As criaturas avançaram com uma velocidade impossível, o som dos passos delas não combinando com o peso que sugeria - como se deslizasse pelo chão. Armand segurou meu pulso com força, puxando-me para longe da entrada da sala.
- CORRE, ALICE! - ele gritou, mas sua voz tremeu.
O painel atrás de mim já está funcionando, mas não tínhamos tempo para mandar uma mensagem de socorro.
Uma das criaturas atingiu a porta com um impacto que fez o concreto vibrar. Partículas de poeira caíram do teto.
Armand disparou três tiros. O som ecoou pela estrutura vazia - e o monstro recuou apenas um passo, como se tivesse sido incomodado, não ferido.
- Isso não vai segurá-los! - gritei, já correndo pelo corredor estreito.
A luz da lanterna piscava, lutando para sobreviver, e o rosto de Armand era iluminado apenas em fragmentos - suor, raiva, medo.
A criatura rugiu.
Não era som de garganta.
Era metálico.
Como ferro arrastado sobre pedra... porém vivo.
Os seus olhos brilhavam com mais intensidade conforme ela se aproximava.
- Esquerda! - Armand ordenou, empurrando-me para uma porta semiaberta.
Entramos em uma antiga sala de manutenção, cheia de tubulações quebradas e caixas empilhadas. Ele fechou a porta com o corpo, prendendo a respiração, enquanto eu apagava a lanterna.
Silêncio...
O tipo de silêncio que dói nos ouvidos.
A criatura parou do outro lado da porta.
Algo arranhou o metal - lentamente.
Eu tampei a boca com a mão para não deixar o medo escapar em som.
Armand se aproximou e sussurrou, tão baixo que quase não ouvi:
- Se ela nos encontrar... eu atraio. Você corre. Termine o trabalho.
Balancei a cabeça freneticamente, negando. Meus olhos ardendo.
- Não - sussurrei de volta. - A gente sai daqui juntos.
O arranhão no metal cessou.
Um segundo silêncio - ainda mais terrível.
Até que...
O rádio no meu cinto chiou alto demais.
"- ...Alice... está aí ..."
A criatura bateu na porta.
Uma vez.
BAM.
Duas.
BAM.
Armand levantou a arma, se colocando entre mim e a porta.
E então, o metal começou a se deformar para dentro... como se fosse massa amassada por mãos invisíveis.
- Merda... - Armand sussurrou - ela nos achou.
Quando a porta finalmente cedeu, uma sombra colossal preencheu a entrada, os olhos queimando no escuro.
Eu puxei o ar com força.
E fiz a única coisa que podia.
Apertei o botão do rádio - transmitindo, mesmo que fosse minha última ação.
- Sirius... está aqui.
- A criatura... ela está...
Aquele monstro avançou um passo para dentro da sala.
O chão gemeu sob o peso dela.
Tubulações tremeram nas paredes, e algo líquido escorreu de uma válvula quebrada, pingando no chão com um som alto demais.
Os olhos da coisa se moveram - não como olhos deveriam - mas como sensores procurando calor, som... vida.
- Alice... - Armand murmurou sem virar o rosto. - Quando eu disser...
Não houve tempo.
O rádio respondeu.
"- Alice, repita. Identificamos uma interferência. O que está aí com você?"
A criatura reagiu instantaneamente.
A cabeça se inclinou num ângulo impossível.
O som metálico voltou - agora mais agudo, vibrando dentro da sala, fazendo meus dentes doerem.
Sem hesitar, ela avançou.
Armand disparou.
Três tiros.
As balas atingiram o peito da criatura e ricochetearam, faíscas cortando o ar como fogos moribundos.
Ela respondeu com um golpe.
Armand foi arremessado contra as caixas, o impacto seco roubando o ar dos meus pulmões antes mesmo de roubar o dele.
- ARMAND!
A criatura virou-se para mim.
Agora não havia dúvida.
Ela escolheu.
Meu rádio ainda estava aberto.
Sirius ouvindo tudo.
Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei cair.
A criatura deu um passo.
Eu levantei o rádio até a boca, a voz quebrando, mas firme o suficiente para ser ouvida.
- Sirius... - engoli em seco. - Ela nos encontrou.
A criatura abriu a sua boca lentamente, como se preparasse para consumir a presa.
Ela se moveu..
Rápida demais para algo daquele tamanho.
Senti o impacto antes da dor.
