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Diário de uma sobrevivente
O que não entra nos registros.
1638 palavras • 9146 caracteres • ⏱ 6 min 33 s

O que não entra nos registros.

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Sai da ala médica um tanto apressada, precisava de um lugar mais afastado para colocar as informações em ordem.


Sentei no chão encostando as costas na parede enquanto encarava o teto


—Tirando um tempo para pensar? — disse, se aproximando enquanto se sentava ao meu lado.


Olhei para a pessoa à minha frente com uma certa surpresa, não o vi chegando. O que me deixou em alerta.


— Sim… muita coisa tem acontecido.


Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Não me olhou de imediato.


Parecia mais interessado em observar o movimento distante do setor.


— Em tempos como esse — disse por fim — pensar é quase um luxo.


Virei o rosto levemente para ele, sem responder.


— Nem todo mundo gosta de quem pensa demais — continuou, num tom tranquilo. — Especialmente quando o mundo já decidiu como as coisas devem funcionar.


Por fim decidiu olhar para mim, como se quisesse analisar minhas reações.


— Você acredita que tudo isso é só caos? — ele perguntou de repente.


— O quê?


— O fim do mundo — explicou. — Os monstros. As perdas. As ordens…

Ou você acha que tem um propósito nisso tudo?


Engoli em seco.

— Acho que nem tudo precisa ter um propósito.


Era um sorriso de quem não precisava convencer.


— É o que dizem antes de descobrir que há algo maior guiando tudo isso.


O silêncio se esticou.


— Às vezes — acrescentou — pessoas são afastadas não porque erraram…

mas porque estão no lugar errado da história.


Meu peito apertou como se algo não estivesse certo.

— E quem decide isso? — perguntei.


Ele deu de ombros.

— Nunca são os líderes.

São os que acreditam saber o que é necessário.


Antes que eu pudesse responder, ele se levantou.


— Descanse, Alice — disse, se afastando. — Pensar demais cansa.

Mas… também revela coisas.


Ele foi embora como tinha vindo.

Em silêncio, sem pressa.

Sem deixar respostas para trás.


Só mais perguntas...


Só depois percebi:

Ele sabia do meu afastamento.


Fiquei alguns segundos olhando para o espaço vazio onde ele tinha estado.


O setor voltou ao som habitual, mas algo parecia fora do lugar.


Não era silêncio.

Era atenção demais.


Voltei para a ala médica com uma decisão já tomada.


Ruan levantou o olhar quando me aproximei da mesa improvisada. A outra médica também me notou, mas a expressão dela fechou quase no mesmo instante.


— Precisa de algo? — Ruan perguntou, neutro.


Respirei fundo. — Eu… queria saber se posso ajudar aqui. Ficar como apoio. Se precisarem.


O silêncio que se seguiu foi curto, mas denso.


A médica largou o pano que usava para limpar as mãos. — A ala médica não é lugar para curiosos — disse, sem disfarçar o incômodo. — E você não é da equipe.


— Eu sei — respondi rápido. — Não tô pedindo pra decidir nada. Só ajudar no que mandarem. Organizar, carregar, anotar… o que for.


Ruan me observou por alguns segundos a mais do que o necessário. Não havia julgamento no olhar dele. Só cálculo.


— Você aguenta ver gente machucada o dia todo? — perguntou.


— Já vi coisa pior lá fora — respondi, sem pensar muito.


A médica suspirou, claramente contrariada. — Não podemos ficar de babá de uma garota que não segue as ordens.


— Ela não vai atrapalhar — Ruan disse, enfim. — Se seguir regras.


Olhou para mim. — Sem improviso. Sem perguntas fora de hora. E se eu mandar sair, você sai.


Assenti na mesma hora. — Combinado.

Ele deu um leve sorriso enquanto fez um gesto breve com a cabeça, como se aquilo encerrasse o assunto. — Então começa organizando os materiais. As prateleiras do fundo.


Peguei as caixas sem responder.

Era melhor assim.


Enquanto organizava frascos, panos e instrumentos já gastos demais para ainda serem úteis, comecei a perceber o ritmo do lugar.


Entradas rápidas. Saídas silenciosas. Poucas palavras. Nenhuma pergunta.


Alguns feridos falavam. Outros, quase nada.


— Esse não fica — ouvi a médica dizer em voz baixa, apontando para um dos homens deitado na maca.


— Anota como atendido — Ruan respondeu. 


Ela franziu o cenho. — pra onde ele vai?


Ruan não respondeu de imediato. — Pra onde sempre vai — disse, por fim.


Não levantei o olhar. Continuei organizando.


Mas gravei a frase.


Um pouco depois, um garoto foi trazido com o braço enfaixado às pressas. Sangue seco na roupa. Olhos arregalados, um recém chegado no setor.


— Nome? — a médica perguntou.


Ele demorou a responder. — Não… não precisa.


Ruan anotou algo mesmo assim. — chegou agora no setor?


— Sim, foi agora — o garoto disse rápido demais.


Olhei para o relógio improvisado na parede. Não batia.


Quando o garoto foi levado, me aproximei da mesa para devolver alguns frascos. Sem querer, meus olhos passaram pelo papel.


