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Diário de uma sobrevivente
Frequência morta.
1339 palavras • 8388 caracteres • ⏱ 5 min 21 s

Frequência morta.

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As criaturas avançaram com uma velocidade impossível, o som dos passos delas não combinando com o peso que sugeria - como se deslizasse pelo chão. Armand segurou meu pulso com força, puxando-me para longe da entrada da sala. 


- CORRE, ALICE! - ele gritou, mas sua voz tremeu. 

O painel atrás de mim já está funcionando, mas não tínhamos tempo para mandar uma mensagem de socorro. 

Uma das criaturas atingiu a porta com um impacto que fez o concreto vibrar. Partículas de poeira caíram do teto. 

Armand disparou três tiros. O som ecoou pela estrutura vazia - e o monstro recuou apenas um passo, como se tivesse sido incomodado, não ferido. 

- Isso não vai segurá-los! - gritei, já correndo pelo corredor estreito. 

A luz da lanterna piscava, lutando para sobreviver, e o rosto de Armand era iluminado apenas em fragmentos - suor, raiva, medo. 

A criatura rugiu.
Não era som de garganta.
Era metálico. 

Como ferro arrastado sobre pedra... porém vivo. 

Os seus olhos brilhavam com mais intensidade conforme ela se aproximava. 

- Esquerda! - Armand ordenou, empurrando-me para uma porta semiaberta. 

Entramos em uma antiga sala de manutenção, cheia de tubulações quebradas e caixas empilhadas. Ele fechou a porta com o corpo, prendendo a respiração, enquanto eu apagava a lanterna. 

Silêncio... 

O tipo de silêncio que dói nos ouvidos.
A criatura parou do outro lado da porta.
Algo arranhou o metal - lentamente.

Eu tampei a boca com a mão para não deixar o medo escapar em som. 

Armand se aproximou e sussurrou, tão baixo que quase não ouvi: 

- Se ela nos encontrar... eu atraio. Você corre. Termine o trabalho. 

Balancei a cabeça freneticamente, negando. Meus olhos ardendo. 

- Não - sussurrei de volta. - A gente sai daqui juntos. 

O arranhão no metal cessou.
Um segundo silêncio - ainda mais terrível.
Até que... 

O rádio no meu cinto chiou alto demais. 

"- ...Alice... está aí ..."

A criatura bateu na porta.

Uma vez.
BAM.
Duas.
BAM.

Armand levantou a arma, se colocando entre mim e a porta. 

E então, o metal começou a se deformar para dentro... como se fosse massa amassada por mãos invisíveis. 

- Merda... - Armand sussurrou - ela nos achou. 

Quando a porta finalmente cedeu, uma sombra colossal preencheu a entrada, os olhos queimando no escuro. 

Eu puxei o ar com força. 

E fiz a única coisa que podia. 

Apertei o botão do rádio - transmitindo, mesmo que fosse minha última ação. 

- Sirius... está aqui.
- A criatura... ela está... 

Aquele monstro avançou um passo para dentro da sala. 

O chão gemeu sob o peso dela. 

Tubulações tremeram nas paredes, e algo líquido escorreu de uma válvula quebrada, pingando no chão com um som alto demais. 

Os olhos da coisa se moveram - não como olhos deveriam - mas como sensores procurando calor, som... vida. 

- Alice... - Armand murmurou sem virar o rosto. - Quando eu disser... 

Não houve tempo.
O rádio respondeu. 


"- Alice, repita. Identificamos uma interferência. O que está aí com você?"


A criatura reagiu instantaneamente.
A cabeça se inclinou num ângulo impossível. 

O som metálico voltou - agora mais agudo, vibrando dentro da sala, fazendo meus dentes doerem. 

Sem hesitar, ela avançou. 

Armand disparou.
Três tiros. 

As balas atingiram o peito da criatura e ricochetearam, faíscas cortando o ar como fogos moribundos. 

Ela respondeu com um golpe.
Armand foi arremessado contra as caixas, o impacto seco roubando o ar dos meus pulmões antes mesmo de roubar o dele. 

- ARMAND!

A criatura virou-se para mim.
Agora não havia dúvida.
Ela escolheu. 

Meu rádio ainda estava aberto.
Sirius ouvindo tudo.
Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei cair. 

A criatura deu um passo.
Eu levantei o rádio até a boca, a voz quebrando, mas firme o suficiente para ser ouvida. 

- Sirius... - engoli em seco. - Ela nos encontrou. 

A criatura abriu a sua boca lentamente, como se preparasse para consumir a presa. 

Ela se moveu.. 

Rápida demais para algo daquele tamanho.
Senti o impacto antes da dor. 

