. Era mar.

Um mar que brilhava como uma galáxia submersa, estrelas espalhadas sob uma superfície invisível.

Ele tentou respirar.

Não havia ar.

Apenas densidade.

Peso.

Quanto mais lutava, mais afundava. O peito queimava. A mente gritava. O corpo implorava por oxigênio que não existia.

Mas aquilo não era água.

Era caos.

Fragmentos de memória, luz e sombra entrelaçadas, sons quebrados e sensações sem forma girando ao redor dele.

Ele afundou mais.

Até que compreendeu.

Não era morte.

Era fronteira.

A luta cessou.

Ele parou de resistir.

E então o fundo desapareceu.

Ele despencou, não para baixo, mas para dentro.

E tudo se tornou branco.

Não céu.

Não luz radiante.

Apenas branco.

Sem sombra. Sem direção. Sem peso.

Seu corpo não projetava contorno algum. Ele não sentia frio, nem dor, nem falta de ar.

Apenas silêncio.

Uma tranquilidade absoluta, como se o universo tivesse deixado de exigir qualquer coisa dele.

Ele não tinha medo.

Se aquilo fosse morrer, então estava tudo bem.

Havia uma paz profunda, uma aceitação que não precisava de palavras.

Ele poderia permanecer ali.

E nada doeria.

Mas, no silêncio, algo pulsou.

Não o coração.

Algo maior.

Um ritmo distante.

Vida, não como urgência, mas como possibilidade.

Ele entendeu.

Se ficasse, seria o fim.

Se voltasse, seria o começo.

Pensou na mãe. No vento do jardim. No olhar firme de Safira. No mundo que ainda não compreendia.

E escolheu.

O branco rachou.

O ar invadiu seus pulmões como lâmina.

O coração disparou de volta com violência.

Ele colapsou na grama, o peso do corpo retornando junto com o som, o vento e o cheiro da terra.

Yuri puxou ar com desespero. Tossiu. O peito doía como se tivesse sido comprimido por dentro.

Estava vivo.

Safira estava ajoelhada ao lado dele, observando com atenção contida. Não parecia aliviada. Nem assustada. Apenas atenta, como alguém que aguardava a confirmação de algo.

O jardim estava silencioso demais. As árvores imóveis. O céu parado, como se tivesse prendido a respiração junto com ele.

Por um breve instante, Yuri teve a impressão de que o branco ainda pairava ali, invisível, tocando aquela dimensão de algum modo que ele não sabia explicar.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Você está vivo?

Ele ainda respirava com dificuldade, o ar entrando e saindo em golpes irregulares.

— Estou.

Os olhos dela se estreitaram quase imperceptivelmente.

Ela se levantou devagar.

— Fico feliz em saber.

Fez uma pequena pausa, o olhar perdido por um instante.

— Alguns não sobrevivem.

O silêncio no jardim era diferente do silêncio lá fora.

Não era vazio. Era cheio. Como se o espaço estivesse escutando.

Yuri ainda sentia o peito arder. Cada respiração era uma lembrança: por alguns segundos, ou horas, ou dias, ele não sabia, ele simplesmente... não existia.

Com esforço, colocou as mãos no chão e empurrou o corpo para cima. As pernas tremeram, ameaçando ceder, mas ele se levantou.

— Senta.

Safira apontou para um banco de pedra perto de uma árvore cujas folhas pareciam brilhar sob a luz que vinha de lugar nenhum. Ela sentou primeiro, as pernas cruzadas, os olhos roxos fixos nele como se esperasse que ele desabasse a qualquer momento.

Yuri sentou. Não porque quisesse. Porque as pernas ameaçavam ceder.

— O que aconteceu comigo? — perguntou, a voz ainda rouca.

— Eu parei seu coração e você encarou a morte. — Safira respondeu, simples. — E tinha alguém com Limiar por perto. Isso despertou o seu Limiar.

— VOCÊ PAROU MEU CORAÇÃO? — gritou Yuri, assustado. — E o que é Limiar?

Safira o encarou. Por um segundo, pareceu considerar se valia a pena explicar.

— Sua alma — disse, finalmente. — Agora ela projeta intenção no mundo.

Ela falava como quem explica que a grama é verde ou que o fogo queima. Sem drama. Sem ênfase. Apenas fato.

Yuri franziu o cenho.

— Minha alma... o quê?

— Parabéns. Você é perigoso agora — disse ela, casualmente mexendo no cabelo.

— Eu não pedi pra ser perigoso.

Safira inclinou a cabeça, um sorriso minúsculo dançando no canto da boca. Um sorriso que não era exatamente gentil.

— Ninguém pede.

Ela se levantou num movimento fluido, quase felino, e começou a caminhar em volta dele. Yuri a acompanhou com o olhar, tenso.

— Você lembra do que viu? — Safira perguntou com a voz baixa.

Ele pensou no branco. Na paz. Na pulsação distante que o chamou de volta.

— Lembro.

Ela inclinou levemente a cabeça, os olhos roxos se estreitando quase imperceptivelmente.

