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Diário de uma sobrevivente
Onde começa a dúvida.
2500 palavras • 13400 caracteres • ⏱ 10 min 00 s

Onde começa a dúvida.

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O olhar dele não se desviou nem por um segundo do meu.\n

Sustentei o máximo que consegui… mas havia algo errado.\n

Não era apenas autoridade.\n

Era como se ele estivesse procurando uma falha em mim.\n

— Espero que todos entendam a situação atual — continuou Morian, finalmente desviando o olhar para o restante do grupo. — Este lugar não é mais um abrigo improvisado.\n

Ele começou a andar lentamente entre nós com passos calmos e precisos. \n

— A partir de agora, isso é uma base.\n

Ninguém disse nada. Mas o peso daquelas palavras caiu sobre todos.\n

Isso não era proteção. Era controle. E meu corpo sabia disso antes mesmo da minha mente aceitar.\n

— E bases… precisam de ordem — ele parou passando os olhos em cada um, como se estivesse estudando cada reação — O que tivemos aqui antes foi… um efeito colateral da sobrevivência.\n

Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios dele.
\n— O que teremos agora… é disciplina.\n

Senti o corpo tensionar.
\nNão era só eu que não gostou das novas "ordens".\n

Olhei de relance.
\nSirius estava rígido com o maxilar travado.\n

Mas o olhar… não estava em Morian. Estava nos soldados do Setor Dois.\n

— Para isso, algumas mudanças serão necessárias — continuou Morian. — Horários, funções, restrições de acesso…
\n— ele ergueu levemente o queixo. — E vigilância.\n

Um murmúrio baixo percorreu as pessoas. Alguns trocaram olhares.\n

Outros abaixaram a cabeça, evitando encarar os soldados.\n

— Aqueles que colaborarem… terão seu lugar garantido aqui — fez uma pausa olhando para todos. — Aqueles que não colaborarem…\n

Ele não terminou a frase.
\nO silêncio fez isso por ele, como se desse a última sentença.\n

Cruzei os braços, tentando manter a expressão neutra.\n

— Setor Dois ficará responsável pela reorganização inicial — anunciou ele. — Sirius, você continuará liderando seu grupo… por enquanto.\n

O olhar de Sirius escureceu. Mas ele não disse nada.\n

— Dispensados.\n

As pessoas começaram a se dispersar lentamente.\n

Conversas baixas. Passos apressados. Ninguém parecia confortável com a situação.\n

E, mesmo assim… Todos obedeceram.\n

— Alice.\n

Parei como se meu corpo tivesse sido amarrado por correntes.\n

Respirei fundo antes de me virar.\n

Morian estava me observando novamente. Dessa vez, sem disfarçar.\n

— Venha comigo.\n

Olhei rapidamente para Sirius. Ele já estava olhando cada movimento nosso.\n

E, pela primeira vez desde que o conheci… Parecia preocupado de verdade.\n

Armand deu um passo à frente.
\n— Ela—\n

— Não pedi opinião — cortou Morian, sem nem olhar para ele.\n

O ar ficou pesado. Por um segundo, achei que Armand insistiria.\n

Mas Ruan segurou seu braço de leve.
\nComo um aviso silencioso.\n

Engoli seco e o segui.\n

••••\n

O corredor estava vazio. Os passos ecoavam mais do que deveriam.\n

Morian caminhava à frente, sem pressa. Tendo certeza absoluta de que eu o seguiria.\n

— Você não parece surpresa — ele disse de repente.\n

Franzi levemente o cenho.
\n — Com o quê?\n

Ele parou e virou-se lentamente.
\n — Comigo.\n

Fiquei surpresa com a pergunta repentina, mas sustentei o olhar.
\n— Deveria estar?\n

Um pequeno sorriso surgiu. Dessa vez, mais nítido.
\n — A maioria das pessoas está.\n

Cruzei os braços incrédula, sem entender aonde ele queria chegar.
\n— Talvez eu não seja como a maioria.\n