As garras rasgaram meu braço, cortando a pele como lâminas cegas. O calor veio primeiro. Depois, a ardência insuportável. 

Gritei ao cair no chão, o rádio escapando da minha mão e batendo contra o concreto com um estalo seco. 

A criatura abriu sua boca grotesca.
Preparando o golpe final. 

Meus dedos tocaram algo frio.
Um dos canos das tubulações quebradas - pesado, enferrujado, manchado de óleo antigo. 

Agarrei com a mão boa e, quando ela desceu sobre mim, empurrei o corpo para frente com tudo que me restava. 

O cano atravessou a abertura da garganta.
O som que ela emitiu não foi um rugido.
Foi um alarme. 

Agudo. Distorcido. 

A criatura recuou cambaleando, as patas tentando arrancar o metal cravado dentro de si, o corpo se contorcendo em espasmos violentos. 

Armand apareceu ao meu lado, o rosto pálido, os passos instáveis. 

- Levanta... - ele ofegou, puxando-me pelo braço que não estava ferido. - Agora.

A dor explodiu quando fiquei de pé, mas ignorei. 

Precisava ignorar.
Me abaixei para pegar o rádio e corremos. 

Deixamos para trás a criatura se debatendo, o cano ainda preso, o som metálico ecoando pela sala como um aviso. 

Assim que atravessamos o corredor, ouvi outros movimentos. 

As sombras começaram a se mover nas extremidades da luz falha.
Os outros monstros.
Eles tinham sentido. 

- Não para - Armand murmurou. - Não olha pra trás. 

Viramos à direita. Depois à esquerda.
Passagens estreitas, portas arrombadas, o eco dos nossos passos misturado ao deles - rápidos demais, próximos demais. 

Até que o corredor terminou.
Uma parede.
Sem saída. 

Meu coração despencou.
Armand parou ao meu lado, respirando pesado, a arma quase sem munição.
Atrás de nós, o som metálico crescia.
Cercando.
Esperando o momento certo de agir. 

Viramo-nos para encará-las. 

O corredor parecia encolher ao nosso redor. 

Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que elas podiam ouvir. 

Uma das criaturas deu um passo à frente.
Depois outra. 

O som metálico se espalhou, reverberando pelas paredes como um aviso de morte iminente. 

Minha mão tateou o cinto por reflexo. 

O rádio.
Eu o puxei, quase sem acreditar quando a tela piscou. 

"- ...shhh... sinal ativo... - a estática estalou."

Meu peito se encheu de ar. 

- Sirius...? - minha voz saiu fraca, desesperada. 

Houve uma pausa.
Curta demais para ser conforto. 

"- Aqui é o Setor Dois - respondeu uma voz fria, distante, sem emoção alguma. - Identificação desconhecida na frequência. Há alguém na escuta?" 


Engoli em seco.

Antes que eu pudesse responder, um disparo ecoou a nossa frente. 

- CONTATO! - alguém gritou. - À esquerda! 

O corredor explodiu em luz. 

Rajadas cortaram a escuridão, atingindo uma das criaturas no flanco. Ela recuou com um guincho metálico, o corpo faíscando ao ser atingido. 

- AGORA! - uma voz conhecida rugiu.
Sirius surgiu pela lateral, arma erguida, os olhos focados como lâminas. Dois soldados avançaram com ele, formando uma linha improvisada. 

- Alice! - ele gritou, sem tirar os olhos do alvo. - Sai daí! 

Mais atrás, outra figura apareceu entre a fumaça e a luz intermitente. 

Kieran.

O rosto fechado, o rifle apoiado no ombro, disparando com precisão calculada. 

- Essas coisas não caem fácil - ele disse, seco. - Miram nas articulações! 

Armand me puxou novamente pelo braço bom. 

- Anda! - ele rosnou, a voz rouca de dor.

As criaturas reagiram ao ataque, se espalhando, algumas avançando, outras recuando - inteligentes demais para algo que deveria ser só instinto. 

Uma delas saltou.
Sirius a derrubou no ar com dois tiros consecutivos. 

- Setor Dois - ele falou no comunicador - temos múltiplos alvos hostis. Repito: múltiplos.

O rádio na minha mão chiou novamente. 


"- Recebido - respondeu a voz fria. - Extração em andamento. Segurem a posição."

Segurar...

Olhei para as criaturas ainda se movendo.

Para o sangue escorrendo pelo meu braço.

Para Armand, mal se mantendo em pé.
Isso estava longe de acabar. 

Mas pela primeira vez desde que tudo começou... 

Não estamos sozinhos nessa luta.

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