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Diário de uma sobrevivente
Peças em movimento.
1070 palavras • 6203 caracteres • ⏱ 4 min 17 s

Peças em movimento.

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Andei em direção à mesa onde forneciam potes para guardar comida para depois.


Mas, a cada passo, sentia a respiração pesar, como se o ar tivesse ficado mais denso ali dentro. Não era cansaço. Era a sensação incômoda de estar sendo medida.


Peguei um dos potes, evitando olhar em volta. O plástico frio escorregou um pouco entre meus dedos. Apertei com mais força.


Vozes continuavam ecoando pelo refeitório, mas pareciam distante. Risadas curtas, conversas interrompidas. Nada parecia natural quando eu passava.


Foi então que percebi.


Não estavam me seguindo.


Estavam… marcando.


Um homem do Setor Dois encostado perto da saída mudou de posição quando avancei mais um passo. Outro, sentado a algumas mesas de distância, ergueu o olhar por tempo demais antes de fingir desinteresse.


Engoli em seco.


Fingi que procurava algo na mesa, ganhando tempo. Abri o pote, fechei de novo. Um gesto inútil, mas necessário.


"Calma", pensei.


Ser notada não significava estar condenada. Ainda.


Quando me virei para sair, senti o peso de um olhar específico nas costas. Não precisei confirmar para saber de onde vinha.


Aquele tipo de atenção não grita.

Observa.

Espera.


E, acima de tudo, anota — mesmo quando diz que não está registrando nada.


Eu ia me levantar da mesa quando alguém puxou a cadeira à minha frente e se sentou sem pedir permissão.


— Parece que está com problemas.

A voz era baixa. Controlada.


Ruan pegou um pouco da comida do próprio prato, como se aquilo fosse apenas mais uma conversa comum.


— Se não quer que percebam o que você sabe, vai ter que aprender a disfarçar melhor.


Fiquei em silêncio.


Não sabia que minha preocupação estava tão evidente assim.


— Desde quando? — perguntei, tentando manter o tom neutro.


Ele mastigou com calma antes de responder.

— Desde que você saiu da ala médica. Eles já estavam te seguindo.


Senti o estômago apertar.

— E por que você acha que eu estou sendo vigiada?


Ruan levantou os olhos para mim.

Mas não respondeu.


Porque alguém puxou outra cadeira.


O som arrastado no chão foi alto demais.

— Espero não estar interrompendo nada interessante.


Um dos homens do Setor Dois sentou-se ao lado da mesa como se fosse um velho conhecido. Sorriso fácil. Postura relaxada demais.


— Só conversa de rotina — Ruan respondeu, sem alterar o tom.


O homem apoiou os braços na mesa, olhando diretamente para mim.


— Você é Alice, certo? Tenho ouvido falar de você.


Meu corpo ficou rígido.

— Não sabia que eu era tão interessante.


Ele riu baixo.

— Corajosa, na verdade. Para alguém da sua idade… poucos teriam a iniciativa de se voluntariar na ala médica.


A palavra iniciativa soou como acusação disfarçada.

— Alguém precisa ajudar — respondi.

O sorriso dele não mudou, mas os olhos ficaram frios.


— Claro. Pessoas úteis sempre chamam atenção.


Ruan largou o garfo com mais força do que o necessário.

— Se o Setor Dois está procurando voluntários, recomendo olhar para os relatórios, não para mesas de jantar.


O homem virou o rosto devagar para ele.

— Estamos apenas garantindo que tudo continue… organizado.


— Então organize em outro lugar — Ruan retrucou, mais áspero agora. — Ela está fora de serviço.


O clima mudou.


As conversas ao redor pareceram diminuir.

O homem sustentou o olhar por alguns segundos longos demais.


Depois sorriu novamente.

— Só estava elogiando. Não sabia que precisava de autorização para isso.


Levantou-se devagar.

— Tenham uma boa tarde.


E saiu como se nada tivesse acontecido.

O silêncio ficou pesado na mesa.


— Você não precisava fazer isso — murmurei.


— Precisava — Ruan respondeu. — E agora você precisa entender uma coisa.


Ele se inclinou levemente para frente.

— Eles não elogiam. E sim estudam o comportamento.


Meu coração perdeu um compasso.


Não demorou para Ethan aparecer ao lado da mesa.


— O que foi aquilo? — perguntou, direto demais para fingir casualidade.


Ruan voltou a mexer na comida como se nada tivesse acontecido.


— Nada importante.


— Não parecia nada — Ethan retrucou, cruzando os braços.


Eu olhei de um para o outro.

— Ele sabe que estão me vigiando.


Ethan ficou em silêncio por um segundo.

— Desde quando?


— Desde que ela saiu da ala médica — Ruan respondeu por mim. — E provavelmente antes disso também.


O ar pareceu pesar de novo.

— Por quê? — Ethan perguntou, agora mais baixo.


Ruan finalmente respondeu à pergunta que tinha ficado suspensa.


— Não tenho certeza. Mas pode ser por causa da missão.


Meu estômago afundou.

— O que exatamente da missão? — perguntei.


Ele me encarou.

— A forma como você entrou em contato com eles. Mesmo você sendo apenas uma adolescente, chamou atenção demais naquele dia.


Ethan passou a mão pelo cabelo, claramente tenso.


— Então é simples — disse ele, depois de alguns segundos. — Se querem ter certeza de que está tudo sob controle, a gente mostra exatamente isso.


— Mostra como? — perguntei.


— Normalidade. — Ele apontou discretamente ao redor. — A gente come, conversa, cumpre ordens. Nada de atitudes heroicas, nada de curiosidade excessiva.


Ele me olhou sério.

— E é sério, Alice. Não se mete em mais problemas. Tenho certeza de que o Sirius vai resolver.


Aquilo me atingiu mais do que deveria.

— Você fala como se eu só fizesse isso aqui dentro.


O silêncio caiu de novo.

— Ele está certo — Ruan disse, firme. — Precisamos analisar a situação com mais cautela agora.


Ethan concordou com um movimento quase imperceptível.


Ruan continuou:

— Nossa preocupação não são mais os monstros.


Ele olhou ao redor do refeitório.

— São as pessoas que vivem com a gente.


A frase ficou no ar.


Sobreviver não era apenas lutar contra monstros.


Era aprender a não ser engolida pelas pessoas ao meu redor.


Nós não conversamos mais depois daquilo.


Esperei Ruan terminar o que estava comendo para voltarmos juntos à ala médica. Ethan subiu com os outros sobreviventes para consertar os estragos da usina.


O dia passou rápido. Pessoas entravam e saíam da ala médica como se tudo estivesse normal.


Mas, no fundo, aquela sensação continuava ali.


O desconforto.


A impressão de que algo estava sendo preparado em silêncio.


Eu sabia que estava me envolvendo em um jogo.


E, se era um jogo…


Eu precisava aprender a mover minhas peças.


Porque tinha a estranha sensação de que, muito em breve, alguém faria o primeiro movimento.

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