O som das sirenes se misturava ao estrondo de passos apressados. As paredes tremiam, e o ar parecia vibrar com uma presença viva — algo grande, pesado... faminto.
Eu sabia o que estava vindo...
A lembrança desse dia em específico fazia meu sangue gelar.
Kieran se moveu rápido, abrindo uma das portas laterais.
— Rápido! Pelo corredor!
Corremos, as botas batendo forte no chão de concreto. A luz piscava, o ar cheirava a ferrugem e pólvora. Atrás de nós, o som de algo rasgando metal ecoou — como garras arranhando o mundo.
Ethan puxou meu braço, me empurrando contra a parede quando um cano despencou do teto.
— Eu tô bem! — retruquei, o coração martelando no peito.
Kieran ergueu o punho, sinalizando silêncio. Só então ouvimos: o arrastar lento, irregular... como se algo respirasse dentro da fábrica.
Um grunhido grave percorreu o ar. As lâmpadas se apagaram.
A escuridão engoliu tudo, apenas pequenos fretes de luz passavam pelas janelas tampadas pela madeira.
Um brilho azul cortou a penumbra — era Erica, acendendo o painel improvisado do detector de movimento.
— Está se movendo rápido... demais — murmurou. — Não é um só.
Mateo empalideceu.
— Quantos?
Antes que ela respondesse, algo atravessou a parede de metal, projetando faíscas. Uma criatura surgiu: corpo alongado, pele manchada de preto e vermelho, olhos sem pupilas. As mandíbulas se abriram em um estalo.
Kieran atirou — o som ecoou alto, mas o monstro só recuou um passo.
— Corram! — gritou ele. — Protejam os novatos!
Fomos empurrados de volta ao salão principal. Gritos e tiros se misturavam. O chão rachava sob as garras da criatura.
Ethan tentou abrir uma saída lateral, mas a tranca não cedia.
— Merda!
— Deixa comigo! — Mateo gritou, usando uma barra de ferro para arrebentar o cadeado.
Quando a porta abriu, a luz do dia entrou... junto com o som de outras sirenes.
Sirius vinha do pátio, pistola em punho. Atrás dele, Armand.
— O perímetro foi comprometido! — Sirius rugiu. — Armand, leve o grupo dois para os túneis!
Armand olhou para mim e Ethan, o sorriso dele voltando — frio, quase satisfeito.
— É, parece que o treino acabou cedo demais.
Antes que Sirius respondesse, outra criatura caiu do teto. O caos se espalhou como fogo em tempo seco.
Uma das crianças do abrigo ainda estava naquele pátio Sirius em um movimento rápido tentou a proteje, mas já era tarde...
A criatura, atraída pelo choro da criança, a lançou contra parede — e, num solta, a demorou diante de nós.
Ainda lembro de seu olhar de desespero antes do seu último suspiro.
Sirius recuou, sabendo que não podia fazer mas nada fez apenas um sinal de cabeça para Armand para que levasse o grupo.
Assim que saímos soldados entraram com suas armas de fogo para matar a criatura.
O túnel era úmido, o ar denso, quase sólido. Cada passo ecoava longe demais — e quanto mais descíamos, mais o cheiro de mofo e ferrugem se misturava ao sangue.
Ainda podia ouvir os gritos... mesmo sabendo que não eram reais.
Armand seguia à frente, a lanterna tremendo em sua mão. O feixe de luz cortava o breu e revelava apenas pedaços de concreto quebrado e marcas frescas nas paredes — arranhões profundos, como se algo tivesse passado por ali há pouco.
Apertei o passo, engolindo o medo que insistia em subir pela garganta.
— Armand... — minha voz saiu rouca, quase num sussurro. — As meninas... Nyra, Jade, Ivy, Emma... elas estão bem?
Ele virou o rosto por um segundo, o reflexo da luz revelando a expressão cansada, mas firme.
— Estão. Foram as primeiras a serem evacuadas. Estão com o grupo que restou.
Senti o ar escapar dos meus pulmões, mas o alívio durou pouco.
Ethan, que vinha logo atrás de mim, limpou o rosto sujo de fuligem e perguntou, tenso:
— E o Ruam? Ele...
Antes que pudesse terminar, o som veio — baixo, arrastado, ecoando pelas paredes.
Um raspar de garras, como metal contra pedra.
Armand ergueu o punho, pedindo silêncio. Ninguém se moveu.
O detector de movimento na mochila de Erica começou a apitar, um som fino, agudo.
— Não pode ser... — ela murmurou, abrindo o painel com as mãos trêmulas. — Ele mostra múltiplos sinais... atrás e...
O frio que percorreu minha espinha foi quase paralisante.
Ethan sussurrou, os olhos fixos no fim do corredor:
— Eles entraram pelos túneis.