— Não… — murmurou. — Definitivamente não é.\n

— O que você quer?\n

Fui direta o suficiente para entender que não queria participar desses joguinhos.\n

Ele inclinou levemente a cabeça, como se achasse aquilo interessante.
\n— Direta. Gosto disso.\n

Dei de ombros sem me importar com o que achava.
\n— Economiza tempo.\n

Mais um silêncio surgiu entre a gente.
\nMais pesado do ja estava.\n

Então ele deu um passo em minha direção. Como uma forma furtil de prender minha atenção.\n

— Quero entender… como você sobreviveu.\n

O mundo pareceu travar por um segundo. Aquela pergunta tinha um peso diferente.\n

— Como todos os outros — respondi, firme.\n

A resposta veio fria e imediata.
\n — Não.
\n— Não como todos os outros.\n

Ele se aproximou.\n

Perto o suficiente pra eu perceber os detalhes do seu rosto.\n

O que me chamou atenção foram os olhos dele em tons de verde escuro… como se a cor escondesse uma verdade que não pode ser dita com palavras.\n

— Você foi atacada — continuou. — Eu vi o relatório.\n

Meu corpo travou. Não sabia aonde ele queria chegar com essa conversa.\n

— E mesmo assim… está aqui. Curioso, não acha?\n

— Pessoas sobrevivem — respondi. — Isso não é novidade.\n

Ele me encarou por alguns segundos. E então…\n

Sorriu. Era como se tivesse acertado meus movimentos. Nada que eu dissesse seria o suficiente para fazê-lo pensar ao contrário.\n

— Algumas pessoas… sim — fez uma pausa antes de continuar — Outras, no entanto…\n

— Sobreviver não é o que me interessa…\n

— É o motivo pelo qual você ainda está viva.\n

Ele ergueu a mão. Antes que eu pudesse reagir— Seus dedos tocaram levemente a cicatriz no meu braço.\n

Um arrepio subiu pelo meu corpo, como se um simples toque tivesse me queimado.\n

Meu corpo reagiu na hora. O afastei com uma certa força.
\n— Não encosta.\n

A voz saiu mais baixa do que eu queria, ao mesmo tempo firme o suficiente para que entendesse.\n

Ele não pareceu ofendido. Muito pelo contrário. \n

Parecia… satisfeito com a minha reação.\n

— Interessante.\n

Meu coração batia forte.
\n— O que você quer comigo? — perguntei de novo, dessa vez sem paciência.\n

Ele deu um passo para trás. Como se já tivesse conseguido o que queria.
\n— Por enquanto… observar.\n

Um arrepio percorreu minha espinha como um sinal de que a conversa tinha que acabar naquele momento.\n

— Porque tenho a sensação… — ele se virou, começando a se afastar — de que você vai ser muito útil.\n

Fiquei ali, sem dizer nada. Observando ele ir embora.\n

••••\n

Quando voltei, Sirius estava me esperando sozinho, encostado na parede.
\n— O que ele queria?\n

A pergunta veio direta e sem rodeios.\n

Olhei para ele por alguns segundos, pensando.
\n— Nada demais.\n

Era mentira e ele percebeu, mas não insistiu. \n

Ainda.\n

— Fica longe dele — disse, sério.\n

— Acho que isso não vai ser uma opção.\n

Ele suspirou baixo.
\n— Então toma cuidado, Alice.\n

Assenti.\n

Mas, no fundo… eu já sabia.\n

Cuidado não ia ser suficiente.\n

Porque, naquele momento…\n

Eu estava na mira do predador.\n

••••\n

Assim que conversamos, fui ajudar Ruan a ajeitar a "nova" ala médica.\n

O lugar ainda tinha cheiro de poeira e produto químico. Algumas macas improvisadas, caixas abertas, medicamentos espalhados.\n

Nada realmente novo. Só… reorganizado.\n

— Agora teremos um pouco mais de espaço para tratar as pessoas — comentou ele, enquanto guardava os medicamentos no armário.\n

