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Diário de uma sobrevivente
Primeira jogada.
1139 palavras • 6801 caracteres • ⏱ 4 min 33 s

Primeira jogada.

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Dias se passaram.


Eles continuavam observando de longe.

Todos os dias, parados do lado de fora da ala médica.


Não olhando diretamente — mas sempre pelo canto dos olhos.


Tentei ao máximo não encará-los. Ignorar suas presenças.


Mas, a cada dia, isso ficava mais difícil.


Naquela manhã, todos foram chamados para o refeitório improvisado.


Sirius estava na frente, junto com o Setor Dois, esperando que todos chegassem.


O silêncio era diferente daquele do refeitório dias atrás.


Controlado.


Até que ele finalmente falou:

— Após alguns dias consertando os estragos, finalmente iremos subir novamente.


Um murmúrio percorreu o grupo.


Dona Luna fez uma careta antes de se pronunciar:

— E do que adianta subir lá em cima? Quem garante que aquelas coisas não vão entrar aqui de novo?


Sirius estava prestes a responder, mas foi interrompido.


— Poderia me informar seu nome, minha senhora?


Um dos homens do Setor Dois a encarava com frieza.


Uma tentativa clara — e inútil — de intimidação.


— Luana — respondeu ela, firme. — E ninguém respondeu minha pergunta. Como vocês garantem que estaremos seguros lá em cima?


O homem sorriu. Simpático demais.

— Pode ficar tranquila. A segurança foi reforçada. E o coronel Morian está a caminho para nos ajudar na administração do local.


Sirius fechou a expressão imediatamente.

Pelo olhar dele… aquilo não tinha sido combinado.


As pessoas começaram a conversar entre si sobre a chegada do coronel.


— Parece que estaremos sob novas ordens — comentou Emma, observando as expressões ao nosso redor.


— Será que realmente estaremos seguros lá em cima? — perguntou Nyra, visivelmente preocupada.


— Acho que as coisas vão mudar drasticamente daqui pra frente — disse Jade, apertando o livro contra o peito como se aquilo pudesse protegê-la.


Ivy respirou fundo antes de falar:

— Independente do que aconteça, vamos continuar fazendo nossas obrigações. E vamos permanecer unidas.


— Isso não vai ser nada fácil — comentei, fazendo com que todas me encarassem.


— Alice, nada de fazer loucuras. Não sabemos como esse coronel é — disse Emma, tentando soar séria.


Mas falhou miseravelmente.


— Já é uma evolução pra você, Emma. Não está mais fazendo cara de pateta — provocou Jade, arrancando uma risada geral.


— Pateta é a sua cara quando está lendo — Emma retrucou, mas logo voltou a me encarar. — Mas, falando sério… não arranje problemas, tudo bem?


Apenas assenti.


Enquanto as meninas riam, arrisquei um olhar ao redor.


Um dos homens do Setor Dois observava nosso grupo.


Não parecia interessado na conversa.

Parecia interessado em quem estava falando.


E, por um instante breve demais para ser coincidência…


Ele estava olhando para mim.


Olhei rapidamente para Sirius, tentando disfarçar.


Ele também me encarava.


Parecia ter percebido.


Franziu levemente o cenho — como se já estivesse calculando o que precisaria fazer.


Segui seus movimentos com os olhos.


Ele caminhou até Armand, que estava encostado no canto, distraído demais tentando impressionar uma mulher.


Assim que ela notou a aproximação de Sirius, afastou-se imediatamente, deixando os dois sozinhos.


Não consegui ouvir o que diziam.

Mas vi quando a expressão de Armand mudou.


O sorriso sumiu.


Ele fechou a cara, assentiu de forma discreta e se afastou logo em seguida.


Aquilo não parecia conversa casual.


Um dos homens do Setor Dois então tomou a frente, explicando como seria a subida e quantos grupos sairiam primeiro.


Cinco pessoas por vez.


Sempre acompanhadas por soldados.

Organizado.

Controlado.


Um grupo pegou suas coisas e começou a sair.


Depois outro.

E mais outro.


Aos poucos, estávamos sendo redistribuídos.


Como peças.



Enquanto observava os grupos sendo chamados, tive a estranha sensação de que alguém já havia decidido onde cada peça deveria estar.


E eu ainda não sabia se tinha sido colocada em posição de ataque…


Ou de sacrifício.


Cada pessoa era chamada pelo nome.

Não podíamos escolher com quem iríamos.


Um a um, os grupos eram formados.


Emma foi chamada primeiro.


Depois Jade.


Depois Ivy.


Cada uma levada para um grupo diferente.


Nyra me lançou um olhar quase suplicante, como se pedisse que eu fizesse alguma coisa.


Mas eu não podia.

Só nos restava obedecer.


Foi então que meu nome foi pronunciado.

Senti o ar pesar.


Olhei para o homem que organizava os grupos.


Um arrepio subiu lentamente pela minha espinha.


Algo estava errado.


— Você vai com o restante do pessoal.


Segui a direção do gesto dele.


Todos.

Sem exceção.

Eram do Setor Dois.


Meu estômago afundou.

Aquilo não era coincidência.


Era posicionamento.


Eu já abria a boca para concordar — porque negar só pioraria —


Quando duas figuras se aproximaram.

— Infelizmente, não dessa vez.

A voz veio carregada de ironia.


Armand parou ao meu lado.

Ruan ficou do outro.


— Alice vai no nosso grupo — completou Armand, com um sorriso despreocupado demais para ser real.


O homem do Setor Dois não pareceu satisfeito.


— Ninguém aqui teve a opção de escolher. E vocês não serão prioridade.


O homem do Setor Dois manteve o tom firme.


— Porém, iremos juntos mesmo assim. Vamos, Alice. — Ruan disse, me conduzindo até a saída antes que a discussão se estendesse.


— É… foi por pouco, garota — murmurou Armand, soltando um longo suspiro. — Sirius quer falar com você lá em cima.


— Sobre o quê? — perguntei, embora já suspeitasse da resposta.


— Você vai saber logo.


Seguimos pelo túnel em silêncio.

Ainda conseguia lembrar do que tinha acontecido naquele dia.


Levei a mão ao braço, tocando a cicatriz que o monstro havia deixado. A pele ainda se regenerava lentamente.


Olhei brevemente para Armand. Sua expressão estava carregada de algo que eu não sabia nomear.


Ruan, por outro lado, permanecia atento a cada movimento dentro do túnel.


Quando saímos, a luz fraca quase me cegou por um instante.


O ar, apesar de pesado, parecia mais livre.

Mas a sensação de segurança não durou.

Sirius e os outros vieram logo atrás, fechando a passagem.


— Todos estão aqui? Ótimo. Vamos para o pátio.


Seguimos.

Alguns curiosos.

Outros claramente nervosos.


Foi então que o vimos.


Uma figura alta, de cabelos negros, estava sentada sobre uma mesa improvisada, observando cada um de nós como se já tivesse nos analisado por completo.


Ele se levantou devagar.

Havia algo calculado no movimento.


Então sua voz ecoou, fria e firme:

— Vocês provavelmente já ouviram falar de mim. Ainda assim, permitam que eu me apresente.


Os olhos dele percorreram o grupo.

E pararam em mim.


— Sou o coronel Morian Kessler. A partir de hoje, estarei supervisionando este lugar.


Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.

Não era medo comum.


Era instinto.


Algo dentro de mim gritava para recuar.

Porém era tarde demais.


E assim, finalmente, o jogo deixava de ser silencioso.


Agora havia um comandante.


E, pela forma como me observava…


Eu tinha a estranha sensação de que sua primeira jogada já tinha sido feita.

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