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Diário de uma sobrevivente
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1377 palavras • 7561 caracteres • ⏱ 5 min 30 s

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Meu corpo gritava com a exaustão.


Ruam cuidou dos meus ferimentos, garantindo que não iriam infeccionar.

No braço, levei alguns pontos.


Nada muito grave, mas o suficiente para deixar cicatrizes daquela batalha. Assim que ele terminou, elas se aproximaram.


Ivy tinha uma expressão preocupada.

Emma parecia irritada.


Jade com uma expressão que eu não sabia decifrar.


Nyra, por sua vez, parecia assustada ao me ver naquele estado.


Emma foi a primeira a quebrar o silêncio.


— Você perdeu a noção?! — a voz dela saiu mais alta do que o normal. — Olha pra você! Você podia ter morrido!


Ivy deu um passo à frente quase no mesmo instante.


— Emma… — disse com cuidado, pousando a mão no braço dela. — Não agora.


— Não agora? — Emma puxou o braço, os olhos brilhando de raiva. — Ela tá cheia de ferimentos, Ivy. Isso não é "não agora".


Nyra permaneceu mais atrás, abraçando os próprios braços, o olhar preso nos curativos.


— Eu… eu achei que você não ia voltar… — murmurou, a voz baixa, quase tremendo.


Jade não disse nada. Apenas me observava em silêncio, como se estivesse tentando entender algo que nem eu sabia explicar.


Ivy respirou fundo antes de falar de novo.

— O que importa é que ela está aqui. Viva. — seus olhos encontraram os meus. — Depois a gente conversa sobre o resto.


Fiquei alguns segundos em silêncio antes de falar.


— Eu sabia dos riscos — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Mas lá em cima… não tinha outra escolha.


Emma abriu a boca para retrucar, mas Ivy a interrompeu com um olhar rápido.


— O que aconteceu? — Ivy perguntou, com calma. — De verdade.


Respirei fundo.

— Eu e Armand precisávamos ir até a sala de comunicação para conserta o painel e a antena. Havia monstros por toda parte, mas conseguimos concluir a missão, fazendo contato com o setor dois.


O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Você decidiu isso sozinha? — Emma perguntou, a raiva agora misturada com incredulidade.


— Eu decidi sobreviver. — respondi. — E garantir que todos nós também sobrevivessem.


Nyra deu um passo à frente.

— Se você não tivesse ficado… — ela engoliu em seco. — A gente não teria conseguido.


Emma virou o rosto, os punhos cerrados, como se estivesse tentando não dizer algo pior.


Jade finalmente falou:

— Você sabia que sairia viva?


Balancei a cabeça em negativa.

— Não.


Ivy fechou os olhos por um instante, como se aquela resposta confirmasse algo que ela temia.


— Da próxima vez — disse ela, firme, mas ainda gentil — você não decide isso sozinha.


Assenti. Não porque prometia obedecer, mas porque entendia o peso daquilo.


Foi então que ouvi passos se aproximando.

Ethan parou à minha frente, o olhar preso nos curativos do meu braço.


— Você perdeu o juízo? — a voz dele saiu dura. — Ou isso já virou rotina pra você?


— Ethan— Ivy começou, mas ele se aproximou sem tirar os olhos de mim.


— Você tem noção do que teria acontecido se algo desse errado? — Ethan disse, a voz baixa, mas carregada. — Se aquelas pessoas não tivessem vindo... se você tivesse demorado alguns segundos a mais…


— Para. — eu interrompi.


Ele franziu o cenho.


— Não, Alice. Alguém precisa dizer isso. Você sempre escolhe ficar pra trás como se sua vida fosse descartável.


Foi aí que eu perdi a paciência.


— E alguém precisava ficar! — minha voz ecoou mais alto do que eu queria. — Ou você acha que eu fiz isso porque queria virar heroína?


Ele abriu a boca, mas eu continuei.


— Todos nós iríamos morrer Ethan, se alguém não fosse lá consertar... seria questão de tempo até as criaturas entrarem aqui. 


Eu fiz o que precisava ser feito, e não vou me arrepender por isso.


— E se você não tivesse voltado?! — ele explodiu, finalmente. — Você acha que eu… que a gente teria lidado com isso?!


O silêncio caiu entre nós, denso.