A luz piscou.
Uma.
Duas vezes.
E se apagou completamente.
No escuro, só restou o som das respirações presas e... o estalar úmido de algo se movendo na água suja.
— Todos, corram! — Armand gritou, a lanterna tremendo na mão enquanto apontava para o fim do túnel.
Corremos sem olhar para trás. O ar parecia mais denso, e cada batida do coração ecoava alto demais nos ouvidos.
O som... aquele maldito som pesado, irregular, vinha logo atrás. Como se algo grande rastejasse, sentindo o cheiro do nosso medo.
Ao chegarmos ao final, encontramos uma porta de metal enferrujada.
Armand se jogou contra ela, gritando de esforço até as veias saltarem no pescoço.
— Vamos, vamos!
A trava cedeu com um estalo. Entramos todos, um a um, e ele bateu a porta, girando a roda de ferro até travar.
O som dos ferrolhos foi quase reconfortante.
Do outro lado, soldados apontavam as armas, prontos para atirar, mas quando viram nossos rostos, baixaram as armas.
O cheiro de sangue e óleo queimado dominava o lugar. Alguns sobreviventes se amontoavam nos cantos suplicando a deus por suas vidas, alguns chorando baixo. Outros estavam feridos.
Ruam se ajoelhava ao lado de um soldado, o braço coberto de sangue, tentando estancar o ferimento de uma perna mutilada.
Meus olhos percorreram o abrigo até encontrá-las.
Nyra foi a primeira a me ver. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela correu e me abraçou, o corpo tremendo.
— Achei que... que vocês não iam voltar... — ela murmurou entre soluços.
Emma e Ivy vieram logo em seguida me abraçar.
Jade, do jeito dela, se aproximou – fingindo indiferença, mas o olhar denunciava o alívio por me vê viva.
Respondi abraçando-as de volta, mas o alívio durou pouco.
Um som pesado atingiu a porta de ferro.
Todos se viraram.
Outra batida. Mais forte.
O metal gemeu, rangendo como se fosse se partir.
E então... o som mudou.
Choros.
Baixos, finos, infantis.
— mamãe...
Uma voz de criança do outro lado, chorando... pedindo ajuda.
Erica levou a mão à boca.
— N-não pode ser... — sussurrou.
Armand deu um passo à frente, a arma apontada para a porta.
O choro cessou.
O silêncio durou poucos segundos antes que o estrondo seguinte fizesse o chão tremer.
Logo depois, tiros.
Gritos.
E um rugido de dor que fez todos se encolherem.
O detector de Erica apitou, depois silenciou.
Armand trocou um olhar rápido comigo e girou o ferrolho.
Quando a porta se abriu, a luz forte de fora revelou Sirius e dois soldados cobertos de sangue, o corpo de uma criatura caída aos pés deles.
— Está morto — Sirius disse, a voz rouca.
Ele limpou a arma, o olhar duro.
— Vamos montar base aqui. O resto do perímetro está comprometido. Ninguém sai até amanhecer.
O silêncio que seguiu foi pesado... quase sufocante.
O que era uma fortaleza agora não passa de ruínas.
••••
Um tempo depois nos juntamos e acendemos velas — não para espantar a escuridão.
Naquela noite era como um ritual de passagem para aqueles que partiram.
— Hoje... perdemos irmãos, irmãs, filhos, amigos... pais. — Ele fez uma breve pausa, buscando as palavras certas. — Todos partiram, deixando saudades. Suas memórias ficaram com a gente...
Por mais que o caminho seja difícil, nunca esqueceremos quem foram.
Aquele homem que dizia o discurso se aproximou de um altar improvisado e deixou sua vela.
— Que essa vela seja o seu caminho... para te guia pelas estradas da morte.
Confesso que, depois de tudo, quase ninguém teve forças para alimentar perguntas. Nem pensar em interrogatórios — não naquela noite.
E assim todos os que sobraram deixaram uma vela em memória de alguém querido.
E aquele dia terminou com um gosto amargo e vazio.
••••
O rádio chiou, distorcendo a voz do homem que tentava se comunicar com seu comandante.
"— Senhor... encontramos um dos oficiais que estava atrás dele."
— Ele está morto? — a voz rouca ecoou pelo rádio.
"— S-sim, senhor..."
Um breve silêncio.
— E quanto a Draven Black?
"— Não consegui encontrar.. nenhum sinal dele..."
O homem do outro lado bateu o rádio na mesa, o som seco cortando o ar.
— Encontrem-no. Draven Black é uma ameaça.
"— Sim, senhor!"
O chiado voltou, engolindo a comunicação até restar só estática.
Mas por um instante... alguém respondeu — uma voz quase inaudível
"— Tarde demais."

