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Diário de uma sobrevivente
Critérios.
1701 palavras • 9504 caracteres • ⏱ 6 min 48 s

Critérios.

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O anúncio foi um choque apara todos, nossas vidas agora estariam de baixo de ordem de outra pessoa.


Já era tarde, após a "jantar" todos já se apontavam para dormir, estava prestes a deitar quando um dos homens do setor dois me chamou.


— Alice? — olhou em volta procurando.


— Sou eu — respondi, mas por dentro estava com um receio.


— Sirius e os outros estão te chamando, siga-me.


O homem do Setor Dois caminhava à frente, passos firmes, sem olhar para trás. Estava mais silencioso do que o normal — poucas luzes acesas, vozes abafadas atrás de portas fechadas.


Cada passo parecia um aviso.


Parou perto de um dos armazéns, onde sombras se acumulavam nos cantos como se observassem. Sirius estava ali, braços cruzados, o rosto sério como sempre. Ao lado dele, o homem do Setor Dois — postura ereta, olhar frio, daqueles que medem pessoas como recursos.


Assim que me aproximei, o silêncio se instalou.


— Alice — ele disse, finalmente, analisando-me de cima a baixo. — Parece que ouvi muito sobre você.


Meu estômago revirou.


— Parabéns por concluir a missão — continuou, num tom quase cordial. — Nem todos voltam.


Esperei. Algo em mim já sabia que aquilo não era um elogio de verdade.


— Mas… — ele deu um leve passo à frente — a partir de hoje, sua ajuda lá fora não será mais necessária.


O chão pareceu ceder sob meus pés.

— O quê? — a palavra saiu antes que eu pudesse segurá-la. — Mas por quê?


O homem inclinou levemente a cabeça, como se a resposta fosse óbvia.


— Você não cumpriu as ordens do seu líder — disse, olhando brevemente para Sirius antes de voltar os olhos para mim. — Colocou a equipe em risco.


— Eu salvei pessoas, conseguindo entrar em contato com vocês — rebati, a voz mais firme do que eu esperava. — Se eu não tivesse agido—


— Salvou algumas — ele interrompeu. — E poderia ter condenado todas.


O silêncio que se seguiu foi pesado.

— O que menos precisamos agora — continuou — é de alguém que decide por conta própria. Pessoas imprevisíveis criam problemas.E problemas… 

Custam vidas.


Senti algo apertar no peito. Não era raiva ainda. Era pior. Era aquela sensação de ser reduzida a um erro.


Olhei para Sirius. Ele não desviou o olhar, mas também não disse nada.


— A partir de hoje — concluiu o homem do Setor Dois — você permanecerá dentro do setor. Sem missões externas. Essa decisão não está aberta a discussão.


Virou-se, encerrando a conversa como se eu já não estivesse ali.


Fiquei parada por alguns segundos, tentando entender quando exatamente eu tinha deixado de ser necessária.


Quando dei meia-volta para ir embora, percebi:


não tinham me afastado por fraqueza.

Tinham me afastado porque eu pensava demais.


E, naquele lugar, isso era mais perigoso do que qualquer monstro.


Voltei sozinha.


O caminho pareciam mais longos agora, mais vazios. Cada passo ecoava alto, como se o lugar inteiro estivesse ciente do que tinha acabado de acontecer.


Não fui para o dormitório.


Sentei perto de uma parede fria, abracei os joelhos e deixei o silêncio fazer o que sempre fazia: pensar por mim.


Talvez eu tivesse errado.


Talvez tivesse seguido o impulso, ignorado ordens…


Mas se eu não tivesse feito nada, aquelas pessoas estariam mortas.


Fechei os olhos por um instante, respirando fundo. No fim, parecia que salvar vidas não era o suficiente — não quando se quebrava a hierarquia.


— Você devia está indo dormir.


A voz veio baixa, cansada.


Abri os olhos. Sirius estava parado a poucos passos, a sombra dele projetada na parede. Não parecia bravo. Parecia… exausto.


— Não vou conseguir dormir, fui afastada — disse, sem rodeios.

Ele não respondeu de imediato.


 Aproximou-se e se apoiou na parede ao meu lado, escorregando até se sentar no chão com um suspiro pesado.


— Eu sei.


Aquilo doeu mais do que eu esperava.


— E você concordou — completei.


— Não é tão simples — Sirius respondeu, passando a mão pelo rosto. — Morian já tinha decidido antes mesmo de falar com você. Eu só… segurei o estrago.


Soltei uma risada curta, sem humor.

— Ótimo trabalho.


Ele me lançou um olhar firme.

— Alice, você desobedeceu algumas de minhas ordens.


— Porque voce estava errado — rebati, virando o rosto para ele. — Nessa situação você teria feito o mesmo.


O silêncio caiu entre nós.


Sirius apertou a mandíbula.

— Já fiz — admitiu, por fim. — E perdi gente por causa disso.


As palavras ficaram no ar, pesadas demais para serem ignoradas.


— Eu não posso te proteger de tudo — continuou. — Principalmente agora. As pessoas estão com medo. E quando o medo cresce, elas procuram culpados… ou exemplos.


— Então eu virei um exemplo — murmurei.


— Um aviso — ele corrigiu, com amargura. — Do tipo que mantém o resto na linha.


Ficamos em silêncio por alguns segundos.


