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Diário de uma sobrevivente
A partida.
1649 palavras • 9354 caracteres • ⏱ 6 min 36 s

A partida.

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Creio que tenha sentido minha falta, não é mesmo?


Você deve estar se perguntando o que houve no encontro das facções — mas isso, descobrirá futuramente.


••••


Aquele lugar onde julgávamos estar seguros agora não passava de um pedaço de esperança que se corrompeu em instantes...


Sirius, durante esse tempo, conversava com os soldados sobre voltar para a superfície e pedir reforços.


Lembro-me vagamente de Armand, encostado na parede, limpando sua arma com a camisa — uma tensão estranha no olhar.


Ruam falava com um médico sobre os feridos.


Nyra, Emma e Ivy conversavam num canto sobre o passado, rindo apenas para preencher o tempo.


Jade estava ao lado delas, silenciosa, segurando o livro em suas mãos — o último presente de nossa mãe antes de tudo isso...


Pensar nisso me abala rapidamente, mas, em meio a essa situação, precisamos ser fortes.


Ethan mudou depois da invasão. Passa mais tempo pensando do que interagindo com os outros sobreviventes...


Algumas vezes o silêncio no abrigo era sufocante. Apenas o som das botas ecoando pelo chão quebrava o ar pesado entre os soldados.


Aproximei-me de Sirius, ignorando os olhares desconfiados ao redor.

Ele estava inclinado sobre a mesa improvisada, observando o mapa manchado de sangue e poeira.


— Eu irei até lá — declarei, firme.


Sirius levantou o olhar lentamente, seus olhos duros como pedra.

— Isso está fora de questão, Alice.


Cruzei os braços, sentindo o coração acelerar.

— Então vamos fazer uma aposta.


Uma sobrancelha dele se ergueu.

— Uma aposta?


— Se eu conseguir chegar até a sala de comunicação e chamar reforços, você vai me deixar sair deste abrigo.

Deixei as palavras ecoarem.


— Mas... se eu falhar — respirei fundo — e sobreviver, vou trabalhar na cozinha. E nunca mais insisto em sair daqui.


O silêncio que se seguiu pareceu eterno. Os soldados se entreolharam. Alguém riu nervosamente.


— Jovem tola... — murmurou Dona Luna, quebrando o ar tenso. Ela se aproximou, o olhar severo. — Sirius, você não pode permitir algo tão estúpido.


— Ela tem razão — disse Armand, largando a arma que limpava. — Isso é suicídio.


Sirius não respondeu. Apenas me observava.


Havia algo diferente em seu olhar — não apenas raiva, mas cálculo.

Como se medisse cada risco, cada passo, cada vida que já perdeu e poderia perder de novo.


— Está bem — disse por fim, em voz baixa, mas firme. — Vá.


Senti o ar prender nos pulmões.


— Mas Armand vai com você.


Meus olhos se encontraram com os dele por um instante. Armand suspirou, já entendendo que não havia volta.


E assim, naquele silêncio quebrado apenas pelo som distante da chuva, a aposta estava feita.


E, com ela, o primeiro passo para o inevitável.


A notícia se espalhou rápido.


Alguns soldados apenas observaram em silêncio, outros cochichavam como se já tivessem me dado como morta.


No canto de suprimentos — o cheiro de ferrugem e pólvora misturava-se à umidade.


Peguei o rádio de comunicação, conferindo se ainda havia bateria, e depois uma lanterna que piscava em intervalos irregulares.


Armand apareceu logo em seguida, com o semblante sério e a arma pendurada no ombro.


— Satisfeita agora? — perguntou, sem disfarçar o tom de ironia.


— Ainda não. Só ficarei quando estivermos de volta.


Ele bufou, mas um canto discreto de seu rosto pareceu quase sorrir.

— Você é teimosa demais pra alguém que quer sobreviver.


— É por isso que ainda tô viva — respondi, ajustando o casaco.


O som de passos atrás de nós chamou minha atenção. Era Dona Luna, parada à entrada, com os braços cruzados.


— Jovens tolos… sempre acreditando que coragem é o mesmo que sorte.


— Às vezes, é o bastante — retruquei, tentando soar confiante, embora minhas mãos tremessem levemente.


Ela apenas balançou a cabeça, murmurando algo que não consegui ouvir, e se afastou.


Armand me observou por um instante, avaliando se eu realmente estava pronta.

— Sirius disse pra manter contato a cada trinta minutos. Se o sinal falhar, voltamos. Sem heroísmo.


Assenti.

Mas, no fundo, eu sabia que não haveria volta fácil.


A superfície não era mais o mesmo lugar de antes.


Era onde o ar pesava, e onde qualquer passo em falso poderia ser o último.


Enquanto subíamos as escadas em direção à saída, senti o coração bater em um ritmo que misturava medo e esperança.


Talvez fosse loucura.

Mas era minha chance de provar que ainda existia algo de humano em meio a tudo aquilo.


Ethan nos observou partir, mas não disse nada.


O olhar dele… havia algo quebrado ali.


E, quando a porta de ferro se abriu, o vento frio me atingiu como um lembrete cruel:


lá fora, o mundo ainda sangrava.


O som do portão de ferro se fechando atrás de nós ecoou como um veredito.


Um ruído seco ecoou pelo túnel.

