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Nova Era
01 - Prólogo
1003 palavras • 5842 caracteres • ⏱ 4 min 01 s

01 - Prólogo

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Kamila estava sentada no sofá, assistindo distraidamente a alguns clipes musicais na televisão. Já era tarde da noite, e a inquietação começava a tomar conta de seus pensamentos. Yuri ainda não havia voltado da escola. Pensou em ligar para o filho, mas, ao pegar o celular, acabou se perdendo em outras reflexões.

"O que eu devo fazer? Talvez não tenha sido uma boa ideia ter..."

O toque repentino do celular a arrancou do pensamento. O brilho intenso da tela feriu seus olhos por um instante. Um número desconhecido piscava no visor. Kamila franziu a testa e ignorou a chamada.

Segundos depois, o mesmo número voltou a ligar.

Ela ignorou novamente.

Na terceira tentativa, a insistência começou a incomodá-la. Considerou a possibilidade de ser Yuri, ligando do celular de algum amigo. Respirou fundo e atendeu.

— Alô, boa noite — disse, mantendo a voz controlada.

Do outro lado da linha, não houve resposta.

— Alô? Tem alguém aí? — insistiu.

Tudo o que se ouvia era uma respiração estranha, pesada, quase artificial. Kamila sentiu o corpo reagir antes da mente. Sem dizer mais nada, desligou a chamada e, sem hesitar, ligou para o filho.

— Alô, Yuri, onde você está? — perguntou, agora mais firme.

— Mãe, eu vim ao shopping assistir a um filme com meus amigos e acabei esquecendo de avisar a senhora — respondeu Yuri, despreocupado.

— Filho, vem logo pra casa. Preciso conversar algo urgente com você — disse Kamila, enquanto um desconforto silencioso se espalhava pelo ambiente. Caminhou até a janela e olhou para fora, tentando identificar qualquer sinal estranho. A rua parecia normal. — E, da próxima vez, me avisa quando sair assim.

— Ah, mãe, eu já sou crescido. Tenho quinze anos, preciso de um pouco de liberdade. A senhora é muito superprotetora — reclamou Yuri.

— Yuri, é sério. Vem logo pra casa — disse Kamila, agora sem margem para discussão.

— Tá bom, tá bom... em quinze minutinhos estou chegando.

Kamila permaneceu em silêncio.

— Mãe? Eu sei que a senhora está chateada, mas já estou indo — insistiu Yuri, estranhando a falta de resposta.

Do outro lado da linha, a sala parecia ter mudado.

O ar ficou mais denso, pesado, como se algo invisível pressionasse o espaço. Kamila sentiu aquela presença antes mesmo de vê-la.

Lentamente, ergueu o olhar.

Do lado de fora, suspensa diante da janela, havia uma figura inteiramente vestida de preto. O rosto oculto por uma máscara de doutor da peste, o bico longo apontado em sua direção. A figura não se movia — apenas observava.

O vidro da janela vibrava levemente. Não por impacto, mas por intenção.

Kamila levou o celular ao ouvido.

— Yuri — disse, em tom firme. — Me escuta com atenção agora.

— Mãe, o que foi? O que está acontecendo? — perguntou ele, confuso.

— Entra no meu e-mail. Vai na pasta de enviados. Procura um nome: Scar.

A entidade inclinou a cabeça de forma quase imperceptível.

Kamila continuou, sem desviar o olhar da janela:

— Você vai encontrar um endereço. Vá direto para lá. Não venha para casa.

Houve uma breve pausa. Calculada.

— E não faça nada além do que eu estou mandando.

A figura avançou alguns centímetros no ar, lenta, como se testasse um limite invisível.

Kamila permaneceu onde estava.

Algumas coisas, ela sabia, não precisavam ser enfrentadas naquele momento — apenas contidas pelo tempo necessário.

— Mãe, a senhora está me assustando... — disse Yuri, com a voz falhando.

Antes que Kamila pudesse responder, uma explosão ensurdecedora tomou conta da ligação.

A ligação caiu.

— Mãe?! Mãe! — Yuri falou alto demais, o celular colado ao ouvido como se isso pudesse trazê-la de volta.

Silêncio.

O nome dela ainda vibrava na tela, mas não havia mais nada do outro lado. Tentou ligar de novo. Uma vez. Duas. Três. Nada. A chamada nem chegava a completar.

— Deve ser sinal... — murmurou, sem acreditar nas próprias palavras.

Os amigos falavam alguma coisa atrás dele. Riam. Alguém comentou sobre o filme. Tudo parecia distante, abafado, como se ele estivesse debaixo d'água.

Yuri começou a andar. Depois, a correr.

"Quinze minutos. Eu disse que chegava em quinze minutos."

O coração batia rápido demais. Cada passo parecia atrasado. Cada esquina, errada. Tentou ligar outra vez enquanto corria. Nada.

"Ela nunca fala daquele jeito. Nunca."

A rua começou a encher de luzes vermelhas e azuis. Sirenes cortavam o ar, uma atrás da outra, todas indo na mesma direção.

Na direção da casa dele.

— Não... — sussurrou, desacelerando por um segundo, como se o corpo recusasse continuar.

— Não, não, não...

A mente tentou negociar.

"Pode ser outra casa. Outro quarteirão. Outro incêndio."

Mas o cheiro chegou antes da visão. Fumaça. Quente. Real.

Quando dobrou a esquina, viu.

A casa.

O telhado cedia em chamas. O fogo lambia as paredes como algo vivo, faminto. A janela da sala — a mesma onde a mãe costumava ficar sentada à noite — estava estilhaçada, cuspindo fumaça negra.

Yuri sentiu as pernas falharem.

— Não... — a palavra saiu fraca, quase infantil.

Correu.

Não chegou longe.

Mãos o agarraram pelos braços. Vozes gritavam ordens que ele não entendia. Ele se debateu, cego, desesperado.

— MINHA MÃE! — berrou, a garganta ardendo. — ELA TÁ LÁ DENTRO! ME SOLTA! ME SOLTA!

Tentou avançar de novo. Foi puxado para trás.

— SALVEM ELA, POR FAVOR! — gritava, sem saber para quem. — ELA É A ÚNICA FAMÍLIA QUE EU TENHO!

As chamas estalaram alto, como uma resposta cruel.

Yuri caiu de joelhos no asfalto quente, ainda segurado pelos policiais. O fogo refletia em seus olhos, distorcendo tudo. A casa onde viveu. Onde cresceu. Onde dissera coisas que jamais poderia esquecer.

Se eu tivesse chegado antes... se eu não tivesse discutido....

O pensamento veio tarde demais.

Entre o barulho das sirenes e o rugido do incêndio, algo dentro dele se quebrou — silencioso, irreversível.

E, mesmo sem ninguém lhe dizer nada, Yuri soube.

Não era só a casa que tinha sido destruída.


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