— Você não é um problema, Alice — Sirius disse, por fim. — Mas aqui… pensar por conta própria é perigoso. Não para os monstros. Para as pessoas.


Levantei o olhar para ele.

— E você? — perguntei. — Ainda confia em mim?


Ele me encarou por um instante longo demais.


— Confio — respondeu. — É isso que me assusta.


Levantou-se devagar.

— Fique dentro do setor por enquanto — disse antes de ir embora. — Observe. Escute. Às vezes… sobreviver não é sobre lutar. E sim entender quem realmente está ao seu redor.


Quando ele se afastou, fiquei sozinha de novo.


Mas algo tinha mudado.

Os monstros lá fora já não eram o maior perigo.


••••


Acordei com o barulho baixo de vozes e passos do lado de fora.


Por um instante, pensei que ainda estivesse sentada contra aquela parede fria da noite anterior. Mas a dor nos ferimentos me trouxe de volta rápido à realidade.


Me vesti devagar e segui até o refeitório improvisado.


Emma, Nyra e Ivy já estavam sentadas, dividindo algo que parecia mais próximo de comida do que a maioria das coisas que serviam ali. Ethan estava com elas, encostado na mesa, girando um copo entre os dedos.


— Bom dia — murmurei, me sentando.


— Bom dia nada — Nyra respondeu, me olhando com atenção. — Você tá estranha.


Nem tinha dado a primeira mordida ainda.


— Quietinha demais — Emma completou. — Isso não é normal nem para os seus dias de mau humor.


— São os ferimentos? — Ivy perguntou, inclinando-se um pouco na minha direção. — Estão doendo?


Balancei a cabeça, empurrando a comida de um lado pro outro no prato. — Não é isso.


O silêncio caiu sob nossa mesa.


Respirei fundo. — Fui chamada ontem à noite. Pelo pessoal do Setor Dois… e pelo Sirius.


Os quatro ficaram atentos na mesma hora.


— Disseram que eu não vou mais sair em missões externas — continuei. — Que eu desobedeci ordens. Que coloquei a equipe em risco.


Jade foi a primeira a desviar o olhar.

— Eles não te afastaram porque você errou — disse, calma. — Te afastaram porque você não seguiu o roteiro.


Ethan franziu o cenho. — Você só fez o que ninguém queria faze.


— Pois é — dei de ombros, sem humor. — Parece que não foi o suficiente.


Ninguém falou nada por alguns segundos.


Até que Emma suspirou e apoiou o cotovelo na mesa. — Vai ver é algo temporário — disse, tentando soar leve. — Daqui a pouco você volta a deixar a gente de cabelo em pé lá fora.


Nyra soltou uma risada curta. — De cabelo em pé a gente sempre tá — disse. — Me diz a última vez que alguém aqui passou um pente no cabelo?


Olhei em volta.

Ninguém respondeu.


Acabei rindo, mesmo contra a vontade.


A conversa foi mudando aos poucos. Comentários aleatórios, pequenas reclamações, uma lembrança besta de antes de tudo aquilo. Não era felicidade — mas era algo próximo o bastante pra enganar por alguns minutos.


Mesmo naquele lugar… ainda éramos nós.


Depois de um tempo, Ivy me observou de novo. — Alice… vai lá ver o Ruan, tá? — disse com cuidado. — Só pra garantir que tá tudo certo com os ferimentos.


Assenti. — Vou sim.


Levantei-me, deixando o prato quase intacto para trás.


Enquanto caminhava pelo corredor estreito em direção à ala médica, senti um incômodo estranho no peito. Não era dor. Era… expectativa.


As palavras da noite anterior passaram pela minha mente, sem que eu tivesse chamado por elas.


Observe. Escute.


Balancei a cabeça, afastando o pensamento.


Mas alguma coisa me dizia que aquela visita não seria tão simples quanto parecia.


Bati duas vezes na porta da ala médica antes de entrar.


Ruan estava de costas, organizando alguns frascos sobre a mesa improvisada. Ao lado dele, a outra médica anotava algo num caderno grosso, já gasto para ainda guardar segredos.


— Oi Alice, pode entrar — Ruan disse, sem se virar. — Senta aí.


Obedeci.


Ele analisou meus ferimentos com atenção, trocando poucas palavras com a colega. Nada fora do normal. Perguntas técnicas, respostas curtas. O tipo de conversa que não exigia sentimentos.


— Ainda dói? — ele perguntou.


— Um pouco.


— Vai doer mais se forçar — respondeu, já escrevendo algo. — Fica dentro do setor por enquanto.


A frase soou… estranhamente familiar.


A outra médica fechou o caderno com um estalo seco. — A gente só tá aqui pra anotar e observar os feridos desse lugar — disse, como se comentasse o clima. — precisamos de um lugar descente.


Algo se moveu dentro de mim.


Ruan nem reagiu. Continuou escrevendo, como se aquela fosse a coisa mais óbvia do mundo.


— É o que se espera de quem fica dentro do setor — ele completou. — fazer o que ou outros não estão dispostos. 


O ar pareceu mais pesado.


Observe.

Escute.


As palavras voltaram com força.


Não eram conselhos.


Eram critérios...


Sirius nunca tinha me afastado.


Ele tinha me reposicionado.

Colocado onde ninguém olha.


Onde ninguém se importa.

Onde tudo passa sem relatório… até alguém perceber.


As missões não tinham acabado para mim com aquela frase.


Tinham apenas começado.

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