— Isso é raro. A maioria das pessoas apaga. O cérebro não aguenta processar.

— E o que isso significa?

Safira parou de andar. Ficou diante dele, os braços cruzados.

— Significa que você tem sorte.

Yuri franziu o cenho.

— Sorte?

— Nem todos lembram. Ter memórias do Limiar é raro. — Ela fez uma pequena pausa. — Você tem sorte, Yuri.

Yuri abriu a boca para perguntar mais, mas antes que pudesse formular qualquer coisa, uma voz cortou o ar.

— Safira.

Ele se virou junto com ela. O ar tremeu. Do meio do jardim, o escuro se abriu, um portal circular, feito de sombra, que não estava ali um instante antes. Scar saiu dele, os braços cruzados, o olhar pesado como uma sentença.

— Precisamos conversar.

Safira não se mexeu.

— Estou conversando.

Scar sustentou o olhar.

— Agora.

A palavra saiu curta. Não era grosseria. Era... limite.

Safira suspirou — um som exagerado, quase teatral — e se aproximou de Scar. Yuri ficou no banco, observando, sem saber se devia se meter ou ficar quieto.

— O que foi? — perguntou Safira, com um tom que Yuri já começava a reconhecer como perigosamente casual.

Scar baixou a voz, mas não o suficiente. Yuri ouviu cada palavra.

— Você despertou ele?

— Despertei.

— Sem me perguntar?

— Você não estava aqui.

— Safira.

— Scar.

Ela sustentou o olhar dele sem piscar. Era quase desaforo, mas não era. Era... confiança. Como quem sabe que pode falar assim porque o outro vai ouvir.

Scar passou a mão no rosto. Cansado. Não bravo.

— Você não podia saber se ele ia sobreviver.

— Sobreviveu.

— Podia não ter sobrevivido.

— Mas sobreviveu.

O silêncio entre eles era estranho. Não era briga. Era... ajuste. Como dois instrumentos desafinados tentando achar o mesmo tom.

Scar olhou para Yuri. Depois para Safira.

— Ele era um problema — disse, finalmente.

— Era — Safira repetiu, com um tom brincalhão.

Scar olhou para Yuri.

— Agora é um grande problemão.

Safira sorriu. Dessa vez, um sorriso de verdade.

— Eu sei.

Scar balançou a cabeça, mas não havia raiva ali. Só resignação.

— Você é impossível.

Safira ergueu o queixo, um brilho de orgulho nos olhos.

— Você me criou assim.

Ele não negou.

Scar caminhou até Yuri, que se levantou sem perceber que tinha se levantado. Ficaram frente a frente por um segundo longo demais.

— Escuta aqui, garoto — Scar começou. — Você veio atrás de respostas. Agora você tem um poder que não pediu, não entende e não controla. Isso te coloca num perigo que você não faz ideia.

Yuri engoliu seco.

"Minha mãe sumiu. Minha casa explodiu. E agora isso."

— E também coloca todo mundo ao meu redor em perigo? — perguntou.

Scar ergueu uma sobrancelha.

— Por que pergunta isso?

— Porque foi o que aconteceu com minha mãe.

O silêncio voltou. Denso. Pesado.

Scar o encarou por mais tempo do que era confortável. Algo passou pelo rosto dele, rápido demais para Yuri identificar.

— Talvez — Scar respondeu, finalmente. — Talvez não. Ainda é cedo pra saber.

Ele se virou para Safira.

— Fica com ele. Ensina o básico. E não faz mais nada sem me consultar.

— Não prometo nada — ela respondeu, leve.

Scar a encarou.

— Eu sei.

Ele caminhou de volta para o portal, aquela que apareceu do nada e parou antes de atravessar.

— Yuri.

Yuri ergueu o olhar.

— Seja bem-vindo à família. Ou ao inferno. Ainda não decidi qual dos dois.

E saiu.

O portal se fechou atrás dele e sumiu. Não tinha mais nada ali. Só árvores, grama e a porta solitária no meio do jardim.

Safira se aproximou de Yuri devagar.

— Ele gosta de você — disse.

— Pareceu o contrário.

— Ele não demonstra afeto igual todo mundo. Mas se ele não se importasse, você já estaria morto.

Yuri olhou para ela.

— Isso é assustador ou reconfortante?

Safira pensou por um segundo.

— Os dois.

Ela começou a andar em direção à porta solitária.

— Vem. Você precisa comer alguma coisa e descansar. Amanhã começa a parte difícil.

— Qual parte?

Ela abriu a porta. Do outro lado, o corredor da casa esperava, normal, banal, quase ofensivo depois do jardim impossível.

Safira olhou para trás.

— Aprender a não morrer.

E saiu.

Safira não se apresentou. Apenas existia ali, como se já fizesse parte daquele lugar. Como se Yuri é que fosse o intruso. Ele não sabia se isso era bom ou ruim.

Yuri ficou parado por mais um segundo, olhando para o jardim, para o céu que não era céu, para o horizonte que não acabava. Lembrou das palavras de Scar.

"Família ou inferno."

Ele seguiu Safira.


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