Cá estamos nós.
À beira do vasto vazio que a escuridão oferece antes do fim.
Não sei dizer ao certo o que aconteceu comigo.
Só sei que estou preso.
Preso em algo que parece um purgatório feito da minha própria mente.
Dizem que, antes de morrer, vemos os melhores momentos da nossa vida.
Fragmentos felizes.
Paz.
Conforto.
O meu cérebro, porém, decidiu me entregar rabiscos.
Lembranças tortas de uma vida infeliz.
Patética.
Consigo contar nos dedos os poucos momentos que não doeram.
Eu tinha 27 anos.
Vinte e sete.
E nunca vivi os meus próprios sonhos.
Trabalhei até me esgotar…
Só para ser esquecido.
Engolido pelo tempo.
Minha mãe me deixou com meu pai para começar uma nova vida — uma vida sem o peso de mim.
Meu pai devia dinheiro e colecionava brigas de bar.
Meus “amigos” só apareciam quando precisavam de algo.
Eu era útil.
Nunca fui necessário.
Fui tolo.
Sempre fiz o que queriam.
Nunca vivi por mim.
Esse é o único arrependimento que realmente importa.
Agora estou nos braços da morte.
Um fim gélido.
Caótico.
Adequado para alguém como eu.
Irônico, não é?
Senti meus batimentos diminuírem.
Senti o ar escapar dos meus pulmões…
e não voltar.
Havia aflição.
Havia medo.
A morte não deveria ser silenciosa?
Então, por que algo em mim ainda grita?
Logo, um vazio profundo emergiu.
De certa forma… reconfortante.
Talvez eu tivesse terminado minha jornada.
Talvez agora pudesse descansar.
Depois de tanto esforço inútil.
Mas…
Algo se moveu dentro de mim.
Não era paz.
Não era descanso.
Era antigo.
Reprimido.
Esperando o momento de se manifestar.
Essa sensação substituiu tudo o que eu podia imaginar.
Como se algo estivesse respirando onde meus pulmões já não conseguiam.
Algo estava ocupando o espaço que antes era meu.
E quando abri os olhos —
percebi que o silêncio não era o fim.
Era o começo.

