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Diário de uma sobrevivente
Entre setores e sombras.
1656 palavras • 9521 caracteres • ⏱ 6 min 37 s

Entre setores e sombras.

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Mesmo com os tiros não recuaram totalmente.


Elas estavam avaliando.

Como predadores que aprenderam que a presa agora tinha dentes.


— Formação defensiva! — Sirius ordenou.

— Não deixem elas fecharem o corredor!


Os soldados se espalharam, usando caixas tombadas e colunas rachadas como cobertura. O corredor era estreito demais — qualquer erro e alguém ficaria encurralado.


Outra criatura avançou mais rápida do que as outras.


Kieran foi o primeiro a reagir.


Um tiro seco.

Depois outro.


A criatura tropeçou, a perna dobrando num ângulo errado — e então Sirius finalizou, mirando exatamente na articulação exposta. O som cessou abruptamente.


Silêncio por meio segundo.


— Funcionou… — Armand murmurou, quase para si mesmo.


Não durou.

Um guincho ecoou mais ao fundo do complexo — mais de um.


A resposta veio como um chamado.


— Eles estão chamando reforços — Kieran disse, trocando o pente com rapidez. — Isso não é caça. É coordenação.


Meu braço ardia cada vez mais. O sangue escorria quente, escuro demais sob a luz artificial. Eu apertava o ferimento com a mão livre, tentando ignorar o tremor que subia pelo corpo.


Sirius me lançou um olhar rápido.


— Você tá ferida.


— Apenas o braço... ainda dá pra andar — respondi, sem pensar duas vezes.


Ele assentiu, curto.


— Então anda comigo.


Um estrondo sacudiu o corredor lateral.


Uma parede cedeu parcialmente, revelando um vão escuro — e olhos surgiram dentro dele, brilhando como brasas presas.


— Merda… — alguém sussurrou.

— Não deixem flanquear! — Sirius gritou.


Tiros explodiram quase ao mesmo tempo.


Faíscas ricochetearam pelas paredes. Uma criatura caiu, mas outra passou por cima do corpo, avançando com um salto impossível.


Ela veio direto em mim.

Não pensei.

O rádio ainda estava na minha mão.

Ativei o canal aberto e gritei:


— MANDE REFORÇOS AGORA!


Uma explosão sacudiu o teto acima de nós.


O impacto jogou a criatura para o lado, o corpo se chocando contra a parede com força suficiente para amassar o concreto.


Poeira caiu como neve suja.


— Extração visual! — uma voz gritou no comunicador de Sirius. — Trinta segundos!


— Trinta?! — Kieran rosnou. — Isso aqui vira um inferno em quinze!


E como se respondessem ao desafio, os sons se multiplicaram.


Eles estavam vindo de todos os lados agora.


Sirius segurou meu ombro por um segundo — firme, ancorando.


— Quando eu disser corre, você corre. Não discute. Entendeu?


Abri a boca pra responder.


Outra explosão interrompeu tudo.


O chão se abriu parcialmente à frente — e algo maior emergiu da escuridão abaixo, o corpo rangendo sob o próprio peso.


Não era como as outras.

Era pior.

Mais espessa.

Mais lenta.

Com aquilo que lembrava asas.

Os olhos varreram o corredor…

E pararam em nós.


O som que ela emitiu não foi um alarme.

Foi um aviso.


— Essa… — Kieran murmurou — é classe A.


Sirius ergueu a arma.

— Alice.


Olhei pra ele.


— Se eu mandar correr… — ele começou.


— Eu corro — respondi, mesmo sabendo que talvez estivesse mentindo.


O rádio chiou alto no meu cinto.


— Equipe de extração posicionada — informou a voz fria. — Última chance.


A criatura deu um passo à frente.

O corredor inteiro tremeu.


Sirius puxou o gatilho.


E tudo explodiu em caos outra vez.


Mesmo com as balas rasgando sua pele, ela não diminuiu o avanço — como se a dor não existisse.


Eu corri, como Sirius havia mandado, mas algo em mim me prendia…


Foi quando eu tive uma ideia, da qual poderia dar certo ou então me matar


Mais pelo bem de todos, precisa tentar 


Ela avançava como algo que não tinha pressa em direção a eles


Eu corri, não para a saída, mas para achar algo que chamasse a atenção daquele monstro.


Peguei um pedaço de metal e arrastei pelo chão não só fazendo faíscas, mas emitindo um som agudo que fazia qualquer um se incomodar com o som


— EU MANDEI VOCÊ CORRE! – Sirius gritou desesperado com a cena 


— E eu vou — sem pensar, joguei aquele metal na criatura finalmente chamado sua atenção 


A criatura respondeu ao metal com um rugido que não veio apenas da garganta — veio do corpo inteiro.


O som fez o vidro atrás de mim vibrar.


Ela baixou o tronco, as asas se abrindo parcialmente, arrastando no concreto como lâminas cegas. Os olhos nunca deixaram os meus.


Então correu.


Cada passo fazia o chão estremecer, rachaduras se espalhando como veias abertas. Os soldados atiravam sem parar — faíscas, carne rasgada, pedaços se soltando — nada importava.


Ela não desviava. Não reagia. Só avançava.

Recuar era inútil.

Minhas costas tocaram o vidro frio.


Uma janela enorme, reforçada, mas ainda assim… vidro. Do outro lado, apenas a noite e o vazio.


— Alice, sai daí! — Sirius gritou, a voz já falhando no limite entre comando e desespero.