Armand ergueu a lanterna, mas não havia nada.


— Eco — disse ele.


A luz vacilante da lanterna de Armand era a única coisa que cortava a escuridão do túnel.


O ar ali dentro era pesado, úmido, e o chão coberto de lama e fuligem.


Cada passo parecia mais alto do que o anterior, como se o próprio silêncio do lugar nos observasse.


— Isso tá pior do que da última vez... — murmurou Armand, a voz abafada pela máscara.


— Só continua andando — respondi, tentando não demonstrar o medo que me roía por dentro.


O túnel parecia interminável. As paredes rachadas, e o som distante da água pingando criavam um ritmo estranho, quase hipnótico.


Quando a saída finalmente apareceu à frente, uma fresta de luz cinzenta atravessava o escuro, revelando partículas de poeira dançando no ar.


Subimos os últimos degraus com cautela.


O vento frio da superfície nos atingiu, carregando o cheiro metálico da chuva misturado ao da morte.


E então, vimos.


No canto do pátio, os restos da criança — roupas rasgadas, pequenas mãos manchadas de sangue e o olhar vazio voltado para o nada.


O tempo parecia ter parado.

Senti meu corpo travar. O rádio que eu segurava quase escorregou da minha mão.


— Não olha por muito tempo — disse Armand, a voz rouca. — Não dá pra fazer nada por ele agora.


Assenti, engolindo o nó na garganta. Mesmo assim, dei um passo à frente e cobri o corpo com o pano que carregava preso à mochila.


— Que pelo menos descanse... — murmurei.


Armand desviou o olhar, apertando o punho.


Seguimos em silêncio, cada um preso em seus próprios pensamentos.


O caminho até a sala de comunicação ficava no andar de cima. O rádio estalava de vez em quando, chiando como se algo tentasse interferir no sinal.


— Falta pouco — disse Armand, ajustando a arma. — Fica atrás de mim.


— Não precisa me proteger o tempo todo.


— Não é por você, é pelo plano. Se um de nós cair, o outro tem que terminar o trabalho.


Olhei pra ele, e por um instante, enxerguei algo diferente — medo. Mas não por si mesmo.


Medo de me perder ali.


Quando finalmente avistamos a sala adentramos.


O teto já havia desabado. A antena de comunicação estava torta, e o painel interno piscava em vermelho.


Era ali.


O coração da nossa esperança. Ou o túmulo da nossa teimosia.


O rádio chiou mais uma vez, um estalo seco que fez a pele da minha nuca arrepiar.


Armand avançou primeiro, iluminando o que restou da sala de comunicação.


Armand xingou baixinho.


— Merda…


A antena caída não era o pior.


O pior eram as marcas — arranhões profundos nas paredes, como se algo tivesse sido arrastado à força. Cabos destruídos, sangue seco espalhado em linhas que lembravam dedos.


Ou garras.


— Isso não foi queda de teto — disse Armand, a voz apertada.


A lanterna dele tremia levemente enquanto atravessava o cômodo.


Me aproximei do painel.

As luzes piscavam em vermelho, mas um único botão seguia aceso — fraco, intermitente, quase morrendo.


Reinicializar o sistema.


Era nossa única chance.


— Vou tentar — murmurei, me abaixando ao lado dos fios queimados.


— Alice — Armand chamou meu nome num tom que nunca tinha ouvido antes. Um aviso. Ou medo.


— Cinco minutos — respondi, sem tirar os olhos do painel. — Se isso aqui ainda tiver vida… eu consigo.


E enquanto eu tentava religar a caixa, o rádio preso ao meu cinto fez um ruído seco, como se alguém arranhasse o sinal.


— ...lice...

... escu… — a voz falhou.


Armand se virou na hora, apontando a arma para a porta destruída.


— Quem tá chamando? — perguntei, apertando o rádio. — Sirius? Repetir, Sirius, rep—


Um som metálico ecoou pelo corredor.

Baixo. Arrastado.

Como unhas passando lentamente pelo chão.


Armand ergueu a mão, mandando silêncio.


O barulho cessou.


A luz da lanterna piscou… duas vezes… e apagou.


Meu coração parou por um segundo.


— Armand…?


A escuridão engoliu tudo — até o ar parecia mais pesado.


Um clique suave.

A lanterna reacendeu.


E foi aí que vimos.


No fundo do corredor, entre sombras e poeira, duas luzes pequenas — como olhos refletindo o brilho fraco da lanterna.


Não eram humanos.


Eram altos demais.


O rádio chiou novamente, agora mais claro, como se algo forçasse o sinal:


— ...não… voltem…

...não estão... sós.


Os "olhos" piscaram.


Uma.


Duas vezes.


Depois se moveram — rápido, muito rápido — como se o mundo ao redor tivesse perdido o som.


Armand deu dois passos para trás, puxando meu casaco.


— Alice. Agora.


Antes que eu pudesse responder, um terceiro olho se abriu na escuridão — maior, avermelhado, brilhando como brasa viva.


O painel atrás de mim reiniciou com um estalo, acendendo todas as luzes ao mesmo tempo.


E naquele milésimo de segundo iluminado…


A coisa inteira saiu das sombras.


Eu só tive tempo de puxar o ar para dentro dos pulmões antes que Armand me empurrasse contra a parede.


— CORRE!

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