As garras rasgaram meu braço, cortando a pele como lâminas cegas. O calor veio primeiro. Depois, a ardência insuportável.
Gritei ao cair no chão, o rádio escapando da minha mão e batendo contra o concreto com um estalo seco.
A criatura abriu sua boca grotesca.
Preparando o golpe final.
Meus dedos tocaram algo frio.
Um dos canos das tubulações quebradas - pesado, enferrujado, manchado de óleo antigo.
Agarrei com a mão boa e, quando ela desceu sobre mim, empurrei o corpo para frente com tudo que me restava.
O cano atravessou a abertura da garganta.
O som que ela emitiu não foi um rugido.
Foi um alarme.
Agudo. Distorcido.
A criatura recuou cambaleando, as patas tentando arrancar o metal cravado dentro de si, o corpo se contorcendo em espasmos violentos.
Armand apareceu ao meu lado, o rosto pálido, os passos instáveis.
- Levanta... - ele ofegou, puxando-me pelo braço que não estava ferido. - Agora.
A dor explodiu quando fiquei de pé, mas ignorei.
Precisava ignorar.
Me abaixei para pegar o rádio e corremos.
Deixamos para trás a criatura se debatendo, o cano ainda preso, o som metálico ecoando pela sala como um aviso.
Assim que atravessamos o corredor, ouvi outros movimentos.
As sombras começaram a se mover nas extremidades da luz falha.
Os outros monstros.
Eles tinham sentido.
- Não para - Armand murmurou. - Não olha pra trás.
Viramos à direita. Depois à esquerda.
Passagens estreitas, portas arrombadas, o eco dos nossos passos misturado ao deles - rápidos demais, próximos demais.
Até que o corredor terminou.
Uma parede.
Sem saída.
Meu coração despencou.
Armand parou ao meu lado, respirando pesado, a arma quase sem munição.
Atrás de nós, o som metálico crescia.
Cercando.
Esperando o momento certo de agir.
Viramo-nos para encará-las.
O corredor parecia encolher ao nosso redor.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que elas podiam ouvir.
Uma das criaturas deu um passo à frente.
Depois outra.
O som metálico se espalhou, reverberando pelas paredes como um aviso de morte iminente.
Minha mão tateou o cinto por reflexo.
O rádio.
Eu o puxei, quase sem acreditar quando a tela piscou.
"- ...shhh... sinal ativo... - a estática estalou."
Meu peito se encheu de ar.
- Sirius...? - minha voz saiu fraca, desesperada.
Houve uma pausa.
Curta demais para ser conforto.
"- Aqui é o Setor Dois - respondeu uma voz fria, distante, sem emoção alguma. - Identificação desconhecida na frequência. Há alguém na escuta?"
Engoli em seco.
Antes que eu pudesse responder, um disparo ecoou a nossa frente.
- CONTATO! - alguém gritou. - À esquerda!
O corredor explodiu em luz.
Rajadas cortaram a escuridão, atingindo uma das criaturas no flanco. Ela recuou com um guincho metálico, o corpo faíscando ao ser atingido.
- AGORA! - uma voz conhecida rugiu.
Sirius surgiu pela lateral, arma erguida, os olhos focados como lâminas. Dois soldados avançaram com ele, formando uma linha improvisada.
- Alice! - ele gritou, sem tirar os olhos do alvo. - Sai daí!
Mais atrás, outra figura apareceu entre a fumaça e a luz intermitente.
Kieran.
O rosto fechado, o rifle apoiado no ombro, disparando com precisão calculada.
- Essas coisas não caem fácil - ele disse, seco. - Miram nas articulações!
Armand me puxou novamente pelo braço bom.
- Anda! - ele rosnou, a voz rouca de dor.
As criaturas reagiram ao ataque, se espalhando, algumas avançando, outras recuando - inteligentes demais para algo que deveria ser só instinto.
Uma delas saltou.
Sirius a derrubou no ar com dois tiros consecutivos.
- Setor Dois - ele falou no comunicador - temos múltiplos alvos hostis. Repito: múltiplos.
O rádio na minha mão chiou novamente.
"- Recebido - respondeu a voz fria. - Extração em andamento. Segurem a posição."
Segurar...
Olhei para as criaturas ainda se movendo.
Para o sangue escorrendo pelo meu braço.
Para Armand, mal se mantendo em pé.
Isso estava longe de acabar.
Mas pela primeira vez desde que tudo começou...
Não estamos sozinhos nessa luta.