O nome não estava completo.

Só uma inicial.


— Alice — Ruan chamou, baixo.


Levantei o rosto de imediato. — Oi.


— Não olha os registros — disse, sem dureza. — Só faz o que foi pedido.


— Desculpa — murmurei.


Ele me encarou por um segundo a mais. — Não é bronca. É aviso.


Assenti e me afastei.


O tempo não passava ali dentro. Não dava para saber se eram minutos ou horas. Pessoas entravam. Pessoas saíam. Algumas… não voltavam.


Em certo momento, percebi algo simples difícil de ignorar:


Os mesmos frascos eram usados mais de uma vez. Os mesmos panos. Não dava para saber se estávamos com falta de suprimentos ou não.


— Ruan — chamei, com cuidado. — Quer que eu leve isso pro descarte?


Ele olhou o pano manchado de sangue na minha mão. — Não. Guarda.


— Mas já foi usado—


— Guarda — repetiu.


Obedeci.


Foi ali que entendi:


não era só falta de recursos.

Era controle.


Quando a ala ficou momentaneamente vazia, a médica se afastou para buscar mais materiais. Ficamos só eu e Ruan.


— Você não devia estar aqui — ele disse, sem me olhar.


— Eu sei.

— E mesmo assim voltou.


— Voltei porque aqui as coisas fazem mais sentido — respondi.


Ele parou o que estava fazendo. — Fazem?


— Pelo menos aqui… as pessoas não fingem que nada está errado.


Ruan me encarou. Pela primeira vez desde que nos chegamos aqui, parecia cansado de verdade.

— Fica atenta, Alice — disse baixo. 


— Por quê?


— Porque quem observa demais… começa a incomodar.


A médica voltou antes que eu pudesse responder.


Ruan retomou o trabalho como se a conversa nunca tivesse existido.


Mas eu já sabia.

Ficar ali não era só ajudar.


Era aprender onde as coisas seriam úteis.

E, principalmente,

quem decidia o que nunca seria anotado.


Após finalizar esse primeiro dia, saí com o corpo cansado e a cabeça cheia. O cheiro forte de remédios ainda parecia grudado na minha roupa, misturado ao peso das imagens que preferia não organizar agora.


Ajudar ali dentro não era simples — pessoas machucadas, olhares desconfiados, silêncio demais para um lugar que ainda respirava.


O refeitório estava mais cheio do que o normal. Barulho de talheres, vozes baixas, risadas forçadas. Vida tentando fingir que era normal.


Fingindo perfeitamente que estava tudo bem.


Peguei a comida e me sentei em um dos cantos, como sempre. Não demorou muito para perceber a presença conhecida se aproximando.


— Achei que você tinha virado parte do hospital agora — Ethan comentou, sentando à minha frente sem pedir permissão.


levantei os olhos devagar.

— Você não perde tempo de cuida da minha vida não é mesmo? — disse num tom de ironia.


Um sorriso torto surgiu no rosto dele. O mesmo de antes.

— Assim até parece que nada mudou.


— Mudou sim — respondi, mexendo na comida. — Só você que continua irritante.


— Ainda está brava pelo que eu falei? — desse enquanto parecia curioso com as minhas expressões.


— O que você acha? — tentei disfarçar pegando um pouco da comida e levando até a boca.


Ele suspirou como se tivesse perdido a guerra.

— Olha eu peço desculpas, mas você sabe que o que eu falei era verdade.


Ficamos alguns minutos em silêncio antes que eu quebrasse.


— Me desculpa também, eu estava cansada demais.


Ele então abriu um pequeno sorriso parecia tudo mais calmo até ele abrir a boca.


— Que coisa fascinante, ela sabe se desculpar afinal das contas. — disse em um tom de provocação.


— Ethan, já te disseram que você calado é um poeta incrível? 


Era estranho como aquilo ainda vinha fácil, como se o mundo não tivesse desmoronado entre um turno e outro. Por alguns minutos, parecia… seguro.


Até que Ethan ficou sério.

— Então, Alice… — ele apoiou os cotovelos na mesa. — Quando você pretende falar com os seus “amigos”?


A palavra caiu pesada.


Foi então que parei. O garfo ficou suspenso no ar por um segundo a mais do que deveria.


— Do que você tá falando?


— Com cuidado olhe para trás — ele respondeu, baixo. — Mas antes vai me contar o que você andou fazendo e com quem conversou até agora.


Eu senti o estômago revirar. Antes que pudesse responder, decidi olhar por cima do ombro.


Por um breve momento, meus olhos encontraram os deles.


Homens do Setor Dois. Encostados perto da parede, fingindo conversar, fingindo comer. Atentos. Calculando cada movimento meu.


O coração acelerou.


Quando voltei a encarar Ethan, o meu sorriso já tinha sumido.


— Seja o que for, não será aqui e nem agora que irei contar — murmurei. 


Ethan seguiu o meu olhar, entendendo mais do que gostaria.

— Então toma cuidado — disse. — Porque parece que alguém já tá fazendo as perguntas por você.


Levantei da mesa, com a bandeja quase intacta nas mãos.


Naquele lugar, até o silêncio tinha olhos.

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