Kamila estava sentada no sofá, assistindo distraidamente a alguns clipes musicais na televisão. Já era tarde da noite, e a inquietação começava a tomar conta de seus pensamentos. Yuri ainda não havia voltado da escola. Pensou em ligar para o filho, mas, ao pegar o celular, acabou se perdendo em outras reflexões.
"O que eu devo fazer? Talvez não tenha sido uma boa ideia ter..."
O toque repentino do celular a arrancou do pensamento. O brilho intenso da tela feriu seus olhos por um instante. Um número desconhecido piscava no visor. Kamila franziu a testa e ignorou a chamada.
Segundos depois, o mesmo número voltou a ligar.
Ela ignorou novamente.
Na terceira tentativa, a insistência começou a incomodá-la. Considerou a possibilidade de ser Yuri, ligando do celular de algum amigo. Respirou fundo e atendeu.
— Alô, boa noite — disse, mantendo a voz controlada.
Do outro lado da linha, não houve resposta.
— Alô? Tem alguém aí? — insistiu.
Tudo o que se ouvia era uma respiração estranha, pesada, quase artificial. Kamila sentiu o corpo reagir antes da mente. Sem dizer mais nada, desligou a chamada e, sem hesitar, ligou para o filho.
— Alô, Yuri, onde você está? — perguntou, agora mais firme.
— Mãe, eu vim ao shopping assistir a um filme com meus amigos e acabei esquecendo de avisar a senhora — respondeu Yuri, despreocupado.
— Filho, vem logo pra casa. Preciso conversar algo urgente com você — disse Kamila, enquanto um desconforto silencioso se espalhava pelo ambiente. Caminhou até a janela e olhou para fora, tentando identificar qualquer sinal estranho. A rua parecia normal. — E, da próxima vez, me avisa quando sair assim.
— Ah, mãe, eu já sou crescido. Tenho quinze anos, preciso de um pouco de liberdade. A senhora é muito superprotetora — reclamou Yuri.
— Yuri, é sério. Vem logo pra casa — disse Kamila, agora sem margem para discussão.
— Tá bom, tá bom... em quinze minutinhos estou chegando.
Kamila permaneceu em silêncio.
— Mãe? Eu sei que a senhora está chateada, mas já estou indo — insistiu Yuri, estranhando a falta de resposta.
Do outro lado da linha, a sala parecia ter mudado.
O ar ficou mais denso, pesado, como se algo invisível pressionasse o espaço. Kamila sentiu aquela presença antes mesmo de vê-la.
Lentamente, ergueu o olhar.
Do lado de fora, suspensa diante da janela, havia uma figura inteiramente vestida de preto. O rosto oculto por uma máscara de doutor da peste, o bico longo apontado em sua direção. A figura não se movia — apenas observava.
O vidro da janela vibrava levemente. Não por impacto, mas por intenção.
Kamila levou o celular ao ouvido.
— Yuri — disse, em tom firme. — Me escuta com atenção agora.
— Mãe, o que foi? O que está acontecendo? — perguntou ele, confuso.
— Entra no meu e-mail. Vai na pasta de enviados. Procura um nome: Scar.
A entidade inclinou a cabeça de forma quase imperceptível.
Kamila continuou, sem desviar o olhar da janela:
— Você vai encontrar um endereço. Vá direto para lá. Não venha para casa.
Houve uma breve pausa. Calculada.
— E não faça nada além do que eu estou mandando.
A figura avançou alguns centímetros no ar, lenta, como se testasse um limite invisível.
Kamila permaneceu onde estava.
Algumas coisas, ela sabia, não precisavam ser enfrentadas naquele momento — apenas contidas pelo tempo necessário.
— Mãe, a senhora está me assustando... — disse Yuri, com a voz falhando.
Antes que Kamila pudesse responder, uma explosão ensurdecedora tomou conta da ligação.
A ligação caiu.
— Mãe?! Mãe! — Yuri falou alto demais, o celular colado ao ouvido como se isso pudesse trazê-la de volta.
Silêncio.
O nome dela ainda vibrava na tela, mas não havia mais nada do outro lado. Tentou ligar de novo. Uma vez. Duas. Três. Nada. A chamada nem chegava a completar.
— Deve ser sinal... — murmurou, sem acreditar nas próprias palavras.
Os amigos falavam alguma coisa atrás dele. Riam. Alguém comentou sobre o filme. Tudo parecia distante, abafado, como se ele estivesse debaixo d'água.
Yuri começou a andar. Depois, a correr.
"Quinze minutos. Eu disse que chegava em quinze minutos."
O coração batia rápido demais. Cada passo parecia atrasado. Cada esquina, errada. Tentou ligar outra vez enquanto corria. Nada.
"Ela nunca fala daquele jeito. Nunca."
A rua começou a encher de luzes vermelhas e azuis. Sirenes cortavam o ar, uma atrás da outra, todas indo na mesma direção.
Na direção da casa dele.
— Não... — sussurrou, desacelerando por um segundo, como se o corpo recusasse continuar.
— Não, não, não...
A mente tentou negociar.
"Pode ser outra casa. Outro quarteirão. Outro incêndio."
Mas o cheiro chegou antes da visão. Fumaça. Quente. Real.
Quando dobrou a esquina, viu.
A casa.
O telhado cedia em chamas. O fogo lambia as paredes como algo vivo, faminto. A janela da sala — a mesma onde a mãe costumava ficar sentada à noite — estava estilhaçada, cuspindo fumaça negra.
Yuri sentiu as pernas falharem.
— Não... — a palavra saiu fraca, quase infantil.
Correu.
Não chegou longe.
Mãos o agarraram pelos braços. Vozes gritavam ordens que ele não entendia. Ele se debateu, cego, desesperado.
— MINHA MÃE! — berrou, a garganta ardendo. — ELA TÁ LÁ DENTRO! ME SOLTA! ME SOLTA!
Tentou avançar de novo. Foi puxado para trás.
— SALVEM ELA, POR FAVOR! — gritava, sem saber para quem. — ELA É A ÚNICA FAMÍLIA QUE EU TENHO!
As chamas estalaram alto, como uma resposta cruel.
Yuri caiu de joelhos no asfalto quente, ainda segurado pelos policiais. O fogo refletia em seus olhos, distorcendo tudo. A casa onde viveu. Onde cresceu. Onde dissera coisas que jamais poderia esquecer.
Se eu tivesse chegado antes... se eu não tivesse discutido....
O pensamento veio tarde demais.
Entre o barulho das sirenes e o rugido do incêndio, algo dentro dele se quebrou — silencioso, irreversível.
E, mesmo sem ninguém lhe dizer nada, Yuri soube.
Não era só a casa que tinha sido destruída.