— Você não estava lá em cima — continuei, agora mais amarga. — Não viu o quanto estava perto de tudo acabar. Não ouviu os gritos.


Então não me diz que eu tinha escolha.

Ethan desviou o olhar, a mandíbula tensa.


— Eu não tô bravo porque você lutou — ele disse por fim. — Tô bravo porque você quase não voltou.


Respirei fundo, sentindo o peso daquilo.

— Então para de agir como se eu fosse fraca. — minha voz falhou só um pouco. — Porque se eu fosse… eu não teria descido viva.


Ele voltou a me encarar.

— E se continuar assim — disse, mais baixo — um dia não vai.


Essa frase doeu mais do que qualquer ferimento.


Eles me deixaram sozinha ali. Aproveitei o silêncio para pensar em tudo o que tinha acontecido… e em como poderia ter sido diferente.


Até que Armand se aproximou com passos calmos e uma certa dificuldade ao se sentar ao meu lado.


Armand ficou alguns segundos em silêncio depois de se sentar ao meu lado.


— Você sempre fica quando todo mundo vai — ele disse por fim.


— Alguém precisa ficar — respondi, sem olhar para ele.


Ele soltou um suspiro curto, como se sentar tivesse doído mais do que queria admitir.


— Não era isso que eu quis dizer.


O silêncio voltou, mas não era desconfortável.


— Lá em cima… — ele começou, depois parou. — Você fez o que precisava ser feito.


Virei o rosto na direção dele.

— Eles não acham isso.


— Eles acham — corrigiu. — Só estão com medo demais pra admitir.


Apertei os dedos contra o tecido da roupa.

— Eu fiquei pensando em como poderia ter sido diferente — confessei. — Em todas as decisões que levei até aquele ponto.


Armand manteve o olhar à frente.

— Se tivesse sido diferente… talvez ninguém estivesse aqui agora.


Aquilo me atingiu mais forte do que eu esperava.


— Você não pode carregar cada vida nas costas, garota — ele continuou. — Mesmo que tente.


— Eu sei disso — murmurei.


Ele finalmente me encarou.


— Com certeza sabe. — um canto do rosto dele se contraiu num quase sorriso cansado.


Ficamos ali em silêncio por mais um tempo até que ele decidiu ir até Sirius que parecia um pouco irritado com algo.


Observei eles conversando, até um dos homens do setor dois chegar, fazendo ele ficar tenso.


O burburinho começou baixo, mas cresceu rápido demais para ser ignorado.


As conversas cessaram quando Sirius se colocou à frente, a postura rígida, o olhar cansado demais para fingir neutralidade.


Ao lado dele, dois homens do Setor Dois observavam tudo com atenção excessiva — como quem já se sentia dono do lugar.


— Atenção. — a voz de Sirius ecoou pelo espaço. — Tenho um anúncio a fazer.


O silêncio foi imediato.

— A partir deste momento, por ordem direta do coronel Morian kessler, o Setor Dois ficará encarregado da segurança e administração desta base.


Um murmúrio de insatisfação percorreu o grupo.

— Isso é temporário — Sirius continuou, embora sua expressão dissesse o contrário. — Até que novas diretrizes sejam estabelecidas.


Um dos homens do Setor Dois deu um passo à frente.

— Nosso pessoal já está assumindo os pontos que foram atacados — disse, num tom educado demais para não soar como ameaça. — É para o bem de todos.


Olhei ao redor.


Emma cerrava os dentes.


Ivy mantinha a postura, mas seus olhos avaliavam cada movimento.


Nyra parecia ainda menor do que antes.


Jade observava em silêncio — atenta demais.


Armand voltou para o meu lado.

— Eles não vieram só ajudar — murmurou. — Vieram ficar.


Sirius respirou fundo antes de completar:

— Não foi uma decisão minha.


Mas foi ele quem deu o passo para trás.

E isso foi o suficiente.


Percebi então que os monstros já não eram a maior ameaça.


Eles estavam lá fora, previsíveis, famintos, seguindo o instinto.


As pessoas…

Essas sabiamsobrou.iente o que estavam fazendo.


E naquele momento, percebi o que estava bem na minha frente: 


O apocalipse não começa quando o mundo cai — ele começa quando alguém decide quem manda no que sobrou.

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