A criatura estava perto demais agora.


Perto o suficiente para eu sentir o ar quente que vinha dela. Perto o suficiente para ver as marcas em seu corpo — cicatrizes de outras batalhas vencidas.


Ela ergueu o braço.

O mundo pareceu desacelerar.

Foi então que ouvi.

Não tiros. Não gritos.

Um som diferente.


Grave. Crescente. Vibrando nos ossos.

O vidro atrás de mim começou a tremer com mais força, pequenas fissuras surgindo como rachaduras em gelo fino.


A criatura hesitou por meio segundo.

Luz.


Um foco branco cortou a escuridão do lado de fora, forte o bastante para cegar. O rugido do helicóptero explodiu no ar ao mesmo tempo em que o vidro estilhaçou para fora, sugado pela pressão.


— ABAIXA! — alguém gritou no comunicador.


Não pensei. Meu corpo simplesmente caiu.

Balas atravessaram o espaço onde eu estava segundos antes, rasgando o ar, atingindo a criatura em cheio. O impacto finalmente a fez recuar — um passo, depois outro — o corpo pesado sendo empurrado contra o chão.


Ela urrou. Dessa vez, de raiva.

Estilhaços choveram sobre mim enquanto eu protegia a cabeça com os braços, o mundo reduzido a barulho, vento e dor.


Quando ousei erguer o olhar, vi a criatura sendo engolida pela fumaça e pela poeira, o helicóptero pairando como um predador maior ainda, luzes varrendo o corredor destruído.


— Extração agora! — a voz no rádio soou.

Mãos me agarraram pelos ombros. Me puxaram. Me arrastaram.

Eu não resisti.


Enquanto era levada, meus olhos buscaram a sombra entre a fumaça.


Por um instante — só um — tive certeza de que ela ainda estava ali.

Observando.

Esperando.


E eu soube, com um peso gelado no peito, que aquilo não tinha sido o fim.

Só um aviso.


O barulho dos tiros foi ficando distante à medida que avançávamos pelos túneis.


Não porque o combate tivesse cessado — mas porque o concreto grosso engolia o som, transformando o caos em um eco abafado, quase irreal.


Eu mal sentia as pernas.


Cada respiração puxava uma dor diferente: a ferida, outros cortes nos braços, nas costas, na lateral do rosto. Os cacos de vidro tinham sido implacáveis. Nada profundo demais — mas o suficiente para arder, para lembrar que eu tinha chegado perto demais.


Sirius me segurava pelo lado não ferido, firme. Kieran vinha logo atrás, praticamente carregando Armand.


— Não dorme — Kieran murmurava entre dentes. — Se dormir agora, eu juro que te arrasto acordado.


Armand soltou um riso curto que virou gemido. — Você é… um amor… sabia?


O túnel se abriu em uma porta de metal reforçada.


Sirius bateu na porta em código com a mão suja de sangue que não parecia mais distinguir o que era dele e o que não era.


A porta se abriu com um rangido pesado.

O cheiro mudou. Antisséptico. Luz branca. Revelando as pessoas no abrigo e minhas irmãs...


Ao me ver naquele estado tentaram se aproximar porém foram impedidas pela dona luna.


Ethan, parecia pálido ao me vê, como se temesse algo pior.  


— Feridos chegando! — Sirius anunciou.

Ruam já estava de pé quando entramos.


— Coloca ela ali — ordenou, apontando para um canto mais próximo. — E você, com cuidado. Agora.


Fui deitada quase à força. Só então percebi o quanto meu corpo tremia.


Ruam passou os olhos por mim rápido, treinado. — Múltiplos cortes superficiais… braço perfurado… — ele franziu o cenho. — Você tem ideia da sorte que teve?


Não respondi.

Do outro lado, Armand foi apoiado contra a parede — e o impacto fez seu rosto perder a pouca cor que ainda tinha.


— Costelas — Ruam disse antes mesmo de examinar direito. — Duas. Talvez três quebradas.


Armand fechou os olhos. — Já tive dias piores…


— Mentiroso — Kieran respondeu.


Foi então que percebi a presença estranha.

Um homem que eu não reconhecia.


Uniforme diferente. O símbolo do Setor Dois no ombro.


Ele não ajudava. Não falava. Só observava.

Os olhos dele passavam por cada rosto, cada ferimento, cada movimento — como se estivesse contando.


Mais dois soldados entraram logo depois. Um deles foi direto ao rádio preso ao colete.


— Aqui é o Setor Dois — disse, a voz fria, profissional demais. — Contato confirmado. Sobreviventes localizados no Setor Quatro. Aguardando instruções.


A palavra sobreviventes soou errada. Como se fôssemos algo encontrado… não pessoas.


Sirius percebeu. Seu corpo ficou tenso de um jeito quase imperceptível — mas eu vi.

Kieran também.


Ruam continuou trabalhando, fingindo não notar, mas suas mãos estavam rápidas demais.


— Eles vão “ajudar” — murmurou Armand, com um sorriso torto. — Nunca gostei quando dizem isso…


O homem do Setor Dois finalmente falou:

 — Precisamos de um relatório completo do que foi encontrado lá em cima.


O silêncio que se seguiu foi pesado.

Sirius levantou devagar. — Quando ela estiver fora de perigo.


O olhar do homem deslizou até mim. Parou. Demorou.


— Vamos ver — respondeu.


E naquele momento, mesmo deitada, ferida e exausta, eu entendi:


O inferno que enfrentamos lá fora… talvez não fosse o único problema.


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