— Espaço não resolve muita coisa sem recurso — respondi, pegando algumas ataduras e organizando em uma caixa menor.\n

Ele soltou um leve som nasal, quase uma risada.\n

— Você não é muito otimista, né?\n

Dei de ombros.
\n— Sou, mas alguém tem que ser realista.\n

Continuei organizando, sentindo o peso do cansaço nos ombros.\n

— Ele falou alguma coisa relevante? — Ruan perguntou de repente, sem me olhar.\n

Parei por um segundo.
\n— Não.\n

Ele fechou a porta do armário com um pouco mais de força do que o necessário.
\n— Hm.\n

Não insistiu.
\nMas também não acreditou.\n

— Vocês já se conheciam? — perguntei, tentando mudar o foco.\n

Ruan ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.\n

— Não —ele apoiou as mãos na bancada, olhando para os próprios dedos por um instante — Mas o tipo de gente como ele… sempre aparece antes de tudo piorar.\n

Aquilo não soou como opinião.
\nSoou como experiência.\n

— Você sabe o que ele quer? — perguntei, mais baixo dessa vez.\n

Ruan finalmente me olhou.
\nNão parecia só atento.
\nParecia preocupado.\n

— Poder — respondeu. — E quando alguém como ele quer poder…\n

Uma pausa.
\n— Significa que já tem algo que vale a pena controlar.\n

Um arrepio percorreu minha espinha.
\nPensei na cicatriz.\n

Mas afastei o pensamento antes que fosse longe demais.\n

— Então a gente virou recurso — murmurei.\n

— Sempre fomos — Ruan respondeu, seco.\n

O silêncio pairava no ar.
\nPorem mais pesado dessa vez.\n

Continuei organizando as coisas, tentando ignorar a sensação crescente de que estávamos sendo observados.\n

Mesmo ali dentro.
\nMesmo "seguros".\n

— Alice.\n

A voz veio da entrada.\n

Era Armand.\n

Encostado no batente da porta, braços cruzados, expressão mais séria do que o normal.\n

— Sirius quer falar com você.\n

Olhei rapidamente para Ruan.\n

Ele já estava me observando.\n

Como se soubesse que aquilo não era só uma conversa.\n

— Agora? — perguntei.\n

— Agora — respondeu Armand.\n

Sem humor. Sem ironia.\n

Isso não era comum.\n

Respirei fundo, limpando as mãos rapidamente na calça.
\n— Certo.\n

Antes de sair, Ruan falou, baixo o suficiente pra só eu ouvir:
\n— Toma cuidado.\n

Parei por um segundo.
\nAssenti.\n

E segui Armand para fora.\n

O corredor parecia mais estreito do que antes.\n

Ou talvez fosse só impressão.\n

— O que foi? — perguntei, enquanto caminhávamos.\n

Armand não respondeu de imediato.
\nPassou a mão pelos cabelos, claramente incomodado.\n

— Esses caras… — murmurou. — Ele não veio só organizar as coisas.\n

Soltei um suspiro leve.
\n— Percebi.\n

Ele soltou uma risada seca.
\n— Então já tá melhor que metade daqui.\n

— Ele perguntou de mim? — perguntei.\n

Armand me lançou um olhar rápido.
\n— Não.\n

— Ótimo — murmurei.\n

— É… — ele coçou a nuca. — Não é exatamente uma coisa boa.\n

Paramos em frente a uma porta.\n

Armand olhou para mim por um segundo a mais do que o normal.\n

— Seja lá o que eles querem… — começou, mas não terminou.\n

Não precisava.
\nEu já sabia.\n

Respirei fundo e bati na porta.\n

A porta abriu após alguns segundos.\n

— Entra.\n

A voz de Sirius veio baixa.\n

Empurrei a porta e entrei.\n

O lugar era simples. Uma mesa, alguns papéis espalhados, mapas improvisados nas paredes.\n

Nada organizado o suficiente, mas também não caótico o bastante pra parecer desespero.\n

Ele estava de pé, encostado na mesa com os braços cruzados me esperando.\n

— Você queria falar comigo.\n

Ele assentiu de leve.
\n— Queria.\n

Fechei a porta atrás de mim.\n

— Então fala.\n

Ele me observou por alguns segundos.\n

Como se estivesse decidindo o quanto podia dizer.\n

— O Setor Dois não está aqui só pra ajudar.\n

Soltei um leve suspiro.
\n— Eu sei.\n

Arqueou uma sobrancelha.
\n— Sabe?\n

— Eles estão observando — respondi. — Desde antes de subirmos.\n

Ele descruzou os braços lentamente.\n

Agora prestando atenção no que estava falando.
\n— Como assim?\n

— Ala médica. Refeitório. Corredores… — dei de ombros — Sempre à distância. Nunca perto demais. Mas o suficiente pra perceber.\n

O maxilar dele travou levemente.
\n— Eu sabia que tinha algo errado — murmurou.\n

— Tem mais — continuei.\n

Ele ergueu o olhar.\n

— Um deles se aproximou.\n

A atenção dele mudou na hora.
\n— Quando?\n

— No refeitório. Antes da gente subir. — fiz uma breve pausa antes de continuar — Ele não falou nada demais… mas não parecia interessado na conversa.\n

— Eles estava analisando.\n

Sirius desviou o olhar por um instante.\n

Quando voltou a me encarar, a expressão estava diferente.\n

— Então não é só impressão — disse baixo.\n

— Não — respondi.\n

O silêncio entre a gente pesou.
\nMais do que antes.\n

— Eles já começaram — completei.\n

Aquilo fez algo nele mudar.
\nNão foi visível de imediato.
\nMas deu pra sentir.\n

— E o que a gente faz? — perguntei.\n

Dessa vez, direto.
\nSem rodeios.
\nEle respirou fundo e devagar.\n

Como se estivesse organizando tudo na cabeça.\n

— A gente não reage.\n

Franzi o cenho.
\n— Não?\n

— Não agora — respondeu. — Se eles estão observando… a pior coisa que a gente pode fazer é mostrar que percebemos.\n

Fazia sentido.
\nE isso só tornava tudo pior.\n

— Então a gente finge?\n

— A gente mantém o controle.\n

Ele deu um passo em minha direção.\n

O suficiente pra deixar claro que aquilo não era só uma conversa.\n

Era uma decisão.\n

— Agora a gente mantém o controle da situação… custe o que custar.\n

Sustentei o olhar.
\n— E como exatamente você pretende fazer isso?\n

Ele não hesitou.
\n— Sabendo mais do que eles — Sirius fez uma pausa antes de continuar — Antes que eles saibam da gente.\n

O peso daquilo caiu devagar.\n

— Você quer que eu vigie eles.\n

Ele assentiu.
\n— Quero que você observe. Movimentos. Padrões. Quem fala com quem — disse indo em direção à mesa e se sentando — Qualquer coisa fora do normal.\n

Respirei fundo.
\n— E se eles perceberem?\n

O olhar dele endureceu.
\n— Estou contando com você, Alice. Eles não podem descobrir.\n

Aquilo não soou leve.
\nSoou como responsabilidade.
\nComo risco.
\nComo escolha.\n

Apenas assenti, sem dizer mais nada.
\nPorque não precisava.\n

Quando saí da sala, o ar parecia mais pesado.\n

Ou talvez fosse só impressão.
\nOlhei para o corredor vazio.\n

E, por um instante…
\nTudo pareceu diferente.\n

As pessoas.
\nOs movimentos.
\nOs olhares.\n

Nada parecia mais aleatório.
\nBaixei o olhar por um segundo para pensando.\n

Respirei fundo e segui em frente.
\nPorque, eu já não estava apenas tentando sobreviver.\n

Eu tinha sido colocada no meio do campo de batalha.
\nE sair dele…\n

Já não era mais uma opção.

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